REDAÇÃO DE CRIANÇA (A solidão)
25 de Marco de 2026, por José Antônio 0
Solidão é uma coisa que chega sem ninguém chegar. A solidão deixa todo mundo sozinho porque todo mundo fica longe.
Na solidão, tudo faz frio. Aí o coração fica gripado. Então a gente fica com o olho cheio d´água e pinga o nariz. Acaba chorando. O pior é que na solidão a gente chora sozinho.
Tem hora que eu sinto solidão. Aí eu penso que sou uma estrela sozinha lá no céu, dando tchauzinho sem ninguém responder.
Pra acabar com a solidão, a gente tem que abraçar outra pessoa. Se a gente abraçar a gente mesmo, a solidão fica pior porque ela não sai de dentro desse abraço.
A solidão é chata, mas tem gente que é mais chata do que a solidão. Só que gente chata pode ficar legal um dia e a solidão não fica legal nunca.
A companhia termina com a solidão. Mas será que ficar mal acompanhado é pior do que ficar sozinho? Não sei. Se a companhia é ruim, então não tem companhia e a gente continua do mesmo jeito: sozinho.
Minha prima vive sozinha. É louca pra arrumar um namorado. Vive falando que solidão é coisa que dói. A minha prima quer ter alguém. Mas ela também vive falando que ficou com alguém, que fica com outro, que gosta de ficar. Se fica, então tem. Por que ela fica dizendo que ficar é uma coisa que fica chato? A gente fica pensando que é mentira.
Essa redação que eu fiz falando da solidão ficou pequena porque não tinha ninguém perto de mim pra me dar mais ideia. Então ela ficou pequena. Pequena e sozinha.
O que é a solidão? Solidão é só uma coisa que é uma coisa só.
FELICIDADE XAROPE
25 de Fevereiro de 2026, por José Antônio 0
“Todas as famílias felizes são parecidas entre si.” Assim Tolstói começa o seu romance Anna Karenina. Não pretendo aqui ater-me ao romance dessa frase, mas a essa frase do romance.
Quando a parecença é muito repetida, vira igualdade. Toda igualdade muito repetida vira mesmice. Não há algo mais enfadonho do que o óbito da surpresa. Quando ela morre, seu fantasma de vez em quando aparece fazendo-se de novidade. Ridículo. Até mesmo os seus sustos são sem graça, pois é tudo previsível.
A família de Jamil Perdenari é o protótipo de um gordo álbum de felicidades. Jamil, vistoso e bem sucedido empresário, casou-se com Linda Wunderbar, filha de pai alemão e mãe italiana, radicados no Brasil. Um monumento de mulher bonita. Jamil e Linda se conheceram no Carnaval, em Veneza. Daí em diante, o namoro seguiu seu curso e desaguou numa exuberante cerimônia de casamento em Mônaco.
Nasceram dois filhos: Victor e Zuleika. Victor Wunderbar Perdenari hoje é famoso por suas ótimas gerências e aplicações no mercado financeiro. É dono de um banco em Boston. Casou-se com a filha de um senador norte-americano, proprietário de uma grande rede de TV. Victor nada em dinheiro com sua deliciosa Enya. Ah, sim, sua esposa se chama Enya. Vivem viajando pelo mundo. Já conhecem setenta e oito países. No ano que vem, pretendem ir a mais dez.
Os dois lindos e saudáveis pimpolhos do casal – gêmeos – estudam numa escola particular cuja mensalidade é astronômica. Poucos alunos em sala de aula, grandes oportunidades de progresso em Paris e saem falando cinco idiomas. Coisa para pouquíssima gente e não para gente pouquíssima.
Zuleika, a irmã de Victor, nasceu arrebatando os corações do médico, das enfermeiras e dos funcionários da maternidade, de tão linda. Cresceu e a formosura acompanhou-a. Muito estudiosa. É a típica boa moça de família. Foi miss de seu estado duas vezes, miss Brasil e iria representar o país no concurso de Miss Universo, com grandes chances de ser premiada como a mulher mais bonita do mundo. Porém, desistiu. Casou-se com Heinrich, um bonito e milionário médico alemão, detentor de uma rede de hospitais em três países. Foi sorteado com uma polpuda bolsa para desenvolver suas pesquisas. Zuleika é a vice-presidente da rede hospitalar de seu marido, o tal bonitão e rico.
Na semana passada, Jamil e Linda (pais dos irmãos Victor e Zuleika) completaram quarenta anos de casados. Como presente, os dois filhos deram aos seus pais uma casa de veraneio na Suíça. O velho casal amou a surpresa… ops!... o presente. Foi uma festa linda. Farto jantar, gente bonita e bem vestida. A alegria era a convidada especial. Houve um momento em que Jamil leu para Linda um poema que fez para ela. Concluiu dando-lhe um anel de esmeralda, pois as bodas eram de esmeralda. Linda sorriu e chorou. O casal se beijou com tanta ternura que todos ali se emocionaram e cantaram. Uma fofura só!
Tudo dentro da previsibilidade feliz das famílias felizes.
……….
Ai… como são chatas, leitor, as histórias dessas pessoas que nasceram com a bunda virada pra lua…
YES, NÓS TEMOS VIRA-LATAS
27 de Janeiro de 2026, por José Antônio 0
O inteligente Rin-tin-tin, a corajosa Lassie, o trapalhão Beethoven e o impagável Marley são cachorros que se imortalizaram no cinema. Realizavam prodígios que faziam a plateia racional que fala sentir-se humilhada frente à cachorrada irracional que late.
Porém, eles foram adestrados para exibirem o que exibiam nas salas de exibição.
Na verdade, Rin-tin-tin, Lassie, Beethoven e Marley são muito pequenos se comparados a outros cães que também realizam prodígios. E não foram adestrados nem são celebridades: os cachorros de rua de del-Rei.
Temos por aqui cachorros instigantes, uns até emblemáticos.
Pode parecer absurdo, mas nossa cidade tem cachorros intelectuais. São poucos, é verdade, mas eles existem. Estão sempre nos pátios da universidade. Inclusive, moram lá. Devem ter aprendido alguma coisa por osmose, como, por exemplo, contar os postes, calcular a parábola da curva do xixi, analisar a composição química do lixo que reviram e latir em línguas diferentes.
E o cachorro socialite? Tem uns que são. Esses não perdem eventos esportivos, desfilam com o exército no Sete de Setembro, frequentam festas de casamento, acompanham enterros e até se entrosam com as escolas de samba na avenida.
Você pode não levar fé, mas tem cachorro que leva. São os cachorros religiosos. São vistos nas missas, saindo de cultos evangélicos, entrando em centro espírita e acompanhando procissão. Nem ligam mais para a barulheira dos sinos, a explosão dos foguetes ou a gritaria do pastor.
E os nomes? Esses vêm da convivência com a cidade. E mais: a gente sente falta quando um dos cachorros anda meio sumido.
– Você viu o Biscoito? Ele não está aparecendo mais.
– Parece que agora ele está andando em outro bairro.
Ou ainda:
– Sabe quem eu vi ontem?
– Quem?
– O Riscadinho. Estava no enterro do Seu Vavá.
Os cachorros que transitam pelas ruas de del-Rei são marcadamente urbanos. Andam na calçada, entram em lotação e fazem suas aparições nos bancos e correios. Deram até nome para logradouro público: a Ponte dos Cachorros!
Nossos cachorros sem dono são muito espertos. Já reparou como nenhum deles se envolve mais em acidentes de trânsito? Já experimentou comparar com os motoqueiros? Pois é... dá pra pensar.
Os cachorros do cinema se imortalizaram na tela do imaginário popular. Mas os nossos também são perenes. E vão viver muito, se depender da saúde deles. Já vi cachorro nas portas dos açougues, dos restaurantes, dos bares e das padarias. Mas nunca vi cachorro esperando alguma coisa em porta de farmácia. Apenas dormindo.
Natal de papel
24 de Dezembro de 2025, por José Antônio 0
O que dizer sobre o Natal? Todos esperam mensagens tocantes, recheadas de lembranças e esperanças, canções suaves que nos fazem chorar e rir ao mesmo tempo. Aí vem na memória um obituário de convivas que já se foram e não mais comemorarão Natal algum com a gente. E toca todo mundo a chorar. Mas sempre tem no Natal alguém com um bebê, e o bebê apronta uma porção de palhaçadas na hora de ceia. E toca todo mundo a rir.
Do alto do meu apartamento, estendo o olhar pela cidade e vejo inúmeros pisca-piscas. São desejos coloridos de que a alegria e a paz aconteçam na Terra. Como se as luzinhas não piscassem, mas sim pulsassem junto com os corações dos moradores, espalhando ternura.
Fico pensando na minha crônica sobre o Natal. Meu texto também mostra rapidamente luzes simples que devem ser enxergadas várias e repetidas vezes, como um pisca-pisca de palavras, alertando que algo mais profundo transcende o mero repetir automático do cotidiano. Meu texto procura o sumo do dia a dia, extraindo emoções e sensações contraditórias mas complementares, como o prazer e a dor, o imponente e o humilde... e nas suas linhas traçadas de literatura procura combinar riso e lágrima.
Meu texto procura nas palavras o inefável das expressões, assim como os sinos de Natal: simples badaladas, porém arautos dos nossos mais íntimos e inexplicáveis sentimentos.
A árvore de Natal... poético final de arco-íris, onde está o caldeirão de ouro: os presentes. São tão sedutores, com seus formatos e embalagens fantásticas, que nos esquecemos da mentira da neve sobre os galhos do pinheirinho falso. Bolas coloridas e de variados tamanhos tornam aquele cantinho da sala um caleidoscópio alegre e aconchegante.
Aos poucos, todos vão chegando a casa, onde está preparada a ceia. Crianças correm pelos cômodos, homens formam uma rodinha com cerveja, salaminho e azeitona, mulheres se juntam para trocar elogios e reclamarem de que precisam emagrecer. Há enfeites por toda a casa, todos os recantos estão acesos. Economizar energia? Pra quê? É Natal!
No presépio, o Menino Deus deitado com os bracinhos abertos, sorrindo para quem quiser tomá-lo consigo. José e Maria, ajoelhados ao redor da manjedoura, adoram piedosamente aquela criança que mudará o mundo.
E minha crônica... não é ela final de arco-íris, uma vez que é a própria combinação de cores e matizes. Cada um que escolha o que mais lhe agrade... ou rasgue e jogue fora. Minha crônica não chega a ter neve falsa, mas salpico em minhas histórias algumas purpurinas de invenção, pois quero que minha escrita seja sempre contemporânea, que volte continuamente com variadas novidades, assim como o Natal.
Minha crônica anseia por ser um espaço onde crianças, homens e mulheres se encontrem para brincar, saciar-se, contemplar-se e reconhecer as mesmas e surpreendentes procuras, conquistas e perdas dos pobres seres humanos.
Sei que minha crônica não é digna de servir de manjedoura ao Deus Menino, mas procura imitar um presépio, pois é pobre, limitada, simples e pequena. Daquela cena entre pastores e animais, brotou a figura mais exemplar do amor incondicional. Da minha crônica, entre palavras, ideias e solidões, espero brotar leituras e releituras, tonificantes da alma, alegrias para o espírito, contribuições para as mentes.
Acho que assim é minha crônica: um Natal sem lembranças e sem angústias, como quer o Dono da Festa: a cada dia basta o seu cuidado. Não me prendo às saudades nem às preocupações, pois passado e futuro são instâncias infinitamente menores que o presente.
O meu presente é a renovação do olhar e da vida a cada dia, a cada momento, a cada frase, a cada crônica, a cada canção... Minha crônica é um Natal de papel, onde estão escritas algumas e muitas pistas das peripécias do dilema humano. Minha crônica é um Natal de papel.
A você, desejo um Feliz Natal, um feliz papel em branco, espaço para você escrever a sua felicidade construída pela felicidade que você proporcionará ao próximo neste Ano Novo.
ORAÇÃO ECO(LÓGICA?)
25 de Novembro de 2025, por José Antônio 0
Mãe natureza! Má natureza!
Natureza mãe, tu és mãe que gera. A vida é fecundada, nasce, cresce, reproduz e termina em ti. Natureza mãe, tu és mãe que nutre com teus frutos, grãos e folhas... és mãe que mata a sede e que refresca.
Natureza má, tu és egoísta quanto aos teus desígnios. Já nascemos todos encomendados à morte, que, por sinal, faz parte de tuas exigências para que existamos. Natureza má, que nos enfeita com o engodo da juventude, da vitalidade e da sedução apenas para nos aproximarmos uns dos outros a fim de que a vida se reproduza e continue.
Natureza cruel: quando não somos mais úteis a ti, pois já não reproduzimos mais, tu nos viras as costas e nos entregas ao declínio.
Por isso, Natureza, nossa mamãe (má mãe), faço-te uma oração em nome dos pobres irracionais, pois eles não sabem rezar:
Que o porco-espinho sempre encontre quem furar.
Que o macaco-prego tenha sempre a sua madeira.
Que o tatu-bola jamais deixe de encontrar o seu gol.
Que o cavalo manga-larga tenha quem ajuste a sua roupa.
Que o urso-polar não se torne bipolar.
Que o bicho-de-pé não ande descalço.
Que o tubarão-martelo não erre a pancada e preserve o macaco-prego.
Que o urubu-rei sempre tenha a sua majestosa carniça.
Que a cobra-coral não fique sem o seu refrão.
Que não falte a vitamina C para o sabiá-laranjeira.
Que o bicho-preguiça se liberte desse pecado.
Que o cachorro-fila não perca a sua senha.
Que o peixe-boi não vá com a vaca pro brejo.
Que o pombo-correio não erre seu endereço.
Que o tamanduá-bandeira fique sempre hasteado.
Que não falte a bainha para o peixe-espada.
Que todos os seres viventes sejam sempre joviais a fim de que não terminem fracos e envelhecidos como o tigre de bengala.