De repente, senti a mão sendo roçada por algo macio. Era a mãozinha de um bebê. Confesso que até já havia me esquecido da minha mão pousada no encosto do banco à minha frente, na lotação.
Quando o bebê percebeu o contato inesperado, tirou depressa a mão. Resolvi levar o negócio adiante e, desta vez, fui eu que toquei a mãozinha dele. Mais uma vez o bebê se desvencilhou, me encarando sério e bochechudo. A mãe não via nada, ninguém via nada, só eu e o bebê estávamos naquela perseguição.
Ele chegava a mãozinha pra lá, e lá ia eu atrás, como que em busca de algo puro e bom que pudesse tornar cristalina minha escrita, que muitas vezes dialoga com o sussurro do íntimo de quem me lê. Olhei disfarçadamente para os lados. Ninguém nos olhava. De novo, estava a minha mão correndo atrás da do bebê. Ele me olhou fixo. Não sorriu. Senti um frio na espinha: É melhor eu parar com isso. Esse bebê vai chorar.
Nesse momento, a mulher deu o sinal e o lotação parou. Levantou-se com o seu filhinho e foi saindo do ônibus. O bebê ainda continuava olhando para trás, lá no colo dela. Não tirava os dois olhões dos meus olhos. Antes que saíssem, me lançou um sorriso. Sorri também, mesmo não sendo puro como ele.
O ônibus partiu e eu fiquei estacionado no sorriso do bebê. Cheguei à conclusão de que não devo ser tão miserável, pois mereci ganhar um sorriso da pureza. Tão puro que nem dentes mostrou.
Ontem, a coisa aconteceu de novo. Parei o carro num cruzamento e dei preferência para duas adolescentes passarem. Elas passaram sérias, nem aí. Quase no fim do trajeto, uma delas olhou para mim e sorriu serena, num misto de gratidão e paz.
Aqueles poucos segundos me fizeram sentir que a bondade humana ainda teima em se mostrar, mesmo que num desfile rápido e fugaz. Dei a partida enternecido com aquele sorriso que nunca mais esqueci, vindo de quem nunca mais eu vi.
Faço contorcionismos com as palavras, tentando segurar pela mão os momentos puros da vida. Mas eles sempre se vão, partem no colo do efêmero... e deixam um sorriso de criança nova, um jeito de sorrir que faz uma cócega gostosa na alma da gente.
Faço malabarismos com as palavras. E quando consigo equilibrá-las no papel, o que deixo ali ensaia sorrisos. Mesmo que com dentes afiados, o sorriso no meu papel procura revelar um pouco da alegria que fica escondida e humilde nos fragmentos despercebidos do dia a dia: a alegria de que tudo pode ser renovado quando a gente passa a ver diferente. Para percebê-la é preciso brincar como criança e ter uma gratidão serena para com as coisas pequenas.