ZÉ BARBEIRO

Ao professor e amigo Antônio Luiz Assunção, em memória


Homenagem Especial

Mário Márcio de Quadros, Coquinho0

Há anos, e a concerto dos pais, Zé Barbeiro andava de casa em casa, tosando o cabelo da criançada. Debaixo de sol forte, chuva embestada, sábado, domingo e feriado, Zé marchava batido com sua Harley Davidson, de ponta a ponta da cidade. Herdou a magrela do avô João Grosso, afamado e graduado cirurgião-barbeiro do Batalhão Tiradentes, de São João del-Rei.

Orgulhava-se de ter herdado do avô também os predicados de benzedor, contador de causos e raizeiro. Mas, ao contrário do velho João Grosso, Zé Barbeiro era tenor, falava pelas ventas e suspirava desafinado. Supersticioso, jamais saiu de casa sem tomar um gole d’água benta ou de fazer sua oração a São Martinho de Lima. Só depois de se benzer e se encher de terços e patuás, Zé se aprontava para a labutação do diário.

No bagageiro da bicicleta carregava um caixote de madeira e toda traquinagem da barbearia. De um lado: máquina de corte manual, caixinha de lâminas, navalhete, pente e tesoura. Do outro: escova, espanador, toalha, avental e capa para o corte.

De tanto andar no uso, o caixote e seus apetrechos guardavam os ponteiros do tempo no sebo das mãos.

Aliás, eram tempos de chumbo, de Seleção Canarinho e Copa do Mundo.

A criançada, naquele 21 de junho de 1970, andava ansiosa à espera do final da Copa do México. Era o “pra frente Brasil” do Garrastazu Médici e o “salve a seleção” do Pelé, Jairzinho e Tostão contra a Itália. Covardia por demais da conta, sô! A Itália tomou uma enfiada de 4 a 1 da Seleção Brasileira. Aliás, para seu governo, o Brasil foi o primeiro tricampeão do mundo.

E onde entra o Zé Barbeiro nessa história toda!?

Ah! Zé Barbeiro entra nessa história quando, a concerto dos pais, ele dobra a esquina da rua, na horinha do jogo.

Foi uma correria dos diabos. A criançada saiu desfechada feito Maria Fumaça fora dos trilhos. Foi um tal de “pega!” daqui e dali, de um lado e outro da rua, mas que se perdeu no poeirão e calor da hora. A molecada correu sem olhar para trás. Desaforo! Vê se pode um trem desses!? Tosar o cabelo dos menino, justo no dia e horinha do jogo! No corre-corre do improvisado, o Tarcísio da Nina agarrou o Tiãozinho pelos cabelos e deixou ele aos cuidados da tesoura do Zé.

E o Tonho?!

Ah! O Tonho virou traque de São João. O diabrete só foi encontrado tarde da noite, para os lados do Catumbi, nas beirinhas do muro do campo santo. Roncando, feito gatinho desmamado, abatido da cria. Perdeu jogo, taça, hino, medalha, pronunciamento em rede nacional e festejo do tricampeonato. E pior, na base do sem jeito mandou lembrança, entrou no couro ali mesmo, no escurão da noite, rodeado de estrelas.

Afinal, eram tempos de chumbo. E o castigo exemplar fazia parte da educação e do regime familiar.

Zé Barbeiro, moleque travesso que foi, sabia muito bem disso. Daí, ficou ali plantado no cantinho do passeio, feito pé de milho, à espera da "freguesia".

Afinal, trato era trato. Então, por obra e graça da severidade do regime, ele sabia que a molecada, mais cedo ou mais tarde, iria se apresentar ao sacrifício do coco rapado. Nos conformes do acerto, Zé passou máquina zero nos menino tudo. E rapou no capricho o pezinho das orelhas. A tal ponto de o "Príncipe Danilo" virar Topo Gigio no "limoeiro" do Simonal.

E assim, com o sentimento do dever cumprido, tardão da noite e rodeado de estrelas, Zé caçou rumo de casa.

Há anos, e a concerto dos pais, Zé Barbeiro andava de casa em casa, tosando o cabelo da criançada.

Debaixo de Sol forte e no escurão da noite, também.

 

Resende Costa, 10 de agosto de 1988.

 

Do livro, engavetado, “Narciso Cego: não há espelho que nos tire de nós mesmos”, de Mário Márcio de Quadros, Coquinho.

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