Dois sorrisos
27 de Agosto de 2025, por José Antônio 0
De repente, senti a mão sendo roçada por algo macio. Era a mãozinha de um bebê. Confesso que até já havia me esquecido da minha mão pousada no encosto do banco à minha frente, na lotação.
Quando o bebê percebeu o contato inesperado, tirou depressa a mão. Resolvi levar o negócio adiante e, desta vez, fui eu que toquei a mãozinha dele. Mais uma vez o bebê se desvencilhou, me encarando sério e bochechudo. A mãe não via nada, ninguém via nada, só eu e o bebê estávamos naquela perseguição.
Ele chegava a mãozinha pra lá, e lá ia eu atrás, como que em busca de algo puro e bom que pudesse tornar cristalina minha escrita, que muitas vezes dialoga com o sussurro do íntimo de quem me lê. Olhei disfarçadamente para os lados. Ninguém nos olhava. De novo, estava a minha mão correndo atrás da do bebê. Ele me olhou fixo. Não sorriu. Senti um frio na espinha: É melhor eu parar com isso. Esse bebê vai chorar.
Nesse momento, a mulher deu o sinal e o lotação parou. Levantou-se com o seu filhinho e foi saindo do ônibus. O bebê ainda continuava olhando para trás, lá no colo dela. Não tirava os dois olhões dos meus olhos. Antes que saíssem, me lançou um sorriso. Sorri também, mesmo não sendo puro como ele.
O ônibus partiu e eu fiquei estacionado no sorriso do bebê. Cheguei à conclusão de que não devo ser tão miserável, pois mereci ganhar um sorriso da pureza. Tão puro que nem dentes mostrou.
Ontem, a coisa aconteceu de novo. Parei o carro num cruzamento e dei preferência para duas adolescentes passarem. Elas passaram sérias, nem aí. Quase no fim do trajeto, uma delas olhou para mim e sorriu serena, num misto de gratidão e paz.
Aqueles poucos segundos me fizeram sentir que a bondade humana ainda teima em se mostrar, mesmo que num desfile rápido e fugaz. Dei a partida enternecido com aquele sorriso que nunca mais esqueci, vindo de quem nunca mais eu vi.
Faço contorcionismos com as palavras, tentando segurar pela mão os momentos puros da vida. Mas eles sempre se vão, partem no colo do efêmero... e deixam um sorriso de criança nova, um jeito de sorrir que faz uma cócega gostosa na alma da gente.
Faço malabarismos com as palavras. E quando consigo equilibrá-las no papel, o que deixo ali ensaia sorrisos. Mesmo que com dentes afiados, o sorriso no meu papel procura revelar um pouco da alegria que fica escondida e humilde nos fragmentos despercebidos do dia a dia: a alegria de que tudo pode ser renovado quando a gente passa a ver diferente. Para percebê-la é preciso brincar como criança e ter uma gratidão serena para com as coisas pequenas.
LA BELLE JOU-JOU
04 de Agosto de 2025, por José Antônio 0
O nascimento de Vênus!!!
Foi isso que o Rosinaldo viu quando aquela mulher escultural saiu da piscina. Molhadinha, cabelos escorridos, seios firmes, cintura aviolada, gotículas se misturando com os arrepios de sua barriga e coxas…
Do corpo, escorriam filetes de líquida perdição que se empoçavam ao lado da cadeira de sol.
Se a beldade era quadro vivo de Botticelli, Rosinaldo era estátua de Michelangelo: ficou petrificado.
A bela se deitou em sua cadeira, colocou seus óculos escuros e ficou gostosamente exposta à visitação pública. Quem era ela? Como se chamava? Jamais fora vista no clube até então.
Não deu outra. Rosinaldo atirou-se ao barzinho e voltou com dois drinks:
- Um para você e outro para mim!
A Vênus recém-nascida tirou os óculos escuros e lançou um olhar de gostoso abismo para Rosinaldo. Depois, iluminou o rosto com um sorriso penetrante:
- Oh!… Que gentil! Aceito sim.
E, a partir daquele dia, passou a aceitar todos os drinks e presentes que Rosinaldo lhe dava.
Fazia questão de ser chamada de Jou-Jou.
- Sim, meu bem. Pronuncia-se “Juju”. Meu pai, comerciante de joias francês, me pôs o nome de Bijou. Sabe o que significa Bijou em francês? Joia! Daí o meu apelido carinhoso: Jou-Jou. Ai… ai…
E fez um beiciinho de Brigitte Bardot.
Rosinaldo pulou de ponta-cabeça. Durante muitos dias ele beijou a Bijou.
E assim caminhava a histoire d’amour…
Beijos… loucuras… gritinhos franceses… viagens… joias… mais gritinhos franceses ainda… roupas caras… cartão de crédito em conjunto… gritinhos franceses e franceses gemidos… Que loucura, meu Deus!
Uma noite, Rosinaldo levou a sua Jou-Jou a uma exposição de doces exóticos. Ela olhou languidamente para ele e sensualizou:
- Benzinho, compra um docinho para a tua Jou-Jou! Põe um docinho na boquinha da somente tua Jou-Jou…
Os preços dos doces eram salgados. Quase que Rosinaldo teve de penhorar dois bastonetes e sua retina para pagar os doces exóticos. Mas valiam as penas por Jou-Jou…valiam as pernas de Jou-Jou…
- Você sabe como adoçar a minha vida tão só! Às vezes, choro porque sou tão sozinha…
E a Jou-Jou fazia um biquinho no tamanho exato de uma moeda.
Rosinaldo, comovido, fazia promessas e promessas de nunca deixá-la só.
Um dia, Jou-Jou sumiu. Não deixou rastos nem restos. Nunca mais foi vista. Rosinaldo fez de tudo para reavê-la. Em vão.
Por causa de ficar perdido nos fundos da Jou-Jou, o investimento não passou de fundos perdidos. O dinheiro jamais voltou.
Jou-Jou era apenas uma Bijou… teria!
MENINO LEMBRANDO UMA NOITE DE JUNHO
02 de Julho de 2025, por José Antônio 0
Foi numa daquelas noites de junho, daquelas em que o céu já começa a se vestir de noite lá pelas seis da tarde. As nuvens ficam cor-de-rosa enquanto pelo chão as sombras se mostram compridas, longas iguais à solidão que gosta de acompanhar a gente por toda a vida.
Era uma dessas noites de junho. O vento cortava gelado as costas dos meninos e as pernas das meninas... queimava de frio os dedos finos das moças e as mãos ásperas dos moços. O vento vinha do morro e virava a esquina. Pegava todo mundo de surpresa.
Mesmo assim, com tanto vento e com tanto gelo, o pessoal da vila não se fez de rogado. Saiu todo mundo pra ir às barraquinhas da quermesse. Música tocando no alto-falante, vestidos estampados indo e vindo, rodinhas de rapazes conversando e rindo, meninos e meninas correndo pra tudo quanto é lado, um homem gritando números em uma das poucas barracas, cheiro de quentão embriagando a alegria simples de um povoado que se contentava com a simplicidade das poucas coisas.
Uma das barracas vendia salgados. A outra, doces e canjica. A última, perto do coreto e também cheia de luzinhas acesas, vendia bebidas quentes e fazia jogos de víspora e pescaria. Praça cheia, alegre e aconchegante. Acho que por isso ninguém tinha ficado sozinho em casa. As casas estavam frias e a praça quentinha. Havia vento, mas tinha quentão.
Resolvi tentar a sorte num dos jogos. Na verdade, eu queria era tirar um prêmio na pescaria e entregar pra Ana Clara, que estava na praça havia meia hora, mas no meu pensamento um montão de tempo. Ana Clara caminhava, passava perto da barraca e nem me via. Que vontade de pegar a sua trança e pescar com ela o seu coração...
Levei a mão gelada no bolso e achei lá uma solitária moeda. Fiquei por ali, encarapitado na cerca da barraca, atento à minha pescaria. Pescador de sonho... de sonho mergulhado na serragem e que não precisa de isca pra ser capturado. Fisguei o peixinho e o peixinho escorregou. Fisguei outra vez e o danado voltou pro chão. Na terceira vez, o peixinho veio pra mim. Não é que tinha um anel pendurado nele?
Peguei o anel, soprei a poeira e fui procurar a Ana Clara. Já imaginava sua trança sem Rapunzel, seu sorriso de princesa sem castelo, perdida ali naquele povoado sem grandes perspectivas, porém única e preciosa nas minhas vertigens de infinito.
Lá estava ela! Cheguei perto e... Ana Clara já tinha anel. Não só anel, mas também um namorado. Rapaz que eu nunca tinha visto na vila. Era gente da cidade. Garanto que foi ele quem deu o anel pra ela. O anel que Ana Clara ganhou do namorado não era de pescaria nem tinha poeira de serragem.
Desci os olhos, fechando as cortinas da minha esperança. Voltei pra barraquinha da pescaria. Joguei o anel na serragem, a serragem no meu sonho e pus meu sonho num balão que estava subindo pra sumir.
O vento continuava soprando frio.
CRIANÇA LENDO A REDAÇÃO SOBRE A MÃE
28 de Maio de 2025, por José Antônio 0
A mãe é muito importante. A mãe é muito bonita. Eu tenho mãe. Minha mãe é a mulher mais bonita do mundo. Tem hora que a minha mãe é muito brava. Quando a minha mãe fica brava, ela fica vermelha e com o olho arregalado. Até a voz fica diferente.
Tem hora que eu demoro pra obedecer, aí a minha mãe fica contando: um... dois... três... Se eu não vou lá no três, ela vem cá no quatro. E aí dói, porque tem tapa.
Quando a minha mãe me chama de meu amor, minha vida, meu sonho, então é porque vem coisa boa. Tem hora que é beijo. Quando a minha mãe me chama falando o meu nome, é porque é coisa séria. Mas tem hora que ela me chama falando o meu nome e o meu sobrenome: aí é pra obedecer senão tem tapa. Igual quando ela fica contando até três.
É bom escutar a minha mãe falar. Mas tem umas coisas que ela fala e que eu não entendo direito. Ela sempre fala que é pra eu não falar mentira. Um dia, eu quebrei um vaso com a minha bola e falei que não fui eu. Ela, então, me segurou e me encarou bem fundo e disse que queria ouvir eu falar o que aconteceu... olhando bem nos seus olhos. Eu falei a verdade.
Mas acontece da minha mãe falar mentira no celular. Uma vez ela falou que estava numa loja e ainda estava lá em casa. Por que ela mentiu? Deve ser porque ela não teve que falar olhando nos olhos de quem estava no outro celular.
De vez em quando, a minha mãe fala com as amigas que está naqueles dias, ou que aqueles dias estão chegando. Ela fala que fica impossível naqueles dias, até briga com o papai. Teve uma vez que eu não quis comer alface e falei que não queria porque eu estava naqueles dias. Se ela podia, eu também podia. Todo mundo ficou rindo de mim. Nunca mais quis saber daqueles dias.
Sabe o que eu fiquei sabendo? A mãe envelhece. Toda mãe fica velha um dia. Mas a minha mãe não. Ela pode ficar de cabelo branquinho e andando com dificuldade, mas ela sempre vai ser a minha mãe bonita.
Ah... ela também faz uma brincadeira legal: ela sorri pra mim, abre os braços e conta até três: um... dois... três... Eu saio correndo e fico lá no meio dos braços dela. E aí eu falo que só vou sair quando eu chegar no cem. Eu só sei contar até dez. Então eu fico um tempão lá.
Cantas mal, hein?
30 de Abril de 2025, por José Antônio 0
Em toda reunião de amigos ou de familiares, existe o desafinado. É uma figura complexa. Enquanto todos cantam harmonicamente, ele consegue achar prazer em notas desconectadas. E nem percebe que está avacalhando tudo.
O triste é que o desafinado é sempre uma pessoa legal. Solícito, alegre, dedicado... Às vezes, é o único que vai a todos os ensaios, com sua costumeira boa vontade. Até carrega instrumentos, se necessário.
Como, então, se livrar dele em serestas ou reuniões de Natal? Quando a questão é a participação em um coral, tem sempre lá aquele maestro com toda uma escala de argumentos técnicos que podem descartar o desafinado sem ofendê-lo. Mas, em corais improvisados e amistosos, como falar para o desafinado que ele não vai cantar justamente porque é desafinado? A coisa se complica ainda mais quando se considera a seguinte verdade: Todo desafinado gosta de cantar.
Uma boa alternativa de deixar o desafinado sem cantar seria encarregá-lo de tocar um instrumento qualquer. Mas o desafinado jamais toca instrumento algum!... Ou, quem sabe, incumbi-lo de cantar apenas no refrão, quando aparecer um lá-lá-lá-lá. No entanto, é nos refrões que o desafinado se esmera mais, tirando o couro do coro. E vai todo mundo para o buraco da dissonância.
Há uma última escolha – cruel – de pôr o desafinado pra escanteio: escalar o indivíduo para cantar todas as canções e mandá-lo ensaiar dois, três, quatro tons acima. No dia em que todos forem cantar, só o coitado estará rouco.
Dá dor de cabeça ficar sorrindo cordial enquanto o desafinado simpático canta...
Às vezes, o dito cujo desconfia que desafinou “um pouco”, e aí entra o nosso gênio inventivo, todo carregado de caridade, ao elaborarmos eufemismos para não magoar o desafinado, pois todo desafinado se magoa com facilidade:
– Você não desafinou. Você apenas canta numa tonalidade paralela.
(Tonalidade paralela... você já ouviu falar disso?)
Tem gente que consola desafinado assim:
– Você canta bem, só que numa tonalidade que nós ainda não alcançamos...
Essa última frase é revestida da mais sórdida quintessência do cinismo: se todos aprenderem a cantar na tonalidade da pauta que só o desafinado traduz, haverá um suicídio uníssono.
Enquanto a coisa não se resolve, o negócio é cantar sob a batuta da democracia. Afinal, todos têm o direito de se expressar.
... mas fica lá, no fundinho do coração, um desejo sincero... não sei se é ditadura sussurrada ou estética chauvinista: bem que podia ser todo mundo afinado numa mesma nota!