ARTE SACRA: João Bosco e o melhor da tradição portuguesa em ourivesaria


Religião

José Venâncio de Resende0

João Bosco, ourives, também conhecido como "prateiro".

As peças artesanais do são-joanense João Bosco de Almeida Chaves, da Arte Sacra São Francisco de Assis, representam o que há de melhor da tradição portuguesa em ourivesaria. Técnicas tradicionais de cinzelamento, repuxo e fundição são utilizadas não apenas na confecção como também no restauro de peças já utilizadas.

Há mais de 50 anos, João Bosco começou na profissão, que pratica sempre em São João del-Rei, com apenas dois anos de interrupção fabricando lustres no Mato Grosso. “Eu ia fazer 15 anos quando comecei numa prataria com o português Valdemar Eugênio Gonçalves, que veio para São João del-Rei, pelas mãos do dono da antiga Companhia Industrial Fluminense, que tinha aqui uma siderúrgica.” Na sociedade da prataria então criada, havia ainda três outros portugueses.

Quer dizer, João Bosco começou a trabalhar com profissionais de alto nível. “Eles eram muito profissionais, verdadeiros artistas. Eles fabricavam só peças em prata, como aparelho de chá, faqueiro, etc. e pouco coisa de arte religiosa, como coroa (de santo) que faziam de vez em quando.”

Entre 1982 e 1983, João Bosco aderiu de vez à arte sacra. “Nessa altura, eu já tinha passado por outra empresa. Eu trabalhei numa que basicamente fabricava porta-retratos em fundo de quintal. Depois eu continuei fazendo porta retratos e comecei a fazer, por conta própria, uma coroa para imagem ou outra peça para igreja. O Carlos Magno Araújo foi um dos meus primeiros fregueses.”

Então, disparou a propaganda do boca-a-boca além-fronteiras municipais. “O pessoal foi conhecendo o meu trabalho e eu comecei a fazer coroas, resplendores (espécie de adorno colocado ao redor da cabeça do santo), ostensórios etc. – era estanho com banho de prata ou de ouro que eu mandava banhar em Belo Horizonte.”

E o número de peças foi aumentando: lâmpada do santíssimo, cálice/âmbula (par), patena, relicário, castiçal, candelabro, cruz, crucifixo (de parede e peitoral), lampadário, turíbulo, trono, naveta, aplique de altar, lavabo, aspersor (água benta), sacrário, anel de bispo, lírio etc. “Hoje, nós já fabricamos quase tudo de arte sacra”, resume João Bosco.

Dezenas de modelos

No site da empresa São Francisco de Assis, existem 147 modelos de peças sacras indicados para encomenda via internet, mas este número deve ser maior de acordo com João Bosco. Apenas do resplendor, há mais de vinte modelos; de coroa, são cerca de dez; cálice, entre 10 e 15; ostensório, de quatro a cinco modelos. “É difícil estimar esse número, porque tem muitas peças que eu não faço, mas que outros fazem.”

Tudo feito manualmente, em estanho, latão (metal amarelo) e prata de lei, explica João Bosco. “O castiçal de estanho, por exemplo, é mais fácil de fabricar do que o de metal, porque o metal é outro tipo de fundição que eu não faço aqui. Já o latão que nós usamos é o utilizado para fazer o copo dos cálices e os turíbulos.” Já a prata é utilizada raramente, apenas quando há alguma encomenda de peça inteiramente em prata ou algum restauro.

Quaisquer peças e seus modelos recebem banho de níquel ou de ouro ou de prata e até cobre, conta João Bosco. “Nós também fazemos a peça mista (latão com estanho), depois banhamos e fica tudo igual.”

Restauro

Há bastante pedidos do Brasil inteiro, via internet, para os diferentes modelos de peças. A maioria é formada por padres, já que João Bosto trabalha com poucos lojistas. “Eu não gosto muito de trabalhar com lojistas porque eu não tenho uma produção para acompanhar a demanda. Eu trabalho com três lojistas no máximo (de fora de São João del-Rei).” Há sempre alguma coisa para pronta entrega, também vendida pela internet.

Também há grande demanda por restauro – “sempre há um padre de algum lugar do Brasil que quer fazer um restauro”. Nesse caso, eles precisam “trazer ou enviar, para que nós olhemos as peças e marquemos uma data para a entrega. Costuma levar até um ano porque é por ordem de chegada. Nós criamos uma sequência: quem chega, vai entrando na fila”.

João Bosco costuma receber visitas na empresa. “Às vezes, aparece algum padre aqui que já é nosso cliente há mais de 20 anos, mas também vem padre que nunca esteve aqui. Funciona a propaganda do boca-a-boca.” 

Veja aqui a reportagem anterior 

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário