Danificada, imagem setecentista do Rosário volta para o restauro


Notícia

Da redação0

fotoImagem de N. Sra. do Rosário em processo de restauração no ateliê de Carlos Magno após ser alvo de ataque (foto Carlos Magno)

Pouco mais de um mês depois de restaurada e devolvida a Resende Costa, a imagem de Nossa Senhora do Rosário, de meados do século XVIII, encontra-se novamente no ateliê do artista Carlos Magno Araújo, em São João del-Rei, para ser recuperada a tempo da tradicional Festa do Rosário no dia 1 de novembro. A imagem ficou quatro meses no ateliê para trabalhos de restauro. Agora, é “um trabalho emergencial, nós deixamos de fazer alguns trabalhos para atender o anseio da população de a imagem voltar a tempo e a hora das festividades em Resende Costa”, diz Carlos Magno.

A imagem foi atacada a pontapé, em 7 de outubro, dentro da igreja do Rosário, pelo jovem Paulo Sérgio Resende, de 20 anos, e com o impacto caiu no chão e ficou danificada. O ato se deu minutos após as solenidades de comemoração dos 140 anos de fundação da Confraria de Nossa Senhora do Rosário. De acordo com a Polícia Militar, o rapaz entrara na igreja pela porta da sacristia e corrido em direção ao salão principal, uma vez que a porta principal da igreja já tinha sido fechada.

De acordo com relatos de pessoas que presenciaram o ataque, o jovem teria proferido várias blasfêmias como “Deus me pediu para acabar com a palhaçada dessa corja. Vocês não são de Deus. Isso é um templo do capeta. Essa imagem é de Satanás”. Além da histórica imagem de Nossa Senhora do Rosário, um par de castiçais e a ornamentação do andor também foram danificados. Anteriormente, o jovem tentara invadir a igreja de Nossa Senhora Aparecida, também em Resende Costa, onde ocorria uma novena, mas foi contido pelos presentes.

 

Reação

 

Após uma ligação anônima, os policiais chegaram ao local e encontraram o jovem imobilizado em via pública por fiéis que estavam na igreja do Rosário. A Polícia Civil foi acionada para dar sequência ao trabalho e tomar as medidas cabíveis. Paulo Resende foi preso por conduta que pode ser enquadrada como intolerância religiosa e dano ao patrimônio cultural. Mas, em audiência de custódia, a Justiça concedeu liberdade provisória ao jovem que, no entanto, ficou proibido de entrar nas igrejas de Nossa Senhora do Rosário e Aparecida. 

O provedor da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, Gustavo Pinto, não quis comentar o caso e remeteu para a manifestação oficial da Diocese de São João del-Rei, que divulgou “Nota de Repúdio”, no dia 8 de outubro, através do bispo, dom José Eudes Campos do Nascimento. “Reforçamos o entendimento de que toda e qualquer manifestação de fé é resguardada pela Constituição Federal, e que qualquer ato contrário, sobretudo de caráter violento e desrespeitoso, caracteriza-se como crime de intolerância religiosa. As medidas cabíveis já estão sendo tomadas, e os responsáveis confiados à Justiça”, diz a nota.

Publicações na redes sociais associaram o ataque a possíveis atos de manifestação política. No entanto, de acordo com as investigações ainda em curso, não há nenhuma evidência que aponte que tenha havido motivação política no ato. Acredita-se que o jovem tenha diagnóstico de transtornos mentais e estava em surto psicótico. Um vídeo que circula na internet mostra Paulo Resende em completa confusão mental. Ele diz que está em um “ataque espiritual” e faz uma série de declarações desconexas. Como este trecho: “Você pode não acreditar, ou acreditar, eu estou num ataque espiritual aqui. (…) Deus me fortaleceu pra mim enxergar a ilusão. Eu estou fazendo esse vídeo para o cara que sabe a verdade: Xandão, veja esse vídeo. (…) Eu não vou provar nada pra ninguém, Deus está me usando. Você é o cara da verdade, eu sentia isso. (…)”.

 

A imagem

A imagem de Nossa Senhora do Rosário está inventariada como patrimônio cultural do município de Resende Costa. A escultura, de 87 cm (da base à cabeça), em cedro, é atribuída ao desconhecido Mestre de Lagoa Dourada, segundo descrição de Carlos Magno Araújo. Apresenta “características formais e ornamentais compatíveis com a imaginária sacra mineira do século XVIII, destacando-se pela composição frontal, pela elegância do panejamento e pela riqueza decorativa da policromia e do douramento. A figura da Virgem sustenta o Menino Jesus sobre o braço esquerdo, enquanto mantém a mão direita estendida, em gesto de acolhimento e apresentação, compondo uma representação de caráter devocional.”

Ainda segundo o artista são-joanense: “A indumentária é constituída por túnica de tonalidade clara, com motivos ornamentais dourados, e manto azul, igualmente enriquecido por elementos decorativos e acabamento dourado nas bordas. O tratamento das vestes evidencia a preocupação com a valorização ornamental da superfície, mediante a articulação entre cores, douramento e representação dos relevos do tecido”.

Um elemento significativo “para a caracterização estilística da obra é o tratamento dos cabelos da Virgem, organizados em mechas onduladas que terminam em cachos bem definidos. Essa solução formal confere volume à cabeleira e constitui um importante aspecto de comparação com outras esculturas atribuídas ao mesmo círculo artístico”. E ainda: “O rosto apresenta feições delicadas, com olhos bem delineados, nariz proporcional e boca pequena, compondo uma expressão serena e solene. O Menino Jesus possui tratamento anatômico próprio da imaginária devocional do período, enquanto a base, ornamentada com cabeças de anjos e elementos de nuvens, reforça a dimensão celestial da representação”.

Segundo Carlos Magno, a atribuição ao mestre de Lagoa Dourada fundamenta-se “na existência de imagens semelhantes na região, datáveis do mesmo período e relacionadas ao mesmo escultor”.

 

Importância histórica

De acordo com Carlos Magno, a imagem de Nossa Senhora do Rosário constitui um exemplar representativo da imaginária sacra mineira setecentista, ao reunir composição devocional tradicional, policromia ornamental, douramento e soluções formais características da escultura religiosa regional. “O tratamento dos cabelos, cujas mechas terminam em cachos, destaca-se como particularidade relevante para a análise comparativa com outras obras atribuídas ao Mestre de Lagoa Dourada.”

“A associação entre as características formais da escultura e os paralelos regionais indicados sustenta sua inclusão no campo de estudo da produção escultórica mineira do século XVIII, recomendando-se a preservação de sua atribuição como hipótese fundamentada em análise estilística, sujeita a confirmação por investigação documental e comparativa”, conclui o artista.

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário