Naquela tarde de março, o tempo na cidadezinha de Vila do Sossego bocejava. O sol, com aquela preguiça típica das três da tarde, deitava-se sobre o paralelepípedo morno, enquanto as três guardiãs do destino alheio ocupavam o centro do universo: a calçada de casa. Eram a dona Naná, a senhora Zuleide e a silenciosa Mariquinha.
O trabalho ali era sagrado. Munidas de tesouras que brilhavam como foices domésticas, as pacatas senhoras operavam o milagre da multiplicação dos novelos. Restos de camisetas de propaganda política, pijamas puídos e vestidos de verões esquecidos eram agora retalhos de malha transformados em tiras precisas. O som era rítmico: shiiic, shiiic, shiiic... Cada tira enrolada virava uma bolota de cores caóticas que, em breve, se tornaria um tapete fofinho ou uma daquelas colchas pesadas que têm o poder místico de curar qualquer resfriado.
Dona Naná, a líder do triunvirato, cortava uma malha azul-piscina enquanto comentava sobre a vida da sobrinha do farmacêutico. Dona Zuleide, com os óculos na ponta do nariz, era o contraponto crítico. Mariquinha apenas enrolava os fios, os dedos ágeis criando mundos circulares. A rua era delas. O silêncio só era interrompido pelo estalar das tesouras e pelo ocasional latido de um vira-lata que também parecia filosofar sobre a existência.
Foi quando, na esquina da padaria, surgiu o homem desconhecido. Ele chegava caminhando e vinha apoiado em uma bengala de madeira escura, polida pelo uso e pelo afeto. Cada passo era uma negociação diplomática com a gravidade. Avançava com uma lentidão amorosa, como se cada centímetro de chão merecesse ser cumprimentado individualmente. O rosto era um mapa de rugas suaves, e os olhos guardavam aquela doçura de quem já viu a vida amorosa muitas vezes.
As três tesouras pararam no ar. O shiiic cessou. O mundo congelou para que ele passasse.
O senhor parou diante do trio de artesãs. Olhou para os retalhos coloridos, para os novelos e, por fim, para o rosto atento de dona Naná. O silêncio na rua ficou tão denso que era possível ouvir o pensamento das formigas. Ele respirou fundo, ajeitou a boina e, com uma voz de veludo antigo, lançou a pergunta que parecia carregar o peso de uma busca secular:
– As senhoras conhecem o José Sebastião?
As mulheres se entreolharam. O cérebro de dona Naná funcionou como um arquivo de repartição pública. José Sebastião? Tinha o Zé do Bar, o Sebastião da Horta, o filho da finada Dores... mas José Sebastião, assim, com nome de santo dobrado? Vasculharam a memória coletiva da vizinhança, os batizados de trinta anos atrás, os obituários do jornal local. Nada.
Dona Naná, com a honestidade de quem não quer negar informações, respondeu com um suspiro de lamento:
– Não, meu senhor. A gente não conhece nenhum José Sebastião.
O homem não pareceu triste. Pelo contrário. Arregalou levemente os olhos, como se tivesse acabado de descobrir uma lei da física. Olhou bem para o rosto de Naná, deu um sorrisinho de canto de boca e, com uma simplicidade desconcertante, exclamou:
– Ora! Nem eu!
As mulheres paralisaram. O homem deu as costas com uma agilidade renovada pela própria revelação. Começou a retomar seu caminho, passo a passo, bengala após bengala. Mas agora o silêncio fora substituído por um mantra. Ele seguia rua abaixo, a voz ecoando suave, mas firme, entre as casas de muros baixos:
– Nem eu... nem eu... nem eu... nem eu...
Dona Naná ficou com a tesoura aberta, a malha azul pendurada como uma língua de pano. Dona Zuleide ajeitou os óculos, incrédula. Mariquinha, pela primeira vez, perdeu o ponto do novelo. O homem ia sumindo na curva, levando consigo a existência do tal José Sebastião, deixando as três senhoras mergulhadas no mais puro absurdo.
A tarde voltou ao normal, mas com um detalhe a mais. O mistério não consistia em quem era o homem ou na identidade do tal José, mas na libertação de não se conhecer ninguém. As tesouras voltaram a cantar, e o ritmo era outro. Agora, a cada corte, parecia que as lâminas também queriam dizer alguma coisa.
Naquela rua, naquela tarde, descobriu-se que a melhor resposta para um desconhecido é a nossa própria ignorância compartilhada. E até hoje dizem que se você prestar atenção ao vento que sopra nos retalhos das colchas da Vila do Sossego, ainda se ouve um eco distante, bem humorado e persistente: “Nem eu... nem eu... nem eu...”.