A Teia do Mundo

Invenções doidas

13 de Novembro de 2013, por José Antônio 0

Fiquei sabendo que um tal de Goventosa inventou, lá na Itália, a moto de uma roda só. A máquina fazia até 150km/h. E o mais incrível: o motoqueiro ficava assentado dentro do próprio aro da roda. Ficava assentado enquanto a moto estivesse parada, pois na primeira rodada o Goventosa já iria longe. Pode ser também que o intrépido italiano usasse o cinto de segurança para viajar na centrífuga mais idiota que a pátria de Dante Alighieri criou.

Claro que o trambolho não foi pra frente... nem pro lado. Fiel a todo círculo, tornou-se algo voltado para si mesmo e a invenção do Goventosa virou vento.

No começo do século passado, um alemão inventou a boia-salsicha. Era uma boia salva-vida, comprida e fina, que dava voltas em torno do corpo do nadador. O cara ficava igualzinho cachorro-quente com uma só fatia de pão. Se já é humilhante entrar na água agarrado numa linguiça inflável, mais humilhante ainda é salvar-se boiando na jiboia. A invenção não foi pra frente. Acabou esvaziando.

Em 1931, um americano criou um rádio acoplado ao chapéu, com antena e tudo. Era só colocar o chapéu, ajustar a antena, sintonizar a estação e passear feito barata pelas ruas. Talvez Kafka fosse profeta e não soubesse. Pelo que consta, a invenção durou até o dia em que um usuário foi atingido por um raio e morreu estorricado. E o rádio-chapéu naufragou nas suas ondas curtas.

As invenções doidas ainda estão acontecendo. Não sei como ainda não inventaram o liquidificador musical. O guarda-chuva com cortina ao longo das barbatanas. O sapato autolimpante.

No entanto, existe uma invenção doida que a cada ano se repete sem se reinventar. Irrita todo mundo, beneficia poucos, contraria a saúde e coloca os lucros num plano que não convence ninguém. Trata-se do Horário de Verão.

O nosso é doido mesmo. É tão doido que começa na primavera. É tão doido que tem estado que não o adota. É tão doido que o Brasil fica com quatro horários.

O nosso Horário de Verão é invenção mais radical do que a moto do Goventosa, pois ele é uma imposição Governamentosa. È mais ridículo do que a boia-salsicha, pois enrola todo mundo e ninguém se salva do afogamento. É mais onda curta do que o rádio-chapéu, pois não capta as reclamações gerais da nação.

Até que essa geringonça passe, o negócio é fingir que está com sono mais cedo, forçar apetite sem fome, acordar com dívidas de sono e pensar que o Brasil está dando passos de gigante por causa do Horário de Verão.

O brasileiro está tendo mais emprego por causa do Horário de Verão? O brasileiro está comendo melhor por causa do Horário de Verão? O brasileiro está estudando melhor por causa do Horário de Verão? O brasileiro está tendo melhores hospitais por causa do Horário de Verão? O brasileiro está tendo mais segurança por causa do Horário de Verão?

 

... o brasileiro está tendo mais saco por causa do Horário de Verão?

Hoje é meu aniversário

15 de Outubro de 2013, por José Antônio 0

Foi só eu virar a esquina da avenida e lá vinha ela em minha direção. Ao me ver, fixou o olhar e abriu um sorriso discreto, mas alegre:

– Quanto tempo!

– Pois é, quanto tempo!

– Você sumiu. Por onde anda?

– Tenho saído pouco.

Era ela. Mais madura, penteado diferente, marcas sutis do tempo ao lado dos olhos... Ainda estava bonita.

– Hoje eu me lembrei de você.

Que bom que ela ainda se lembra de que hoje é o meu aniversário! Fingi-me de desentendido:

– Ah, é? Por quê?

– Li uma crônica sua ontem no jornal. Você falava da primavera e hoje é primavera.

Será que ela esqueceu o meu aniversário? Culpa da primavera. Por outro lado, seria pior se eu tivesse nascido em estação de chuvas. Não suportaria vê-la dizendo que toda vez que tem raio e trovão ela se lembra de mim.

– Na crônica, você falou tão bonito das flores... Fiquei encantada.

A primeira flor que dei a ela... Quanto tempo! Era começo de namoro. Depois, vieram muito mais flores, mas aquela primeira era a mais linda e a mais pura, justamente porque era a primeira. Lembro-me do primeiro presente de aniversário que ela me deu: uma camisa da cor daquela flor.

– Mas eu me lembrei de você por um outro motivo também.

Que alívio! Eu sabia que ela iria lembrar que hoje é meu aniversário.

– Há um momento engraçado na crônica. Eu ri muito. Você sempre me fez rir, lembra-se?

Como esquecer? Era gostoso vê-la alegre, ouvir sua gargalhada de menina sapeca, sentir seus tapas e beliscões carinhosos me mandando parar de fazê-la rir, pois já não tinha mais fôlego. Que saudade daquele meu aniversário em que a velinha não acendia de jeito nenhum. Depois de acesa, por mais que eu soprasse ela não apagava nunca, o foguinho sempre voltava. Como rimos juntos!

– Parabéns!

Ufa! Lembrou.

– Parabéns pela crônica! Amei, apesar de ter uma passagem que me fez chorar.

Lembro-me das suas lágrimas quando não pude mais ficar. Escorriam como dois riachos sem destino e sem consolo. Minha passagem a fez chorar... passei e não fiquei quando ela queria que eu ficasse. Agora é ela quem passa e eu quero que fique sem ela poder. Tudo é passagem. Meu aniversário também é passagem. Daqui a algumas horas não será mais meu aniversário.

– Bem, já vou indo.

– Some não.

– Tenho saído pouco.

E desci a avenida como uma lágrima sem destino e sem consolo.

 

Hoje à noite, amigos e amigas irão lá em casa para o meu aniversário. Levarão presentes e eu abrirei cada um, com gratidão, alegria e carinho. Mas ficará, no canto da minha lembrança, um presente que um dia ganhei e jamais abri. Um presente que floriu, encantou, riu, chorou... e foi embora.

Prejuízo

13 de Setembro de 2013, por José Antônio 0

Tem coisas que a vida avisa. Meu primo me contou que se preparava pra viajar no dia seguinte. Pois na véspera, ele teve enxaqueca. Tudo bem, você pode até dizer que isso foi por causa do stress da viagem, da pressão do compromisso... Mas o meu primo jamais tem dor de cabeça. Só duas ou três durante todos os anos que está vivendo.

Além disso, a chave quebrou dentro da fechadura quando ele chegou do trabalho e foi abrir a porta de casa. Queimou a mão na frigideira ao fritar – junto com a mão – um ovo. Teve insônia (fato raríssimo em sua vida) e caiu durante o banho pela manhã.

Resolveu não viajar.

Não aconteceu nada com o avião onde ele estaria. De duas uma: foi tudo cisma dele ou o azar estava realmente com ele e seria transportado para o avião, que cairia bem no meio de uma tribo de antropófagos, cujo maior sonho é o de se alimentar de gente que cai das nuvens.

A vida avisa.

E foi ela que avisou naquele sábado quando eu e o Mário Márcio fizemos um show no Salão Paroquial de Resende Costa. Pela manhã, realizamos o nosso último ensaio com som, lá no salão mesmo. O som era do Túlio Daher, e se chamava Prisma. Dividíamos o espaço com os incontáveis pombos que moravam por lá.

 No meio do ensaio, chegou o Padre João Rodrigues e um homem que nunca mais vi. Carregavam uma escada comprida e pararam no meio do salão. Mário e eu continuamos a cantar. O som estava alto e não ouvíamos o que os dois diziam. Padre João apontava para cima e, pelas feições, reclamava bastante. O homem escutava com atenção. Logo a seguir, aprumou a longa escada, que ia até o forro do salão. Aos poucos, ele foi subindo, subindo... e não olhei mais, pois precisava ensaiar.

De repente, Padre João, lá da plateia, começou a me dizer coisas que eu não entendia. O som alto, o Túlio com fone de ouvido e de costas, o Mário também cantando... Pensei que Padre João estava dizendo que a música era bonita, que o espetáculo prometia... Mas o padre ficava cada vez mais angustiado e vermelho.

Comecei a perceber que ele ensaiava uns passos de dança aos pés da escada e sorri animado para o Mário. Estávamos contagiando antes mesmo do show começar. Foi aí que eu entendi que o Padre João estava era desesperado. A escada escorregava e ele tentava, sozinho, segurá-la.

Então, o inevitável aconteceu. A escada perdeu o apoio e o homem despencou lá de cima trazendo uns vinte pombos voando com ele. Caiu também um gato que, por sinal, mostrou-se bastante constrangido e revoltado.

E foi todo mundo embora: o padre e o homem carregando a escada, os pombos, Mário, eu, o Túlio... e o gato. Esse último ainda olhou pra trás, em nossa direção, e fez um fzzzzzzzzzz com raiva.

À noite, o show foi um fracasso. Quase ninguém compareceu. Na plateia, nem gato pingado tinha, pois o gato já havia pingado de manhã.

 Quando terminou o show, Mário e eu fomos pegar a renda. Você acredita, leitor, que roubaram o nosso dinheiro num momento de distração do rapaz que estava na bilheteria? Não havia um centavo sequer.

Suspeitas? Nenhuma. Mas o rapaz da bilheteria jurou que durante todo o show ele viu um gato rondando por ali.

 

... suspeito... bastante suspeito.

Centésima

14 de Agosto de 2013, por José Antônio 0

Cem vezes.

Pois é, leitor, eu teci cem crônicas e mais de cem tônicas nessa nossa centena de encontros mensais. Em cada um desses nossos cem encontros, eu roubei minutos de seu olhar, risos tímidos do canto de sua boca, gargalhadas que lutavam contra o fôlego, lágrimas furtivas com medo de escorrer...

Roubei tudo isso de você. Mas roubei sem levar, pois todas essas coisas já eram minhas também: afinal, a literatura sempre nos faz um só.

No entanto, você também roubou de mim: roubou meu sossego diante da palavra não escrita... roubou minha calma quando eu vi que meu texto precisava de leitor... roubou minha lua quando eu corri atrás de estrelas para costurar constelações sem céu, pois até o céu eu tive que inventar algumas vezes.

Cem crônicas...

Cem roubos, cem arroubos. Tudo em mão dupla. Essa dupla mão que me escreve e que escreve você, essa dupla mão que faz do sentido algo de parceria cúmplice.

Ladrão que rouba ladrão... porém, eu não quero os cem anos de perdão.

Cem vezes.

Cem meses.

Isso dá oito anos e oito meses. Quase gestei o nono ano.

Cem vezes escrevi. Mais de cem vezes reescrevi. Muito mais de cem vezes reli.

Aos poucos, fui aprendendo o diferente... e o igual de forma diferente.

Cem crônicas.

Cem pautas. Sem faltas. Respondi à chamada de cada mês e dei presença a tantas coisas que passaram. Lembrança virou ficção. Ficção virou saudade. Saudade virou verdade. Verdade virou pelo avesso, mostrando os porões da minha alma e os andaimes da sua fragilidade, leitor.

Para conseguir isso, o coração tem que ser multidão e a alma tem que ser solidão. Enquanto o coração distribui a crônica em 365 momentos, a alma singulariza todos eles no solitário momento da criação. São 365 pedaços de um ano de solidão.

Cem crônicas.

Cem anos sendo roubado por sua leitura, leitor, para que seu coração fique ainda mais coletivo. Cem anos roubando a sua solidão, leitor, para que a minha solidão fique ainda mais só.

Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de solidão.

Minha centésima crônica no Jornal das Lajes...

Hoje à noite, vou comemorar com as minhas cem filhas de papel vivo. Em cada uma delas, o sangue canta e a alma escorre. Vou abrir um vinho e tomar um porre de ânimo para mais cem histórias.

Não nasci em Resende Costa, mas cada uma de minhas crônicas aqui é como se fosse um gameta tentando perfurar a membrana de pedra do óvulo das Lajes. Pouco a pouco, vou me fazendo feto sempre aprendiz dessa terra boa.

Lembranças

09 de Julho de 2013, por José Antônio 0

O fluxo da memória... Será que memória tem fluxo? Tem nada! A memória é um lago profundo e misterioso no qual as lembranças aparecem e afundam... para depois aparecerem outra vez, acompanhadas de outras lembranças.

Fecho os olhos e respiro fundo. Emergem em mim algumas lembranças. Ainda estão vivas, não se afogaram no abismo negro do esquecimento. Molhadas de memória, essas lembranças respingam momentos de um 1988 tão longe, tão perto... 1988 da nova Constituição Brasileira, do assassinato de Chico Mendes, do surgimento do Tocantins e o Brasil ganhava ainda mais dois estados: Amapá e Roraima.

Também foi o ano em que eu estava à beira de uma piscina no churrasco de formatura de um terceiro ano do Assis Resende. Professores e alunos, confraternização alegre com sol, cerveja, carne e música.

Lembro-me de que o Mário Márcio cantava ao violão qualquer coisa que falava de água. Acho que era o Djavan: Você deságua em mim e eu oceano... Logo depois, o Mário cantou Sá e Guarabira: O sertão vai virar mar... Debaixo dágua lá se vai a vida inteira... Nem bem acabou essa e o Mário emendou mais uma que falava de água: Águas que banham aldeias e matam a sede da população... Terra! Planeta Água... Só música que falava de água. Até parece que o Mário tinha dormido com uma sereia.

Aquilo parecia um aviso. E foi.

Eu conversava com uma das alunas quando alguém empurrou a garota na piscina... e a coitada não sabia nadar! Ela se agarrou forte em mim para não cair. E caímos os dois.

Na água, a menina era toda pavor: puxava meu cabelo, batia os braços na minha cara, esmurrava a água, chutava a minha barriga e me levava cada vez mais para o fundo, travando meus movimentos. Eu não podia fazer nada, pois tinha que me desvencilhar dos ataques dela justamente para ajudá-la... ao mesmo tempo em que também tinha que segurar minha sunga, que já estava quase no joelho.

Foi um desespero. O Mário parou de cantar e, dentro da piscina, aquele dueto horroroso, mico de duas notas musicais: eu gritava com dó e a menina fora de si.

Por fim, um grupo entrou na água e resgatou a desesperada. Fiquei sozinho na piscina por um bom tempo. Engoli muita água. Precisava relaxar a barriga e apertar a sunga.

Fechei os olhos e respirei fundo. Ao abrir novamente os olhos, estou aqui e agora, tão distante daquele tempo. Mas a lembrança dele teima em emergir no lago da minha memória.

Minhas lembranças, tantas lembranças. Algumas nadam tranquilamente no lago da minha memória. Outras se debatem igual àquela garota, jogando angústia pra todo lado. Trato-as todas muito bem. Umas viram literatura e outras se vestem de causos.

Tenho que entender bem as lembranças, pois um dia eu também serei nada mais do que uma lembrança. E, como lembrança, quero nadar sereno no íntimo de quem se lembra de me amar. Mesmo que in memoriam.