Escola de samba
11 de Fevereiro de 2015, por José Antônio 0
Diz a lenda que o carnaval é o sonho do Pierrô. Cansado de ser rejeitado pela Colombina, Pierrô dormiu profundamente. Em seu sonho, a Colombina vivia com ele um grande amor. Uma folia aconteceu: música, comida, bebida e dança. No entanto, como todo sonho que começa, o sonho do Pierrô também acabou. Tudo fora uma ilusão. A realidade era outra. O carnaval tinha acabado.
Mas quem é que disse que o Pierrô não poderia sonhar mais? Claro que poderia! Ele sonharia nas Lajes. Levei a ideia ao Mário Márcio:
– Uma escola de samba, Zé? Já é fevereiro, o carnaval é no mês que vem.
Eu disse que havia um grupo de interessados: gente pra desenhar as fantasias, as alegorias, costureiras e marceneiro. O samba-enredo já estava no forno.
– A primeira reunião será amanhã, sábado, depois de um casamento que vai ter na Matriz. A gente vai se reunir na nossa casa mesmo.
O sábado chegou e os foliões foram vindo aos poucos. O beco estava movimentado. Anunciei o pessoal da bateria. Eles fariam um número de apresentação e saudação à escola de samba nascente. Todos se viraram e olharam por cima de uns cinco rapazes com instrumentos, mas não viram a bateria.
Os cinco rapazes eram a bateria.
Alguém soprou um apito que mais parecia um grilo rouco. Começou, então, um terrível soca-soca, cada um tocando furiosamente na (de)cadência de seu próprio ritmo. Não era uma bateria, e sim uma bateção. Quando acabaram, ouviu-se um aplauso mais sisudo do que a Quaresma. E a reunião começou.
Primeiro item da pauta: o nome da escola de samba.
– Grêmio Animado dos Tocadores da Apoteose... GRATA!
– É melhor Grêmio Entusiasmado dos Tocadores da Apoteose... GRETA!
– Pode parar! Esse negócio de Animado, Entusiasmado... onde já se viu?
– E qual é a sua ideia, então?
– Grêmio Reunido Império do Tom Afinado... GRITA!
Levantou o dedo um senhor. Falava baixinho e, segundo diziam, não havia estudado, mas era mestre da vida, muita sabedoria:
– Ói, gente, é mió ponhá Grupo Reunido das Otoridade do Tamborim e do Agogô... GROTA!
– Peraí, gente! Só falta agora aparecer Grêmio Reunido da União dos Tocadores do Arraial... GRUTA! GRATA, GRETA, GRITA, GROTA, GRUTA... já até pensei numa rima pra xingar a nossa escola.
Todos caíram numa gargalhada convulsiva. Percebi que a escola de samba estava começando a ganhar os contornos de uma ideia que não tinha dado certo. Pra evitar que a dispersão acontecesse antes da concentração, retomei a conversa. E alguém apareceu com outro nome:
– Segura aí, ó: Mocidade Independente da Juventude Animada... MIJA!
– Com um nome desse, eu não quero nem chegar perto do lança-perfume.
Mais uma gargalhada geral. A reunião foi pras cucuias, junto com a escola. Tem gente que leva pancada na cabeça e passa a ter ideias estranhas. Se a nossa escola acontecesse, seria o contrário: nossa turma teria ideias estranhas e passaria a levar pancada na cabeça.
Aquele ano de 1987 levou pancadas, como o acidente do Césio 137, a morte de Drummond, a Black Monday da queda da Bolsa de Nova York... A nossa escola seria o tiro de misericórdia! E o Pierrô não dormiu, com medo de bala perdida.
Exame
13 de Janeiro de 2015, por José Antônio 0
– É grave, doutor?
– O que?
– Isso que o senhor está vendo aí.
– Não estou vendo nada, amigo.
– Nada? O meu exame então é uma demonstração de nada?
– Nem sempre o exame de fezes mostra anormalidades.
– Mas tem que ter alguma coisa aí. Afinal de contas, não se trata de sangue nem de outra coisa. É um exame de fezes. Como não tem nada? Já viu fezes sem porcaria?
– O seu exame está excelente. Não consta nada em suas fezes. Seu organismo está normal.
– Como pode estar normal?
– Olhe, vou fazer algumas perguntas, só pra deixar você tranquilo.
– Perguntas de médico nunca me deixam tranquilo.
– Por que?
– Médico quando pergunta é porque está querendo saber outra coisa. E geralmente é coisa ruim que ele fica sabendo.
– Como são seus hábitos alimentares?
– Tudo muito bem cozido, sem frituras e pouco carboidrato. Bastante verdura.
– Bebe?
– Água, leite... vinho de vez em quando.
– Já teve algum problema de úlcera, gastrite ou colite?
– Nunca. A única coisa que o meu estômago sente é fome.
– Dorme bem?
– Que nem pedra.
– Emoções violentas ou traumas?
– Nada... minha vida é bem sossegada.
– Está vendo como sua vida não deixa aparecer nada de errado em seu exame? Uma vida pacata... um exame também pacato.
– Quer dizer que se eu tivesse uma vida mais agitada as minhas fezes seriam mais radicais?
– Não foi isso o que eu disse. Apenas falei que seu estilo de vida é saudável. Não tem nada cheirando mal em seu exame.
– Nem as fezes?
– Tudo normal.
– Como normal? Não tem nada nas fezes? Nem uma lombriguinha escondida aí atrás de qualquer coisa?
– O seu organismo está limpo.
– Olhe direito esse exame, doutor. O meu organismo está limpo porque o que estava sujo eu coloquei pra fora. Olhe outra vez. Tem que ter algum probleminha em meu exame.
– Por que essa sua preocupação em ter coisa errada em seu exame de fezes?
– Eu já fui reprovado em exame de motorista, em exame de vestibular e até no exame do exército. Agora... ser reprovado em exame de fezes é humilhante demais, doutor!
Estrela de Natal
17 de Dezembro de 2014, por José Antônio 1
Quem disse que estrela não fala?
Um dia, um poeta confessou que ouvia as estrelas e que as pessoas diriam que ele, por causa disso, teria perdido o senso. Até que é um pouco verdade. Concordo que para falar com as estrelas é necessário perder o senso... mas o senso comum. Aí, sim, você poderá encontrar o bom senso.
Falar com as estrelas... ouvir as estrelas... saber quem elas são. Cada uma traz em si a missão do brilho. Até quando já estão mortas, brilham através dos anos-luz. Estrela da manhã, estrela da tarde, estrela do mar, estrela d’alva, estrela cadente, tanta estrela, meu Deus! É só olhar para o céu que a gente vê que toda hora é a hora da estrela.
E eu? Eu sou uma estrela que está falando com você agora. Sou a Estrela de Natal. Você sempre me vê em cima da gruta dos presépios. Alguns me confundem com cometa. E aí, me colocam aquele rabão colorido. Acabo ficando que nem vaga-lume vestido de noiva. Não sou cometa, sou estrela. Estrela de Natal.
Porém, não sou a Estrela do Natal, pois quem realmente brilha nesse dia não sou eu, e sim o Dono da festa. Eu apareço apenas para dar um toque a mais. Sei que tenho uma certa importância, e isso me envaidece um pouco. Por exemplo, sempre quando fazem a árvore de Natal, eu sou a última a ser colocada, com toda pompa, lá em cima. Quando fazem o presépio, lá estou eu indicando o caminho para os Reis Magos.
Mas a importância que eu realmente quero ter é fazer você perder o senso... o senso comum... o senso comum do Natal.
O senso comum do Natal é amigo oculto, peru assado, vinho, ceia, nozes, sininho tocando, músicas com harpa paraguaia, abraços, trocas de votos de felicidade, presentes, Papai Noel, roupa nova, brindes, falatório, risos... Isso é bom. Isso faz bem. Mas falta algo aí para que o senso comum se transforme em bom senso.
Quando você vai a uma festa de aniversário, você come, bebe, diverte-se usufruindo de tudo aquilo que o aniversariante preparou para os convidados. E o que você diz ao dono da festa? Parabéns pelo seu aniversário! Adorei! Está tudo ótimo. Demais a festa! Obrigado.
Pois é... no Natal, o Dono da festa prepara tanta coisa para os convidados, dos quais você faz parte. Prepara a alegria da família reunida, a música da confraternização, a ceia da saúde, o abraço da amizade, o brinde da paz... tanta coisa para você aproveitar nessa noite. E você, como todo convidado, aproveita. Que continue aproveitando!
No entanto, se não for por uma questão de fé, que seja pelo menos por uma questão de etiqueta: já que você foi convidado para uma festa de aniversário, dê os parabéns ao aniversariante. Diga a ele também que está gostando muito do que ele preparou para você. Agradeça pela família reunida, pela confraternização, pela saúde, pelas amizades que você tem, pela paz que se instalou em seu espírito. Faça um brinde de gratidão ao aniversariante. Desse modo, você estará ouvindo uma estrela e quebrando o senso comum para assumir o bom senso.
Só mais uma coisa, caso você já nem se lembre mais: o nome do aniversariante é Jesus. Você o encontrará no lugar e no momento mais simples da festa.
Primeira vez
13 de Novembro de 2014, por José Antônio 0
Madrugada alta de uma quinta-feira sem ninguém nas ruas. Na esquina do Beco do Galo, um cachorro dormia enquanto eu subia sozinho o Largo do Rosário.
Já nos Quatro Cantos, desci a Rua do Teatro e fui parar lá embaixo, no portão do cemitério. Em cima do muro, um gato assentado me olhava atento. Sombras confusas, ainda mais terríveis na prata do luar. Grilos cricrilavam, fazendo contraponto com a quietude dos túmulos. Ouvi o piado surdo e tímido de uma coruja. Não gostei, pois em algumas tragédias o piado da coruja é aviso de mau agouro.
De repente, uma voz grave me falou quase sussurrando:
– Perdido por aqui, bacana?
Não era piada nem piado e eu fiquei arrepiado, pois estava sendo surrupiado.
– É assalto, bacana! Vai me passando tudo aí.
– Eu não preciso ficar com as mãos pra cima?!
– É mesmo, esqueci. Mãos pra cima! É assalto! Se mexer, eu atiro.
– Atira?!
– É mesmo, esqueci. Tá aqui a arma. Não complica que eu tô nervoso. É a primeira vez que eu tô assaltando alguém.
Achei melhor não perguntar se ele não tinha se esquecido de colocar bala no revólver. Assaltante de primeira viagem costuma fazer passageiro de última viagem. Procurei ser didático:
– Olhe, amigo, eu também nunca fui assaltado. A gente pode aprender junto. Posso dar uns toques.
– Ninguém vai tocar nada, bacana! E fala baixo, entendeu?
O cara falava mexendo muito o revólver. Aquilo podia disparar. A sorte é que ele apontava mais para o cemitério do que para mim. Vi uma caveira de mãos pra cima. Era a sombra de um arbusto seco.
Enquanto o larápio debutava no crime levando o meu relógio, eu ia conversando com ele. Contou que era de Resende Costa e tinha se mudado pra São Paulo. Não deu certo lá, ficou devendo todo mundo e estava precisando de muita grana.
Antes de ir embora, ainda perguntou:
– E aí, bacana? Eu tenho futuro como ladrão?
– Posso dar umas dicas?
Na semana seguinte, fiquei sabendo que ele tinha sido preso no Rio de Janeiro, lá no Maracanã, naquele jogo do Brasil contra o Chile, em que o goleiro Rojas se cortou com um estilete fingindo que fora atingido por um rojão.
Ano esquisito aquele 1989. No primeiro dia do ano, um punhado de gente acabou morrendo no naufrágio do Bateau Mouche... o Brasil elegeu o Collor e acabou dando no que deu... no jogo contra o Chile, o Brasil acabou classificado para a Copa, o Rojas acabou banido do futebol e a moça que jogou o foguete no campo acabou pelada na Playboy... e minha inocente caminhada acabou virando vernissage de assaltante trapalhão... Tudo o que é acaba virando coisa que a gente não espera. Assim é a vida, assim é a morte. Até as dicas que dei pro ladrão acabaram virando outra coisa pra ele.
Quais foram as dicas? Elas colocariam qualquer ladrão na cadeia. Porém, se eu divulgar, também vou acabar pelado na Playboy. É melhor ficar quieto. Igual àquele gato que estava assentado no muro do cemitério.
Cupido
17 de Outubro de 2014, por José Antônio 0
No folclore varejista que simplifica a mitologia greco-romana, Cupido é o deus do amor. Costuma aparecer como um menininho inocente, pelado, com um pequeno par de asas, arco e flecha. Vive escolhendo corações – o critério é sempre dele! – para lançar flechas certeiras, fazendo com que as pessoas se apaixonem umas pelas outras.
Só que o Cupido também se apaixonou por alguém: Psiquê. No entanto, ele não aparecia aos olhos dela. Somente a sua voz falava de seu amor. A felicidade de Psiquê – estranho – estava condenada à ausência do amado.
Porém, numa noite Psiquê surpreendeu Cupido e o viu. Por causa disso, alguns revezes aconteceram. Cupido e Psiquê acabaram se casando. E não houve união mais feliz.
Quem diria que eu aprendi a ser Cupido?
Em meados de 1986, houve uma intensa e longa greve dos professores do Estado. As aulas voltaram em junho, justamente no dia do aniversário da diretora do Assis Resende, a Eunice. Na escola, aconteceria um almoço em homenagem a ela e à noite, alguns números artísticos.
Marcos, Mário Márcio e eu resolvemos ir, mas o Maguinho Tarôco estava resistente: resquícios de desentendimentos da greve. Fui, então, designado para ser o diplomata que convenceria o Maguinho a comparecer aos eventos.
Falei, argumentei, exemplifiquei, insinuei, desenhei, ponderei, nem sei! O Maguinho cedeu.
Cinco anos se passaram e, num sábado, eu estava na casa do Maguinho quando bateram à porta. Era alguém da gráfica que viera trazer os convites de casamento do meu amigo. Ele, num sorriso largo e emocionado, abriu o pacote e tirou o primeiro. Subscritou e me entregou:
– O primeiro tem que ser seu. Se não fosse você, eu não iria a Resende Costa aquele dia. E porque fui, conheci a Socorro e agora vamos nos casar.
Saí de lá batendo feliz as minhas asinhas de Cupido desajeitado, mas certeiro: mirei no que vi e acertei no que não vi.
De lá para cá, ainda continuo mirando e flechando. Algumas setas se perdem... outras se partem contra corações duros e fechados... algumas outras conseguem sangrar sem ferir. E são essas últimas musas que viram minha Psiquê.
A minha Psiquê sempre vem. Em corpos variados, em olhos de cores diversas, em peles diversificadas, em nomes dos mais sortidos, embora alguns repetidos. Mas sempre Psiquê, sempre mulher, sempre o feminino que se abre para os transbordamentos do amor.
Deixar de ser Cupido? Não. Jamais ex-Cupido, porém sempre esculpido... talhado com o capricho do formão que tira pedaço e pelo resultado que encanta.
O amor é mais ou menos por aí.