O Estado Islâmico – parte 4
12 de Maio de 2016, por João Magalhães 0
Há solução para o EI? A curto prazo, não acredito. O próprio presidente da França, François Hollande, já declarou por duas vezes: a luta será longa e seu primeiro ministro também: “Esta geração terá que conviver com o terrorismo”. Acho, como muitos, que uma declaração de guerra pouco resultado dará. A batalha real deve ser contra o radicalismo de todo tipo. Poder-se-á aniquilar o Estado Islâmico, mas outros movimentos o sucederão.
“Ainda que bombardear as fortalezas do EI no Iraque ou na Síria faça sentido do ponto de vista militar, não quebrará o encanto da revolução islamista para os jovens frustrados, entediados e marginalizados das periferias francesas”, na opinião do professor Ian Buruma.
Vejo, no entanto, um rumo na confluência de dois caminhos que terão que se abrir; digamos assim, um exógeno, outro endógeno.
A via exógena, ou seja, de fora para dentro, supõe uma luta unificada da parte das sociedades atacadas, como diz o ministro das relações exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier: “É preciso unificar luta contra extremistas. Necessitamos de persistência e estratégia política que envolva um engajamento militar, humanitário e diplomático”. E explica: “Nós no Ocidente precisamos mostrar determinação no combate à exclusão social que cria alienação. Isso significa intensificar nossos esforços para integrar muçulmanos e imigrantes de todos os níveis. Ao mesmo tempo, temos que enfrentar o EI nos lugares onde ele nasceu: Iraque e Síria. Sabemos que o terrorismo não pode ser derrotado somente com bombas. Mas sabemos também que a ameaça representada pelo EI não será eliminada sem os recursos militares...”.
Steinmeier resume: “Três componentes são cruciais para o sucesso da nossa estratégia política. O primeiro é apoiar aqueles que estão enfrentando o EI. Segundo, sabemos por conflitos anteriores como é importante restaurar a confiança da sociedade em áreas libertadas do EI. O terceiro componente é o mais difícil de colocar em prática, mas é o mais importante. No longo prazo, os conflitos e o caos que permitiram ao Estado Islâmico se expandir somente serão vencidos se os grupos populacionais no Iraque e na Síria compartilharem de uma mesma perspectivas política”.
O ódio dos afetados, dos ameaçados (todo mundo, aliás), o medo, o pânico que naturalmente levam a radicalizações – radicalização contra radicalização - são compreensíveis, mas não é uma política islamofóbica que segrega e humilha os muçulmanos que vai resolver. Quanto mais cresce, mais o EI arrebanha recrutas. Uma radicalização neste sentido é fazer o jogo do terrorismo; é isto que ele quer. É bom lembrar que os praticantes dos últimos atentados na Europa são oriundos de comunidades de imigrantes, marginalizadas, segregadas.
A via endógena, ou seja, de dentro para fora, é responsabilidade de Sociedades e Estados de fundamentação islâmica. Numa analogia biológica, o corpo islâmico, em sua maior parte sadio, precisa criar anticorpos contra os vírus mutantes do radicalismo que o está infeccionando.
Urge aos teólogos do Islã, uma leitura mais atualizada de seus livros sagrados, uma exegese mais contextualizada, menos letra, mais espírito. Quem sabe até restaurar o conceito milenar islâmico da “Irja”.
Quem explica é o jornalista muçulmano Mustafá Akiol: “Se você não tiver conhecimento de teologia medieval islâmica, provavelmente não fará ideia do que irja significa. Literalmente quer dizer adiamento. Era um princípio teológico lançado por alguns teóricos islâmicos durante o primeiro século do Islã.
Na época, o mundo muçulmano vivia uma grande guerra civil, com protossunitas e protoxiitas lutando pelo poder e um terceiro grupo chamado Khawarij (dissidentes) excomungando e massacrando os dois lados.
Ante esse caos sangrento, os proponentes da Irja diziam que a inflamada questão de quem era verdadeiramente muçulmano deveria ser “adiada” para a outra vida. Mesmo muçulmanos que abandonassem toda prática religiosa e pecassem muito, raciocinavam eles, não poderiam ser denunciados como apóstatas. Os estudiosos que divulgavam esse pensamento ficaram conhecidos como “murija” ou simplesmente “os adiadores”. A teologia por eles esboçada poderia ter sido base de um Islã tolerante, não coercivo, pluralista.
Infelizmente, eles não tiveram suficiente influência no mundo islâmico. Sua escola de pensamento desapareceu rapidamente, sufocada na memória da ortodoxia sunita como uma das primeiras “seitas heréticas”.
Não é por nada que o EI a considera a mais perigosa “Bid’ah” (heresia)
Fonte: jornal O Estado de São Paulo.
O Estado islâmico – Parte 3
14 de Abril de 2016, por João Magalhães 0
Dentre os grupos radicais, extremados, de base islâmica, a bola da vez agora está com o autodenominado “Estado Islâmico”. Os recentes novos atentados que o digam.
O grupo se destaca e prima frente aos outros pelo profissionalismo. Escreve Katrin Bennhold do The New York Times: “Os ataques sincronizados (...) em Paris sugerem que os dias de amadorismo jihadista podem estar contados. Vários dos participantes dos ataques na França, que estiveram na Síria e pareciam ser bem treinados, estão entre os cerca de 30 mil combatentes estrangeiros, provenientes de 100 países que se juntaram ao Estado Islâmico em menos de três anos”.
E o escritor e jornalista muçulmano Mustafá Akiol comenta: “Demonstraram mais uma vez [os ataques] a habilidade do autodenominado Estado Islâmico (EI) de conquistar muçulmanos desiludidos. Usando uma mistura de literalismo textual [O Al Corão e a Sunna, seus livros sagrados, ao pé da letra!] e superioridade moral, o grupo extremista consegue persuadir jovens dos dois sexos, do Paquistão à Bélgica, a jurar lealdade e cometer violência em seu nome. É por isso que a ideologia religiosa do EI tem que ser levada a sério. Assim como é errado acusar o pensamento do grupo de representar o grosso do Islã, como costuma fazer a islamofobia, também é errado fingir que o EI não tem nada a ver com o Islã, como muitos muçulmanos costumam dizer. Na verdade, líderes jihadistas são versados em pensamentos e ensinamentos islâmicos, embora usem seu conhecimento com finalidades brutais e perversas”.
Pelo modernismo. Da mídia e competência como a utilizam. Através das redes sociais atrai as mentes que têm parentesco com sua ideologia, facilita o recrutamento e visualiza para o mundo o terror que pratica: barbaridades contra o ser humano e contra os legados das civilizações não islâmicas.
“Nada fácil, a tarefa de convencer milhares de jovens ocidentais a lutar pela criação de um estado islâmico radical, que defenda a decapitação de inimigos e a pena de morte para homossexuais. Por meio de um sermão religioso não seria. Então usam as melhores estratégias do mundo ocidental: videogames , filmes de terror, hip hop. Falam com os mais jovens na linguagem do ocidente moderno” diz Javier Lesaca estudioso das formas de comunicação do Estado Islâmico.
Pela proposta política. Querem instaurar os califados dos primórdios do Islã. E já conseguiram enclaves no Iraque e na Síria. Tanto que seu líder atual Abu Bakr al-Baghdadi se proclama sucessor do califado otomano sunita (Abu Bakh, sogro de Maomé, é o fundador do Sunismo) e afirma também ser descendente do profeta Maomé, numa tentativa de atrair os Xiitas.
Pelo poderio econômico. Alcançado pela venda clandestina de petróleo, pois se apoderaram de poços; contrabando de armas sofisticadas; venda de acervos históricos a colecionadores e atravessadores , pelo tráfico de drogas e possivelmente até de órgãos humanos.
O professor de Psiquiatria da UNICAMP, Luís Fernando Tófoli, no artigo “Guerra Mentecapta” escreveu: “Como há indícios de que os militantes do Estado Islâmico tanto lucram com a droga quanto a utilizam, foi só questão de tempo para que uma substância psicoativa de nome desconhecido virasse a ‘nova droga superperigosa’ de fanáticos islâmicos”. Trata-se de Captagon, sintetizada na década de 60 com o nome científico de fenetilina, mas proibida mundialmente na década de 80. Lógico: proibição gera tráfico, que gera negócio lucrativo.
Continua Tófoli: “O consumo dessas pílulas caiu no gosto dos países islâmicos, principalmente os da Península Arábica, e passou a ser alimentado por um circuito envolvendo o Leste da Europa e o seu trânsito pela Turquia. A relação entre os estimulantes em geral – as anfetaminas em particular - com a guerra tem uma rica e íntima relação”.
É de pasmar, se tiver fundamento o documento divulgado pela Reuters (que não garante, porém, sua autenticidade) contendo a notícia de que o EI sancionou a extração de órgãos humanos em uma fatwa – decisão de estudiosos da lei islâmica - provocando a suspeita de tráfico de órgãos humanos. “A vida e os órgãos do apóstata não têm que ser respeitadas e podem ser tirados com impunidade. Órgãos que terminam com a vida do cativo, se retirados. A retirada desse tipo não é também proibida”, explica a fatwa número 68” (4).
Tudo é possível!
Fontes: Jornais O Estado de São Paulo e The New York Times.
O Estado Islâmico - Parte 2
17 de Marco de 2016, por João Magalhães 0
Quem vem acompanhando a situação do Oriente Médio nos últimos tempos, nos países de maioria islâmica, vê constantemente os desentendimentos, até violentos, entre sunitas e xiitas. Afinal, quem e que significam ser sunita ou xiita?
Após a morte de Maomé (570-632, d.C), o supremo profeta de Alá, ou o fundador do Islamismo para os não muçulmanos, aconteceu um cisma religioso entre seus seguidores. Separaram-se pelo desacordo sobre quem deveria suceder Maomé, como califa do Islã. Os sunitas achavam (e acham) que a sucessão cabia a Abu Bakr, pai da mulher de Maomé e amigo pessoal dele. Para os xiitas, o califa deveria ser Ali Ibn Abi Talib, primo e cunhado de Maomé.
Explicando um pouco os nomes: sunita vem de Ahl al Sunnah: o Povo do Caminho”; xiita provém de Shi’at Ali, que significa Partido de Ali e Califa vem de khalifâ: lugar-tenente, sucessor, título de soberano muçulmano. Portanto, califado, termo usado hodiernamente por causa dos territórios conquistados pelo dito Estado Islâmico, é um território governado por um califa.
Hoje, os sunitas são maioria: aproximadamente 87 a 90% da população muçulmana. Os xiitas, em torno de 10 a 13%. São maioria apenas no Irã; 95% da população iraniana é xiita.
Mas demografia não significa controle político. Por exemplo, na Síria, ainda em trágica guerra civil, a maioria é sunita, mas o poder está, há anos, com os Al Assad que são alauítas, uma corrente do islamismo xiita. No Bahrein, a maioria é xiita, mas a liderança é sunita. O Iraque, de maioria xiita, foi governado por anos pelo ditador sunita Saddam Hussein.
Convém observar que esses movimentos não são monolíticos. Entre os xiitas há ramificações com diferentes interpretações quanto à sucessão de Ali. Há um ramo que acredita que houve 12 líderes, chamados imãs, após Maomé. Entre os Sunitas há, também, várias escolas de pensamento, com interpretações diferentes da lei islâmica.
E outros, como o Sufismo, com sua ênfase nos elementos espirituais e místicos da fé, que tem vínculos tanto no sunismo quanto no xiismo e um grupo predominante em Omã, que se sente predecessor das escolas sunita e xiita. E há mais.
Acho importante considerar o comentário de Adam Taylor, jornalista do Washington Post (in Oesp,7/7/15 A10): “O cisma entre os movimentos sunita e xiita começou de modo sangrento, com Ali Ibn Abi Talib assassinado e seu sucessor morto e degolado em batalha. No decorrer dos anos, a minoria xiita às vezes foi perseguida por autoridades sunitas e vice versa. Posteriormente, quando a dinastia Safávida estabeleceu o islamismo xiita como religião de Estado da Pérsia, entrou em conflito com o califado sunita que tinha sua base no império Otomano (Império turco). Mas representar a rivalidade entre os dois grupos como um choque constante é totalmente equivocado. Sunitas e xiitas viveram muito felizes juntos, casando-se entre si e compartilhando locais de oração. E além disso, onde havia confronto entre eles, ocorriam também choques com outras religiões nesses períodos. E como alguns observaram, jamais houve uma guerra entre sunitas e xiitas com a ferocidade da Guerra dos Trinta anos, que envolveu diferentes movimentos cristãos - e que segundo estimativas deixou 8 milhões de mortos. A divisão entre sunita e xiita também diminuiu no início do século 20 com o aumento dos movimentos nacionalistas árabes. O movimento Baath, que chegou a dominar o Iraque e a Síria, mesmo com partidos políticos separados, enfatizava o nacionalismo e o socialismo acima de divisões religiosas”.
Infelizmente não é o que acontece hoje. O mundo muçulmano está dividido em seitas, cujas forças se contrapõem. É o caso da guerra civil na Síria, dos combates no Iêmen, das profundas tensões no Paquistão e no Afeganistão, do emperramento político do Iraque etc.
Os grupos de países liderados pelas grandes potências: Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, China etc. não são neutros a estas situações sócio-políticas. Pior, não são unidos. Há apoio para sunitas e apoio para xiitas, o que torna muito difícil a solução dos conflitos.
É dentro desses campos rivais que brotam os grupos fanáticos, radicais, fundamentalistas, cada um a seu modo, que adotam o terrorismo como estratégia de luta e apavora, sobretudo nosso mundo ocidental, cujo exemplo mais em evidência é o Estado Islâmico.
Loas e lástimas
*Loas para Janaina Resende e Beatriz Resende pela indicação e comentário que fizeram, respectivamente, na coluna “Vc no JL” sobre “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago e “Rangers: Ordem dos arqueiros – Ruínas de Gorlan” de John Flanagan.
*Lástimas para a Agência do Banco do Brasil de Resende Costa que no final de semana, sábado e domingo, 27 e 28 de fevereiro, deixou alguns clientes sem dinheiro (inclusive eu). Numa cidade em que muitos estabelecimentos não aceitam cartão, isto não pode acontecer.
O Estado Islâmico (Parte 1)
16 de Fevereiro de 2016, por João Magalhães 0
Se o filósofo Emmanuel Mounier (1905-1950) - nosso grande apóstolo do Personalismo Humanista - escrevesse hoje seu livro, em vez de intitulá-lo “Sombras de medo no século XX”, quiçá escrevesse “Nuvens de pavor no século XXI”, tais as barbaridadesque estão acontecendo por obra do terrorismo, que sempre existiu, mas que agora universalizou, pois tem todos os fantásticos avanços tecnocientíficos a seu dispor.
O mundo moderno ainda tem áreas bem amplas de governo teocrático. Ou seja, organizações políticas dominadas por organizações religiosas. Teocracias diretas com dirigentes religiosos sendo também chefes políticos, ou indiretas, com a doutrina, os dogmas, os princípios e até as leis religiosas sustentando a ideologia e os procederes políticos de nações. É o caso de alguns países do mundo islâmico.
Nas teocracias, quem diverge é herege, é infiel, é inimigo do deus de sua crença, o único verdadeiro. Há que discriminá-lo, combatê-lo, eliminá-lo fisicamente, se preciso for.
Na propagação e sustento das teocracias, o papel do fanatismo é fundamental. Ele é o instrumento de ação. Quem arregaça as mangas, puxa o gatilho, maneja a adaga que corta o pescoço, veste o cinturão de bombas e se explode junto, é quase sempre o fanático. Mas, o que é o fanatismo?
O mais famoso escritor israelense atual, Amós Oz, cujo livro mais recente: “Como curar um fanático” a Companhia das Letras publica agora, ele próprio detestado pelo fundamentalismo do partido rabínico de Israel, favorável que é à criação do Estado Palestino, diz: “O crescimento do fanatismo pode ter uma relação com o fato de que quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples. Fanatismo e fundamentalismo muitas vezes têm uma resposta com uma só sentença para todo sofrimento humano. O fanático acredita que se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta, às vezes junto com seus vizinhos. O fanatismo é muito antigo. É mais antigo que o Islã, o Cristianismo e o Judaísmo. Mais velho que todas as ideologias”.
Assim, praticamente, toda religião tem seus fanáticos, sobretudo as chamadas religiões do livro, por exemplo, Cristianismo, Judaísmo, Mórmons, Islamismo, Espiritismo e muitas outras. Aqueles que seguem e defendem a letra de seus livros sagrados como valor absoluto: a verdade está na letra, na forma do escrito.
E cito o jornalista e escritor Flávio Tavares (“A fanática visão única” OESP, 18/11/15 A2), ao comentar as barbaridades que estão acontecendo: “Todo fanatismo tem fundo religioso (A meu ver, no sentido de adesão a uma força maior em que se acredita, seja um partido, um time, um líder etc.). O fanatismo político que criou os campos de extermínio de Hitler, Stalin ou Pol-Pot, ou o fanatismo no futebol, que mata o desconhecido torcedor adversário, têm seu nascedouro na visão da ‘verdade única’”.
“A religião em si não é culpada. A culpa vem da religiosidade fanática, sem amor nem ternura”. São José Maria Escrivá (santo do século 20) a interpretava como extensão do fetichismo e da superstição. Sim, pois o ventre do fanatismo é místico-religioso. A visão fanática provém do pensamento único de seita. “Deus fala e age somente por nós, que somos a verdade única”.
José Maria Escrivá foi um padre espanhol, canonizado pelo papa João Paulo II, que fundou a instituição católica “Opus Dei” que também, como todo movimento, deve ter os seus fanáticos.
Por falar em livro “Mein Kampf” (Minha Luta) de Adolf Hitler voltou aos noticiários por cair no domínio público. Qualquer pessoa pode publicá-lo. Publicado em 1925, contém o programa político do líder Adolf Hitler, responsável pela morte de milhões de pessoas, assassinato programático dos judeus, desolação da Europa e tudo mais.
Escreve o jornalista e intelectual francês Gilles Lapouge: “Em 1930, o livro encontrou seu público e, após 1933, tornou-se a bíblia do regime (nazista). Edições de luxo eram feitas. Jovens casais recebiam um exemplar do Mein Kampf de presente de casamento. Como Hitler era um homem sensível, exigiu que sua obra fosse publicada em braile, para que os cegos também pudessem usufruir dela. Ficaram assim sabendo que, em 1925, o jovem Hitler previa que, no futuro Grande Reich, os ‘deficientes’ seriam eliminados e os ‘povos inferiores’ seriam escravizados pelos ‘superiores’”!
Um soneto a São João Del Rei
19 de Novembro de 2015, por João Magalhães 0

Ilustração (Lucas Lara)
Desta vez abandono o espírito da coluna, que é o de abordar assuntos polêmicos requisitando a opinião do leitor. Desta vez, apenas uma curiosidade.
Mexendo, por este meio tempo, na bibliografia de apoio, acumulada por anos para o ensino da literatura infanto-juvenil, no Colégio Stella Maris, São Paulo, capital - textos teóricos e obras, que retenho até hoje - dei com um livro da professora Carolina Rennò Ribeiro de Oliveira: “Leituras Escolhidas”. Ainda na capa: “Como escrever sem erros. 5º ano e admissão”.
Carolina Rennò merece mais que esta ligeira apresentação. Mineira de Paraisópolis, nascida em 1902 e falecida em 1975. Estudou contra a vontade do pai (renunciou por isso até a própria herança). Fez carreira em São Paulo, onde é nome de escola. No começo, lecionava em escolas da periferia. Vocação de educadora e grande talento, cria um nome pela inovação na metodologia do ensino, no pioneirismo em livros didáticos, fundando até uma editora (Editora do Mestre Ltda).
O “admissão” levou minhas lembranças para a época em que fazer o curso ginasial (atual 5ª a 8ª séries) era difícil e o postulante era submetido a uma espécie de vestibular para conseguir uma vaga. Eram comuns, então, os cursinhos preparatórios, chamados de “Cursos de Admissão”.
O seminário menor dos padres camilianos em Santa Catarina (Iomerê, distrito da cidade de Videira, hoje município) exigia, conforme o estado do ingressante, o curso de admissão que era oferecido pelas Irmãs Marcelinas, aí vizinhas.
Cito isso para elogio do nosso respeitável “Assis Resende”: a formação intelectual que recebíamos de nosso Grupo Escolar era de primeira. Para se ter uma ideia, tirávamos o diploma de grupo dominando a análise sintática (antigamente análise lógica!).
Chegando com as aulas já iniciadas no seminário, fui convocado pelo diretor (padre Jorge Davanzo, camiliano) para um teste. Ficou impressionado pelo ensino recebido no Assis Resende e dispensou-me de imediato do curso “Admissão”.
De novo o “Assis Resende” me tirou de grande aflição. Aulas de latim iniciadas havia mais de um mês, fiquei à deriva, confuso, entendendo pouco. O caminho se abriu quando percebi que o latim é estruturalmente ligado à análise sintática. Sem sabê-la, ninguém aprende latim e graças ao nosso Grupo Escolar eu a sabia e muito bem. Daí pra diante foi um pulo.
Mas voltemos ao título: “Um soneto a São João”. Folheando o livro citado eis que vejo o soneto abaixo, ipsis litteris:
SÃO JOÃO D´EL-REI
Pereira da Silva
São João d`EL-REI. Gente de paz e amiga.
Igrejas seculares. Clima são.
Serenidade que não há quem diga
Tal como a sente, ao vivo, o coração.
Relíquias reais. Siga por onde siga
Encontra, a cada passo, o homem cristão
Um motivo de culto ou admiração
Pelos heróis da nossa história antiga.
Rio das Mortes. Tiradentes. Quanta
Venera imorredoura nesta santa
Jerusalém da nossa liberdade!
Cidade a um tempo augusta e merencória
Mas, por igual, padrão de orgulho e glória
Do sangue fértil da brasilidade.
Pereira da Silva? Quem seria? Com este sobrenome só conhecia Oscar Pereira da Silva, pintor, de quem aprecio muitos quadros.
O Google me respondeu: Antônio Joaquim Pereira da Silva, advogado, poeta, crítico literário e jornalista paraibano, atuando no Rio de Janeiro (*Araruna/PB 1876 - +Rio de Janeiro 1944). Foi o primeiro paraibano a ingressar na Academia Brasileira de Letras.