Setembro Amarelo
14 de Outubro de 2016, por João Magalhães 0
Nada a ver com os ipês floridos de setembro que tanto embelezam matas e praças de nossa terra.
Então, o que é setembro amarelo? É uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio com o objetivo de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção.
Ocorre no mês de setembro desde 2014 por meio de identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela e ampla divulgação de informações. O movimento acontece todo mês de setembro em todo mundo. Há uma atenção especial no dia 10 de setembro, pois é o dia mundial de prevenção do suicídio. Portanto, é o amarelo do alerta, da chamada de atenção.
O assunto não é novo neste espaço. Há muito tempo, em “Suicídio, você já pensou nisso?” expus ao leitor a formação moral católica, considerando o suicídio o pecado mais grave depois do homicídio, cominando o suicida com penas como negação de exéquias, proibição de sepultamento em lugar sagrado etc.
Acho que agora posso dizer que isso já é passado. Tenho até uma resposta do professor da UNESP, José Manuel Bertoloto, à pergunta em que medida convicções religiosas ajudam a prevenir ou levam ao suicídio: “A maioria das religiões – cristianismo (católicos, protestantes e espiritualistas), islã, budismo, hinduísmo – desaprova e condena fortemente o suicídio. Nos seguidores dessas crenças, as taxas de suicídio são consideravelmente mais baixas do que entre os ateus”.
Uma vivência de cinco anos no ambiente hospitalar (capelão religioso) e o contato com sobreviventes de suicídios frustrados levou-me à convicção, há muitos anos, de quanto esta postura era injusta e quanto prejudicava a prevenção para que este “pecado” não acontecesse. Pelo contrário, criou um tabu na família, que se envergonhava de ter um membro suicida, gerando um silêncio a respeito que ainda perdura.
Nenhum dos suicidas (conheci alguns), nenhum dos sobreviventes cometeu pecado. Todos passavam por descontroles emocionais e mentais profundos.
Como aliás confirma o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, que após apresentar as estatísticas auferidas de 31 artigos científicos que analisaram 15.629 casos de suicídio no mundo, em 96,8% dos suicídios as pessoas tinham algum diagnóstico de transtorno mental quando se mataram – 35,8% sofriam de transtornos de humor (depressão e transtorno bipolar são os mais comuns); 22,4% tinham histórico de abuso de álcool e drogas; 10,6% sofriam de esquizofrenia. “Quando você detecta que alguém tem aids, faz-se uma notificação compulsória e o Estado vai atrás para tratar. Não temos isso em caso de suicídio. Onde no Brasil você consegue marcar consulta com psiquiatra em menos de três meses na rede pública?”, indaga o presidente da ABP.
O número de suicídios aumenta a cada ano. Por exemplo, no Estado de S. Paulo, de 4,6 casos por 100 mil habitantes, em 2008, passou para 5,6 em 2014. Os homens são 80% das pessoas que cometeram suicídio. Segundo o psiquiatra Jairo Bouer que forneceu estes dados (“Suicídio: como prevenir”) isto é explicado “por uma combinação de fatores, entre eles: maior resistência dos homens em reconhecer dificuldades emocionais e buscar ajuda em fases de crise, menor interação em grupos sociais, maior consumo de álcool e drogas, maior pressão por desempenho profissional e ganhos mais elevados, maior competitividade e impulsividade até 2020”.
A prevenção, a meu ver, começa pela superação nada fácil de dois tabus: Consulta com psiquiatra. “É triste perceber que ainda há gente que pensa que ir ao psiquiatra é coisa de louco” (Vanessa Bárbara: “Histórias Psiquiátricas”) e o mutismo dos familiares. “Acho que muitas pessoas não falam em suicídio porque é uma pecha de fracasso da família, fracasso daquelas pessoas que a amavam, algo como ‘que amor é esse que não consegue manter a pessoa na vida?’”, comenta Ivo O. Farias, que participa de dois grupos de apoio – CVV (Centro de Valorização da Vida) e Vita Alegre – desde que perdeu a filha de 18 anos (2014), que deixou um bilhete: “Gente morta não decepciona ninguém”!
De novo Jairo Bouer: “Para prevenir suicídio é fundamental quebrar tabus em relação à saúde mental, fazendo pessoas e familiares reconhecerem problemas emocionais graves e quadros psiquiátricos, como depressão, esquizofrenia e abuso de substâncias como ameaças concretas à vida. Essa questão é ainda mais sensível na população masculina, onde cobranças sociais e a margem para lidar com eventuais crises são tão estreitas. O desafio é vencer o silêncio que cerca a vida emocional de boa parte de nós. É importante estar alerta e oferecer suporte para quem precisar!”.
Daí a importância do “Setembro Amarelo” que potencializa o que deve ser feito a vida toda. É o que penso. E você?
Obs.: Se houver interesse, clique no Google: “Prevenção do suicídio – um manual para profissionais da saúde em atenção primária”, publicado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Fonte: O Estado de S. Paulo - 10/9/2016.
Eleições vêm aí; e a Lei da ficha limpa, hein?!
16 de Setembro de 2016, por João Magalhães 0
Para quem está caminhando, é bom, de vez em quando, olhar para trás e avaliar o percorrido.
Faz 20 anos (1996) que a operação Mãos Limpas (Mani Pulite), na Itália, encheu de esperança os cidadãos italianos desejosos de uma moralização política por um combate efetivo e punição de corruptos e corruptores.
Em dois anos, seis ex-ministros, 500 representantes políticos, prefeitos e muitos empresários foram conduzidos aos tribunais e muitos à cadeia. Em 1996, pesquisas mostravam que 91,8% dos votantes apontavam a corrupção como um problema, menor apenas do que o desemprego.
Acho que situação semelhante vive o cidadão brasileiro frente às eleições que vêm aí.
A “Mãos Limpas” deu resultado? Pouco, muito pouco, conforme estudo analítico feito pelo italiano Alberto Vanucci, sintetizado por Roberto Romano – professor de Ética da UNICAMP/SP - em excelente artigo “Canalhocracia” (OESP 19/6/16 A2) que brevemente apresento.
A corrupção virou o jogo. “Os corruptos abriram guerra contra juízes e promotores e os acusaram de atuar politicamente sem votos”. As novas leis mais rígidas só aumentaram o valor das propinas. “Resultaram da luta empreendida a impunidade de políticos como Berlusconi e a leniência em relação a empresários corruptos”.
“Os eleitores da Itália não foram além do apoio emotivo e passageiro aos investigadores e juízes”. Tanto que, “após 2008 só 0,2% considera a corrupção como gravíssimo obstáculo para o Estado e a sociedade”.
“No âmbito empresarial, a predominância de famílias donas de empreendimentos possibilitara novos elos amigáveis e corruptos com gestores públicos, o que lhes garante vitórias em obra públicas etc”.
“O número de condenações despenca: 1.714 em 1996 e 239 em 2006”. “O juiz Gherardo Colombo afirma que “da ótica judicial”, a Mani Pulite foi inútil, ou pior, danosa. O fracasso quase completo para assegurar condenações (de 3.200 acusados, 2.200 foram soltos...). Outro juiz, Piercamillo Davigo, mostra que os predadores aumentaram, com a pressão da Mãos Limpas, sua forma e habilidade criminosa. Ela lhes serviu para aperfeiçoar a bandidagem própria e alheia”.
A atual situação brasileira caminha para uma “italianização”? A “Lava-jato” tão esperançosa para a nação terá o mesmo fim da Mani Pulite? Corre risco. O próprio Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, reconhece, ao referir-se a desentendimentos no poder judiciário: “O que está acontecendo neste exato momento [reação contra a Operação Lava-Jato] não é novidade no mundo. Isso aconteceu exatamente, em outra proporção na Itália” (OESP 24/8/16ª5).
Fatos recentes não apontam para otimismo. Corrupção, politicalha, aproveitadores, rapineiros etc. se “encorjam” muito bem e têm forças muito competentes. Manejam estratégias eficientes como a infiltração nas comissões dos órgãos legislativos. A intenção é anular ou abrandar leis ou determinações, por exemplo, a proveitosa lei da delação premiada (lei 12.850 de 2/8/13) e agora a Comissão Especial da Câmara que analisa as medidas de combate à corrupção: propostas muito boas (acho eu) dos Procuradores Públicos. Claro, visa-se ao afrouxamento das medidas. O relator (dep. Onix Lorenzoni, DEM/RS) já alertou: “Todos nós sabemos como é composto atualmente o Congresso Nacional. Não é à toa que tivemos um presidente da Câmara cassado no Conselho de Ética. O receio que eu tenho é de que a gente não consiga reunir uma maioria parlamentar para impedir a desfiguração na comissão e no plenário” (OESP 23/8/16).
Outra estratégia é o esquecimento, ou seja, adiar, prorrogar, pedir vistas etc. Quanto mais o tempo passa, mais perdem vigor as pressões sociais, a publicidade... e as imunidades, as suspensões, os recursos vão durando...durando!
No judiciário, ultimamente, vale a tática do Império Romano: Divide et impera. Crie desavenças, consiga divisões internas, provoque competição, insufle ciúmes, dê mais para um grupo do que para outro, nas forças inimigas e vencerá.
Para quem pode praticá-la (executivos e legisladores), a troca, quando não chantagem, também funciona: despache a nosso favor que nós votaremos os aumentos que pretendem...
E com a técnica de brechas, furos e falhas nas leis – e contam para isso com especialistas de primeiro naipe – conseguiu por estes dias uma grande vitória. A tão sonhada Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar nº 135 de 4/6/10) praticamente esfarinhou-se quando o STF julgou que a competência para declarar inelegibilidade de candidatos é das Câmaras e não dos Tribunais que julgam as contas.
Tá certo, quem analisa bem a lei da Ficha Limpa, concorda: tem seus defeitos, mas dizer que “parece que foi feita por bêbados” (ministro Gilmar Mendes), aí, já é demais!...É menosprezar uma lei de iniciativa popular, com um milhão e seiscentas mil assinaturas de cidadãos brasileiros que praticamente forçou o Congresso a votá-la. Ainda bem que houve retruque (ministro Barroso).
Com a “qualidade” (!) das câmaras que assolam politicamente o país, quantos políticos ficarão inelegíveis?! Manchete recente (19//8/216) da imprensa: “Ficha Limpa pode barrar 4,8mil candidatos no País”. Eu não acredito. E você?
O advogado de defesa dos Inconfidentes
18 de Agosto de 2016, por João Magalhães 0
No dilúvio de corrupção que inunda, agora, nosso país, os advogados de defesa dos acusados estão cotidianamente em tela. Sempre aparecendo. Contrariamente, quanto ao advogado de defesa dos Inconfidentes, como escreve Ricardo A. Malheiros Fiuza no artigo: “Pela ‘ Piedade de Sua Majestade’” na bela publicação da imprensa oficial do Estado de Minas Gerais: “Liberdade, essência de Minas”:
“A saga do Animoso Alferes e de seus companheiros de conjuração tem sido descrita, declamada, representada e iconografada, sendo bastante ou razoavelmente conhecida de todos, da escola primária ao curso superior. Mas pouco se tem falado do homem – Dr. José de Oliveira Fagundes – que, enfrentando dura missão, encarregou-se da defesa dos 29 réus presos nas cadeias do Rio de Janeiro e ainda da curatela dos três réus falecidos antes do julgamento”, destaca a publicação.
Quem foi José de Oliveira Fagundes e como atuou? Resumo para o leitor a matéria de Malheiros no artigo supracitado, atribuindo-lhe todos os créditos, pois quanto possível, transcrevi suas palavras.
O nascimento e formação. Nasceu no Rio de Janeiro, por volta de 1750, filho de João Ferreira Lisboa e de Jerônima Inácia de Oliveira, mineira, marianense. Em 1773, matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, onde diplomou-se em 1778. Radicalizando-se na cidade natal, passou a exercer a advocacia liberal nos auditórios da Capital do Vice-Reino e a advocacia da Santa Casa de Misericórdia.
A nomeação. Em 31 de outubro de 1791 a Alçada Régia o nomeou para defesa dos réus, advogado que era da Santa Casa, situação equivalente à assistência judiciária moderna.
A defesa. Na longa e caprichada peça, ele reconhece a culpa de alguns réus, alega a inocência de outros, implorando pena suave para os primeiros e absolvição para os últimos, e termina invocando para todos a “piedade de Sua Majestade, a quem humildemente pedem perdão das suas loucuras e insânia”.
Com relação ao alferes, qualificou-o como loquaz, sem bens e sem importância na Capitania. Tais palavras, usadas como artifício de defesa, têm sido interpretadas erroneamente por alguns historiadores, que logo se arvoram em acusadores do advogado. Não compreendem eles que Tiradentes havia orgulhosamente confessado o crime, puxando para si grande parte da responsabilidade do malfadado levante. Restava, portanto, a Fagundes apelar habilmente para a insanidade do réu, para sua suposta falta de importância no panorama político e social de então. Era a única tentativa de saída.
A sentença. Lida na madruga de 19 de abril de 1792: onze réus condenados à forca; cinco ao degredo perpétuo na África; dois a exílio por dez anos; um a dez anos de galés; um a açoite seguido de degredo; os cinco padres exilados para Lisboa; um teve a memória difamada (Claudio Manuel da Costa); cinco, absolvidos.
Os recursos. Inconformado com as poucas absolvições e com o rigor das penas impostas, imediatamente pediu vistas dos autos para recorrer. Concederam-lhe 24 horas e, em menos que isso, produziu os notáveis embargos dos condenados à morte, pondo em relevo a confissão dos réus que até o Tribunal do Santo Ofício considerava como atenuante da pena máxima. E pediu a transformação do enforcamento em cárcere perpétuo para todos, inclusive para Tiradentes, com argumentos lógicos e inteligentes. O embargo foi ignorado pelo Tribunal. Entrou com novo pedido de vistas. Deram-lhe meia hora de prazo para novos embargos. Também ignorados.
O mérito. A Carta Régia, possibilitando ao Tribunal comutar penas, já estava redigida com antecedência. É preciso ressaltar aqui o trabalho do advogado Fagundes, pois é certo que suas alegações e seus esforços influíram na Corte Julgadora que, nos termos da Carta, podia usar o abrandamento da pena para aqueles cujos crimes não fossem revestidos de tais e tão agravantes circunstâncias. A pena de morte deveria ser mantida e executada para aqueles que com discursos, práticas e declarações sediciosas, procurassem introduzir no ânimo de quem os ouvia o veneno de sua perfídia. É claro que os membros do Tribunal fez uso dessa concessão, levando em conta as provas dos autos e (por que não?) as alegações da defesa.
Vê-se que o Doutor José de Oliveira Fagundes, brasileiro, advogado, exerceu com habilidade, inteligência, propriedade, ética e honestidade o difícil mandato que lhe foi outorgado pela Alçada Régia, merecendo, pois, um lugar de destaque na grande epopeia da Inconfidência Mineira.
Para quem quiser conhecer mais detalhes, sobre os Inconfidentes, sobre as sentenças etc., recomendo o livro de Rosalvo Gonçalves Pinto, nosso diretor de redação: “Os Inconfidentes José de Rezende Costa (pai e filho) e o arraial da Lage” da coleção lageana.
Estupro: além de crime, um espetáculo?!
14 de Julho de 2016, por João Magalhães 0
Depois do assassinato, o estupro é a meu ver o crime mais grave. No assassinato, elimina-se o ser da pessoa, a existência; no estupro, fere-se o corpo e agride-se ferinamente a pessoa reduzindo-a a um objeto excitador de instintos. Como expressou a jovem vítima do pavoroso estupro coletivo recente no Rio de Janeiro: mais que no útero, dói na alma.
E agora, com os estupros coletivos? E essa barbárie, esse show macabro, essa excrescência humana, objeto deste nosso comentário, que é transformar o estupro em espetáculo?
Há descrições de cenas horripilantes do grupo e dos membros da equipe estupradora. Os risos, as gozações, a torcida, os aplausos pelo desempenho, a competição de quem atua melhor!! Junto, um ou outro voyeur (pessoa que obtém prazer ao observar atos sexuais ou práticas íntimas de outras pessoas). E agora também alguém com celular filmando ou fotografando para sua coleção e para publicar nas redes sociais, em benefícios dos milhares de voyeurs que curtirão sua postagem!
E narração, como essa, causa espanto: “O Estado do Piauí registrou o terceiro caso de estupro coletivo em menos de um mês. Desta vez, imagens de uma jovem de 21 anos violentada enquanto estava desacordada circularam nas redes sociais. Na gravação é possível ouvir um homem de forma irônica: “Amanhã, todo mundo preso em Sigefredo Pacheco (cidade onde o fato aconteceu).
O primeiro caso “aconteceu em Pajeú, quando uma jovem de 14 anos foi encontrada nua dentro de uma banheiro do ginásio do município, rodeada por quatro rapazes... Ela estava desacordada e tinha ingerido bebida alcoólica”. O segundo, no município de Bom Jesus: “Uma jovem de 17 anos foi estuprada por quatro adolescentes e um jovem de 18 anos. A vítima foi encontrada amarrada e amordaçada com as roupas íntimas”.
E, ano passado, em Castelo do Piauí, outra barbaridade: “um adulto e quatro menores estupraram quatro adolescentes e as jogaram de um penhasco”.
O corpo social, à similitude do biológico, tem suas doenças. E esta de espetacularizar o estupro é gravíssima.
Há cura? No atual estágio da evolução humana, acredito que não. Faz parte de uma parcela significativa dos humanos, a satisfação de ver sangue, corpos dilacerados, rituais satânicos, torturas, execuções, estupros, desastres. Uma arraigada tanatofilia, um gosto macabro.
Talvez, pode-se diminuir o número de casos com algumas medidas. A penalização já existente. Punição rigorosa para criminosos e cúmplices
Mudar a “cultura do estupro”: processo social de que o homem é superior à mulher. Que ela tem que servi-lo sexualmente. Que o macho padece de uma incontrolabilidade sexual. Que a mulher também é responsável pelo ataque, por se expor como objeto de desejo, pela maneira de se vestir, por gestos e poses de sedução etc.
Como escreve a psicanalista Maria Lúcia Homem em Genealogia de um estupro: “um discurso recorrente na nossa cultura, repetida para os meninos, criou uma sociedade dividida e extremamente machista”.
“Como é lindo. Você é o mais lindo, o mais forte, o mais esperto, Vai ser sucesso com as garotas. Boneca é coisa de menina. Apanhou? Vai lá e dá porrada. Deixa de ser fraco. De ser covarde. Tá com medo? Coisa de bicha. Cala essa boca e engole esse choro. Já falei. Vai apanhar até aprender a ser macho... O menino cresce e tem que haver mais uma vez com a sexualização de seu próprio corpo e seu psiquismo. Fica adolescente..
Aê, garoto. Esse é o cara. Vai ser o terror das minas. Ele é fogo. Garanhão. Cata todas. Quantas você pegou? Sheik. Só com princesas. Mulher é coisa para se ter e acumular, bens de consumo e circulação há séculos. O candidato a homem é ensinado a ter mulheres, numa lógica quantitativa simples: quanto mais, melhor. Série consumista em que a mercadoria – mulher – é objeto. Ela não pode dizer não (a essa lógica).
Ela está me seduzindo. Com esse shortinho. Ai, mulata assanhada, que passa com graça, fazendo pirraça, fingindo inocente, tirando o sossego da gente. Ai, meu Deus, que bom seria se voltasse a escravidão: eu pegava a escurinha. A novinha tá no grau. A bebezinha já fez corpo. Ih, tá de mimimi? Não quer dar? Qual é, mano, tu não é macho? Vai pra cima”.
E mais remédios: a união das vítimas, formando grupos de protestos, de pressão social, de cobrança, de denúncias; campanhas, como esta do “Estadão”, alertando usuários, que buscam canções que tal canção faz apologia à violência contra mulher. Ao todo, a campanha detectou 350(!) músicas diferentes com conteúdos ligados à violência física, sexual e psicológica contra a mulher; propiciar meios de defesa para mulher contra ataques. Corre, por exemplo, no legislativo, um projeto, permitindo à mulher o uso do spray de pimenta.
É o que penso. E você?
Juca da Samambaia: mais um poeta de Resende Costa
16 de Junho de 2016, por João Magalhães 0
Em conversa com Evaldo Balbino, soube da existência de um caderno de poesias que ele chegou a ler uma ou outra. Seria de autoria da mãe da minha cunhada Irene, casada com meu irmão Antônio Magalhães. Interessei-me pela notícia. Mais um poeta da nossa Resende Costa?!
Consegui o caderno. Na realidade, porém, são 20 poemas escritos pelo pai da Irene, o Juca da Samambaia, de minhas lembranças, pois cheguei a me encontrar com ele algumas vezes, quando em férias em Resende Costa.
Após uma epígrafe, “Ó morte tú (sic) és ingrata. Saudades de Luiza”, Juca faz a introdução. Ipsis litteris: “Estes versos são escritos por José Egidio da Costa Maia, em 10 de Dezembro de 1940. Data do meu nascimento: 1º de Setembro de 1897 na Fazenda do Retiro, Curralinho, município de Rezende Costa, Minas Gerais. Minha falecida esposa Luiza Maia de Lima, nascida em 7 de Abril de 1907 na Fazenda Vista Alegre no mesmo município além 3 quilômetros da Fazenda do Retiro. Casamento no dia 22 de Julho de 1922 e ela faleceu no dia 10 de Dezembro de 1940, quando comecei a escrever estes versos que seguem”.
Alguém anotou: “Falecéo (sic) Dia 5 Maio 1971 José Egidio Costa Maia”.
Em termos eruditos, o caderno do Juca é uma extensa nênia, que é um canto fúnebre, plangente, choroso, melancólico, ou epicédio, que é uma composição poética em memória de alguém, no caso, sua esposa falecida, Luiza. Quadras, com o 2º verso rimando com o 4º.
Juca compõe os versos sempre numa tonalidade menor. Uma elegia tristonha, lamentosa, depressiva. Os títulos confirmam: “Ó morte tu és ingrata”; “Em horas tristes” “São dias tristes”; “São dias de sofrimento”; “Eu vivo chorando”; “Triste lembrança” “Quinze anos de sofrimento” etc.
A morte de Luiza é um marco indelével que põe Juca de luto até o fim da vida. Escreve 12 anos depois: “O dia dez de dezembro/É um dia assinalado/Morreu minha esposa/E eu fiquei desamparado”. “Neste dia faz doze anos/Que dos trabalhos ela descansou/Morreu com trinta e três anos/Meu coração se apaixonou”. Vejam abaixo outros versos com os respectivos títulos do poema.
Luiza é um fascínio: “Depois que sobre mim pesar a terra/Meu corpo cair espodrificado (sic) /Procurem em meu coração que ainda encontram/O nome dela por extenso bem gravado” (Ó morte tu és ingrata).
Uma Saudade dela, constante e atroz, presente em quase todos os poemas: “Veio a maldita saudade/Prender minha natureza/Toda alegria do mundo/Para mim ainda é tristeza (Minha esposa querida).
Uma obsessividade, digamos assim, terapêutica. Juca, pela escrita, desabafa, faz uma catarse de seus sentimentos, de suas emoções, de seu sofrimento, de suas angústias pela ausência de Luiza. É uma necessidade premente de dialogar com ela, de se declarar para ela, de cultuá-la, sobretudo nos aniversários de seu falecimento.
E também o anseio de encontrá-la: “Meu anjo querido/Lá do céu vem me buscar/Estou viúvo faz 6 anos/Não quero aqui mais ficar”(Ó meu anjo querido).
“Hoje faz sete anos/Que minha esposa morreu/Parece mais de cem anos/Que viúvo estou eu” (Vivo ainda, ó Luiza”).
“Já faz oito anos que de mim desapareceu/Há de vir um dia que a hei de encontrar/Para matar minhas saudades/Que a paixão quer me levar” (Saudades de Luiza).
“Aquela esposa querida/Que á (sic) nove anos me deixou./Foi uma infelicidade/Que minha sorte guiou” (Minha esposa querida).
No 10º ano: “Pensando em minha vida/No lapes(sic) eu peguei/Fui escrever o teu nome/Mais lagrimas(sic) eu derramei” (Não esqueço de ti)
Nos 12 anos, pela fé se conforma: “Que havemos de fazer/Seja tudo que Deus quizer(sic)/Cada um cumpre sua sorte/Vou vivendo como ele quer”(Um dia assinalado)
“Há quatorze anos vivo sofrendo/Meu coração abafado/Minha esposa morreu/Deixou meu coração fechado” (São dias de sofrimento).
Em “Quinze anos de sofrimento” Juca confessa; ”Talvez muitos dirão, este homem foi um louco/ Escreveu tantos versos em quinze anos/ Eu é quem sei de minhas tristezas/O quanto no mundo vivo pensando (penando?).”
“Luiza, hoje faz dezesseis anos/Que a morte te roubou”....” “(d)Os teus cabelos tirei a trança/Não quis contigo deixar/É uma lembrança que tenho/para não mais acabar/. Dos teus pés tirei o molde/Para comigo ficar/O dia da minha morte/É mais fácil eu te encontrar”. (Triste lembrança)
“Meu bem a(sic) 17 anos/Que neste mundo me deixou/Nunca mais tive alegria/Neste mundo enganador/ (Longa esperança)
Em “És (é?) um dia feliz”: “A(sic) 18 anos que vivo só”. “Eu morrendo hei de encontrar/Para eternamente juntos ficar/Esperamos até o fim do mundo/Para junto nós ressucitar(sic)”
E no último poema, “A mulher dos meus sonhos”, Juca se despede: ”Há vinte anos que escrevo/Estes versos que aí vêm/Agora não escrevo mais/Esperando a ingrata morte também”.