A Teia do Mundo

O AMOR

17 de Setembro de 2014, por José Antônio 1

Aprendi com a poesia a falar um pouco melhor sobre o amor. Mas o amor tem suas próprias noites e auroras...

O amor é eterno. Por ser eterno, ele não pode ficar. Ele dura porque não fica. Jamais se prende a histórias que são minhas ou suas. Se ele se prender, ele morre. Nós somos finitos, e o amor não. Ele é eterno porque não permanece.

Ele passa, fica um pouco... e vai. Deixa em mim, deixa em você apenas uma frágil chama, um vislumbre de que também nós podemos ser eternos... desde que não nos aprisionemos naquela maneira cruel e frustrante de tentar entendê-lo: a paixão.

O amor não começa com grandes declarações. Nem com gestos efusivos. O amor começa com pequenos gestos de doação, com silenciosas e sutis declarações.

O amor não começa no lençol compartilhado, mas no travesseiro solitário.

Ele sabe que muitas vezes a melhor presença é a ausência... que qualquer jeito não é jeito... que o momento revela o que os dias escondem...

O amor não coloca a consequência antes da causa.

O amor conhece a eloquência do silêncio.

Ah, o amor...

O amor não é aqui, ele é quando...

O amor não é agora, ele é se...

Sua alegria costuma dar medo, pois de algum modo essa alegria precisa da dor.

Sua dor costuma dar alívio, pois é típico do amor descobrir esperanças.

Começar um amor com arroubos, festas, grandes presentes, viagens inesquecíveis, gastos exorbitantes não agrada ao amor, pois ele não gosta disso em seu início. Não combina com o amor pagar mico. O amor tem classe. Ele sabe que todo arroubo é coração de bolha... um dia tudo vai se esvaziar.

O coração de quem ama não começa inchado. Ele vai se preenchendo aos poucos até ficar rico de tanto doar, sem mostrar que está doando.

 O amor, quando chega, exige o melhor: nosso melhor sorriso, a melhor roupa, a melhor palavra, o melhor abraço, o melhor beijo...

O amor, quando se vai, por que não exigiria também o melhor? E exige. Nossa melhor renúncia, a melhor lágrima, a melhor paciência, a melhor volta por cima, a melhor alegria...

Pois também é típico do amor tornar melhor quem ama. É a regra do jogo do amor. Porém, ele é igual criança brincando: tem sua própria realidade e suas próprias regras. Se a gente interfere, aquela realidade acaba e tudo fica sem graça.

O amor não é ingrato. Ele é livre. Tentar aprisioná-lo é o mesmo que apertar a parte de baixo da rosa.

O amor é livre. E talvez esta seja a sua lição mais difícil: também sermos livres para vivê-lo.

Aprendi com a poesia a falar um pouco melhor sobre o amor. Mas aprendi com o amor outra coisa: perante as linhas que ele escreve, a poesia é apenas uma aprendiz.

      

           

A COPA DO PICA-PAU AMARELO

13 de Agosto de 2014, por José Antônio 0

Pôr do sol de trombeta... Assim a boneca Emília chamou o ocaso todo avermelhado. O sol tocava trombeta, convocando todos os vermelhos e ouros do mundo para comparecerem ao crepúsculo.

A nossa seleção também teve o seu pôr do sol. Só que foi pôr do sol de vuvuzela. Os vermelhos compareceram no rosto envergonhado da nação e os ouros (euros!) no bolso nos nobres atletas nobres. O pica-pau abriu a porteira do sítio do sorriso amarelo e as figuras do Lobato povoaram a seleção.

O aventureiro Pedrinho era a nossa comissão técnica. Bem no estilo do Pedrinho: enfrentar o perigo com material rústico. O Pedrinho armou o time e foi enfrentar a onça com a tática suicida de um esquema aberto. E o que aconteceu com as caçadas do Pedrinho? Onça upon a time... um time!

Sabe a Narizinho? A coitada não tem função quase nenhuma no sítio. Se o nome dela fosse Orelhinha, Coxinha ou Boquinha, não faria diferença alguma. Pois a Narizinho jogou no nosso ataque. Sem função e deslocada, quase não acertava o gol. Pudera, ela não enxergava um palmo além do seu próprio narizinho.

O Marquês de Rabicó foi escalado pra goleiro. O leitãozinho guloso só em dois jogos conseguiu engolir 10 gols!!!

A zaga se dividiu em duas Emílias. Todas as duas com a cabeleira desgrenhada, arrogantes e inconsequentes. Fizeram bobagem e falaram bobagem. Uma das Emílias declarou que queria dar alegria ao povo sofrido do Brasil. Ora, Emília, então venha jogar aqui. Alegria... o povo sofrido do Brasil vai ter alegria quando ganhar o salário que a Emília ganha pra bater bola na Europa. Gol não engorda, gol não mata a fome, gol não paga escola nem professor nem hospital. Gol enriquece e alimenta somente o goleador... desde que não seja gol contra, não é mesmo, outra Emília?

Será que o Monteiro Lobato tem algum roteiro para explicar o vexame? Quem é que vai explicar a patacoada da seleção? Os atletas do pica-pau amarelo é que não vão. Tiraram fotos com tietes fúteis, posaram para anúncios publicitários, brincaram mais que treinaram... Basta colocar uma frase imbecil no twitter e lascar fora. Banana pro Brasil!

O povo, coitado, mais uma vez com a bolinha vermelha no nariz: vota em mentiroso, assiste sempre à mesma novela, acredita em brasileiro quem já se esqueceu do Brasil e chama de celebridade quem tem somente a bunda pra mostrar. E o povo ainda pinta a cara pra ver no picadeiro do estádio a sua desgraça que faz rir. Pintar a cara e depois chorar em cima da própria pintura... Típico! Ridi, pagliaccio!...

Já estão falando em eliminatórias pra Copa da Rússia. E todo mundo já se ouriçou novamente. A ingenuidade já começou a convocar a nação. Parece que todo mundo vai acreditar outra vez.

Ingenuidade por ingenuidade... Não sei, talvez fosse melhor, para montar a nossa seleção, mobilizar mais gente da literatura e das artes, e não apenas o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Vai aí uma sugestão de onze ingênuos universais. Olha só que time: Dom Quixote, Cândido, Epaminondas, Brancaleone, Policarpo Quaresma, o Bobo da Corte, Chapeuzinho Vermelho, Pateta, Pedro Bó, o Gordo e o Magro. O técnico pode ser o Mané.

 

Quem sabe resolve?

Pra que é que serve?

16 de Julho de 2014, por José Antônio 0

Quem é que inventou o pente? Ou ninguém inventou? Talvez o pente seja um artefato do evolucionismo. Homens e mulheres nas cavernas, aquela cabelada toda desgrenhada que nem piaçava de duas pernas... De repente, a própria natureza gritou que era preciso fazer alguma coisa, pois os hominídeos já estavam até se embaraçando uns nos outros de tanto cabelo.

E o pente apareceu. Consequência natural e determinismo pragmático. Era o único desfecho possível. Apareceu como um dos elos da cadeia das necessidades humanas. Até hoje o pente está aí e todo mundo sabe pra que é que serve.

Outra coisa importante é a tesoura. Se o pente apareceu a fim de assentar o que não parava de crescer, a tesoura surgiu para diminuir tamanhos. E ela está aí até hoje, igualzinho ao pente: útil, firme, constante. A tesoura corta tudo, menos a sua utilidade. Todo mundo sabe pra que é que serve.

Isso é o que faz uma invenção durar: a gente saber pra que é que serve.

De vez em quando, o homem inventa umas coisas e se esquece de inventar uma utilidade para elas. Uma dessas invenções inúteis é a tinta pra pintar pelo de cachorro e pena de pintinho. Pra que é que serve um poodle azul? Onde eu vou usar um yorkshire cor de abóbora? Você encara andar pelas ruas com um pinscher verde? Deve ser duro pra uma galinha passar quase um mês chocando ovos e ver que seus pintinhos ficaram jade e grená. Isso humilha o galinheiro e o galo, que – com certeza – preferiria que os pintinhos ficassem roxos.

Tinta pra pintar bicho... pra que é que serve?

Outra coisa que não sei pra que é que serve, mas que foi inventada, é a vuvuzela. Feia, irritante e sem utilidade. Andei lendo que ficar exposto ao som dessa porcaria durante muito tempo pode causar danos irreparáveis aos ouvidos. Porém, quem inventou a vuvuzela não corre esse risco, pois a orelha é grande e acaba protegendo os tímpanos. Outro risco da vuvuzela é espalhar vírus, já que todo mundo fica soprando em cima de todo mundo.

Ridículo olhar para a torcida e ver aquela turma de marmanjos e crianças, todos com um canudão enfiado na boca e buzinando numa nota só. Qual a utilidade da vuvuzela no jogo? Nenhuma. Qual a alegria que a vuvuzela traz pra quem está sentado ao lado do soprador? Nenhuma. 

E o povo insiste em exercitar a embocadura no cornetão burro.

O negócio tem requinte: já inventaram a vuvuzela tipo buzina a ar comprimido. Você não precisa soprar, é só apertar um tipo de êmbolo que a injeção de ar acontece. O resultado é aquele barulhão inútil.

Vuvuzela... pra que é que serve?

 

Se o pente e a tesoura vieram de um tipo de evolucionismo pragmático, a tinta pra pintar bichinhos veio de um revolucionismo antipático. Quanto à vuvuzela, essa veio mesmo é de um regressionismo dramático.

Neurônios murchos

13 de Junho de 2014, por José Antônio 0

E Plutão deixou de ser planeta. Antes era aquele planetinha esquecido lá no finzinho da fila. Nem o sol sabia que Plutão era um dos nove que circulavam por ali.

Ninguém nunca ouviu falar muito dele, jamais foi assunto de conversa importante. As previsões para a lavoura nem conhecem Plutão. O clima da Terra muda e desmuda dando uma banana pra Plutão.

Viagem espacial para Plutão? Loucura. Filme de aventura em Plutão? Cadê a aventura? Pagode cantando Plutão? Ninguém atura. Sentido pra Plutão? Ninguém procura.

E o Plutão aprendeu com a lua: coisa que não é nova fica minguante. Plutão foi minguando em seu status até deixar a lista dos top nine: virou cartilagem do sistema solar.

Passando para outra órbita, o meu telescópio crítico encontra uma outra coisa que também está deixando de ser tão importante e virando cartilagem: o cérebro humano.

Aquilo que não é usado vai se atrofiando, murchando até perder o brilho. O cérebro está perdendo o seu status. Parece que a lei é não incomodar o cérebro.

Na música, a inteligência auditiva não precisa mais ser exercitada, pois já baixamos afinadores pela internet. Hoje o homem consegue afinar um violão com os ouvidos tapados.

Tem mais: você toca qualquer música numa mesma escala: não é necessário raciocinar para fazer transposição, é só mexer numa chavinha.

E a pesquisa? O cérebro não precisa mais entrar nisso. Basta copiar e colar, CTRL C e CTRL V: Cérebro Trabalhando Rala, Logo Chega! e Cérebro Tranquilo, Recostado, Lerdo, Vagabundo.

O cérebro vai se transformar num amontoado de neurônios frouxos que servirão apenas para raciocínios estúpidos. Ou já se transformou?

Nossas celebridades são músculos e bundas, barraqueiros e corruptos... nossas torcidas matam com rojões, batem com pauladas, assassinam jogando vasos sanitários na cabeça dos outros...o lixo é o sucesso... o esgoto é o glamour... o baixo calão é o humor sem limites... a falta de classe é a sinceridade... o racismo é a hipocrisia fantasiada de igualdade...

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou... Você que faz crônicas, que ama, que protesta... E agora, José? Se você gritasse, se você gemesse, se você morresse... Mas você é duro, você não morre, José.

O jeito é fugir a galope, sem cavalo preto, até chegar a Pasárgada. Lá eu sou amigo do rei, tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.

 

Peguei uma carona com Drummond e com Bandeira. Se você quiser vir comigo, eu também lhe dou carona. Quem não quiser, que fique por aí, fechando o cérebro no canal aberto, acreditando em Copa do Mundo e Fórmula 1... ou mesmo curtindo um funk.

E o terno?

15 de Maio de 2014, por José Antônio 1

A Gata Borralheira não podia ir à festa porque não tinha roupa adequada. De repente, a fada madrinha rasga a cena: aparece do nada resolvendo tudo. E a Gata Borralheira virou Cinderela: deixou o borralho sem deixar de ser gata.

Virando as páginas das minhas memórias, salta de lá o Mário Márcio com os olhos arregalados de pavor:

– Pois é, cara! Me escolheram pra paraninfo do 3º ano do Assis Resende e a formatura é sábado que vem. Já escrevi o discurso, mas esqueci a roupa. Não tenho terno. E hoje é terça-feira. Como arrumar um terno pra sábado?

Situação difícil. Sugeri alugar.

– Alugar terno sem saber quem vestiu antes? E se já foi terno de defunto?

Em São João havia poucas lojas que vendiam ternos. E o pior: o Mário não agradou de nenhum que experimentou.

– Quer saber? Vou mandar fazer.

– Mário!!! Hoje é terça-feira e a formatura é sábado. Não dá tempo. Fazer terno vai levar mais de uma semana.

– Por favor, Zé! Você tem que me ajudar.

Resolvi ajudar, mesmo sabendo que aquilo não iria dar em nada. Amigo é amigo. Indiquei o alfaiate e o Mário comprou o pano.

O alfaiate ficou pálido e revoltado ao saber do prazo que teria. A proposta virou conversa e a conversa virou discussão O alfaiate tinha razão: como fazer um terno em poucos dias? E as encomendas dos outros clientes? Ele não tinha varinha de condão.

Por mais que o pobre alfaiate provasse a impossibilidade da tarefa, o Mário acreditava que abóboras viravam carruagens. Deixei o Mário lá, com seu pano, aviamentos, esperança, teimosia e um terno na cabeça. Não o vi mais.

No sábado, a cerimônia da formatura.

A sociedade de Resende Costa lotava o teatro. Olhei para os lados e não vi o Mário. De repente, lá no palco alguém começou a chamar a composição da mesa. Subiu a diretora, subiu o prefeito, subiu a professora homenageada...

– Convidamos também para compor a mesa o paraninfo da turma.

E o Mário Márcio rasgou a cena, vindo lá do fundo, desfilando entre as cadeiras do teatro. Exibia o seu terno bem cortado e bem feito. Era o terno. O alfaiate virou fada.

No fim da cerimônia, corri curioso para o meu amigo e lhe perguntei como aquilo fora possível. O prazo era muito curto. Mário estava envolvido numa interminável sessão de fotos com os formandos. Entre uma e outra, ele me puxou o braço e falou baixinho, num sorriso malandro:

– Eu falei que era pro meu casamento. Inventei que precisava casar às pressas.

Voltei para a nossa república, ali no beco da Dona Nhazinha do Geraldo Porteiro, mas não entrei. Sentei-me sozinho nas lajes e esbocei uma gargalhada. Ao longe, ouvia vozes e risos felizes vindo da praça da Matriz: eram os formandos saindo do teatro com o Mário. Gritavam cadenciadamente: “Mário Márcio! Mário Márcio! Mário Márcio!”

Depois, ainda pude ouvir – agora mais longe – os alunos gritarem três vezes: “Viva o Mário! Viva o Mário! Viva o Mário!”

Três gritos, um para cada tipo de Mário: para os alunos, vivia o Mário Paraninfo... Para o alfaiate, vivia o Mário Noivo... Para mim, vivia o Mário Cinderelo.

 

E, pelo que sei do meu amigo, esses três tipos de Mário conviveram felizes para sempre.