Mãe natureza! Má natureza!
Natureza mãe, tu és mãe que gera. A vida é fecundada, nasce, cresce, reproduz e termina em ti. Natureza mãe, tu és mãe que nutre com teus frutos, grãos e folhas... és mãe que mata a sede e que refresca.
Natureza má, tu és egoísta quanto aos teus desígnios. Já nascemos todos encomendados à morte, que, por sinal, faz parte de tuas exigências para que existamos. Natureza má, que nos enfeita com o engodo da juventude, da vitalidade e da sedução apenas para nos aproximarmos uns dos outros a fim de que a vida se reproduza e continue.
Natureza cruel: quando não somos mais úteis a ti, pois já não reproduzimos mais, tu nos viras as costas e nos entregas ao declínio.
Por isso, Natureza, nossa mamãe (má mãe), faço-te uma oração em nome dos pobres irracionais, pois eles não sabem rezar:
Que o porco-espinho sempre encontre quem furar.
Que o macaco-prego tenha sempre a sua madeira.
Que o tatu-bola jamais deixe de encontrar o seu gol.
Que o cavalo manga-larga tenha quem ajuste a sua roupa.
Que o urso-polar não se torne bipolar.
Que o bicho-de-pé não ande descalço.
Que o tubarão-martelo não erre a pancada e preserve o macaco-prego.
Que o urubu-rei sempre tenha a sua majestosa carniça.
Que a cobra-coral não fique sem o seu refrão.
Que não falte a vitamina C para o sabiá-laranjeira.
Que o bicho-preguiça se liberte desse pecado.
Que o cachorro-fila não perca a sua senha.
Que o peixe-boi não vá com a vaca pro brejo.
Que o pombo-correio não erre seu endereço.
Que o tamanduá-bandeira fique sempre hasteado.
Que não falte a bainha para o peixe-espada.
Que todos os seres viventes sejam sempre joviais a fim de que não terminem fracos e envelhecidos como o tigre de bengala.