Lagartixa
13 de Marco de 2012, por José Antônio 0
Aos poucos, comecei a perceber que estava sendo observado. No início, pensei que fosse apenas um incidente banal, desses que se encerram em si mesmos. Mas a coisa foi se repetindo sistematicamente.
Dois olhos arregalados passaram a observar meus movimentos. Era só eu chegar em casa, depois das aulas no Assis Resende, e já topava com ela no meu quarto. Paradinha. Não desgrudava os olhos de mim. Big Brother is watching you... Isso é lá com o George Orwell. No drama do meu quarto, Small lizard is watching me!
Tudo bem que era uma lagartixa, mas o seu olhar fixo e silencioso me incomodava. Uma vez, ela me deixou constrangido: me flagrou sem roupas. Em frente a ela, eu totalmente nu. Não sei se ela aprovava o que via, porém não tirava os olhos da minha nudez. Aquilo me deixou tão cismado que me vesti depressa e tratei de espantá-la do quarto. Xô, lagartixa voyeur!
Lembrei-me do Álvares de Azevedo: “A lagartixa ao sol ardente vive / E fazendo verão o corpo espicha: / O clarão de teus olhos me dá vida, / Tu és o sol e eu sou a lagartixa”.
Quem sabe, talvez a invasora noturna do meu quarto fosse uma romântica e ficasse repetindo os versos do Álvares de Azevedo enquanto me flertava. Só que ela não sabia fazer direito. Não se flerta de modo tão invasivo. O flerte é, sim, invasivo. Porém, o olhar do flerte invade num dinamismo ao mesmo tempo suave e arrebatador. Revela e esconde, vem e vai... para depois voltar.
Além disso, ela fazia justamente o contrário do meu olhar sobre Resende Costa: tratava-se de uma lagartixa me observando, ao passo que nas minhas crônicas eu é que observo as lagartixas... (Brincadeirinha!!!)
As noites foram se somando até que a lagartixa não apareceu mais. Onde ela teria se metido? Seria uma espiã e agora, de posse das informações que desejava, não precisava me observar mais? Sumiu. Deixou de dar as caras.
Foi numa madrugada. Eu teimava insone com as palavras, em busca de um pingo de literatura que pudesse tingir o meu papel. Minha caneta caiu e rolou para debaixo da cama. Puxei-a e veio algo junto: a lagartixa. Imóvel e com os olhos estatelados. Estava morta.
Acho que entendi o que ela quis me dizer durante todo esse tempo me olhando enquanto estava viva. Também eu, de tanto observar as coisas, um dia ainda vou morrer agarrado à escrita e com os olhos arregalados e impotentes (talvez sem lágrimas) diante do desfecho da vida... espanto que seduz e oprime.
Dois olhos arregalados passaram a observar meus movimentos. Era só eu chegar em casa, depois das aulas no Assis Resende, e já topava com ela no meu quarto. Paradinha. Não desgrudava os olhos de mim. Big Brother is watching you... Isso é lá com o George Orwell. No drama do meu quarto, Small lizard is watching me!
Tudo bem que era uma lagartixa, mas o seu olhar fixo e silencioso me incomodava. Uma vez, ela me deixou constrangido: me flagrou sem roupas. Em frente a ela, eu totalmente nu. Não sei se ela aprovava o que via, porém não tirava os olhos da minha nudez. Aquilo me deixou tão cismado que me vesti depressa e tratei de espantá-la do quarto. Xô, lagartixa voyeur!
Lembrei-me do Álvares de Azevedo: “A lagartixa ao sol ardente vive / E fazendo verão o corpo espicha: / O clarão de teus olhos me dá vida, / Tu és o sol e eu sou a lagartixa”.
Quem sabe, talvez a invasora noturna do meu quarto fosse uma romântica e ficasse repetindo os versos do Álvares de Azevedo enquanto me flertava. Só que ela não sabia fazer direito. Não se flerta de modo tão invasivo. O flerte é, sim, invasivo. Porém, o olhar do flerte invade num dinamismo ao mesmo tempo suave e arrebatador. Revela e esconde, vem e vai... para depois voltar.
Além disso, ela fazia justamente o contrário do meu olhar sobre Resende Costa: tratava-se de uma lagartixa me observando, ao passo que nas minhas crônicas eu é que observo as lagartixas... (Brincadeirinha!!!)
As noites foram se somando até que a lagartixa não apareceu mais. Onde ela teria se metido? Seria uma espiã e agora, de posse das informações que desejava, não precisava me observar mais? Sumiu. Deixou de dar as caras.
Foi numa madrugada. Eu teimava insone com as palavras, em busca de um pingo de literatura que pudesse tingir o meu papel. Minha caneta caiu e rolou para debaixo da cama. Puxei-a e veio algo junto: a lagartixa. Imóvel e com os olhos estatelados. Estava morta.
Acho que entendi o que ela quis me dizer durante todo esse tempo me olhando enquanto estava viva. Também eu, de tanto observar as coisas, um dia ainda vou morrer agarrado à escrita e com os olhos arregalados e impotentes (talvez sem lágrimas) diante do desfecho da vida... espanto que seduz e oprime.
Com classe
13 de Fevereiro de 2012, por José Antônio 0
Tinha circo na cidade.
Resende Costa recebia um circo de porte – digamos – considerável. Bailarina dançava no arame, macaco fazia estripulias, trapezistas cruzavam os ares, equilibrista menosprezava a gravidade, palhaços matavam de rir, cachorrinho ensinado fazia pipi no peniquinho... Esse último era o xodó do circo. Todo mundo saía de lá comentando. E mais: leão e elefante dando as caras na República das Lajes.
Era emoção demais. E o ingresso, ó: desse tamanhinho!
Como o contágio era geral, meus alunos do Assis Resende também ficaram eriçados, todos ansiando por um lugarzinho sob a lona. Queriam ver, pelo menos, o tal do cachorrinho fazendo pipi no peniquinho.
E foram. E me deixaram. E mataram a última aula antes da prova de literatura. E fizeram uma péssima prova.
Surgiram as mais variadas justificativas para as ausências à aula, todas ligadas a problemas de saúde. Parecia que o circo prestava também serviços hospitalares. Teve gente que disse ter cortado o dedo mínimo em três lugares... deve ter sobrado somente a unha. Outra me disse ter sofrido uma tremenda dor de cabeça. Houve um que justificou sua ausência dizendo que tinha dado uma sessão de vômito. Crise de vômito ainda vai, mas... sessão de vômito? Onde teria sido a sessão? No teatro? Vai ver que compraram ingresso para ver o fulano mostrar, numa sessão, como é que vomita.
Pois é, só que na semana seguinte teve outra prova. E todo mundo afundou outra vez, pois a primeira prova era a base da segunda. Na aula em que dei o retorno da segunda prova, todos estavam na sala, inclusive os amantes do picadeiro. Comentei a prova e fiz oralmente as perguntas dela. Ninguém respondia, não sabiam nada. Claro que não podiam responder: tinham preferido o circo.
Comecei a perder a paciência:
– Vamos, gente! Respondam! Por que o romance explora esse tipo de argumento?
Nada.
Foi aí que me veio um repente e bradei, num tom de convocação geral:
– Trapezistas! Bailarinas! Domadores! Mágicos! Respondam!
Todos me olharam surpresos e a gargalhada foi geral.
Para quebrar o galho da turma, dei naquela noite mesmo um pequeno exercício valendo menos pontos para ajudar. Nem bem a turma começou, um rapaz se levantou lá do fundo com o exercício na mão. Chegou com o papel em branco para mim e me falou baixinho:
– Pode pegar. Eu não vou fazer. Questão de honestidade. Eu não deveria ter matado a aula para ir ao circo.
E foi embora.
O rapaz era honesto. Fez a porcaria e saiu-se com classe. Aprendeu direitinho com o cachorrinho que fazia pipi no peniquinho.
Resende Costa recebia um circo de porte – digamos – considerável. Bailarina dançava no arame, macaco fazia estripulias, trapezistas cruzavam os ares, equilibrista menosprezava a gravidade, palhaços matavam de rir, cachorrinho ensinado fazia pipi no peniquinho... Esse último era o xodó do circo. Todo mundo saía de lá comentando. E mais: leão e elefante dando as caras na República das Lajes.
Era emoção demais. E o ingresso, ó: desse tamanhinho!
Como o contágio era geral, meus alunos do Assis Resende também ficaram eriçados, todos ansiando por um lugarzinho sob a lona. Queriam ver, pelo menos, o tal do cachorrinho fazendo pipi no peniquinho.
E foram. E me deixaram. E mataram a última aula antes da prova de literatura. E fizeram uma péssima prova.
Surgiram as mais variadas justificativas para as ausências à aula, todas ligadas a problemas de saúde. Parecia que o circo prestava também serviços hospitalares. Teve gente que disse ter cortado o dedo mínimo em três lugares... deve ter sobrado somente a unha. Outra me disse ter sofrido uma tremenda dor de cabeça. Houve um que justificou sua ausência dizendo que tinha dado uma sessão de vômito. Crise de vômito ainda vai, mas... sessão de vômito? Onde teria sido a sessão? No teatro? Vai ver que compraram ingresso para ver o fulano mostrar, numa sessão, como é que vomita.
Pois é, só que na semana seguinte teve outra prova. E todo mundo afundou outra vez, pois a primeira prova era a base da segunda. Na aula em que dei o retorno da segunda prova, todos estavam na sala, inclusive os amantes do picadeiro. Comentei a prova e fiz oralmente as perguntas dela. Ninguém respondia, não sabiam nada. Claro que não podiam responder: tinham preferido o circo.
Comecei a perder a paciência:
– Vamos, gente! Respondam! Por que o romance explora esse tipo de argumento?
Nada.
Foi aí que me veio um repente e bradei, num tom de convocação geral:
– Trapezistas! Bailarinas! Domadores! Mágicos! Respondam!
Todos me olharam surpresos e a gargalhada foi geral.
Para quebrar o galho da turma, dei naquela noite mesmo um pequeno exercício valendo menos pontos para ajudar. Nem bem a turma começou, um rapaz se levantou lá do fundo com o exercício na mão. Chegou com o papel em branco para mim e me falou baixinho:
– Pode pegar. Eu não vou fazer. Questão de honestidade. Eu não deveria ter matado a aula para ir ao circo.
E foi embora.
O rapaz era honesto. Fez a porcaria e saiu-se com classe. Aprendeu direitinho com o cachorrinho que fazia pipi no peniquinho.
Vida nova
10 de Janeiro de 2012, por José Antônio 0
Mensagens, e-mails, abraços... tudo desejando que em 2012 os meus sonhos se realizem. Confesso que andei falando isso para algumas pessoas também. Nada de mais em esperar alegrias. Porém, esperar essas coisas somente no último dia do ano é de menos.
E vem toda aquela coisa de certas pessoas ficarem deprimidas nas festas de fim de ano. Fica lá o cara com a taça de champanhe na mão, chorando e abraçando quem aparecer na frente, todo de branco. Típica deprê do fantasminha beberrão.
Essa tristeza, pelo que venho pesquisando em meus arquivos de cotidianidade nas mais cretinas enciclopédias do empirismo, aparece porque o indivíduo assume o seguinte lema no réveillon: Eu TENHO que ser feliz no ano que está começando.
Ano Novo, vida nova!
... mas é agora que você assume isso? No último dia do ano que está acabando? Você teve 364 dias inteirinhos para construir realizações. E aposta na alegria somente no último minuto do último dia?
Não são fogos iluminando o céu que vão trazer a felicidade... Pirotecnia das ilusões coloridas...
Não são beijos na boca que vão buscar a alegria. Ósculos fugidios nos lábios da euforia...
Não são bebedeiras que vão instaurar a tranquilidade. Pobre paz afogada no porre...
Não são pulinhos nas ondas à meia-noite que vão garantir os bons ventos do Ano Novo. Ao final das ondas, o naufrágio das expectativas...
Não são sementes de romã que vão fazer germinar a fartura no ano que começa. O estômago não é terra fértil para esse tipo de plantio...
No réveillon, muitos dos candidatos à felicidade olham para o Ano Velho como se estivessem se livrando de um fardo pesado e inútil: Xô, Ano Velho! Vá embora, Ano Velho!
Se o ano que passou tivesse sido um espaço e um tempo de construção da alegria, da paz, da saúde e da fartura, então os fogos de artifício, os beijos na boca, os brindes, os pulinhos nas ondas e as sementes de romã seriam consequências felizes de uma consciência tranquila, e não um salto no abismo sádico das esperanças sem raiz.
E não cantaríamos “Adeus, Ano Velho” e sim “Obrigado, Ano Velho... Feliz Ano Novo!”
Nada de especial no ano que começa. Os dias continuarão com as mesmas horas, a mídia continuará com as mesmas estratégias, alegrias aparecerão, lágrimas rolarão... O que deve ser especial, arrebatador, emocionante e alegre é o meu entusiasmo comigo mesmo, o meu compromisso de sempre fazer de mim uma edição renovada e revisada de acordo com as novas regras do acordo existencial. Esse tipo de comprometimento tem que ser todos os dias.
O réveillon nos lembra essas coisas, porém jamais vai garanti-las.
Cabe-nos escolher: a euforia do momento ou a alegria para além do momento.
E vem toda aquela coisa de certas pessoas ficarem deprimidas nas festas de fim de ano. Fica lá o cara com a taça de champanhe na mão, chorando e abraçando quem aparecer na frente, todo de branco. Típica deprê do fantasminha beberrão.
Essa tristeza, pelo que venho pesquisando em meus arquivos de cotidianidade nas mais cretinas enciclopédias do empirismo, aparece porque o indivíduo assume o seguinte lema no réveillon: Eu TENHO que ser feliz no ano que está começando.
Ano Novo, vida nova!
... mas é agora que você assume isso? No último dia do ano que está acabando? Você teve 364 dias inteirinhos para construir realizações. E aposta na alegria somente no último minuto do último dia?
Não são fogos iluminando o céu que vão trazer a felicidade... Pirotecnia das ilusões coloridas...
Não são beijos na boca que vão buscar a alegria. Ósculos fugidios nos lábios da euforia...
Não são bebedeiras que vão instaurar a tranquilidade. Pobre paz afogada no porre...
Não são pulinhos nas ondas à meia-noite que vão garantir os bons ventos do Ano Novo. Ao final das ondas, o naufrágio das expectativas...
Não são sementes de romã que vão fazer germinar a fartura no ano que começa. O estômago não é terra fértil para esse tipo de plantio...
No réveillon, muitos dos candidatos à felicidade olham para o Ano Velho como se estivessem se livrando de um fardo pesado e inútil: Xô, Ano Velho! Vá embora, Ano Velho!
Se o ano que passou tivesse sido um espaço e um tempo de construção da alegria, da paz, da saúde e da fartura, então os fogos de artifício, os beijos na boca, os brindes, os pulinhos nas ondas e as sementes de romã seriam consequências felizes de uma consciência tranquila, e não um salto no abismo sádico das esperanças sem raiz.
E não cantaríamos “Adeus, Ano Velho” e sim “Obrigado, Ano Velho... Feliz Ano Novo!”
Nada de especial no ano que começa. Os dias continuarão com as mesmas horas, a mídia continuará com as mesmas estratégias, alegrias aparecerão, lágrimas rolarão... O que deve ser especial, arrebatador, emocionante e alegre é o meu entusiasmo comigo mesmo, o meu compromisso de sempre fazer de mim uma edição renovada e revisada de acordo com as novas regras do acordo existencial. Esse tipo de comprometimento tem que ser todos os dias.
O réveillon nos lembra essas coisas, porém jamais vai garanti-las.
Cabe-nos escolher: a euforia do momento ou a alegria para além do momento.
As amigas ocultas
13 de Dezembro de 2011, por José Antônio 0
Há momentos em que procuro a crônica e ela aparece. Vem dócil e pressurosa, ágil e promissora de coisas em que nem cheguei a pensar. Porém, há momentos diferentes: caço a crônica. Eu me armo de caneta e papel, revisto-me da técnica e convoco inspirações... mas nada de crônica. Talvez ela se assuste com todo o meu aparato. Ela gosta da simplicidade espontânea dos momentos sutis.
Ontem à noite, eu entrei no restaurante de costume e me instalei na minha mesa de costume. Fiz força para a crônica aparecer: armei-me, revesti-me, convoquei... mas nada de crônica.
Havia apenas eu e mais um grupo de mulheres, um pouco à minha frente. Falavam muito e as gargalhadas eram constantes. Um jantar de confraternização.
Tentava me concentrar na ausência do meu texto, mas meu olhar e meu ouvido deslizavam para os movimentos e as vozes das donzelas alegres e barulhentas. A bem da verdade, o que elas falavam tinham algo de criativo e jovial, típico da alma feminina quando se esquece das amarras do dia a dia.
No meio da conversa, uma delas propôs:
– Vamos começar?
De repente, ao comando desta, todas puxaram bolsas e pacotes coloridos. Era um jantar de amigo oculto.
– Eu começo!
O silêncio se fez e uma plateia improvisada se colocou atenta ao redor da mesa.
– A minha amiga oculta é uma pessoa especial. É nova na turma, ainda está em evolução...
As gargalhadas pipocaram. O presente foi entregue seguido de abraço, beijo e foto. A que ganhou o presente abriu e encantou-se com o que viu no embrulho. Não consegui descobrir o que era.
– Agora, eu. Bem, a minha amiga oculta um dia me chamou para morar em cima da casa dela. Vê se eu tenho cara de rato de sótão!
Mais gargalhadas. Mais um presente entregue, mas beijos, abraços e fotos.
– Bom, a minha amiga oculta é uma pessoa muito legal...
(Já reparou que todo amigo oculto é legal, especial, bonito e trabalhador? Uma pessoa assim não pode ficar oculta.)
– … é uma pessoa bonita, inteligente, trabalhadora...
– Uai! Eu de novo? – manifestou-se uma que já havia sido contemplada.
Mais risos.
Levantou-se uma: cabelo pretinho, rosto bonito e sorriso encantador. Elencou um rol de qualidades da sua amiga oculta enquanto eu, no meu canto, olhando para ela, elencava um outro rol de qualidades de musa. Mais abraços, presente, beijos e foto.
Todas presentearam e foram presenteadas. A conversa voltou a rolar solta e ruidosa, ao som de brindes, talheres e vozes em alarido. Mesmo mastigando, as bocas ainda encontravam espaço para as palavras.
Pedi a conta e fui embora. Não fui notado. Mas a missão do cronista não é ser notado, e sim notar. Notei e anotei. E saí de lá com a minha crônica prontinha. Ela chegou até mim e dispensou o que armei, revesti e convoquei. Veio espontânea e simples, cheia de vida e encanto, grande e terna, igual noiva entrando na igreja.
É assim que a minha crônica deve ser, do jeito que elas falaram: sempre nova na turma, em constante evolução, alegre espaço de confraternização de almas... Tudo do jeito que essas minhas amigas ocultas me mostraram. Elas, sem saber, pegaram em minha mão e traçaram as minhas linhas.
Ontem à noite, eu entrei no restaurante de costume e me instalei na minha mesa de costume. Fiz força para a crônica aparecer: armei-me, revesti-me, convoquei... mas nada de crônica.
Havia apenas eu e mais um grupo de mulheres, um pouco à minha frente. Falavam muito e as gargalhadas eram constantes. Um jantar de confraternização.
Tentava me concentrar na ausência do meu texto, mas meu olhar e meu ouvido deslizavam para os movimentos e as vozes das donzelas alegres e barulhentas. A bem da verdade, o que elas falavam tinham algo de criativo e jovial, típico da alma feminina quando se esquece das amarras do dia a dia.
No meio da conversa, uma delas propôs:
– Vamos começar?
De repente, ao comando desta, todas puxaram bolsas e pacotes coloridos. Era um jantar de amigo oculto.
– Eu começo!
O silêncio se fez e uma plateia improvisada se colocou atenta ao redor da mesa.
– A minha amiga oculta é uma pessoa especial. É nova na turma, ainda está em evolução...
As gargalhadas pipocaram. O presente foi entregue seguido de abraço, beijo e foto. A que ganhou o presente abriu e encantou-se com o que viu no embrulho. Não consegui descobrir o que era.
– Agora, eu. Bem, a minha amiga oculta um dia me chamou para morar em cima da casa dela. Vê se eu tenho cara de rato de sótão!
Mais gargalhadas. Mais um presente entregue, mas beijos, abraços e fotos.
– Bom, a minha amiga oculta é uma pessoa muito legal...
(Já reparou que todo amigo oculto é legal, especial, bonito e trabalhador? Uma pessoa assim não pode ficar oculta.)
– … é uma pessoa bonita, inteligente, trabalhadora...
– Uai! Eu de novo? – manifestou-se uma que já havia sido contemplada.
Mais risos.
Levantou-se uma: cabelo pretinho, rosto bonito e sorriso encantador. Elencou um rol de qualidades da sua amiga oculta enquanto eu, no meu canto, olhando para ela, elencava um outro rol de qualidades de musa. Mais abraços, presente, beijos e foto.
Todas presentearam e foram presenteadas. A conversa voltou a rolar solta e ruidosa, ao som de brindes, talheres e vozes em alarido. Mesmo mastigando, as bocas ainda encontravam espaço para as palavras.
Pedi a conta e fui embora. Não fui notado. Mas a missão do cronista não é ser notado, e sim notar. Notei e anotei. E saí de lá com a minha crônica prontinha. Ela chegou até mim e dispensou o que armei, revesti e convoquei. Veio espontânea e simples, cheia de vida e encanto, grande e terna, igual noiva entrando na igreja.
É assim que a minha crônica deve ser, do jeito que elas falaram: sempre nova na turma, em constante evolução, alegre espaço de confraternização de almas... Tudo do jeito que essas minhas amigas ocultas me mostraram. Elas, sem saber, pegaram em minha mão e traçaram as minhas linhas.
7 bilhões
11 de Novembro de 2011, por José Antônio 0
Somos sete bilhões de pessoas no mundo!!! Quando eu nasci – e nem tanto tempo faz, pelo menos assim eu prefiro acreditar – éramos três bilhões. De onde surgiram esses quatro bilhões, em tão pouco tempo? Dá o que pensar. E eu penso, logo existo, no meio dessa multidão...
Estima-se que 106 bilhões de pessoas já tenham vivido na terra, durante toda sua existência. Considerando que o homo sapiens teve origem cerca de 200 mil anos atrás, hoje, 6,6% de toda a humanidade está existindo em 0,0005% de sua história.
Quando se fala em bilhões eu logo penso em dinheiro. Deve ser porque eu, desde criança, ouvia falar dos bilionários, daqueles sujeitos que aparecem na Forbes. Lá só aparecem esses. Acredito que ganharei na mega-sena, sozinho, um prêmio acumulado, o prêmio da virada, embora esse seja apenas um prêmio milionário, mas que deve chegar a um quinto do bilhão. É que nunca ganhei nada e, desse modo, ainda não desperdicei minha sorte, muito menos meus quinze minutos de fama.
Falar em sorte, me veio um episódio entre mim e o Bichinho (lembram-se dele?). Pois certa vez ele veio me oferecer uma rifa de uma Variant (lembram-se dela?). Pois é, a rifa ia correr daí a uns quatro meses e eu fiquei de pagar depois. Mas o Bichinho começou a mandar os filhos me cobrarem lá em casa, todos os dias, cada dia um dos três, eu acho. Aquela cobrança me deixou tão injuriado (eu jamais tinha sido tão cobrado na minha vida!) que devolvi o bilhete. Adivinharam? Pois não é que era o bilhete premiado! Isso fora o fogão de ferro fundido que ele me vendeu e que eu deixei na casa dele por uns dias. Adivinharam? Quando fui buscar o fogão ele o tinha vendido para outro e fiquei a ver navios...
Teve também o caso da rifa de um Fiat 147 novinho que meu irmão estava vendendo, para juntar dinheiro para a formatura dele. Pois ele me pôs, calouro que eu era na faculdade, a vender os últimos bilhetes, senão ele teria de pagá-los, à véspera do sorteio. Adivinharam? Vendi o bilhete premiado, mais precisamente o último do talão.
É por isso que não reclamo, deve estar reservado algum prêmio bilionário, digo, milionário para mim.
Voltemos aos sete bilhões, aos 7 bilhões de pessoas. Ghandi disse que há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas, mas não há o suficiente para a ganância. É verdade! Ghandi também disse que todas as suas experiências lhe provaram que não existe outro deus que não a verdade. E essas verdades impõem uma escolha à humanidade: ou o suficiente ou a ganância. Ghandi era um otimista, ou seja, para ele a verdade estava na suficiência. Eu sou pessimista! O homem, creio, escolherá a ganância, ainda que não seja a melhor escolha, ainda que isso represente o seu fim. Só não sei quando a ganância, definitivamente, dominará a suficiência.
Veja que a fome até merece um “we are the world” de vez em quando, mas o que preocupa mesmo, o que está sendo notícia a todo instante é a bancarrota da Grécia. Se a África está repleta de famélicos, o mundo não se importa, porém, se o azeite, o vinho e o cordeiro estão ameaçados de sumir da mesa dos gregos, isso sim, é um desastre. O pior – neste caso, coitado dos gregos – é que o sacrifício dos gregos é para pagar banqueiros.
Somos sete bilhões, mas ainda dá para dar um “graças a Deus”. Afinal podemos nos refugiar em Resende Costa, mirando o horizonte do alto das lajes, longe da África e da Grécia, por enquanto. Eu até me dou ao luxo, digo melhor, vamos ser francos, ao egoísmo de me deitar (nu) na areia de uma praia fluvial do Rio Santo Antônio, isolado, só. Pior vai ficar quando, dizem, deixarmos de guerrear por petróleo para brigar por água...
Estima-se que 106 bilhões de pessoas já tenham vivido na terra, durante toda sua existência. Considerando que o homo sapiens teve origem cerca de 200 mil anos atrás, hoje, 6,6% de toda a humanidade está existindo em 0,0005% de sua história.
Quando se fala em bilhões eu logo penso em dinheiro. Deve ser porque eu, desde criança, ouvia falar dos bilionários, daqueles sujeitos que aparecem na Forbes. Lá só aparecem esses. Acredito que ganharei na mega-sena, sozinho, um prêmio acumulado, o prêmio da virada, embora esse seja apenas um prêmio milionário, mas que deve chegar a um quinto do bilhão. É que nunca ganhei nada e, desse modo, ainda não desperdicei minha sorte, muito menos meus quinze minutos de fama.
Falar em sorte, me veio um episódio entre mim e o Bichinho (lembram-se dele?). Pois certa vez ele veio me oferecer uma rifa de uma Variant (lembram-se dela?). Pois é, a rifa ia correr daí a uns quatro meses e eu fiquei de pagar depois. Mas o Bichinho começou a mandar os filhos me cobrarem lá em casa, todos os dias, cada dia um dos três, eu acho. Aquela cobrança me deixou tão injuriado (eu jamais tinha sido tão cobrado na minha vida!) que devolvi o bilhete. Adivinharam? Pois não é que era o bilhete premiado! Isso fora o fogão de ferro fundido que ele me vendeu e que eu deixei na casa dele por uns dias. Adivinharam? Quando fui buscar o fogão ele o tinha vendido para outro e fiquei a ver navios...
Teve também o caso da rifa de um Fiat 147 novinho que meu irmão estava vendendo, para juntar dinheiro para a formatura dele. Pois ele me pôs, calouro que eu era na faculdade, a vender os últimos bilhetes, senão ele teria de pagá-los, à véspera do sorteio. Adivinharam? Vendi o bilhete premiado, mais precisamente o último do talão.
É por isso que não reclamo, deve estar reservado algum prêmio bilionário, digo, milionário para mim.
Voltemos aos sete bilhões, aos 7 bilhões de pessoas. Ghandi disse que há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas, mas não há o suficiente para a ganância. É verdade! Ghandi também disse que todas as suas experiências lhe provaram que não existe outro deus que não a verdade. E essas verdades impõem uma escolha à humanidade: ou o suficiente ou a ganância. Ghandi era um otimista, ou seja, para ele a verdade estava na suficiência. Eu sou pessimista! O homem, creio, escolherá a ganância, ainda que não seja a melhor escolha, ainda que isso represente o seu fim. Só não sei quando a ganância, definitivamente, dominará a suficiência.
Veja que a fome até merece um “we are the world” de vez em quando, mas o que preocupa mesmo, o que está sendo notícia a todo instante é a bancarrota da Grécia. Se a África está repleta de famélicos, o mundo não se importa, porém, se o azeite, o vinho e o cordeiro estão ameaçados de sumir da mesa dos gregos, isso sim, é um desastre. O pior – neste caso, coitado dos gregos – é que o sacrifício dos gregos é para pagar banqueiros.
Somos sete bilhões, mas ainda dá para dar um “graças a Deus”. Afinal podemos nos refugiar em Resende Costa, mirando o horizonte do alto das lajes, longe da África e da Grécia, por enquanto. Eu até me dou ao luxo, digo melhor, vamos ser francos, ao egoísmo de me deitar (nu) na areia de uma praia fluvial do Rio Santo Antônio, isolado, só. Pior vai ficar quando, dizem, deixarmos de guerrear por petróleo para brigar por água...