O desfile da escola de samba Irmãos Metralhas em São João del-Rei


Cultura

José Venâncio de Resende0

Luiz Gonzaga na avenida (foto captura da transmissão da Rádio São João del-Rei).

A escola de samba Irmãos Metralhas invadiu a região Nordeste do Brasil ou o Nordeste inteiro invadiu a avenida do samba em São João del-Rei? Ambas as coisas estão certas e se concretizaram na noite deste sábado (14) na Avenida Tancredo Neves. Acompanhei a apresentação da escola pela transmissão no Facebook da Rádio São João del-Rei, com os radialistas Fábio da Silva e Tovar Luiz.

Com o enredo "Se avexe não! O Nordeste é bravura, é cabra da peste!", a Irmãos Metralha contou a história e exaltou a cultura da região. Foi um desfile perfeito, não apenas pela qualidade do enredo como também pela alta performance na avenida. A escola representa os Largos do Carmo e da Cruz e comunidades adjacentes.

Veja aqui um vídeo do desfile da Irmãos Metralha

A comissão de frente, “A Coragem do Cabra da Peste”, estava caracterizada ao estilo Lampião (chapéu, a peixeira, as botas) e Maria Bonita.

Logo atrás, o carro abre alas representava o pau de arara, transporte associado à migração nordestina. Transportava os retirantes que iam de um estado para outro em busca de uma vida melhor. Homens e mulheres que deixaram sua terra não por livre escolha, mas por necessidade, principalmente rumo a São Paulo.

Não por mera coincidência, logo atrás da comissão de frente e do carro abre-alas, estavam as baianas. Não é muito comum as baianas desfilarem como primeira ala de uma escola de samba. Com cores fortes, em tons dourado e laranja, representavam o sol que incide sobre o sertão, ao girar suas saias, evocando o calor intenso e a luminosidade. Movimento que traduz a dinâmica da vida, a resistência ao sol escaldante, transformando a adversidade em continuidade.

O primeiro carro alegórico e a ala “Sol e Sertão: vida e morte no Nordeste”, apresentaram o sol como destaque central na paisagem nordestina. Uma imponente caveira de bovino simbolizava a dualidade entre a vida e a morte. O gado que acaba morrendo de sede no sertão nordestino. Em contraposição ao calor intenso e à dureza do clima, a luz que guia, ilumina e fortalece. O destaque ficou por conta de Lilian Zini como o sol. Em seguida, veio o verde da vida, representado pelo mandacaru.

Na ala “Lendas e mitos do sertão nordestino”, o imaginário popular nordestino ganhou forma na avenida, exaltando as narrativas fantásticas que atravessam gerações e permanecem vivas na tradição oral do sertão. São histórias transmitidas pela fala do povo, carregadas de mistério, ensinamentos e simbologias que integram a memória coletiva da região.

Outra ala foi dedicada à “Literatura de Cordel”, uma das mais autênticas expressões da cultura nordestina. Fantasias com estampas que remetiam à xilogravura, com traços e estéticas inspiradas nos folhetos tradicionais vendidos em feiras e praças do interior nordestino. Nos adereços de mão, cordéis abertos, simbolizando as rimas populares que narram histórias de amor, bravura, fé e cotidiano.

O carro alegórico do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que fez o serviço militar no então antigo 11 RI de São João del-Rei, reafirmou a musicalidade como elemento fundamental da cultura nordestina. Nas laterais do carro, as cangaceiras, Júlia e Fernanda. Tonho, o rei Momo, foi destaque com a saudação ao cordel, a Luiz Gonzaga, ao mestre Vitalino.

Esta alegoria celebrou a potência criativa do Nordeste, reunindo o artesanato, a literatura de cordel e grandes nomes da cultura nordestina. Evidenciou a força da palavra, da arte moldada à mão e da música que ecoa como identidade regional. Bordados à mão, rendas e páginas de cordel dialogavam com esculturas de barro inspiradas na obra do mestre Vitalino, símbolo da arte popular pernambucana.

Destaque ainda para a bateria “nota 10”, tradicional no carnaval são-joanense, que recebeu o nome de “O Batuque do Cangaço. Vestiu-se como cangaceiro do sertão com gibões e chapéus adornados, trazendo para a avenida a força, coragem e a alegria nordestinas.

A ala “O Som do Nordeste” prestou homenagem à música nordestina, celebrando os mestres responsáveis por consolidar a identidade sonora do sertão por meio do baião, do xote e do forró, em especial Luiz Gonzaga e Dominguinhos da Sanfona. Musicalidade como elemento estruturante da cultura nordestina, capaz de traduzir sentimentos de saudade, celebração e resistência.

Outra ala representou “as águas no sertão, do sertão ao mar”, com destaque para o rio São Francisco.

Já a ala “Arraiá do Sertão” mostrou as festas nordestinas, tão importantes para o povo, representando a dança da quadrilha e as festas de São Pedro, São João e Santo Antônio.

A última alegoria foi a do “Galo da madrugada”, tradicional bloco gigantesco com mais de um milhão de pessoas. As meninas na lateral do carro representavam o frevo, inclusive com a sombrinha tradicional, dança típica do Nordeste.

Veja aqui o desfile anterior

 

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