Perguntas de renascer
09 de Abril de 2012, por José Antônio 0
Resende Costa... quase sou daqui. Metade de mim é laje, a outra metade é longe. E quanto mais te vejo, cidade quase minha, mais te pergunto para te recriar. Cada pergunta que te faço me leva a promessas e ensaios de respostas que ora vêm vestidas de humor, ora vêm com roupa de poesia.
Por baixo da roupagem, a mesma nudez de sempre: uma cidade e suas esquinas... uma cidade e seus becos e montes... uma cidade e seu povo e prosa... uma cidade... e eu.
E eu te pergunto, cidade. Pergunto para te ver diferente na linguagem que ousa sentidos outros.
O muro que o Beira Muro beira é muro de arrimo? O que há por trás do muro que o Beira Muro beira?
É de zinco ou de alvenaria o Barracão? Quantas pessoas cabem no Barracão? Pelas frestas do teto do Barracão, como alguém já cantou, dá pra ver as estrelas?
O que entra pelo Buraco do Inferno? O que sai pelo Buraco do Inferno? Não entra nem sai nada do Buraco do Inferno? Então o capeta tem o orifício entupido?
Qual é a melodia dos Quatro Cantos? O que os Quatro Cantos cantam? É um diapasão para cada um dos ângulos? Os Quatro Cantos fazem uma polifonia de esquinas?
Onde está o campo do Parque do Campo? Onde estão os brinquedos, as crianças, o alarido do parque do Parque do Campo? Qual é o parque? Qual é o campo?
A Rua Sete fica entre a Rua Seis e a Rua Oito? Seis e oito não são quatorze? E sete não é o meio de quatorze? Então? A Rua Sete não está realmente no meio da Rua Seis e da Rua Oito?
Os pintos do curralinho ciscam com força? Não é perigoso? No Curralinho dos Pintos, qual o pinto que é mais ralinho?
Já fizeram terraços com as lajes daqui? Já colocaram as lajes no ponto mais alto das casas? Ou não precisa, pois elas já estão no alto? As lajes das Lajes são pedras ou são mirantes do infinito?
E o Morro do Chapéu? Cobre a cabeça de quem? Quem o esqueceu ali, ao longe? Alguém que tirou o chapéu para a cidade e foi embora? O Morro do Chapéu, com aquele seu jeitão de pirâmide do Egito, não seria um faraó das montanhas?
Sabe aquela luz que todo mundo fala que aparecia por aqui, assustando as pessoas de madrugada? Pois é, cadê a luz? Por que ninguém mais fala dela? Por que não aparece mais? Queimou? Ou era apenas um sol atrasado, correndo para não perder a hora de amanhecer outros lugares?
Eu te pergunto, Resende Costa... e me respondes em cada madrugada que me invade, em cada saudade que me acaricia, em cada amor que me ressuscita. E com isso tudo vou tecendo auroras. Pego um pingo de luz e jogo nas perguntas que te faço. Aos poucos, o arrebol... e te vejo renascida, Resende de Costa e de Frente, Resende Costa renascida quando eu brinco de perguntar.
Por baixo da roupagem, a mesma nudez de sempre: uma cidade e suas esquinas... uma cidade e seus becos e montes... uma cidade e seu povo e prosa... uma cidade... e eu.
E eu te pergunto, cidade. Pergunto para te ver diferente na linguagem que ousa sentidos outros.
O muro que o Beira Muro beira é muro de arrimo? O que há por trás do muro que o Beira Muro beira?
É de zinco ou de alvenaria o Barracão? Quantas pessoas cabem no Barracão? Pelas frestas do teto do Barracão, como alguém já cantou, dá pra ver as estrelas?
O que entra pelo Buraco do Inferno? O que sai pelo Buraco do Inferno? Não entra nem sai nada do Buraco do Inferno? Então o capeta tem o orifício entupido?
Qual é a melodia dos Quatro Cantos? O que os Quatro Cantos cantam? É um diapasão para cada um dos ângulos? Os Quatro Cantos fazem uma polifonia de esquinas?
Onde está o campo do Parque do Campo? Onde estão os brinquedos, as crianças, o alarido do parque do Parque do Campo? Qual é o parque? Qual é o campo?
A Rua Sete fica entre a Rua Seis e a Rua Oito? Seis e oito não são quatorze? E sete não é o meio de quatorze? Então? A Rua Sete não está realmente no meio da Rua Seis e da Rua Oito?
Os pintos do curralinho ciscam com força? Não é perigoso? No Curralinho dos Pintos, qual o pinto que é mais ralinho?
Já fizeram terraços com as lajes daqui? Já colocaram as lajes no ponto mais alto das casas? Ou não precisa, pois elas já estão no alto? As lajes das Lajes são pedras ou são mirantes do infinito?
E o Morro do Chapéu? Cobre a cabeça de quem? Quem o esqueceu ali, ao longe? Alguém que tirou o chapéu para a cidade e foi embora? O Morro do Chapéu, com aquele seu jeitão de pirâmide do Egito, não seria um faraó das montanhas?
Sabe aquela luz que todo mundo fala que aparecia por aqui, assustando as pessoas de madrugada? Pois é, cadê a luz? Por que ninguém mais fala dela? Por que não aparece mais? Queimou? Ou era apenas um sol atrasado, correndo para não perder a hora de amanhecer outros lugares?
Eu te pergunto, Resende Costa... e me respondes em cada madrugada que me invade, em cada saudade que me acaricia, em cada amor que me ressuscita. E com isso tudo vou tecendo auroras. Pego um pingo de luz e jogo nas perguntas que te faço. Aos poucos, o arrebol... e te vejo renascida, Resende de Costa e de Frente, Resende Costa renascida quando eu brinco de perguntar.
Lagartixa
13 de Marco de 2012, por José Antônio 0
Aos poucos, comecei a perceber que estava sendo observado. No início, pensei que fosse apenas um incidente banal, desses que se encerram em si mesmos. Mas a coisa foi se repetindo sistematicamente.
Dois olhos arregalados passaram a observar meus movimentos. Era só eu chegar em casa, depois das aulas no Assis Resende, e já topava com ela no meu quarto. Paradinha. Não desgrudava os olhos de mim. Big Brother is watching you... Isso é lá com o George Orwell. No drama do meu quarto, Small lizard is watching me!
Tudo bem que era uma lagartixa, mas o seu olhar fixo e silencioso me incomodava. Uma vez, ela me deixou constrangido: me flagrou sem roupas. Em frente a ela, eu totalmente nu. Não sei se ela aprovava o que via, porém não tirava os olhos da minha nudez. Aquilo me deixou tão cismado que me vesti depressa e tratei de espantá-la do quarto. Xô, lagartixa voyeur!
Lembrei-me do Álvares de Azevedo: “A lagartixa ao sol ardente vive / E fazendo verão o corpo espicha: / O clarão de teus olhos me dá vida, / Tu és o sol e eu sou a lagartixa”.
Quem sabe, talvez a invasora noturna do meu quarto fosse uma romântica e ficasse repetindo os versos do Álvares de Azevedo enquanto me flertava. Só que ela não sabia fazer direito. Não se flerta de modo tão invasivo. O flerte é, sim, invasivo. Porém, o olhar do flerte invade num dinamismo ao mesmo tempo suave e arrebatador. Revela e esconde, vem e vai... para depois voltar.
Além disso, ela fazia justamente o contrário do meu olhar sobre Resende Costa: tratava-se de uma lagartixa me observando, ao passo que nas minhas crônicas eu é que observo as lagartixas... (Brincadeirinha!!!)
As noites foram se somando até que a lagartixa não apareceu mais. Onde ela teria se metido? Seria uma espiã e agora, de posse das informações que desejava, não precisava me observar mais? Sumiu. Deixou de dar as caras.
Foi numa madrugada. Eu teimava insone com as palavras, em busca de um pingo de literatura que pudesse tingir o meu papel. Minha caneta caiu e rolou para debaixo da cama. Puxei-a e veio algo junto: a lagartixa. Imóvel e com os olhos estatelados. Estava morta.
Acho que entendi o que ela quis me dizer durante todo esse tempo me olhando enquanto estava viva. Também eu, de tanto observar as coisas, um dia ainda vou morrer agarrado à escrita e com os olhos arregalados e impotentes (talvez sem lágrimas) diante do desfecho da vida... espanto que seduz e oprime.
Dois olhos arregalados passaram a observar meus movimentos. Era só eu chegar em casa, depois das aulas no Assis Resende, e já topava com ela no meu quarto. Paradinha. Não desgrudava os olhos de mim. Big Brother is watching you... Isso é lá com o George Orwell. No drama do meu quarto, Small lizard is watching me!
Tudo bem que era uma lagartixa, mas o seu olhar fixo e silencioso me incomodava. Uma vez, ela me deixou constrangido: me flagrou sem roupas. Em frente a ela, eu totalmente nu. Não sei se ela aprovava o que via, porém não tirava os olhos da minha nudez. Aquilo me deixou tão cismado que me vesti depressa e tratei de espantá-la do quarto. Xô, lagartixa voyeur!
Lembrei-me do Álvares de Azevedo: “A lagartixa ao sol ardente vive / E fazendo verão o corpo espicha: / O clarão de teus olhos me dá vida, / Tu és o sol e eu sou a lagartixa”.
Quem sabe, talvez a invasora noturna do meu quarto fosse uma romântica e ficasse repetindo os versos do Álvares de Azevedo enquanto me flertava. Só que ela não sabia fazer direito. Não se flerta de modo tão invasivo. O flerte é, sim, invasivo. Porém, o olhar do flerte invade num dinamismo ao mesmo tempo suave e arrebatador. Revela e esconde, vem e vai... para depois voltar.
Além disso, ela fazia justamente o contrário do meu olhar sobre Resende Costa: tratava-se de uma lagartixa me observando, ao passo que nas minhas crônicas eu é que observo as lagartixas... (Brincadeirinha!!!)
As noites foram se somando até que a lagartixa não apareceu mais. Onde ela teria se metido? Seria uma espiã e agora, de posse das informações que desejava, não precisava me observar mais? Sumiu. Deixou de dar as caras.
Foi numa madrugada. Eu teimava insone com as palavras, em busca de um pingo de literatura que pudesse tingir o meu papel. Minha caneta caiu e rolou para debaixo da cama. Puxei-a e veio algo junto: a lagartixa. Imóvel e com os olhos estatelados. Estava morta.
Acho que entendi o que ela quis me dizer durante todo esse tempo me olhando enquanto estava viva. Também eu, de tanto observar as coisas, um dia ainda vou morrer agarrado à escrita e com os olhos arregalados e impotentes (talvez sem lágrimas) diante do desfecho da vida... espanto que seduz e oprime.
Com classe
13 de Fevereiro de 2012, por José Antônio 0
Tinha circo na cidade.
Resende Costa recebia um circo de porte – digamos – considerável. Bailarina dançava no arame, macaco fazia estripulias, trapezistas cruzavam os ares, equilibrista menosprezava a gravidade, palhaços matavam de rir, cachorrinho ensinado fazia pipi no peniquinho... Esse último era o xodó do circo. Todo mundo saía de lá comentando. E mais: leão e elefante dando as caras na República das Lajes.
Era emoção demais. E o ingresso, ó: desse tamanhinho!
Como o contágio era geral, meus alunos do Assis Resende também ficaram eriçados, todos ansiando por um lugarzinho sob a lona. Queriam ver, pelo menos, o tal do cachorrinho fazendo pipi no peniquinho.
E foram. E me deixaram. E mataram a última aula antes da prova de literatura. E fizeram uma péssima prova.
Surgiram as mais variadas justificativas para as ausências à aula, todas ligadas a problemas de saúde. Parecia que o circo prestava também serviços hospitalares. Teve gente que disse ter cortado o dedo mínimo em três lugares... deve ter sobrado somente a unha. Outra me disse ter sofrido uma tremenda dor de cabeça. Houve um que justificou sua ausência dizendo que tinha dado uma sessão de vômito. Crise de vômito ainda vai, mas... sessão de vômito? Onde teria sido a sessão? No teatro? Vai ver que compraram ingresso para ver o fulano mostrar, numa sessão, como é que vomita.
Pois é, só que na semana seguinte teve outra prova. E todo mundo afundou outra vez, pois a primeira prova era a base da segunda. Na aula em que dei o retorno da segunda prova, todos estavam na sala, inclusive os amantes do picadeiro. Comentei a prova e fiz oralmente as perguntas dela. Ninguém respondia, não sabiam nada. Claro que não podiam responder: tinham preferido o circo.
Comecei a perder a paciência:
– Vamos, gente! Respondam! Por que o romance explora esse tipo de argumento?
Nada.
Foi aí que me veio um repente e bradei, num tom de convocação geral:
– Trapezistas! Bailarinas! Domadores! Mágicos! Respondam!
Todos me olharam surpresos e a gargalhada foi geral.
Para quebrar o galho da turma, dei naquela noite mesmo um pequeno exercício valendo menos pontos para ajudar. Nem bem a turma começou, um rapaz se levantou lá do fundo com o exercício na mão. Chegou com o papel em branco para mim e me falou baixinho:
– Pode pegar. Eu não vou fazer. Questão de honestidade. Eu não deveria ter matado a aula para ir ao circo.
E foi embora.
O rapaz era honesto. Fez a porcaria e saiu-se com classe. Aprendeu direitinho com o cachorrinho que fazia pipi no peniquinho.
Resende Costa recebia um circo de porte – digamos – considerável. Bailarina dançava no arame, macaco fazia estripulias, trapezistas cruzavam os ares, equilibrista menosprezava a gravidade, palhaços matavam de rir, cachorrinho ensinado fazia pipi no peniquinho... Esse último era o xodó do circo. Todo mundo saía de lá comentando. E mais: leão e elefante dando as caras na República das Lajes.
Era emoção demais. E o ingresso, ó: desse tamanhinho!
Como o contágio era geral, meus alunos do Assis Resende também ficaram eriçados, todos ansiando por um lugarzinho sob a lona. Queriam ver, pelo menos, o tal do cachorrinho fazendo pipi no peniquinho.
E foram. E me deixaram. E mataram a última aula antes da prova de literatura. E fizeram uma péssima prova.
Surgiram as mais variadas justificativas para as ausências à aula, todas ligadas a problemas de saúde. Parecia que o circo prestava também serviços hospitalares. Teve gente que disse ter cortado o dedo mínimo em três lugares... deve ter sobrado somente a unha. Outra me disse ter sofrido uma tremenda dor de cabeça. Houve um que justificou sua ausência dizendo que tinha dado uma sessão de vômito. Crise de vômito ainda vai, mas... sessão de vômito? Onde teria sido a sessão? No teatro? Vai ver que compraram ingresso para ver o fulano mostrar, numa sessão, como é que vomita.
Pois é, só que na semana seguinte teve outra prova. E todo mundo afundou outra vez, pois a primeira prova era a base da segunda. Na aula em que dei o retorno da segunda prova, todos estavam na sala, inclusive os amantes do picadeiro. Comentei a prova e fiz oralmente as perguntas dela. Ninguém respondia, não sabiam nada. Claro que não podiam responder: tinham preferido o circo.
Comecei a perder a paciência:
– Vamos, gente! Respondam! Por que o romance explora esse tipo de argumento?
Nada.
Foi aí que me veio um repente e bradei, num tom de convocação geral:
– Trapezistas! Bailarinas! Domadores! Mágicos! Respondam!
Todos me olharam surpresos e a gargalhada foi geral.
Para quebrar o galho da turma, dei naquela noite mesmo um pequeno exercício valendo menos pontos para ajudar. Nem bem a turma começou, um rapaz se levantou lá do fundo com o exercício na mão. Chegou com o papel em branco para mim e me falou baixinho:
– Pode pegar. Eu não vou fazer. Questão de honestidade. Eu não deveria ter matado a aula para ir ao circo.
E foi embora.
O rapaz era honesto. Fez a porcaria e saiu-se com classe. Aprendeu direitinho com o cachorrinho que fazia pipi no peniquinho.
Vida nova
10 de Janeiro de 2012, por José Antônio 0
Mensagens, e-mails, abraços... tudo desejando que em 2012 os meus sonhos se realizem. Confesso que andei falando isso para algumas pessoas também. Nada de mais em esperar alegrias. Porém, esperar essas coisas somente no último dia do ano é de menos.
E vem toda aquela coisa de certas pessoas ficarem deprimidas nas festas de fim de ano. Fica lá o cara com a taça de champanhe na mão, chorando e abraçando quem aparecer na frente, todo de branco. Típica deprê do fantasminha beberrão.
Essa tristeza, pelo que venho pesquisando em meus arquivos de cotidianidade nas mais cretinas enciclopédias do empirismo, aparece porque o indivíduo assume o seguinte lema no réveillon: Eu TENHO que ser feliz no ano que está começando.
Ano Novo, vida nova!
... mas é agora que você assume isso? No último dia do ano que está acabando? Você teve 364 dias inteirinhos para construir realizações. E aposta na alegria somente no último minuto do último dia?
Não são fogos iluminando o céu que vão trazer a felicidade... Pirotecnia das ilusões coloridas...
Não são beijos na boca que vão buscar a alegria. Ósculos fugidios nos lábios da euforia...
Não são bebedeiras que vão instaurar a tranquilidade. Pobre paz afogada no porre...
Não são pulinhos nas ondas à meia-noite que vão garantir os bons ventos do Ano Novo. Ao final das ondas, o naufrágio das expectativas...
Não são sementes de romã que vão fazer germinar a fartura no ano que começa. O estômago não é terra fértil para esse tipo de plantio...
No réveillon, muitos dos candidatos à felicidade olham para o Ano Velho como se estivessem se livrando de um fardo pesado e inútil: Xô, Ano Velho! Vá embora, Ano Velho!
Se o ano que passou tivesse sido um espaço e um tempo de construção da alegria, da paz, da saúde e da fartura, então os fogos de artifício, os beijos na boca, os brindes, os pulinhos nas ondas e as sementes de romã seriam consequências felizes de uma consciência tranquila, e não um salto no abismo sádico das esperanças sem raiz.
E não cantaríamos “Adeus, Ano Velho” e sim “Obrigado, Ano Velho... Feliz Ano Novo!”
Nada de especial no ano que começa. Os dias continuarão com as mesmas horas, a mídia continuará com as mesmas estratégias, alegrias aparecerão, lágrimas rolarão... O que deve ser especial, arrebatador, emocionante e alegre é o meu entusiasmo comigo mesmo, o meu compromisso de sempre fazer de mim uma edição renovada e revisada de acordo com as novas regras do acordo existencial. Esse tipo de comprometimento tem que ser todos os dias.
O réveillon nos lembra essas coisas, porém jamais vai garanti-las.
Cabe-nos escolher: a euforia do momento ou a alegria para além do momento.
E vem toda aquela coisa de certas pessoas ficarem deprimidas nas festas de fim de ano. Fica lá o cara com a taça de champanhe na mão, chorando e abraçando quem aparecer na frente, todo de branco. Típica deprê do fantasminha beberrão.
Essa tristeza, pelo que venho pesquisando em meus arquivos de cotidianidade nas mais cretinas enciclopédias do empirismo, aparece porque o indivíduo assume o seguinte lema no réveillon: Eu TENHO que ser feliz no ano que está começando.
Ano Novo, vida nova!
... mas é agora que você assume isso? No último dia do ano que está acabando? Você teve 364 dias inteirinhos para construir realizações. E aposta na alegria somente no último minuto do último dia?
Não são fogos iluminando o céu que vão trazer a felicidade... Pirotecnia das ilusões coloridas...
Não são beijos na boca que vão buscar a alegria. Ósculos fugidios nos lábios da euforia...
Não são bebedeiras que vão instaurar a tranquilidade. Pobre paz afogada no porre...
Não são pulinhos nas ondas à meia-noite que vão garantir os bons ventos do Ano Novo. Ao final das ondas, o naufrágio das expectativas...
Não são sementes de romã que vão fazer germinar a fartura no ano que começa. O estômago não é terra fértil para esse tipo de plantio...
No réveillon, muitos dos candidatos à felicidade olham para o Ano Velho como se estivessem se livrando de um fardo pesado e inútil: Xô, Ano Velho! Vá embora, Ano Velho!
Se o ano que passou tivesse sido um espaço e um tempo de construção da alegria, da paz, da saúde e da fartura, então os fogos de artifício, os beijos na boca, os brindes, os pulinhos nas ondas e as sementes de romã seriam consequências felizes de uma consciência tranquila, e não um salto no abismo sádico das esperanças sem raiz.
E não cantaríamos “Adeus, Ano Velho” e sim “Obrigado, Ano Velho... Feliz Ano Novo!”
Nada de especial no ano que começa. Os dias continuarão com as mesmas horas, a mídia continuará com as mesmas estratégias, alegrias aparecerão, lágrimas rolarão... O que deve ser especial, arrebatador, emocionante e alegre é o meu entusiasmo comigo mesmo, o meu compromisso de sempre fazer de mim uma edição renovada e revisada de acordo com as novas regras do acordo existencial. Esse tipo de comprometimento tem que ser todos os dias.
O réveillon nos lembra essas coisas, porém jamais vai garanti-las.
Cabe-nos escolher: a euforia do momento ou a alegria para além do momento.
As amigas ocultas
13 de Dezembro de 2011, por José Antônio 0
Há momentos em que procuro a crônica e ela aparece. Vem dócil e pressurosa, ágil e promissora de coisas em que nem cheguei a pensar. Porém, há momentos diferentes: caço a crônica. Eu me armo de caneta e papel, revisto-me da técnica e convoco inspirações... mas nada de crônica. Talvez ela se assuste com todo o meu aparato. Ela gosta da simplicidade espontânea dos momentos sutis.
Ontem à noite, eu entrei no restaurante de costume e me instalei na minha mesa de costume. Fiz força para a crônica aparecer: armei-me, revesti-me, convoquei... mas nada de crônica.
Havia apenas eu e mais um grupo de mulheres, um pouco à minha frente. Falavam muito e as gargalhadas eram constantes. Um jantar de confraternização.
Tentava me concentrar na ausência do meu texto, mas meu olhar e meu ouvido deslizavam para os movimentos e as vozes das donzelas alegres e barulhentas. A bem da verdade, o que elas falavam tinham algo de criativo e jovial, típico da alma feminina quando se esquece das amarras do dia a dia.
No meio da conversa, uma delas propôs:
– Vamos começar?
De repente, ao comando desta, todas puxaram bolsas e pacotes coloridos. Era um jantar de amigo oculto.
– Eu começo!
O silêncio se fez e uma plateia improvisada se colocou atenta ao redor da mesa.
– A minha amiga oculta é uma pessoa especial. É nova na turma, ainda está em evolução...
As gargalhadas pipocaram. O presente foi entregue seguido de abraço, beijo e foto. A que ganhou o presente abriu e encantou-se com o que viu no embrulho. Não consegui descobrir o que era.
– Agora, eu. Bem, a minha amiga oculta um dia me chamou para morar em cima da casa dela. Vê se eu tenho cara de rato de sótão!
Mais gargalhadas. Mais um presente entregue, mas beijos, abraços e fotos.
– Bom, a minha amiga oculta é uma pessoa muito legal...
(Já reparou que todo amigo oculto é legal, especial, bonito e trabalhador? Uma pessoa assim não pode ficar oculta.)
– … é uma pessoa bonita, inteligente, trabalhadora...
– Uai! Eu de novo? – manifestou-se uma que já havia sido contemplada.
Mais risos.
Levantou-se uma: cabelo pretinho, rosto bonito e sorriso encantador. Elencou um rol de qualidades da sua amiga oculta enquanto eu, no meu canto, olhando para ela, elencava um outro rol de qualidades de musa. Mais abraços, presente, beijos e foto.
Todas presentearam e foram presenteadas. A conversa voltou a rolar solta e ruidosa, ao som de brindes, talheres e vozes em alarido. Mesmo mastigando, as bocas ainda encontravam espaço para as palavras.
Pedi a conta e fui embora. Não fui notado. Mas a missão do cronista não é ser notado, e sim notar. Notei e anotei. E saí de lá com a minha crônica prontinha. Ela chegou até mim e dispensou o que armei, revesti e convoquei. Veio espontânea e simples, cheia de vida e encanto, grande e terna, igual noiva entrando na igreja.
É assim que a minha crônica deve ser, do jeito que elas falaram: sempre nova na turma, em constante evolução, alegre espaço de confraternização de almas... Tudo do jeito que essas minhas amigas ocultas me mostraram. Elas, sem saber, pegaram em minha mão e traçaram as minhas linhas.
Ontem à noite, eu entrei no restaurante de costume e me instalei na minha mesa de costume. Fiz força para a crônica aparecer: armei-me, revesti-me, convoquei... mas nada de crônica.
Havia apenas eu e mais um grupo de mulheres, um pouco à minha frente. Falavam muito e as gargalhadas eram constantes. Um jantar de confraternização.
Tentava me concentrar na ausência do meu texto, mas meu olhar e meu ouvido deslizavam para os movimentos e as vozes das donzelas alegres e barulhentas. A bem da verdade, o que elas falavam tinham algo de criativo e jovial, típico da alma feminina quando se esquece das amarras do dia a dia.
No meio da conversa, uma delas propôs:
– Vamos começar?
De repente, ao comando desta, todas puxaram bolsas e pacotes coloridos. Era um jantar de amigo oculto.
– Eu começo!
O silêncio se fez e uma plateia improvisada se colocou atenta ao redor da mesa.
– A minha amiga oculta é uma pessoa especial. É nova na turma, ainda está em evolução...
As gargalhadas pipocaram. O presente foi entregue seguido de abraço, beijo e foto. A que ganhou o presente abriu e encantou-se com o que viu no embrulho. Não consegui descobrir o que era.
– Agora, eu. Bem, a minha amiga oculta um dia me chamou para morar em cima da casa dela. Vê se eu tenho cara de rato de sótão!
Mais gargalhadas. Mais um presente entregue, mas beijos, abraços e fotos.
– Bom, a minha amiga oculta é uma pessoa muito legal...
(Já reparou que todo amigo oculto é legal, especial, bonito e trabalhador? Uma pessoa assim não pode ficar oculta.)
– … é uma pessoa bonita, inteligente, trabalhadora...
– Uai! Eu de novo? – manifestou-se uma que já havia sido contemplada.
Mais risos.
Levantou-se uma: cabelo pretinho, rosto bonito e sorriso encantador. Elencou um rol de qualidades da sua amiga oculta enquanto eu, no meu canto, olhando para ela, elencava um outro rol de qualidades de musa. Mais abraços, presente, beijos e foto.
Todas presentearam e foram presenteadas. A conversa voltou a rolar solta e ruidosa, ao som de brindes, talheres e vozes em alarido. Mesmo mastigando, as bocas ainda encontravam espaço para as palavras.
Pedi a conta e fui embora. Não fui notado. Mas a missão do cronista não é ser notado, e sim notar. Notei e anotei. E saí de lá com a minha crônica prontinha. Ela chegou até mim e dispensou o que armei, revesti e convoquei. Veio espontânea e simples, cheia de vida e encanto, grande e terna, igual noiva entrando na igreja.
É assim que a minha crônica deve ser, do jeito que elas falaram: sempre nova na turma, em constante evolução, alegre espaço de confraternização de almas... Tudo do jeito que essas minhas amigas ocultas me mostraram. Elas, sem saber, pegaram em minha mão e traçaram as minhas linhas.