Todo de branco
16 de Janeiro de 2013, por José Antônio 0
Passei somente um réveillon em Resende Costa. Foi no final dos anos 80 e início de 90. Como todo réveillon, esse também tinha foguete estourando na rua, pessoas abraçando quem nunca viram e beijando quem nunca mais iriam beijar... e aquela porção de gente com a obrigação de ser feliz no último segundo do ano que estava acabando. Ah, sim... e todo mundo de branco. Que nem arraial do Gasparzinho, o fantasminha legal.
E eu ali, zanzando zonzo na avenida. Tanta barulheira só porque o calendário iria mudar. Aos encontrões, fui abraçado num ano e beijei no outro. Na porta do bar do Miguel, um cara chorando sozinho, desabafando umas coisas para o paciente copo. Naquele copo, suas lágrimas etílicas... em seus olhos, a cachaça lacrimosa. De vez em quando, parava o seu monólogo e mandava um berro de “Feliz Ano Novo” para quem quisesse ouvir.
Sambas-enredo do Rio de Janeiro invadiam a madrugada. Casais abraçados, bebendo, cantando, gingando e se arrastando pra não sei onde.
Aquilo tudo foi me cansando e acabei indo lá pras lajes da Matriz. Ninguém lá. Olhei para os lados do Beira Muro. Uma lua maravilhosa prateava a paisagem enegrecida pela noite alta. Até a lua e as estrelas estavam de branco, saudando 1990. Ao longe, a algazarra da avenida. Perto de mim, um grilo executava o seu chiado insistente e monótono. Nem aí pra Ano Velho ou Ano Novo.
– O senhor é dotô? Trabalha no hospital?
O grilo começou a falar e eu estava virando Pinóquio.
– Aqui embaixo, dotô. Eu tô caído aqui. Me cura. Me dá um remédio. Ocê não é dotô? Tô com febre amarela. Toda vez que eu tenho febre eu fico amarelo.
Era um bebum. Achou que eu era médico só porque eu estava de branco.
– Eu não sou médico. Além disso, essa febre e você amarelo... deve ser hepatite.
– Entendê ocê entende. Se não é dotô, então é dentista Vai, home! Tenho um dente que me maltrata desde que não sei. Tira esse dente de mim.
Virei-me para ir embora, mas o bebum me mandou esperar.
– Ocê não é dotô nem é dentista. De branco assim... Já sei! Ocê é marinheiro.
Resolvi abandonar o navio e bater em retirada.
– Já vai embora? Eu disconfiava... todo de branco aqui nas laje, lua cheia, virada do ano... é Pai de Santo.
Saí dali e fui baixar em outro terreiro.
O novo ano começou e correu ao longo dos meses. Cheguei a ver o pobre homem em alguns botecos de Resende Costa. Até que um dia me contaram quem ele era e que tinha morrido. Eu fui a sua única companhia na virada do ano.
O bebum foi pro túmulo, mas me ensinou o seu pileque: a angústia de meus tropeços cotidianos. Em cada melancolia que não espanto, um médico que não cura. Em cada maçã que não mordo, um dentista frustrado. Em cada corpo que não aventuro, um marinheiro afogado. Em cada amor que não adivinho, um Pai de Santo sem feitiço.
São brancos em mim. São brancos de mim. Páginas anêmicas do meu delírio. Os dias do ano velho se foram, mas as páginas do meu poema embriagado... essas ficaram.
E eu ali, zanzando zonzo na avenida. Tanta barulheira só porque o calendário iria mudar. Aos encontrões, fui abraçado num ano e beijei no outro. Na porta do bar do Miguel, um cara chorando sozinho, desabafando umas coisas para o paciente copo. Naquele copo, suas lágrimas etílicas... em seus olhos, a cachaça lacrimosa. De vez em quando, parava o seu monólogo e mandava um berro de “Feliz Ano Novo” para quem quisesse ouvir.
Sambas-enredo do Rio de Janeiro invadiam a madrugada. Casais abraçados, bebendo, cantando, gingando e se arrastando pra não sei onde.
Aquilo tudo foi me cansando e acabei indo lá pras lajes da Matriz. Ninguém lá. Olhei para os lados do Beira Muro. Uma lua maravilhosa prateava a paisagem enegrecida pela noite alta. Até a lua e as estrelas estavam de branco, saudando 1990. Ao longe, a algazarra da avenida. Perto de mim, um grilo executava o seu chiado insistente e monótono. Nem aí pra Ano Velho ou Ano Novo.
– O senhor é dotô? Trabalha no hospital?
O grilo começou a falar e eu estava virando Pinóquio.
– Aqui embaixo, dotô. Eu tô caído aqui. Me cura. Me dá um remédio. Ocê não é dotô? Tô com febre amarela. Toda vez que eu tenho febre eu fico amarelo.
Era um bebum. Achou que eu era médico só porque eu estava de branco.
– Eu não sou médico. Além disso, essa febre e você amarelo... deve ser hepatite.
– Entendê ocê entende. Se não é dotô, então é dentista Vai, home! Tenho um dente que me maltrata desde que não sei. Tira esse dente de mim.
Virei-me para ir embora, mas o bebum me mandou esperar.
– Ocê não é dotô nem é dentista. De branco assim... Já sei! Ocê é marinheiro.
Resolvi abandonar o navio e bater em retirada.
– Já vai embora? Eu disconfiava... todo de branco aqui nas laje, lua cheia, virada do ano... é Pai de Santo.
Saí dali e fui baixar em outro terreiro.
O novo ano começou e correu ao longo dos meses. Cheguei a ver o pobre homem em alguns botecos de Resende Costa. Até que um dia me contaram quem ele era e que tinha morrido. Eu fui a sua única companhia na virada do ano.
O bebum foi pro túmulo, mas me ensinou o seu pileque: a angústia de meus tropeços cotidianos. Em cada melancolia que não espanto, um médico que não cura. Em cada maçã que não mordo, um dentista frustrado. Em cada corpo que não aventuro, um marinheiro afogado. Em cada amor que não adivinho, um Pai de Santo sem feitiço.
São brancos em mim. São brancos de mim. Páginas anêmicas do meu delírio. Os dias do ano velho se foram, mas as páginas do meu poema embriagado... essas ficaram.
Amigo oculto
11 de Dezembro de 2012, por José Antônio 0
É sempre a mesma coisa: alguém chega perto da gente com as mãos em forma de concha. Lá dentro, aquela porção de bolinhas de papel. Aí, você pega uma, abre e lê, secretamente, o nome da pessoa a quem você deve presentear. Já que você vai presentear secretamente a alguém, então você vira amigo oculto.
Até agora, novidade nenhuma. Desde os mais remotos tempos, casados e casadas presenteiam secretamente seus amantes. Trata-se do amante oculto. Só que no caso do amante oculto – e é realmente um caso – ninguém desembola nenhum papel. Pelo contrário, a vida é que se embola toda.
Deixando de lado as puladas de cercas ocultas, umas longas e outras curtas, voltemos ao amigo oculto. A brincadeira possui algumas peculiaridades. Geralmente, é nas proximidades do Natal que os amigos se ocultam. Uma outra peculiaridade: o teto e o piso do preço dos presentes. Isso é sensato, pois uma vez dei um perfume e ganhei um apito. Uma outra vez, dei uma agendinha, dessas roscofes, e ganhei um par de sapatos. Minha cara caiu. Até senti saudades do apito.
Tenho participado de amigos ocultos em que uma só pessoa fica sabendo quem saiu com quem. Ela, então, faz uma lista do que cada um gostaria de ganhar e, secretamente, telefona para cada um dos presenteadores informando o presente que devem comprar.
Na noite do evento, os participantes, um por um, desfiam um monte de qualidades brilhantes de quem vai receber o presente, só pra ver se a turma descobre quem é. A gente até chega a pensar que Madre Tereza de Calcutá, ou Dalai Lama, ou ainda João Paulo II estão na rodada.
E a coisa tem requintes de teatro. O presenteado sente-se como a pessoa mais surpreendida do mundo, sorri para todos, abre o presente e representa a mais fingida curiosidade, como se não soubesse o que está lá. Ora, bolas, foi ele mesmo que pediu aquele CD, aquele livro, aquela camisa. E ainda diz: Era isso mesmo que eu queria!
Quanta novidade!!!
Eu, cá comigo, ando cismado com essas coisas. No último amigo oculto, a pessoa organizadora ligou para mim e perguntou, secretamente, o que eu gostaria de ganhar. Haviam me indicado, numa viagem que fiz, um livro chamado Novela de Sansão. Pedi o livro.
Não deu outra: na noite do amigo oculto ganhei uma panela de pressão.
– Você me desculpe... a ligação estava ruim... quem sabe se...
E fui embora com a minha panela de pressão. Não veio o Sansão com a sua novela nem Dalila com suas habilidades culinárias. Minha panela virou panela de opressão. Fica ali num canto da cozinha, mais inútil do que vice-governador, insultando-me com a sua inadaptação. E o pior: quem me deu a tal panela sempre me visita e faz questão de ver o monstrengo. Agora ela é panela de repressão.
No próximo amigo oculto, já que tenho de aproveitar a panela e gosto muito de peixe, vou pedir um livro de receitas que ensine a fazer moqueca de pirarucu.
... pensando bem, é melhor deixar pra lá. Podem entender errado.
Até agora, novidade nenhuma. Desde os mais remotos tempos, casados e casadas presenteiam secretamente seus amantes. Trata-se do amante oculto. Só que no caso do amante oculto – e é realmente um caso – ninguém desembola nenhum papel. Pelo contrário, a vida é que se embola toda.
Deixando de lado as puladas de cercas ocultas, umas longas e outras curtas, voltemos ao amigo oculto. A brincadeira possui algumas peculiaridades. Geralmente, é nas proximidades do Natal que os amigos se ocultam. Uma outra peculiaridade: o teto e o piso do preço dos presentes. Isso é sensato, pois uma vez dei um perfume e ganhei um apito. Uma outra vez, dei uma agendinha, dessas roscofes, e ganhei um par de sapatos. Minha cara caiu. Até senti saudades do apito.
Tenho participado de amigos ocultos em que uma só pessoa fica sabendo quem saiu com quem. Ela, então, faz uma lista do que cada um gostaria de ganhar e, secretamente, telefona para cada um dos presenteadores informando o presente que devem comprar.
Na noite do evento, os participantes, um por um, desfiam um monte de qualidades brilhantes de quem vai receber o presente, só pra ver se a turma descobre quem é. A gente até chega a pensar que Madre Tereza de Calcutá, ou Dalai Lama, ou ainda João Paulo II estão na rodada.
E a coisa tem requintes de teatro. O presenteado sente-se como a pessoa mais surpreendida do mundo, sorri para todos, abre o presente e representa a mais fingida curiosidade, como se não soubesse o que está lá. Ora, bolas, foi ele mesmo que pediu aquele CD, aquele livro, aquela camisa. E ainda diz: Era isso mesmo que eu queria!
Quanta novidade!!!
Eu, cá comigo, ando cismado com essas coisas. No último amigo oculto, a pessoa organizadora ligou para mim e perguntou, secretamente, o que eu gostaria de ganhar. Haviam me indicado, numa viagem que fiz, um livro chamado Novela de Sansão. Pedi o livro.
Não deu outra: na noite do amigo oculto ganhei uma panela de pressão.
– Você me desculpe... a ligação estava ruim... quem sabe se...
E fui embora com a minha panela de pressão. Não veio o Sansão com a sua novela nem Dalila com suas habilidades culinárias. Minha panela virou panela de opressão. Fica ali num canto da cozinha, mais inútil do que vice-governador, insultando-me com a sua inadaptação. E o pior: quem me deu a tal panela sempre me visita e faz questão de ver o monstrengo. Agora ela é panela de repressão.
No próximo amigo oculto, já que tenho de aproveitar a panela e gosto muito de peixe, vou pedir um livro de receitas que ensine a fazer moqueca de pirarucu.
... pensando bem, é melhor deixar pra lá. Podem entender errado.
Ele voltou
13 de Novembro de 2012, por José Antônio 0
É noite e chove. Uma chuva fina com alguns relâmpagos e poucos trovões que, apesar de tímidos, insistem em roncar. Adianto uma hora a mais em direção à minha morte. Corro o risco de morrer adiantado.
Vai começar o horário de verão.
É tempo de dar boa-noite com o sol brilhando. É tempo de ir pra mesa fingindo estar com fome. É tempo de ir pra cama simulando sono. É tempo de olhar pro relógio, dizer uma hora e pensar em outra. É tempo... é tempo... é tempo...
Houve uma época em minha vida em que eu acreditei no tempo. Depois, fui percebendo que o tempo não existe. O que existe são demarcações e convenções. O horário de verão é uma prova disso. Agora são dez horas. Amanhã, esse agora já serão onze horas. Depois de amanhã, volta tudo a ser como antes. É difícil acreditar no tempo quando os ponteiros ficam na gangorra.
O pior é que não são somente os ponteiros que ficam indo e vindo. A gente também fica pra lá e pra cá. Quando estamos nos acostumando com o danado do horário de verão, ele acaba. E lá vai todo mundo outra vez encarar a tal da adaptação.
Não vou com a cara do horário de verão. Jamais me convenceu. A saúde do país melhorou por causa dele? A qualidade do ensino e o salário dos professores aumentaram por causa desse horário? Ele melhorou o transporte público? Você passou a comer melhor por causa do horário de verão? Você passou a morar melhor?
Recuso-me a acreditar no entusiasmo amarelo da mídia ao anunciar o novo horário a cada ano. Não me sinto seduzido por míseros numerozinhos acrescidos a uma porcentagem raquítica, sempre baixa. Se teimam em manter uma coisa na qual ninguém vê benefício, deve ser porque o benefício vai pra onde ninguém vê.
O horário de verão é tão inconsistente que ele é opcional. Há regiões que não o adotam. E aí, contando com o fuso horário, o Brasil passa a ficar – nesse período – com quatro horários: o horário normal com o seu fuso horário... e o horário de verão, também com o seu fuso horário.
É o Brasil com quatro horários e um só relógio... tudo confuso horário.
E já que estamos vivendo o oportunismo malandro nas cotas das universidades, cada região com horário diferente poderia reivindicar para si a sua cota no relógio. Teríamos, então, o horário de verão, o horário de outono, o de inverno e o de primavera. Todo mundo satisfeito e ninguém sabendo quem sai ganhando.
Vai dar meia-noite.
Daqui a uns poucos minutos, vai começar o horário de verão.
Só podia mesmo começar à meia-noite, que nem filme de terror. Estou esperando o relógio da Matriz bater. Um pensamento horroroso me gela a espinha: se o horário normal, como dizem, é o horário de Deus, então... o horário de verão é o horário do capeta.
Meia-noite!
O relógio da Matriz não deu doze badaladas. Deu só uma. Em protesto.
Vai começar o horário de verão.
É tempo de dar boa-noite com o sol brilhando. É tempo de ir pra mesa fingindo estar com fome. É tempo de ir pra cama simulando sono. É tempo de olhar pro relógio, dizer uma hora e pensar em outra. É tempo... é tempo... é tempo...
Houve uma época em minha vida em que eu acreditei no tempo. Depois, fui percebendo que o tempo não existe. O que existe são demarcações e convenções. O horário de verão é uma prova disso. Agora são dez horas. Amanhã, esse agora já serão onze horas. Depois de amanhã, volta tudo a ser como antes. É difícil acreditar no tempo quando os ponteiros ficam na gangorra.
O pior é que não são somente os ponteiros que ficam indo e vindo. A gente também fica pra lá e pra cá. Quando estamos nos acostumando com o danado do horário de verão, ele acaba. E lá vai todo mundo outra vez encarar a tal da adaptação.
Não vou com a cara do horário de verão. Jamais me convenceu. A saúde do país melhorou por causa dele? A qualidade do ensino e o salário dos professores aumentaram por causa desse horário? Ele melhorou o transporte público? Você passou a comer melhor por causa do horário de verão? Você passou a morar melhor?
Recuso-me a acreditar no entusiasmo amarelo da mídia ao anunciar o novo horário a cada ano. Não me sinto seduzido por míseros numerozinhos acrescidos a uma porcentagem raquítica, sempre baixa. Se teimam em manter uma coisa na qual ninguém vê benefício, deve ser porque o benefício vai pra onde ninguém vê.
O horário de verão é tão inconsistente que ele é opcional. Há regiões que não o adotam. E aí, contando com o fuso horário, o Brasil passa a ficar – nesse período – com quatro horários: o horário normal com o seu fuso horário... e o horário de verão, também com o seu fuso horário.
É o Brasil com quatro horários e um só relógio... tudo confuso horário.
E já que estamos vivendo o oportunismo malandro nas cotas das universidades, cada região com horário diferente poderia reivindicar para si a sua cota no relógio. Teríamos, então, o horário de verão, o horário de outono, o de inverno e o de primavera. Todo mundo satisfeito e ninguém sabendo quem sai ganhando.
Vai dar meia-noite.
Daqui a uns poucos minutos, vai começar o horário de verão.
Só podia mesmo começar à meia-noite, que nem filme de terror. Estou esperando o relógio da Matriz bater. Um pensamento horroroso me gela a espinha: se o horário normal, como dizem, é o horário de Deus, então... o horário de verão é o horário do capeta.
Meia-noite!
O relógio da Matriz não deu doze badaladas. Deu só uma. Em protesto.
O porco e a pulga
16 de Outubro de 2012, por José Antônio 0
De repente, uma freada brusca. Todos espremeram as caras curiosas contra o vidro das janelas do ônibus. Muitos falavam tudo, mas não tinham visto nada. Ainda mais naquele breu da noite. Aos poucos, informações mais precisas começaram a se espalhar dentro do ônibus depois que o motorista e o trocador desceram para averiguar.
– Acho que matou.
– Pelo barulho...
– Era grande?
Aquela freada me acordou justamente no momento em que eu sonhava que estava num globo da morte. Meio grogue, perguntei pro passageiro ao lado:
– Cadê a moto?
– Não tem moto não, moço. É bicho mesmo.
Meio acordado, meio dormindo, mas palerma por inteiro, insisti:
– Bicho?! Já acabou o número do globo da morte? Tá na hora dos bichos? É leão ou macaquinho?
O rapaz preferiu sair de perto e foi lá pra frente, deixando-me sozinho no circo do Morfeu.
Quando o torpor do ridículo se esvaiu, me dei conta de que o ônibus tinha atropelado um porco. Também me dei conta de que o motorista e o trocador não estavam resgatando o suíno, mas sequestrando. Já que o bicho estava abatido, resolveram não chorar pelo leite derramado... e pegaram o leitão esparramado. Colocaram o pobre animal dentro do porta-malas e seguiram a viagem, conversando animados sobre as possibilidades de menu que o porco oferecia.
Ali perto do Ribeirão do Mosquito, senti uma coceira chata na sola do pé. E eu estava de sapatos. Tentei enfiar o dedo, mas não alcancei o ponto. O jeito foi dar suaves pancadas com o pé no chão do ônibus em busca de algum alívio.
Foi só eu começar que o ônibus parou de novo, irritando os passageiros:
– Outro porco?
– Alguém deixou o chiqueiro aberto.
O trocador, assumindo os ares didáticos de uma comissária de bordo, explicou a todos que iria tirar o porco do porta-malas, pois o bicho estava vivo. Ele e o motorista tinham ouvido pancadas. Preferi ficar quieto. Dei pancadas com o pé sim, mas foram muito leves.
Apesar da escuridão, pude ver os dois, cada um pegando de um lado, arrastando o porco desacordado e colocando-o à beira do asfalto. Voltaram e o ônibus começou a andar. Olhei repentinamente pela janela. Juro que vi o porco se levantar e sair correndo. Vivo e salvo. E o porco ex-cardápio sumiu no mato.
E aí, eu fiquei pensando: o ônibus parou por causa das minhas pancadas ou o porco também deu pancadas, avisando que estava vivo? Salvei o porco com o meu pé ou ele mesmo se safou, pra não virar pé de porco? O porco levou o lombo, mas deixou o limbo: minha eterna dúvida.
A pulga que estava no meu pé hoje mora atrás da minha orelha.
– Acho que matou.
– Pelo barulho...
– Era grande?
Aquela freada me acordou justamente no momento em que eu sonhava que estava num globo da morte. Meio grogue, perguntei pro passageiro ao lado:
– Cadê a moto?
– Não tem moto não, moço. É bicho mesmo.
Meio acordado, meio dormindo, mas palerma por inteiro, insisti:
– Bicho?! Já acabou o número do globo da morte? Tá na hora dos bichos? É leão ou macaquinho?
O rapaz preferiu sair de perto e foi lá pra frente, deixando-me sozinho no circo do Morfeu.
Quando o torpor do ridículo se esvaiu, me dei conta de que o ônibus tinha atropelado um porco. Também me dei conta de que o motorista e o trocador não estavam resgatando o suíno, mas sequestrando. Já que o bicho estava abatido, resolveram não chorar pelo leite derramado... e pegaram o leitão esparramado. Colocaram o pobre animal dentro do porta-malas e seguiram a viagem, conversando animados sobre as possibilidades de menu que o porco oferecia.
Ali perto do Ribeirão do Mosquito, senti uma coceira chata na sola do pé. E eu estava de sapatos. Tentei enfiar o dedo, mas não alcancei o ponto. O jeito foi dar suaves pancadas com o pé no chão do ônibus em busca de algum alívio.
Foi só eu começar que o ônibus parou de novo, irritando os passageiros:
– Outro porco?
– Alguém deixou o chiqueiro aberto.
O trocador, assumindo os ares didáticos de uma comissária de bordo, explicou a todos que iria tirar o porco do porta-malas, pois o bicho estava vivo. Ele e o motorista tinham ouvido pancadas. Preferi ficar quieto. Dei pancadas com o pé sim, mas foram muito leves.
Apesar da escuridão, pude ver os dois, cada um pegando de um lado, arrastando o porco desacordado e colocando-o à beira do asfalto. Voltaram e o ônibus começou a andar. Olhei repentinamente pela janela. Juro que vi o porco se levantar e sair correndo. Vivo e salvo. E o porco ex-cardápio sumiu no mato.
E aí, eu fiquei pensando: o ônibus parou por causa das minhas pancadas ou o porco também deu pancadas, avisando que estava vivo? Salvei o porco com o meu pé ou ele mesmo se safou, pra não virar pé de porco? O porco levou o lombo, mas deixou o limbo: minha eterna dúvida.
A pulga que estava no meu pé hoje mora atrás da minha orelha.
Novos tempos
12 de Setembro de 2012, por José Antônio 0
Não posso sair pelas ruas e todos vêm ao meu encontro. Ando recebendo abraços efusivos de gente que mal me cumprimentava. De repente, pessoas que jamais pronunciavam meu nome agora me tratam diferente. Já vi alguns que interromperam ligações no celular especialmente para me saudar com a cara mais prazerosa do mundo. Gente que passava por mim com cara amarrada agora até me lança sorrisos de dentro do carro.
Ontem, uma me parou e me disse que minha contribuição para com a cidade é imensa. (E eu que sempre achei que faço tão pouco pela minha cidade... tão pouco que ninguém nunca havia falado nada!). Há pessoas que passaram a frequentar a minha casa, procuram por mim, dizem coisas de um passado maravilhoso e mágico, de uma infância em conjunto, de pureza, amizade e travessuras... Mas confesso que não me lembro dessas pessoas na minha infância, até mesmo porque não morei nas cidades de onde elas vieram.
E pedem para eu não me esquecer delas... e pedem para eu dar ideias para a cidade ficar melhor... e perguntam por parentes meus que já morreram, mandam abraços para conhecidos que não conheço, elogiam coisas que jamais fiz.
Olhei ao redor e vi que outras coisas ficaram importantes também. Os velórios passaram a ficar lotados. Os defuntos passaram a ser canonizados. As alças de caixão viraram tesouro disputado.
Missas e festividades religiosas... Que bonito ver tanta gente que raramente entrava numa igreja agora rezando, aplaudindo, participando, ajoelhando... Gente comungando, gente carregando bíblia, gente em procissões... a conversão é geral!
De uma hora pra outra, o ser humano descobriu a caridade. E toca homens e mulheres carregando pobres para os hospitais, comprando remédios para os desvalidos, distribuindo cestas básicas, frutas, ovos, legumes, verduras, roupas. O novo tempo chegou.
É bonito ver rostos produzidos e sorridentes espalhados pela cidade, pelos jornais, pelos cartazes. A alegria é a tônica desse novo tempo. Tomara que dure para sempre. Hoje de manhã, uma dessas pessoas que inexplicavelmente se tornaram anjos da cidadania me deu um papel com o seu retrato. Atrás, uma lista de promessas para melhorar a educação, a saúde, a segurança pública. Quanto desprendimento! Quanto amor pelo próximo! Não é à toa que a palavra candidato vem do latim (candidus, isto é, “puro”). Quantos candidatos! Quantos corações cândidos movidos pela pureza das intenções de melhorar a vida dos cidadãos!
Olhei para o papelzinho mais uma vez e demorei-me no sorriso daquele candidato ao desprendimento e ao trabalho social. Sua candura me tocou tanto que eu também quis fazer a minha parte para com a cidade: resolvi contribuir com a limpeza urbana e joguei o papelzinho no lixo.
Ontem, uma me parou e me disse que minha contribuição para com a cidade é imensa. (E eu que sempre achei que faço tão pouco pela minha cidade... tão pouco que ninguém nunca havia falado nada!). Há pessoas que passaram a frequentar a minha casa, procuram por mim, dizem coisas de um passado maravilhoso e mágico, de uma infância em conjunto, de pureza, amizade e travessuras... Mas confesso que não me lembro dessas pessoas na minha infância, até mesmo porque não morei nas cidades de onde elas vieram.
E pedem para eu não me esquecer delas... e pedem para eu dar ideias para a cidade ficar melhor... e perguntam por parentes meus que já morreram, mandam abraços para conhecidos que não conheço, elogiam coisas que jamais fiz.
Olhei ao redor e vi que outras coisas ficaram importantes também. Os velórios passaram a ficar lotados. Os defuntos passaram a ser canonizados. As alças de caixão viraram tesouro disputado.
Missas e festividades religiosas... Que bonito ver tanta gente que raramente entrava numa igreja agora rezando, aplaudindo, participando, ajoelhando... Gente comungando, gente carregando bíblia, gente em procissões... a conversão é geral!
De uma hora pra outra, o ser humano descobriu a caridade. E toca homens e mulheres carregando pobres para os hospitais, comprando remédios para os desvalidos, distribuindo cestas básicas, frutas, ovos, legumes, verduras, roupas. O novo tempo chegou.
É bonito ver rostos produzidos e sorridentes espalhados pela cidade, pelos jornais, pelos cartazes. A alegria é a tônica desse novo tempo. Tomara que dure para sempre. Hoje de manhã, uma dessas pessoas que inexplicavelmente se tornaram anjos da cidadania me deu um papel com o seu retrato. Atrás, uma lista de promessas para melhorar a educação, a saúde, a segurança pública. Quanto desprendimento! Quanto amor pelo próximo! Não é à toa que a palavra candidato vem do latim (candidus, isto é, “puro”). Quantos candidatos! Quantos corações cândidos movidos pela pureza das intenções de melhorar a vida dos cidadãos!
Olhei para o papelzinho mais uma vez e demorei-me no sorriso daquele candidato ao desprendimento e ao trabalho social. Sua candura me tocou tanto que eu também quis fazer a minha parte para com a cidade: resolvi contribuir com a limpeza urbana e joguei o papelzinho no lixo.