Novos tempos
12 de Setembro de 2012, por José Antônio 0
Não posso sair pelas ruas e todos vêm ao meu encontro. Ando recebendo abraços efusivos de gente que mal me cumprimentava. De repente, pessoas que jamais pronunciavam meu nome agora me tratam diferente. Já vi alguns que interromperam ligações no celular especialmente para me saudar com a cara mais prazerosa do mundo. Gente que passava por mim com cara amarrada agora até me lança sorrisos de dentro do carro.
Ontem, uma me parou e me disse que minha contribuição para com a cidade é imensa. (E eu que sempre achei que faço tão pouco pela minha cidade... tão pouco que ninguém nunca havia falado nada!). Há pessoas que passaram a frequentar a minha casa, procuram por mim, dizem coisas de um passado maravilhoso e mágico, de uma infância em conjunto, de pureza, amizade e travessuras... Mas confesso que não me lembro dessas pessoas na minha infância, até mesmo porque não morei nas cidades de onde elas vieram.
E pedem para eu não me esquecer delas... e pedem para eu dar ideias para a cidade ficar melhor... e perguntam por parentes meus que já morreram, mandam abraços para conhecidos que não conheço, elogiam coisas que jamais fiz.
Olhei ao redor e vi que outras coisas ficaram importantes também. Os velórios passaram a ficar lotados. Os defuntos passaram a ser canonizados. As alças de caixão viraram tesouro disputado.
Missas e festividades religiosas... Que bonito ver tanta gente que raramente entrava numa igreja agora rezando, aplaudindo, participando, ajoelhando... Gente comungando, gente carregando bíblia, gente em procissões... a conversão é geral!
De uma hora pra outra, o ser humano descobriu a caridade. E toca homens e mulheres carregando pobres para os hospitais, comprando remédios para os desvalidos, distribuindo cestas básicas, frutas, ovos, legumes, verduras, roupas. O novo tempo chegou.
É bonito ver rostos produzidos e sorridentes espalhados pela cidade, pelos jornais, pelos cartazes. A alegria é a tônica desse novo tempo. Tomara que dure para sempre. Hoje de manhã, uma dessas pessoas que inexplicavelmente se tornaram anjos da cidadania me deu um papel com o seu retrato. Atrás, uma lista de promessas para melhorar a educação, a saúde, a segurança pública. Quanto desprendimento! Quanto amor pelo próximo! Não é à toa que a palavra candidato vem do latim (candidus, isto é, “puro”). Quantos candidatos! Quantos corações cândidos movidos pela pureza das intenções de melhorar a vida dos cidadãos!
Olhei para o papelzinho mais uma vez e demorei-me no sorriso daquele candidato ao desprendimento e ao trabalho social. Sua candura me tocou tanto que eu também quis fazer a minha parte para com a cidade: resolvi contribuir com a limpeza urbana e joguei o papelzinho no lixo.
Ontem, uma me parou e me disse que minha contribuição para com a cidade é imensa. (E eu que sempre achei que faço tão pouco pela minha cidade... tão pouco que ninguém nunca havia falado nada!). Há pessoas que passaram a frequentar a minha casa, procuram por mim, dizem coisas de um passado maravilhoso e mágico, de uma infância em conjunto, de pureza, amizade e travessuras... Mas confesso que não me lembro dessas pessoas na minha infância, até mesmo porque não morei nas cidades de onde elas vieram.
E pedem para eu não me esquecer delas... e pedem para eu dar ideias para a cidade ficar melhor... e perguntam por parentes meus que já morreram, mandam abraços para conhecidos que não conheço, elogiam coisas que jamais fiz.
Olhei ao redor e vi que outras coisas ficaram importantes também. Os velórios passaram a ficar lotados. Os defuntos passaram a ser canonizados. As alças de caixão viraram tesouro disputado.
Missas e festividades religiosas... Que bonito ver tanta gente que raramente entrava numa igreja agora rezando, aplaudindo, participando, ajoelhando... Gente comungando, gente carregando bíblia, gente em procissões... a conversão é geral!
De uma hora pra outra, o ser humano descobriu a caridade. E toca homens e mulheres carregando pobres para os hospitais, comprando remédios para os desvalidos, distribuindo cestas básicas, frutas, ovos, legumes, verduras, roupas. O novo tempo chegou.
É bonito ver rostos produzidos e sorridentes espalhados pela cidade, pelos jornais, pelos cartazes. A alegria é a tônica desse novo tempo. Tomara que dure para sempre. Hoje de manhã, uma dessas pessoas que inexplicavelmente se tornaram anjos da cidadania me deu um papel com o seu retrato. Atrás, uma lista de promessas para melhorar a educação, a saúde, a segurança pública. Quanto desprendimento! Quanto amor pelo próximo! Não é à toa que a palavra candidato vem do latim (candidus, isto é, “puro”). Quantos candidatos! Quantos corações cândidos movidos pela pureza das intenções de melhorar a vida dos cidadãos!
Olhei para o papelzinho mais uma vez e demorei-me no sorriso daquele candidato ao desprendimento e ao trabalho social. Sua candura me tocou tanto que eu também quis fazer a minha parte para com a cidade: resolvi contribuir com a limpeza urbana e joguei o papelzinho no lixo.
Tropel
13 de Agosto de 2012, por José Antônio 0
O tropel sempre deixa o ouvinte de orelha em pé. Com cadência ou sem cadência, ele pisa o suspense e espezinha o ouvido. Você está sozinho em casa à noite. De repente, passos. O arrepio começa a gelar o seu sangue e você sente os seus pelos se eriçarem. É o terrível tropel atropelando e atrapalhando a sua paz.
Dá medo o tropel. Ainda mais quando os passos vêm do desconhecido. Até o misterioso anda... O misterioso também caminha, e caminhar é sair de um lugar para chegar a um outro. Muitas vezes, o que assusta não é o lugar para onde se vai, mas o durante da caminhada. Nesse durante, há o escorregão, há o cansaço, há o tombo, há o tropeço... há o tropel.
Era uma sexta-feira de 1986. A noite baforava seu hálito gelado em cada canto do Assis Resende. Os ossos pareciam gelo e as articulações estavam petrificadas. Difícil escrever. Difícil ficar quieto na carteira, o jeito era falar e se mexer, pois o degelo era geral. Tentei baixar o volume da conversa dos alunos, estavam falando muito alto. Até fiz ameaças para se calarem, quase virei urso polar. Sem resultado. Voltei para a mesa com cara de iglu. E a conversa comendo feio.
Até que ele chegou. De mansinho, mas ameaçador. Calmo, mas firme. Cadenciado num gélido suspense. O tropel!
Aos poucos, os ecos do arrepio invadiram a sala de aula. Aluno por aluno foi se calando enquanto dirigiam o olhar para a janela. Estabeleceu-se um silêncio de cautela para aguardar quem desfilava seu tropel pelo corredor. E o tropel chegando.
Então, comecei a ouvir sussurros aflitos entre as carteiras:
– A Dona Eunice! A Dona Eunice! É a Dona Eunice! Ssshhhh!!!
E o tropel avançando em direção à sala de aula. Os olhos todos cravados no vão da janela, já antecipando a passagem da diretora que usava salto. Ssshhhh!!!
O tropel parou bem perto da janela. Todos engoliram seco. Eu não engoli seco porque consegui ficar molhado de suor. O tropel continuou, veio vindo, veio vindo e... apareceu na janela o Jósimo. Usava botas com um salto estridente. Ele já tinha dado a sua aula e estava me procurando para oferecer carona pra São João.
Todos respiraram aliviados:
– Ah!... É o Jósimo... Não é a Dona Eunice...
É por isso, leitor, que minha crônica sai. É por isso, leitora, que meu poema vai. Eu costumo ouvir o tropel. E encaro quem chega. Às vezes, é a dor com tropel de alegria... às vezes, é a alegria com tropel de medo... às vezes, é o medo com tropel de mistério... No fim, eu acabo seguindo o meu próprio tropel, tão meu, tão seu, tão nosso, nos caminhos que a palavra desbrava no papel. Tropel de papel... é preciso fazer silêncio para senti-lo. Ssshhhh!!!
Dá medo o tropel. Ainda mais quando os passos vêm do desconhecido. Até o misterioso anda... O misterioso também caminha, e caminhar é sair de um lugar para chegar a um outro. Muitas vezes, o que assusta não é o lugar para onde se vai, mas o durante da caminhada. Nesse durante, há o escorregão, há o cansaço, há o tombo, há o tropeço... há o tropel.
Era uma sexta-feira de 1986. A noite baforava seu hálito gelado em cada canto do Assis Resende. Os ossos pareciam gelo e as articulações estavam petrificadas. Difícil escrever. Difícil ficar quieto na carteira, o jeito era falar e se mexer, pois o degelo era geral. Tentei baixar o volume da conversa dos alunos, estavam falando muito alto. Até fiz ameaças para se calarem, quase virei urso polar. Sem resultado. Voltei para a mesa com cara de iglu. E a conversa comendo feio.
Até que ele chegou. De mansinho, mas ameaçador. Calmo, mas firme. Cadenciado num gélido suspense. O tropel!
Aos poucos, os ecos do arrepio invadiram a sala de aula. Aluno por aluno foi se calando enquanto dirigiam o olhar para a janela. Estabeleceu-se um silêncio de cautela para aguardar quem desfilava seu tropel pelo corredor. E o tropel chegando.
Então, comecei a ouvir sussurros aflitos entre as carteiras:
– A Dona Eunice! A Dona Eunice! É a Dona Eunice! Ssshhhh!!!
E o tropel avançando em direção à sala de aula. Os olhos todos cravados no vão da janela, já antecipando a passagem da diretora que usava salto. Ssshhhh!!!
O tropel parou bem perto da janela. Todos engoliram seco. Eu não engoli seco porque consegui ficar molhado de suor. O tropel continuou, veio vindo, veio vindo e... apareceu na janela o Jósimo. Usava botas com um salto estridente. Ele já tinha dado a sua aula e estava me procurando para oferecer carona pra São João.
Todos respiraram aliviados:
– Ah!... É o Jósimo... Não é a Dona Eunice...
É por isso, leitor, que minha crônica sai. É por isso, leitora, que meu poema vai. Eu costumo ouvir o tropel. E encaro quem chega. Às vezes, é a dor com tropel de alegria... às vezes, é a alegria com tropel de medo... às vezes, é o medo com tropel de mistério... No fim, eu acabo seguindo o meu próprio tropel, tão meu, tão seu, tão nosso, nos caminhos que a palavra desbrava no papel. Tropel de papel... é preciso fazer silêncio para senti-lo. Ssshhhh!!!
Quilo de feijão
12 de Julho de 2012, por José Antônio 0
Se arrependimento autoral matasse, muita gente famosa mandaria suas frases pro limbo. Para escapar das pressões puritanas da sociedade de seu tempo, Flaubert teve que se explicar quanto ao seu então escandaloso “Madame Bovary”. E aí, coitado, o jeito foi botar batom e saia na sua justificativa: Madame Bovary sou eu!... de bigodão e tudo. Quase que ele passou para a história de Flaubert para Florbela!!!
E o D. Pedro I? Independência ou morte!... berrou o gajo. Até hoje a gente não sabe se o resultado foi a independência ou a morte. O nosso dublê de libertador deve ter se arrependido de outra: “Se é para o bem de todose felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico.”E ele ficou longe. E ainda deixou por aqui um menor abandonado sentado no trono.
As personagens femininas que eu crio ainda não me obrigaram a vestir saia. Também ainda não gritei frases tresloucadas para meia dúzia de gatos pingados no meio do mato e perto de um riachozinho sem graça. Porém, também sou autor de frases estranhas que me feriram as entranhas. Uma delas veio de um convite do Mário Márcio.
– É um casamento, Zé. Chamaram a gente pra fazer uma seresta na véspera.
Acabei aceitando, mesmo não sabendo quem era a nubente da madrugada. Perto de meia-noite, aquela turma em frente à janela da moça.
– Quem é que mora aqui, Mário?
– A noiva, ué!
– Eu sei, Mário. Mas quem é a noiva?
– É a irmã do...
De repente, alguém começou a cantar sem esperar os violões e tivemos que ir atrás pra achar o tom. Fiquei tão preocupado em fazer a coisa direito que até me esqueci de olhar pra janela. E fiquei sem saber quem era a noiva. No fim, a família da moça convidou todo mundo para um lanche... tudo combinado!
Fiquei do lado de fora guardando o meu violão.
– Você não vai entrar?
Era uma garota simpática que me falava sorrindo, lá da porta.
– Não, obrigado. Amanhã eu me levanto antes do sol.
– Obrigada pela música. Foi tudo maravilhoso.
Querendo ser engraçado, pari esta pérola que deveria ter sido abortada:
– Diga à noiva que todo casamento termina na festa da despedida. Depois, é só despedida da festa. Você já parou pra pensar no preço do quilo do feijão?
Ela me olhou séria:
– O recado já está dado. Eu sou a noiva.
Não enfiei a viola no saco porque o violão já estava guardado. Saí mais sem graça do que miss quando cai sentada.
Depois de tantos anos, eu a vi num supermercado, com marido e filhos. Fiquei perto deles na fila do caixa. Ela não me reconheceu. Pude ouvir a conversa do casal:
– Não peguei o feijão.
– Então vai lá e pega, pô! Não temos o dia inteiro. Vai depressa antes que aumentem o danado do preço. Você já viu o preço do quilo do feijão?
Até hoje eu fico matutando. Será que eles já estavam vivendo a despedida da festa? Ou a minha frase seria apenas um zumbi a mais nas minhas lembranças?
Casamento... talvez o casamento seja realmente uma coisa boa. Opa! Senti um arrepio. Você já parou pra pensar no preço do quilo do feijão?
E o D. Pedro I? Independência ou morte!... berrou o gajo. Até hoje a gente não sabe se o resultado foi a independência ou a morte. O nosso dublê de libertador deve ter se arrependido de outra: “Se é para o bem de todose felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico.”E ele ficou longe. E ainda deixou por aqui um menor abandonado sentado no trono.
As personagens femininas que eu crio ainda não me obrigaram a vestir saia. Também ainda não gritei frases tresloucadas para meia dúzia de gatos pingados no meio do mato e perto de um riachozinho sem graça. Porém, também sou autor de frases estranhas que me feriram as entranhas. Uma delas veio de um convite do Mário Márcio.
– É um casamento, Zé. Chamaram a gente pra fazer uma seresta na véspera.
Acabei aceitando, mesmo não sabendo quem era a nubente da madrugada. Perto de meia-noite, aquela turma em frente à janela da moça.
– Quem é que mora aqui, Mário?
– A noiva, ué!
– Eu sei, Mário. Mas quem é a noiva?
– É a irmã do...
De repente, alguém começou a cantar sem esperar os violões e tivemos que ir atrás pra achar o tom. Fiquei tão preocupado em fazer a coisa direito que até me esqueci de olhar pra janela. E fiquei sem saber quem era a noiva. No fim, a família da moça convidou todo mundo para um lanche... tudo combinado!
Fiquei do lado de fora guardando o meu violão.
– Você não vai entrar?
Era uma garota simpática que me falava sorrindo, lá da porta.
– Não, obrigado. Amanhã eu me levanto antes do sol.
– Obrigada pela música. Foi tudo maravilhoso.
Querendo ser engraçado, pari esta pérola que deveria ter sido abortada:
– Diga à noiva que todo casamento termina na festa da despedida. Depois, é só despedida da festa. Você já parou pra pensar no preço do quilo do feijão?
Ela me olhou séria:
– O recado já está dado. Eu sou a noiva.
Não enfiei a viola no saco porque o violão já estava guardado. Saí mais sem graça do que miss quando cai sentada.
Depois de tantos anos, eu a vi num supermercado, com marido e filhos. Fiquei perto deles na fila do caixa. Ela não me reconheceu. Pude ouvir a conversa do casal:
– Não peguei o feijão.
– Então vai lá e pega, pô! Não temos o dia inteiro. Vai depressa antes que aumentem o danado do preço. Você já viu o preço do quilo do feijão?
Até hoje eu fico matutando. Será que eles já estavam vivendo a despedida da festa? Ou a minha frase seria apenas um zumbi a mais nas minhas lembranças?
Casamento... talvez o casamento seja realmente uma coisa boa. Opa! Senti um arrepio. Você já parou pra pensar no preço do quilo do feijão?
Numa tarde de quarta-feira
13 de Junho de 2012, por José Antônio 0
Meu jantar com uma amiga foi interrompido por um telefonema. Afastei o garfo da boca e aproximei o telefone do ouvido.
- Claro... com prazer. Eu vou... quarta-feira eu posso... sim...
Era a professora Gagaça me convidando para falar a seus alunos sobre o meu ofício da crônica, lá no Assis Resende.
Falar o quê? Muita coisa minha eu deixo por escrito. É só ler. Mas queriam a presença do cronista, a voz do cronista, o cheiro do cronista, os gestos do cronista. Queriam o corpo do cronista.
Aí é que estava o problema: o corpo. Quando escrevo, coloco o meu corpo nas palavras. À medida que avanço pelas linhas, meu corpo acompanha emprestando coisas que são dele: lágrimas, suor, desejo, calor, olhar, voz... e o toque da minha mão sobre o papel. Não sei escrever sem a carona do meu corpo. E agora eu teria que levar o meu corpo sem a escrita. Isso aleijaria a minha expressividade.
– Sabe, Zé, eles querem ver o autor de perto, ver que o escritor não é de outro mundo...
Mas acontece que eu sou de outro mundo. Ouço vozes de bocas que não estão perto de mim, vejo cenas que já se vestiram de jamais, sinto coisas já velhas conhecidas e que destilam mistérios... É maluco, mas é assim.
Cheguei ao Assis Resende no meio da tarde de uma quarta-feira. Olhos adolescentes me devoravam com uma curiosidade ansiosa. Fui recebido com honras que não mereço e vi, ao longo das paredes, minhas crônicas afixadas. Vi também um varal com as páginas de um livro meu. Aquilo tudo me fez sentir algo molhado e quente forçando minhas pálpebras de dentro para fora.
Uma aluna e um aluno leram duas crônicas minhas e outra menina cantou ao violão. Saudades das minhas madrugadas sem manhãs, serestas nas lajes...
– Agora, o nosso convidado vai falar!
Todos em silêncio, esperando que o cronista falasse alguma coisa que valesse a pena. E o meu corpo ali... mas cadê a escrita? Resolvi, então, falar em forma de crônica. E a palestra foi uma crônica oral. Meu corpo acompanhou os movimentos do meu dizer e experimentei a vertigem das frases e dos silêncios que em mim caíam e se levantavam. A garotada também emprestou seu corpo ao meu texto, e vi lágrimas furtivas, sorrisos de canto de boca, gargalhadas honestas, olhares entre si e vozes que faziam perguntas.
No fim, ainda usaram as mãos para baterem uma na outra e me entregaram um aplauso. Aplaudi junto, pois eles foram co-autores do que ali construí.
Pedi o violão e cantei uma última canção, deixando meus olhos caírem em olhos que fugiam dos meus e em olhos que recebiam com doçura o meu olhar.
– Nós queremos lhe dar um presente.
Não poderia ser outra coisa: uma caneta.
Fui embora carregando dentro de mim umas doses de alegria quieta.
O tempo passou e a caneta ficou guardada até hoje, pois foi hoje que a tirei do estojo e fiz essa crônica. E é hoje, ontem, amanhã e sempre que cada rosto que me ouviu ficará afixado ao longo dos corredores do meu íntimo.
- Claro... com prazer. Eu vou... quarta-feira eu posso... sim...
Era a professora Gagaça me convidando para falar a seus alunos sobre o meu ofício da crônica, lá no Assis Resende.
Falar o quê? Muita coisa minha eu deixo por escrito. É só ler. Mas queriam a presença do cronista, a voz do cronista, o cheiro do cronista, os gestos do cronista. Queriam o corpo do cronista.
Aí é que estava o problema: o corpo. Quando escrevo, coloco o meu corpo nas palavras. À medida que avanço pelas linhas, meu corpo acompanha emprestando coisas que são dele: lágrimas, suor, desejo, calor, olhar, voz... e o toque da minha mão sobre o papel. Não sei escrever sem a carona do meu corpo. E agora eu teria que levar o meu corpo sem a escrita. Isso aleijaria a minha expressividade.
– Sabe, Zé, eles querem ver o autor de perto, ver que o escritor não é de outro mundo...
Mas acontece que eu sou de outro mundo. Ouço vozes de bocas que não estão perto de mim, vejo cenas que já se vestiram de jamais, sinto coisas já velhas conhecidas e que destilam mistérios... É maluco, mas é assim.
Cheguei ao Assis Resende no meio da tarde de uma quarta-feira. Olhos adolescentes me devoravam com uma curiosidade ansiosa. Fui recebido com honras que não mereço e vi, ao longo das paredes, minhas crônicas afixadas. Vi também um varal com as páginas de um livro meu. Aquilo tudo me fez sentir algo molhado e quente forçando minhas pálpebras de dentro para fora.
Uma aluna e um aluno leram duas crônicas minhas e outra menina cantou ao violão. Saudades das minhas madrugadas sem manhãs, serestas nas lajes...
– Agora, o nosso convidado vai falar!
Todos em silêncio, esperando que o cronista falasse alguma coisa que valesse a pena. E o meu corpo ali... mas cadê a escrita? Resolvi, então, falar em forma de crônica. E a palestra foi uma crônica oral. Meu corpo acompanhou os movimentos do meu dizer e experimentei a vertigem das frases e dos silêncios que em mim caíam e se levantavam. A garotada também emprestou seu corpo ao meu texto, e vi lágrimas furtivas, sorrisos de canto de boca, gargalhadas honestas, olhares entre si e vozes que faziam perguntas.
No fim, ainda usaram as mãos para baterem uma na outra e me entregaram um aplauso. Aplaudi junto, pois eles foram co-autores do que ali construí.
Pedi o violão e cantei uma última canção, deixando meus olhos caírem em olhos que fugiam dos meus e em olhos que recebiam com doçura o meu olhar.
– Nós queremos lhe dar um presente.
Não poderia ser outra coisa: uma caneta.
Fui embora carregando dentro de mim umas doses de alegria quieta.
O tempo passou e a caneta ficou guardada até hoje, pois foi hoje que a tirei do estojo e fiz essa crônica. E é hoje, ontem, amanhã e sempre que cada rosto que me ouviu ficará afixado ao longo dos corredores do meu íntimo.
Presente pra mamãe
14 de Maio de 2012, por José Antônio 0
– Amor, está faltando alguma coisa pra hoje na hora do almoço?
– Está tudo preparado. O almoço do Dia das Mães esse ano vai ser diferente. Ninguém está esperando a surpresa.
– Eu estou preocupada... Você não me mostrou nada do que vai falar.
– Falar e cantar.
– O quê?
– Depois da minha fala, vou cantar alguma coisa.
– Que coisa?
– “Flor mamãe”!!! Andei por todos os jardins, procurando uma flor pra te ofertar...
– Ah, não mesmo! Isso é brega demais. Você não vai cantar isso.
– Mas eu ensaiei... está bonitinho.
– Me mostra aí o seu discurso, poema, declamação, sei lá. É coisa curta, né? O almoço vai ser lá em casa e você sabe que a mamãe não tem paciência.
– Eu passo a mão...
– Tá louco?
– É o meu discurso... “Eu passo a mão no peito e acaricio o meu coração...”
– Você vai falar isso? É brega, amor.
– Pô, mas pra você tudo é brega.
– Tá bom, vai.
– “Eu passo a mão no coração e acaricio o meu peito...”
– Você falou trocado.
– Resolvi mudar. Não fica bem começar falando que vou passar a mão no peito.
– Tá bom, tá bom... e depois? Vem o quê?
– Pois é, deixe-me ver... “Eu passo a mão no coração e acaricio o peito...”
– Onde já se viu passar a mão no coração?
– Eu passo a mão em você, coração.
– Anda, fala aí! A gente já vai chegar atrasado.
– Onde é que eu estava mesmo? Passando a mão em quem?
– Deixe o discurso pra lá. É melhor a gente só dar o presente e pronto. Já chega.
– Aí também não. Eu preparei tudo, eu quero falar... pelo menos cantar.
– Ai, meu Deus! Valei-me. Tá bom, vai, canta o negócio.
– Cadê o violão?
– Que violão?
– O meu, ora.
– Você deixou na loja pra trocar as cordas. Só amanhã.
– Então, faça um batuque aí na mesa. Você me acompanha batucando lá no almoço.
– A gente chega atrasado, faz um discurso brega, diz que vai passar a mão no peito e ainda por cima arma uma batucada... O que você quer mais, chuchuzinho? Montar uma gafieira?
– Então vamos. Pegue o presente.
– Graças a Deus! Ufa! Adeus, mico!
– Só mais uma coisa: quem é que vai dar o presente? Você sozinha? Fica indelicado de minha parte. Faz assim: você pega de um lado e eu pego de outro.
– Meu bem...
– Já sei. É brega.
– Está tudo preparado. O almoço do Dia das Mães esse ano vai ser diferente. Ninguém está esperando a surpresa.
– Eu estou preocupada... Você não me mostrou nada do que vai falar.
– Falar e cantar.
– O quê?
– Depois da minha fala, vou cantar alguma coisa.
– Que coisa?
– “Flor mamãe”!!! Andei por todos os jardins, procurando uma flor pra te ofertar...
– Ah, não mesmo! Isso é brega demais. Você não vai cantar isso.
– Mas eu ensaiei... está bonitinho.
– Me mostra aí o seu discurso, poema, declamação, sei lá. É coisa curta, né? O almoço vai ser lá em casa e você sabe que a mamãe não tem paciência.
– Eu passo a mão...
– Tá louco?
– É o meu discurso... “Eu passo a mão no peito e acaricio o meu coração...”
– Você vai falar isso? É brega, amor.
– Pô, mas pra você tudo é brega.
– Tá bom, vai.
– “Eu passo a mão no coração e acaricio o meu peito...”
– Você falou trocado.
– Resolvi mudar. Não fica bem começar falando que vou passar a mão no peito.
– Tá bom, tá bom... e depois? Vem o quê?
– Pois é, deixe-me ver... “Eu passo a mão no coração e acaricio o peito...”
– Onde já se viu passar a mão no coração?
– Eu passo a mão em você, coração.
– Anda, fala aí! A gente já vai chegar atrasado.
– Onde é que eu estava mesmo? Passando a mão em quem?
– Deixe o discurso pra lá. É melhor a gente só dar o presente e pronto. Já chega.
– Aí também não. Eu preparei tudo, eu quero falar... pelo menos cantar.
– Ai, meu Deus! Valei-me. Tá bom, vai, canta o negócio.
– Cadê o violão?
– Que violão?
– O meu, ora.
– Você deixou na loja pra trocar as cordas. Só amanhã.
– Então, faça um batuque aí na mesa. Você me acompanha batucando lá no almoço.
– A gente chega atrasado, faz um discurso brega, diz que vai passar a mão no peito e ainda por cima arma uma batucada... O que você quer mais, chuchuzinho? Montar uma gafieira?
– Então vamos. Pegue o presente.
– Graças a Deus! Ufa! Adeus, mico!
– Só mais uma coisa: quem é que vai dar o presente? Você sozinha? Fica indelicado de minha parte. Faz assim: você pega de um lado e eu pego de outro.
– Meu bem...
– Já sei. É brega.