As costureiras da obra Tabernáculo e a herança portuguesa


Cultura

José Venâncio de Resende0

A partir da esquerda, Maria José, Solange, Alda e Isabel.

Há mais de meio século, exatos 56 anos, a costureira Alda Silva começou a trabalhar como voluntária na Obra do Tabernáculo, que funcionava numa ala lateral da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, dividindo espaço com a Irmandade das Almas. Era presidente do Tabernáculo na época dona Margarida Dangelo. Atualmente, a Obra funciona num espaço da Paróquia do Pilar sob a presidência (por antiguidade) da própria dona Alda, que tem como colaboradoras mais antigas Isabel da Silva Valim e Maria José Valim.

As costureiras do Tabernáculo, na sua simplicidade, são muito importantes para preservar a tradição da arte sacra são-joanense. “Elas são, de certa forma, o último vínculo que temos com o padrão estético português no tratamento de vestimentas em São João del-Rei”, diz o restaurador Carlos Magno Araújo. Ele acompanha o trabalho delas desde a época de Margarida Dangelo, “porque eu convivi inclusive com ela”. Então, há anos que ele sabe “do cuidado que elas têm, da preocupação delas em manter as roupas exatamente como eram”.

O espaço onde elas trabalham é simples, nos fundos da sede da Paróquia do Pilar. O local acomoda mesas de trabalho, antigas máquinas de costura de pedal e armários para guardar as peças da igreja. “Não é só a gente que acostuma com a máquina de costura; ela também acostuma com a gente, às vezes fica de mau humor quando muda de costureira”, comentou bem-humorada dona Alda.

Nas últimas décadas, elas já confeccionaram de tudo em termos de roupas para as imagens de Nossa Senhora das Dores e do Senhor dos Passos, bem como para imagens de santos, e peças usadas no interior das igrejas históricas e nas solenidades religiosas. A maior parte sob encomenda das irmandades do Santíssimo, do Carmo, do Rosário e das Mercês. 

Feitas de veludo, linho e, mais recentemente, de tecidos oxford e oxfordine, em geral estas peças têm grande durabilidade. A atual vestimenta de Nossa Senhora das Dores, por exemplo, tem mais de 10 anos de uso e a do Senhor dos Passos é ainda mais antiga.

As costureiras Alda, Isabel e Maria José contabilizaram quase 30 tipos de peças que já passaram pelas suas mãos, entre a produção de vestes novas e as reformas de roupas, cortinas e outras peças.

No conjunto para missa, elas listaram a feitura de corporal, sanguíneos de padre (grande) e de ministro (pequeno), manustérgio (toalha de linho para o celebrante enxugar os dedos), véu de cálice, pala, bolsa (para corporal).

Da vestimenta de padre, são exemplos o amito, a alva, cíngulo litúrgico (paramento curto em forma de cordão ou faixa), paramentos usados nas celebrações (gótico e romano) e sobrepeliz (veste de linho em geral branca, com ou sem renda, usada em serviços litúrgicos).  

As vestes de imagens são peças como anágua, camisa e túnica de Nossa Senhora e das santas (manga comprida), camisa, calça e túnica (santos), manto (de Nossa Senhora e de santos e santas) e véu de Nossa Senhora.

No interior das igrejas, as costureiras já confeccionaram cortinas, alfaias (toalhas de altar), cornopeo (para sacrário), a umbela (para cobrir o Santíssimo no traslado), as toalhas e cobertas (pano brocado) de altar e a cobertura de cruzes na Quaresma e Semana Santa. Nas procissões, o pálio (para cobrir o Santíssimo na procissão).

Cada irmandade é identificada nas solenidades religiosas pelos seus hábitos, opas e murças, que já foram produzidas pelas costureiras do Tabernáculo. Há ainda casos avulsos em que as peças são encomendadas pelos próprios usuários, como é o caso da túnica e da cota dos coroinhas.

 

Herança portuguesa

As costureiras do Tabernáculo costumam, por exemplo, desmontar, com muito cuidado, paramentos antigos, cujo tecido está completamente apodrecido, e aproveitar os bordados originais e os fios metálicos que não existem mais, relata Carlos Magno. Reaproveitamento feito, na medida do possível, em novos paramentos exatamente como era nos antigos. “Então, de certa forma, elas preservam o estilo das alfaias antigas”; e “são cuidadosas em manter a estética das roupas dos santos”.

Estas senhoras costumam aproveitar material praticamente inexistente no Brasil, testemunha o restaurador são-joanense. E quando já não é possível aproveitar, por exemplo, os galões (fitas decorativas ou ornamentais usadas em roupas religiosas como casulas e estolas), elas conseguem criar algo parecido. “Com isso, de certa forma, elas preservam a tradição portuguesa das vestimentas: por exemplo, o gosto português do século XIX.”

Paramentos de padre, vestimentas de santos e outras peças costumavam vir da Europa, enfatiza Carlos Magno. “Pessoas de posse que faziam promessa e mandavam trazer o veludo de melhor qualidade da Itália para fazer a roupa do Senhor dos Passos. Ou que encomendavam na Espanha os galões feitos com fios de ouro etc. Então, elas preservam, de certa forma, a manutenção desse estilo.” Assim, a obra dessas senhoras, trabalhando no Tabernáculo, “preserva, às vezes inconscientemente, a beleza plástica dessas vestimentas, tanto para padre quanto para imagens, mantendo o estilo que elas sempre viram. Tanto isso é interessante que transformou São João numa espécie de vitrine de bom gosto no cuidado com as imagens”.

Com o advento da internet e das redes sociais, houve uma modificação muito grande nesse vestir os santos, lamenta Carlos Magno. Começou-se a importar “um gosto mais espanholado, que foge da nossa tradição portuguesa”. Então, tende-se a vestir os santos com roupas no estilo espanhol ou no estilo peruano, andino”. Daí a importância da resistência dessas costureiras “em manter o estilo tradicional que era usado aqui desde fins do século XVIII, passando pelo século XIX inteiro até o momento atual. Se não fossem elas, todas as nossas imagens já estariam transformadas em padrão espanholado”.

Alguns artistas de São João del-Rei, que fizeram curso de escultura na Espanha, voltaram com esse padrão espanhol de vestimenta de santo, acrescenta Carlos Magno. “Os resplendores das imagens, por exemplo, foram modificados e começaram a ter muito raio, que é típico da imaginária espanhola.”

Para além do “gosto espanhol”, as pessoas passaram a importar, principalmente da China, novos padrões de bordados, a preços imbatíveis, “que são aplicados sobre a peça com ferro quente; e eles são feios, com um dourado assim muito carregado”. Por isso, Carlos Magno alerta que é preciso tomar muito cuidado com as substituições. “Com o incremento da possibilidade de se comprar tudo via internet, só chega produto chinês, que imita de forma grotesca aqueles bordados antigos.”

Veja aqui a reportagem anterior

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