Retratinho 3 X 4
17 de Setembro de 2015, por José Antônio 0
A moça é jovem e bonita. Fica um pouco de longe, olhando fixamente o meu rosto. De repente, aproxima-se decidida e com a mão bem leve toca o meu queixo, erguendo suavemente a minha cabeça. Volta para onde estava. Fico imobilizado, tentando segurar por um instante a fisionomia que ela montou. Pronto. Já posso me mexer. Aí está o meu retrato 3 X 4. Feio, por sinal.
Mas qual 3 X 4 é bonito? É um retrato amaldiçoado. É tão desconcertante que nunca se vê retrato 3 X 4 de gente famosa. Não sei por que, mas todo mundo fica com cara de desempregado. Uns até procuram fazer diferente e posam sorrindo. Outros ficam levemente de perfil. A verdade é que todos odeiam o tal retratinho.
Outro dia, um reservista me mostrou sua carteirinha de qualquer coisa. Estava lá, coitado. Todo plastificado, olhos arregalados e lábios comprimidos, como se fosse um antílope sem saída, pronto para ser alvejado na savana.
Tem também aqueles que mostram cara de cansado, como se estivessem meses em frente à câmera.
Entretanto, o fotógrafo, a câmera e o local têm que ajudar, senão a coisa fica mais insustentável ainda. Existe o fotógrafo apressadinho e sem sensibilidade, a quem prefiro chamar de “retratista”. Manda você se assentar e, quando menos se espera, a tragédia se objetiva: lá está você com cara de dedão do pé. E é justamente aquela cara de dedão do pé que vai ficar sendo olhada e observada durante muito tempo nos documentos públicos.
Já viu a câmera escandalosa? É barulhenta e detentora de um flash insuportável. Aí, a gente pisca. Pronto: sai na foto aquele defunto digno, bem arrumado, sério e assentado. Ainda bem que não se usa mais colocar data nos 3 X 4! Você aparecia com uns numerozinhos no peito. Quer dizer, se você piscasse iria ficar que nem cadáver identificado no IML.
O local também tem que ajudar. Há fotos escuros, uns são apertados e outros até quentes. No entanto, o mínimo de higiene e organização tem que haver. Meu amigo Leovaldo foi tirar o seu 3 X 4 num desses fotos caseiros. Quando foi pegar, constatou assustado que um gato também saiu na foto. E o pior: o gato estava melhor do que ele!!!
Antigamente, parentes e amigos presenteavam-se uns aos outros enviando retratos, muitos deles 3 X 4, como uma forma de recordação. Vinham até com dedicatórias atrás, caracterizando um tipo dúbio de costume, entre o masoquismo e o sadismo.
Já me disseram que um 3 X 4 possui uma validade de quatro anos. Não sei se é verdade. Acho que até é. Talvez seja por isso mesmo que esse malfadado retratinho tenha o nome de 3 X 4: 3 minutos para se aprontar para 4 anos de ridículo.
Peladão
13 de Agosto de 2015, por José Antônio 0
Aquilo já estava dando nos nervos da Leontina. Depois de vinte e um anos de casados, o Ataulfo deu pra andar pelado dentro de casa.
Leontina entrava na copa, o Ataulfo pelado mexendo nas frutas. Leontina chegava na cozinha, o Ataulfo pelado perto do fogão, que nem peru depenado, indeciso diante da panela. Leontina passava na sala, o Ataulfo pelado no sofá. Era a mesma coisa que morar com o Tarzan decaído e sem tanga.
Aquela peladice descarada do Ataulfo estava passando dos limites. Toda manhã era a mesma coisa: o chiado forte do chuveiro quente parava, a porta do box se abria e lá de dentro, numa aparição confusa, surgia o Ataulfo pelado. Leontina não aguentava mais aquele assombração sem roupa chegando das brumas.
Quem sabe o Ataulfo não andava bem da cabeça? Era o que a pobre mulher pensava. E o pior é que o Ataulfo, depois de passar o dia inteiro nu, vestia pijama pra dormir. Não! Aquilo não era normal. Ele não estava bem mesmo. O jeito era o casal discutir o assunto.
À noite, depois do jornal, Leontina desligou a televisão e disse que precisava conversar sério. Ataulfo ficou cismado. Quando a mulher dizia que queria conversar sério, o bicho sempre pegava. Na última vez em que conversaram sério, quase que o casamento foi pras cucuias.
Foram para a sala. Silêncio. Leontina séria. Ataulfo pelado.
– Não está legal, Tatá, esse negócio de você ficar andando pelado pela casa toda... É esquisito. Eu me sinto desrespeitada.
– Meu bem, passei a sentir muito calor. Não sei se é da idade, mas o fato é que eu estou sentindo muito calor mesmo. E além do mais, tanto tempo juntos... não há nada que esconder entre nós dois. A gente já se conhece bastante.
– Tatá, é sério. Eu não gosto disso. Faz assim: essa semana a gente instala um ar condicionado e compra uns três ventiladores. Satisfeito? Desse jeito, essa sua quentura vai embora rapidinho sem precisar de você ficar desfilando de Adão pelos cômodos da casa. Convenhamos, até pra ficar pelado tem hora certa. Não é à toa que existem as roupas. Tem hora pra ficar vestido e tem hora pra ficar sem roupa. Entendeu? Essa sua nudez gratuita me incomoda. Nossa casa não é praia de nudismo. E tem mais: já pensou se você se distrai e atende a porta nesse estado?
Entraram num acordo e Leontina concordou com que o marido andasse pelo menos de sunguinha enquanto os aparelhos não chegassem.
No dia seguinte, bateram à porta. Era a mãe de Leontina.
Ataulfo está até hoje respondendo por um processo de desacato ao pudor: com uma sunguinha sumária mandou a sogra entrar. O chato é que na parte da frente da sunguinha havia um desenho do Cebolinha ou do Cascão, sei lá, fazendo um gesto constrangedor.
Quando contam essa história para os amigos, Ataulfo sempre olha angustiado pra esposa e diz:
– Eu não estava pelado, meu bem. Eu juro que não estava pelado.
Feliz aniversário, Míriam Raquel!
16 de Julho de 2015, por José Antônio 0
Dizem alguns que quem está dentro da situação vê melhor. Eu cá comigo penso que quem criou essa frase estava fora da situação. É a velha história do retrato, que quanto mais perto dos olhos mais difícil de se ver.
Semana passada foi assim. Estava eu na minha costumeira mesa do restaurante, num canto discreto do salão. Por trás dos meus óculos, observava o movimento dos comensais. Risos, gestos, copos e garfos levantados e abaixados, bochechas mastigando... Um pouco à frente, um casal de meia idade: poucas palavras, uma pizza, um vinho e duas taças. Mais à direita, dois casais mais novos, jantando e conversando um de frente para o outro, os homens contando coisas e rindo, as mulheres assuntando sérias... Crianças corriam, embaraçando-se no meio de garçons apressados que pareciam beija-flores sem asas, desfilando bandejas num equilíbrio rápido e circense. Por trás de meus óculos, eu via a vida borbulhar freneticamente em torno do prato e da comida, na celebração gastronômica da sobrevivência.
De repente, estaciona na porta do restaurante um carro todo enfeitado de balões coloridos. Sai de lá um rapaz carregando um microfone e um buquê de rosas. Uma música romântica começou a tocar enquanto o rapaz despejava no microfone uma voz empostada, caprichando na entonação:
– Parabéns, Míriam Raquel! Hoje é o seu aniversário. As rosas desabrocharam em silêncio essa manhã, mas a natureza esteve em festa todo o dia de hoje... – e por aí foi.
Não sou chegado a esse tipo de espetáculo, mas fazer o quê? O jeito era esperar acabar, enquanto sonhava com uma outra estética.
Todo mundo parou de fazer o que fazia, a fim de entender o que se passava. Então eu pude perceber que um casal de jovens namorados se levantou. O moço tinha preparado uma surpresa para a namorada, a tal da Míriam Raquel. Bonita e tímida, numa elegância simples e com trajes singelos, o rosto iluminado por um sorriso acanhado, ela foi conduzida à porta do restaurante pelo namorado radiante.
Quando a leitura da mensagem acabou, a música tocou mais alto, uns foguetes espocaram e de dentro do carro saiu uma moça carregando um bolo com uma velinha acesa. O carro foi embora e o casal voltou para a mesa. Aos poucos, o restaurante foi retomando seu ritmo e seu rito. Por trás de meus óculos, eu continuava a olhar o casal. Ele, empavonado, herói que cumprira uma nobre missão. Ela, feliz por ter um namorado que assumia na frente de todo mundo o seu amor por ela. E o casal ficou em silêncio e abraçado, olhando para o bolo e sorrindo humilde, como aquelas flores que vicejam no campo, felizes por serem grandes em sua simplicidade.
Então, sem que ninguém esperasse, o casal se levantou e foi de mesa em mesa, distribuindo fatias de bolo. Todos recebiam com satisfação e surpresa. E, num momento de espontaneidade pura, todos ali improvisaram um parabéns pra você. Tudo terminou com aplausos festivos e meus olhos úmidos.
Vi tudo e compreendi muito, talvez porque me coloquei por fora da situação. Distanciado a ponto de não ganhar uma fatia do bolo. Não faz mal... não gosto de bolo mesmo! Gosto é de ver e de recriar a vida que se faz festa nas migalhas caídas e esquecidas do cotidiano.
Não provei do bolo, porém meu coração cantou e aplaudiu irmanado com o universo. Baixei os olhos e vi o branco do meu papel desafiador, pedindo um texto. Saiu apenas uma frase: Viva a Míriam Raquel!!!
NAMORAR
17 de Junho de 2015, por José Antônio 0
Porque é Dia dos Namorados
outra vez.
Namorar é coisa simples.
Não é necessário realizar enormes empreitadas por causa de um namoro.
Namoro não combina com grandes compras, pois no namoro o gesto vence o gasto. E é nisso que está o gosto.
Namoro dispensa carro importado, pois o amor trafega é no peito. Namoro não se preocupa com vaidade, pois o amor é nu.
Namoro não combina com morrer de paixão nem com posse, pois namorar é apaixonar-se sem paixão e ter sem possuir.
Namorar não é cercar as possibilidades do outro, pois o namoro morre quando anéis viram aros de corrente.
Namorar...
Namoro não é desejo desenfreado, pois o prazer precisa da paciência.
Namorar não é dar joia de ouro, pois o coração se encanta é com bilhetinhos improvisados.
Namorar não é ficar, pois o amor exige caminhar.
Namorar não é comparar idades, pois o importante são as coisas que amadurecem sem envelhecer e as coisas que se mantêm jovens sem ser imaturas.
As marcas do namoro...
Uma pétala seca entre as páginas de uma história que insiste em ser contada...
Um cartão com a data do passado, mas com a emoção de agora...
Uma fotografia parada, olhando fixamente para sensações que ainda se movem...
Um presente dado e o papel colorido eternamente guardado, como se envolvesse outros presentes que são abertos a cada lembrança do ser amado...
Um vermelho no pescoço... um batom na camisa... o perfume de um outro corpo que continua em nós... a voz que se apodera de nossos ouvidos, principalmente quando estamos em silêncio... o rosto que faz morada em nossa retina... uma canção que vira trilha sonora de um filme exibido nas salas reservadas do coração... invasões íntimas que permitimos.
Marcas concretas e palpáveis, sinalizadoras do intangível, tais como quadro de artista: palpável e concreto, porém o quadro mesmo não é o que vemos, e sim o que sentimos ao ver.
Namoro também é paradoxo.
Namorar é sentir-se único e não se sentir só.
Namorar não é prender, mas é segurar o outro na hora dele ir embora.
Namorar não é sofrer, no entanto a gente sempre chora um pouquinho.
É possível namorar no amor? Sim, pois o amor é alimentado por encontros que renovam as conquistas.
É possível amar no namoro? Sim, mas somente para os que acreditam que namorar é entrelaçar vidas, mesmo que por enquanto somente as mãos andem juntas.
Photoshop
14 de Maio de 2015, por José Antônio 0
– Boa tarde!
– Boa tarde!
– Eu preciso de umas fotos 3 X 4. Você faz?
– Claro! É só me acompanhar até ali dentro.
– Só que tem uma coisinha...
– Pois não, senhor.
– Vocês fazem photoshop?
– Hein?
– Photoshop... melhorar a gente na foto.
– Photoshop num 3 X 4? Olhe, desculpe, mas não vai dar. O 3 X 4 é um retrato pra documento, e aí tem que ficar o mais próximo do real.
– O problema é que eu não quero ficar próximo do real.
– Como?
– Eu não quero o real.
– Meu senhor, vamos...
– Você não entende, eu me recuso a ficar próximo do real.
– O senhor quer a foto ou não quer?
– Sim, mas não quero aceitar o real.
– Olhe, o senhor está precisando não é de um fotógrafo e sim de um psicanalista.
– Tá me achando fora do normal?
– Imagine! Todo dia vem gente aqui pedindo 3 X 4 com photoshop...
– Eu quero ficar bonito na foto, entende?
– Entendo, mas a foto que o senhor quer...
– Por favor, me faça bonito!
– Sinto muito, amigo, mas esse pedido deveria ter sido feito nove meses antes do senhor nascer.
– Mas não custa nada, rapaz. É só alterar sombreamentos e contornos. Eu até trouxe uma lista de orientações. Vou ler pra você: olhos do Clark Gable, nariz do James Dean, boca do Elvis Presley, cabelo do John Wayne.
– Pra que o senhor quer o 3 X 4? É pra carteirinha profissional de coveiro? Só tem defunto na sua lista.
– Vai ou não vai fazer o photoshop?
– É óbvio que não! Eu sou fotógrafo, e não maquiador de retrato. Vê lá se eu vou montar esse Frankstein da sua lista!
– Estojo de maquiagem você tem?
– Estojo de maquiagem? Eu sou homem de ficar andando com estojo de maquiagem?
– Por favor!
– Só se for da menina do caixa. Tome.
– Tá vendo? Um retoque aqui, uma base ali, uma sombra... e pronto. Pode bater a foto.
– Tem certeza? O senhor está parecendo... não está parecendo nada. Está muito bem. Vamos tirar essa foto depressa. Levante mais a cabeça... feche a boca... abra mais os olhos... não é preciso arregalar... Atenção! Um, dois e... pronto! Quer ver como ficou? Olhe aqui no visor.
– Até que não está mal. Eu preciso de uma dúzia.
– Pois não. Daqui a uma hora...
– Uma hora nada. Cada dia eu vou voltar aqui com uma maquiagem diferente, até completar as doze fotos.
– Quer saber de uma coisa? Vamos fazer o photoshop. Prometo que o senhor vai ficar lindo. Onde está aquela lista?