O inteligente Rin-tin-tin, a corajosa Lassie, o trapalhão Beethoven e o impagável Marley são cachorros que se imortalizaram no cinema. Realizavam prodígios que faziam a plateia racional que fala sentir-se humilhada frente à cachorrada irracional que late.
Porém, eles foram adestrados para exibirem o que exibiam nas salas de exibição.
Na verdade, Rin-tin-tin, Lassie, Beethoven e Marley são muito pequenos se comparados a outros cães que também realizam prodígios. E não foram adestrados nem são celebridades: os cachorros de rua de del-Rei.
Temos por aqui cachorros instigantes, uns até emblemáticos.
Pode parecer absurdo, mas nossa cidade tem cachorros intelectuais. São poucos, é verdade, mas eles existem. Estão sempre nos pátios da universidade. Inclusive, moram lá. Devem ter aprendido alguma coisa por osmose, como, por exemplo, contar os postes, calcular a parábola da curva do xixi, analisar a composição química do lixo que reviram e latir em línguas diferentes.
E o cachorro socialite? Tem uns que são. Esses não perdem eventos esportivos, desfilam com o exército no Sete de Setembro, frequentam festas de casamento, acompanham enterros e até se entrosam com as escolas de samba na avenida.
Você pode não levar fé, mas tem cachorro que leva. São os cachorros religiosos. São vistos nas missas, saindo de cultos evangélicos, entrando em centro espírita e acompanhando procissão. Nem ligam mais para a barulheira dos sinos, a explosão dos foguetes ou a gritaria do pastor.
E os nomes? Esses vêm da convivência com a cidade. E mais: a gente sente falta quando um dos cachorros anda meio sumido.
– Você viu o Biscoito? Ele não está aparecendo mais.
– Parece que agora ele está andando em outro bairro.
Ou ainda:
– Sabe quem eu vi ontem?
– Quem?
– O Riscadinho. Estava no enterro do Seu Vavá.
Os cachorros que transitam pelas ruas de del-Rei são marcadamente urbanos. Andam na calçada, entram em lotação e fazem suas aparições nos bancos e correios. Deram até nome para logradouro público: a Ponte dos Cachorros!
Nossos cachorros sem dono são muito espertos. Já reparou como nenhum deles se envolve mais em acidentes de trânsito? Já experimentou comparar com os motoqueiros? Pois é... dá pra pensar.
Os cachorros do cinema se imortalizaram na tela do imaginário popular. Mas os nossos também são perenes. E vão viver muito, se depender da saúde deles. Já vi cachorro nas portas dos açougues, dos restaurantes, dos bares e das padarias. Mas nunca vi cachorro esperando alguma coisa em porta de farmácia. Apenas dormindo.