Já se encontra disponível no Clube de Autores o livro Arte Sacra em São João del-Rei: Um Arranjo Produtivo Local, do jornalista José Venâncio de Resende. A previsão é de que em agosto a obra já esteja à venda em pontos comerciais de São João del-Rei. A publicação mostra o desenvolvimento econômico e social de São João del-Rei, a partir do surgimento e da proliferação das irmandades e das igrejas no século XVIII.
A evolução da cidade gerou a necessidade de ofícios como os de prateiro, entalhador, escultor, restaurador, pintor, músico, costureiro e ferreiro. Aliado às profissões, surgiram os empreendedores nos diversos segmentos como os de confecção de peças e mobiliário para o interior de igrejas, capelas e residências; orquestras e bandas mantidas com o apoio das irmandades religiosas; restauro de igrejas e capelas; produção artesanal e preservação dos sinos; desenvolvimento da técnica dos tapetes de rua; pintura de quadros sacros; impulso aos grupos de peregrinação; enfim, tudo o que gira em torno da vivência religiosa.
A ideia do livro partiu da aprovação, em 2024, da lei municipal que declarou São João del-Rei a Capital da Arte Sacra, uma iniciativa do então vereador Fabiano Pinto. Na justificativa do projeto de lei, considerava-se que a cidade “nasceu ao redor da religiosidade católica dos colonos portugueses” e da “descoberta dos minerais preciosos nas encostas das serras e (dos) morros, (e que), desde seu início, se centrou ao redor de uma capela, rústica e tosca, onde essa religiosidade pudesse ser expressa”. Assim, preocupou-se “com o belo dentro dos templos” (e não apenas), o que tornou imprescindível “a presença de artífices que dessem vida a esse belo buscado pelos fiéis católicos”.
Outro incentivo para esta publicação foi a criação recente da Bienal de Arte Sacra. Trata-se de “um projeto único e inédito no Brasil e mesmo fora do Brasil”, considerando “essa gama de artistas que nós temos a sorte de ter em São João del-Rei e na região”, como destaca o escultor Fernando Pedersini, um dos líderes desse processo. Assim, foi criada uma marca “justamente para mostrar a linha temporal desses ofícios, que não se perdeu, com uma pegada colonial e moderna”.
O livro
Este livro é mais um tentáculo desse processo. Trata-se de uma série de 14 reportagens, publicadas no Jornal das Lajes, no período de 30/04/2025 a 25/02/2026, com a assessoria do renomado restaurador Carlos Magno Araújo, abordando os vários segmentos do complexo que faz girar o mundo da arte sacra. Uma primeira observação é que a série não abrange, necessariamente, todos os setores nem alcança todos os profissionais, tal a magnitude desse ambiente. Por exemplo, o fato de haver reportagem com o jovem escultor João Paiva não significa desprestigiar nomes como Fernando Pedersini e Carlos Calsavara.
Da mesma maneira, o fato de haver uma reportagem com Rogério Fernandes sobre mobiliário sacro não significa desconsiderar o papel dos irmãos Silva. Outro exemplo é o do estanho, que abriga vários artesãos e mais de mil tipos de peças, segundo fontes do setor.
É importante, ainda, ressaltar o papel das irmandades religiosas, com suas novenas, festas dos padroeiros, missas dominicais e celebrações da Quaresma e da Semana Santa. Essas entidades são de fundamental relevância na manutenção das orquestras e das bandas, que apresentam músicas sacras de compositores locais e da região, entre os séculos XVIII e XX.
Além disso, o livro assinala a importância da preservação da linguagem sonora dos sinos, da fundição de novos e da restauração dos antigos. Inclusive, destaca a existência do Museu dos Sinos na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, dedicado a esse objeto tão significativo para a religiosidade local e sua tradição, tanto em Minas Gerais quanto no país como um todo.
O objetivo do livro é mostrar a importância da arte sacra, não apenas no seu aspecto religioso como também social e econômico. Alguns dos entrevistados, como Mahatma Ghandy, do setor de estanho, e Antônio Januário, de oratórios, apontaram a falta de interesse dos jovens em aprender tais ofícios como responsável pela escassez de mão de obra, o que se pressupõe seja um problema muito mais amplo. Será que não seria o momento de o poder público municipal liderar a criação de cursos profissionalizantes focados nessas áreas?
A capa
A escolha da foto de capa deste livro também não é por acaso. Trata-se da Capela do Divino Espírito Santo, no centro histórico, cuja recuperação ajudou a amplificar a tradição (século XVIII) da Festa do Divino Espírito Santo em São João del-Rei, sem prejudicar essa forma de manifestação religiosa em São Vicente de Minas, origem do templo.
Um dos capítulos deste livro trata da transferência para São João del-Rei do interior da Capela do Divino Espírito Santo de São Vicente de Minas. O próprio restaurador e artista plástico Carlos Magno Araújo considera o seu trabalho mais importante em São João del-Rei a recuperação do acervo desta capela rural, estilo rococó, de São Vicente de Minas, evitando, assim, que fosse fragmentada e caísse nas mãos de colecionadores particulares.
Carlos Magno reconhece, inclusive, o empenho do saudoso Monsenhor Paiva, então pároco de Nossa Senhor do Pilar, que não apenas conseguiu um espaço para acomodar o acervo (um galpão que abrigou durante 20 anos as peças desmontadas) como também adquiriu um terreno e uma casa em ruína na Rua das Flores para a construção de uma capela, com projeto do arquiteto André Dangelo. Foram anos até conseguir a aprovação do IPHAN. A capela foi inaugurada no dia de Pentecostes de 2019, com missa celebrada por Monsenhor Paiva, pouco antes de seu falecimento.
Pena que a Capela não esteja aberta à visitação pública, ficando restrita apenas à celebração de missa uma vez por semana e ao acesso um pouco maior durante a Semana Santa.
O livro pode ser adquirido em https://clubedeautores.com.br/
Capa do livro de autoria do jornalista José Venâncio de Resende