Consciência coletiva: o maior investimento climático do século
25 de Marco de 2026, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Taíza de Pinho Barroso Lucas*
Tenho uma inquietação que talvez seja de muitos e muitas que acompanham o curso da história recente: estamos vivendo a era com o maior volume de informações já produzidas pela humanidade e, ainda assim, adoecemos como nunca. A desigualdade social avança, a concentração de renda se intensifica, os recursos naturais são explorados até o limite e os gases de efeito estufa seguem aumentando. A última Conferência Climática da ONU, a COP 30, fracassou em não estabelecer o caminho da transição energética. Entretanto, a mudança do clima deixou de ser projeção e passou a ser experiência: ela atravessa o cotidiano urbano, agrava doenças, pressiona sistemas de saúde, altera hábitos e redefine a vida nas cidades.
O conhecimento, entretanto, salva vidas. A história das vacinas é uma prova inequívoca: quando ciência, políticas públicas e responsabilidade coletiva se unem, vidas são protegidas. O mesmo raciocínio vale para os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde: dispomos de dados, evidências, pesquisas e tecnologias capazes de reduzir riscos e prevenir mortes. O que ainda não alcançamos plenamente é a consciência coletiva necessária para transformar conhecimento em ação contínua.
As cidades são hoje o palco central do desafio civilizatório. Não basta planejar infraestrutura resistente ao clima se continuamos reproduzindo lógicas sociais que excluem, segregam e adoeçam. Uma cidade saudável é mais do que um conjunto de obras; é um ecossistema social e ambiental equilibrado. Envolve caminhabilidade, transporte público eficiente, alimentação saudável acessível, ar, água e solos limpos, além de vegetação nativa e arborização em abundância. Árvores não são ornamentos: oferecem serviços ecossistêmicos essenciais, regulam o microclima, reduzem ilhas de calor, filtram poluentes, acolhem biodiversidade e, sobretudo, protegem vidas humanas.
O que muitas vezes se perde de vista é que não somos espectadores da natureza. Somos parte dela. Somos uma espécie ecológica que depende de uma teia de relações para existir. A saúde humana passa, inevitavelmente, pela saúde ambiental. A doença do planeta é também a nossa doença e o contrário também é verdadeiro.
Durante séculos, o capitalismo consolidou o mito do indivíduo autossuficiente, como se cada um de nós caminhasse sozinho, apartado do todo. Mas não há solução individual possível para problemas coletivos. Não existe ar filtrado exclusivamente para quem pode pagar, nem chuva seletiva para bairros mais ricos. A vulnerabilidade climática expõe com crueldade o que a humanidade teima em esquecer: somos interdependentes.
É claro que a adaptação climática exige investimentos bilionários. Precisamos deles e com urgência. Mas há um investimento ainda mais profundo e estrutural, sem o qual nenhum recurso financeiro será suficiente: a construção de uma consciência coletiva. Antes de tecnologias, precisamos de pertencimento. Antes de grandes obras, precisamos de responsabilidade compartilhada. Antes de planos climáticos, precisamos assumir que transformar a cidade é um ato de comunidade, não de consumo.
A universidade, o poder público, as organizações sociais, as escolas e cada cidadã e cidadão têm um papel insubstituível. A transição para cidades saudáveis não depende apenas de gabinetes, mas de calçadas, cozinhas, ônibus, parques, escolas e relações cotidianas. Depende do reconhecimento de que o bem-estar de uma pessoa é inseparável do bem-estar das outras e inseparável do território que habitamos.
A emergência climática não é apenas um desafio ambiental: é um desafio ético, social e humano. A pergunta que se impõe, portanto, não é apenas quanto vamos investir, mas como queremos viver e com quem. Porque só há futuro se houver coletivo.
*Professora do CEFET MG e atualmente está como coordenadora Especial de Mudanças Climáticas da Prefeitura de Belo Horizonte.
História da mineração em Resende Costa
25 de Fevereiro de 2026, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Paralelepípedos feitos de rocha gnaisse utilizados no calçamento da rua José Jacinto, centro de Resende Costa (foto Adriano Valério)
Vamos continuar nossa conversa sobre informações geográficas de Resende Costa. Partindo de um documento impresso elaborado pelo Estado de Minas Gerais em 1982, falaremos um pouco da história da extração mineral no município. Em Resende Costa já foi extraído: ouro (no início da ocupação), cassiterita e granito. Atualmente temos extração de areia, cascalho, gnaisse, manganês, minério de ferro e quartzo.
Conforme consta no documento: “O principal recurso mineral explorado é a cassiterita (minério de estanho), cuja reserva medida garante ao município a 3ª posição em Minas Gerais, com 3,7% da reserva do Estado (Anuário Mineral Brasileiro – 1980). Associada a esse mineral, ocorre a columbita (minério que possui nióbio e tântalo). A exploração desses bens minerais é realizada por particulares, no sistema de catas, principalmente nas áreas de Curralinho dos Paulas, Barro Vermelho e Viegas. A produção é enviada a São João del-Rei para beneficiamento, industrialização e distribuição a outros centros de comercialização ou consumo.”
Primeiramente, convém destacar que a formação geológica de Resende Costa proporciona uma tímida disponibilidade de recursos minerários de alto valor econômico. Conforme já fora dito em texto anterior, no município predominam as rochas graníticas (ígnea) e gnáissicas (rocha metamórfica do granito). Ao norte, nas proximidades do distrito de Jacarandira, há algumas áreas com ocorrência de itabirito, rocha com teor médio de minério de ferro, e ao sudoeste, na divisa com Ritápolis e Coronel Xavier Chaves, têm-se rochas metamórficas como o anfibólito e o gondito, dessa última é extraído o manganês.
Historicamente, o local onde foi assentado o arraial da Lage não era favorecido com abundância de ouro, como aconteceu em municípios vizinhos. Assim, a extração de ouro foi em pequena escala, não permitindo o acúmulo de fortuna com tal atividade. Segundo informações, na região do Jacaré, perto dos Campos Gerais, ainda existem marcas de uma antiga extração de ouro. Já no século XX, há menção à extração manual na região do Sumidouro e esporadicamente no Barro Vermelho.
O granito e o gnaisse são rochas muito utilizadas na construção civil em nossa região, tanto para produção de britas quanto para pedras de mão. Atualmente, em Resende Costa o gnaisse é extraído para ser utilizado como enchimento de caixas de alicerces, pequenos calçamentos particulares e revestimento rústico de pisos externos, paredes e fogões à lenha. Destaca-se que essas rochas foram utilizadas para calçamento de ruas da cidade, com os paralelepípedos e as chamadas pedras miúdas. Os paralelepípedos de granito foram assentados nos anos 70 por funcionários da Prefeitura e ainda estão visíveis em algumas ruas, como em frente à antiga delegacia, hoje quartel da Polícia Militar. Já as pedras miúdas, que comumente são pedaços quebrados de gnaisse, foram assentadas nos bairros mais afastados do centro da cidade na década de 90, por terem um custo mais barato se comparado a outros tipos de calçamentos. Recentemente, todos esses calçamentos foram revestidos com asfalto.
A extração da cassiterita, utilizada na fabricação do estanho, foi uma atividade econômica muito importante na região a partir de meados do século XX, estendendo-se até a década de 80. A importância foi tanta que até um município teve o nome de Cassiterita entre 1962 e 1989, atual Conceição da Barra de Minas. A descoberta do mineral na região amazônica, principalmente em Rondônia, na década de 70, fez com que empresas e pessoas (inclusive de Resende Costa) migrassem para o norte do país.
Em Resende Costa, a maior extração foi no Barro Vermelho, iniciada por volta da década de 40. No início, a extração era manual. Posteriormente introduziram o sistema motobomba para fazer o desmonte dos barrancos (taludes), o que deixou um significativo passivo ambiental no local, que atualmente encontra-se praticamente recuperado (recomposição topográfica feita com trator de esteira e revegetação com braquiária e eucalipto, além do aparecimento de vegetação nativa). Na década de 60 (1963 a 1968), uma empresa (Companhia Estanífera do Brasil – CESBRA) sediada em Volta Redonda-RJ, e que possuía uma filial em São João del-Rei, se instalou no local. Após a sua saída, mineradores locais continuaram trabalhando. Também foram extraídas a columbita e a tantalita, que vinham juntas e eram parecidas com a cassiterita, mas na época tinham pouco valor. No final da década de 80, o terreno foi vendido para um resende-costense (Zé da Pia) que, após curto período de continuidade da mineração, desativou a atividade.
Na mesma época houve extração de cassiterita em vários locais: Cachoeirinha, Curralinho dos Paulas, Ramos, Rochedo/Fartura, Sumidouro e Viegas. No Curralinho, a extração teve também significativa expressão. No primeiro quartel do século XX, a extração era manual, posteriormente, por volta do final dos anos 50, uma empresa paulista (Companhia Ferreira Carvalho) trouxe muito movimento e prosperidade econômica para o povoado. Nos anos 70, a empresa deixou a comunidade e um morador local (João do Bil) liderou alguns trabalhadores até o início dos anos 80, quando foi desativada. Como na mineração no Curralinho também foi utilizado o desmonte hidráulico dos barrancos, gerou-se um passivo ambiental, ainda visível em alguns lugares nas proximidades da comunidade. No Rochedo/Fartura, próximo à Ferrovia do Aço, utilizou-se o mesmo sistema, estando as marcas no terreno ainda visíveis. No Viegas, assim como em outras partes, a extração foi predominantemente manual, com uso de bateia e realizada ao longo dos leitos dos cursos d´água.
Em 2025 o IRIS completou 16 anos de fundação
27 de Janeiro de 2026, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Membros da nova diretoria do IRIS (foto arquivo IRIS)
O IRIS - Associação Instituto Rio Santo Antônio – completou no dia 27 de dezembro último 16 anos de sua fundação. O Instituto é uma entidade da sociedade civil sem fins lucrativos fundada em 2009, que tem como objetivo principal realizar ações voltadas para a promoção e a defesa da sustentabilidade ambiental e cultural de Resende Costa.
No dia 14 de dezembro de 2025, foi realizada reunião para a eleição da nona diretoria da Associação, ficando assim composta: Diretor-Geral: Osvaldo Otelo de Magalhães Monteiro; Vice-Presidente: Keila Aparecida da Silva Santos; Diretor Técnico de Meio Ambiente: Charles Henrique Fernandes; Diretor de Cultura: Ângelo Márcio Resende; Diretor de Comunicação: Emerson Gonzaga Fernandes; Diretor-Financeiro: Adriano Valério de Resende; Secretária: Flávia Cristina da Silva; titulares do Conselho Fiscal: Cleisiane de Sousa Silva, Ricardo Sales Santos e Robson Antônio Lopes Pires; suplentes do Conselho Fiscal: Francisco Eduardo Pinto e Bárbara Vitória Mariano Sousa.
Na reunião foi apresentado um balanço da atuação do IRIS e feitas projeções para 2026. Assim, apresentaremos as principais ações realizadas em 2025. No quesito ambiental, em janeiro, o IRIS (através dos membros Adriano Valério, Flávia Cristina e Mateus Resende) participou da organização e da realização da Primeira Conferência Intermunicipal de Meio Ambiente, envolvendo os munícipios de Coronel Xavier Chaves, Nazareno, Prados, Tiradentes e São João del Rei, que a sediou. Acrescenta-se que Adriano proferiu a palestra intitulada “O que deve ser feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa?” e Mateus representou o IRIS na Conferência Estadual realizada em março.
Em julho, foi assinado um Termo de Fomento com a Prefeitura Municipal, visando realizar estudos para a institucionalização do Parque Municipal Capoeira Nossa Senhora da Penha. Nesse sentido, em agosto, o IRIS assinou um contrato de prestação de serviço com a empresa de consultoria Avanço Ambiental e Soluções Empresariais Ltda para elaboração do Plano de Manejo (documento fundamental para a gestão da unidade de conservação) e dos seguintes projetos socioambientais: cercamento do parque, recuperação de uma voçoroca ativa, trajeto de uma trilha ecológica, desassoreamento e limpeza da nascente (fonte João de Deus), revitalização do viveiro de mudas e de Educação Ambiental. Além disso, será elaborado material gráfico digital sobre o parque, realizadas duas reuniões para apresentação dos estudos (uma com a comunidade do entorno e outra com o poder público), realizado um mapeamento aéreo com drone e elaborados arquivos digitais georreferenciados.
Com relação à atuação nos Comitês de Bacia Hidrográfica, a associação continua participando no CBH Nascentes do Rio Grande (estadual) e no CBH do Rio Grande (federal). O IRIS, através de seus membros Douglas Cobucci e Osvaldo Otelo, realizou visitas técnicas a várias cacheiras localizadas no município de Resende Costa e foi postado nas redes sociais um roteiro ambiental e turístico para as mesmas. Foram verificados os acessos, as belezas naturais e os possíveis perigos em sua utilização.
No quesito cultural, o IRIS organizou algumas oficinas educativas, como o Bloco dos Palhacinhos no Carnaval e Oficinas de Percussão - ambas atenderam crianças de várias idades e de diferentes bairros da cidade. A associação participou ativamente, em conjunto com o poder público municipal, na criação do “Sistema Municipal de Cultura do Município de Resende Costa”, aprovado pela Lei 5.658 de julho de 2025 e também na elaboração de uma minuta (já entregue ao jurídico municipal) para adequação da Lei 4.027/2015 (que dispõe sobre Plano de Apoio às Atividades Culturais), visando ao incentivo aos artistas locais em eventos realizados no município. Em setembro, foi realizada a décima sexta edição do Luau nas Lajes. O evento contou com muita música, variadas atividades, lazer e diversão no Mirante das Lajes. E uma das reivindicações foi um maior cuidado do poder público e da população com a gruta chamada “Buraco do Inferno”. Em novembro o IRS apoiou a realização da primeira edição do festival “Pedregulho Rock Fest” no Parque de Exposições, com a participação de bandas locais e regionais.
Cabe destacar que está sendo finalizado um livro contando a trajetória dos 15 anos de existência do IRIS, além de contar com alguns artigos publicados na coluna “Meio Ambiente” do Jornal das Lajes, o que acontece desde 2012. Por fim, agradecemos a todos os colaboradores e simpatizantes que, juntos, chegamos a 16 anos de existência da associação. E que 2026 seja um ano de muitas realizações ambientais e culturais para a nossa Resende Costa.
A COP 30: uma reflexão sobre sustentabilidade
25 de Novembro de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0
Enquanto estava escrevendo o presente texto, a COP 30 se iniciava. Também chamada de COP da Amazônia, a 30ª edição da “Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas” está sendo realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará, entre os dias 10 a 21 de novembro. Diante do simbolismo do evento e das reais necessidades ambientais em que vive o planeta, compartilho algumas reflexões.
O que é uma COP? Originalmente, COP significa “Conferências das Partes”, essas partes são os 198 países que assinaram o primeiro acordo climático da ONU na ECO-92, também realizada no Brasil. Na época, foi assinada a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês). Essa convenção “criou a Conferência das Partes (COP) como órgão responsável por tomar as decisões necessárias para implementar os compromissos assumidos pelos países no combate à mudança do clima.”
As COPs, na verdade, são reuniões anuais sobre o tema das mudanças climáticas e normalmente acontecem no final do ano em algum país membro. São o principal espaço de negociações e de decisões sobre o clima no mundo e reúne, além dos representantes oficiais dos países, especialistas, cientistas e ativistas da sociedade civil organizada. Assim, são definidas metas, tratados e mecanismos para reduzir as emissões de gases que provocam o aquecimento global e para enfrentar os impactos da crise climática.
Convém destacar que o Brasil tem um papel central nas questões ambientais. Só a título de exemplo, temos o maior percentual de água doce superficial do planeta, cerca de 12% (e ¾ está na Amazônia), a maior floresta tropical e a maior biodiversidade. E temos feito nosso dever de casa em relação às questões ambientais? Certamente não. Por exemplo, não conseguimos zerar o desmatamento na Amazônia nem no Cerrado. A principal contribuição brasileira de gases estufa provém justamente das queimadas, muitas em áreas desmatadas. A expansão da soja e do gado para a Amazônia é uma realidade, mas o Brasil continua batendo recordes na exportação desses comodities. O difícil é fazer o agronegócio entender que a chuva que faz o Brasil produzir provém justamente da floresta que eles ajudam a derrubar. Vejamos uma questão polêmica: foi tomada uma decisão para desmatar milhares de hectares de floresta visando a construir uma rodovia para melhorar o tráfego para Belém por causa da COP 30. E outra mais estrutural: a concessão de licença pelo IBAMA para a Petrobrás pesquisar petróleo e gás natural nas proximidades da foz do rio Amazonas. É bom lembrar que a queima de combustíveis fósseis é a principal causa do aquecimento global. E o Brasil é um dos assinantes do Acordo de Paris, celebrado em 2015 durante a COP 21, que preconiza a diminuição das emissões dos GEE de forma a limitar o aumento da temperatura do planeta a 1,5ºC. Pergunta-se: enquanto país, estamos cumprindo nossos compromissos com os acordos internacionais que assinamos?
Vamos trazer mais para perto de nós. É engraçado que as secretarias de Meio Ambiente de cidades pequenas sempre estão subordinadas a outros setores e, por incrível que pareça, quase sempre aparecem no último lugar no nome das mesmas e, muitas das vezes, estão subordinadas à agropecuária, como se fosse um apêndice. Vejamos alguns exemplos de secretarias na região do Campo das Vertentes: Resende Costa (Agropecuária e Meio Ambiente), Coroas (Agricultura, Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente), São Tiago (Agropecuária, Comércio, Indústria e Meio Ambiente), Tiradentes (Obras, Meio Ambiente, Integração Rural e Agricultura).
E, mais particularmente, as pessoas ainda não internalizaram os pressupostos da sustentabilidade ambiental, mesmo entre nós, os reconhecidamente ambientalistas ou simpatizantes da causa. Tarefas simples e cotidianas ainda são menosprezadas, como separar o lixo, economizar água, não jogar lixo em ambientes públicos, consumir de forma consciente, evitar copos descartáveis, não desperdiçar comida.
Percebemos que a questão ambiental é apenas um discurso, uma retórica proferida por políticos, agentes públicos, empresas e cidadãos. Precisamos realmente interiorizar a sustentabilidade se quisermos que as gerações futuras não sofram enormemente com o desequilíbrio ambiental. Por fim, precisamos urgentemente sair da fase do discurso.
Processos erosivos em Resende Costa
29 de Outubro de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Voçorocas vistas a partir do Mirante das Lajes, em Resende Costa (foto arquivo Adriano Valério Resende)
Continuando nossa conversa sobre informações geográficas de Resende Costa, baseada num documento impresso elaborado pelo Estado de Minas Gerais em 1982, falaremos sobre os processos erosivos no município.
Regionalmente, a bacia hidrográfica do rio das Mortes é considerada, na sua quase totalidade, como área com alta susceptibilidade à erosão dos solos e com alta ocorrência de focos erosivos isolados ou concentrados. Localizada no trecho médio do rio das Mortes, a bacia do rio Santo Antônio, e em especial o município de Resende Costa, é conhecida na literatura (Moreira, 1992; Moreira et al., 2003; Larios e Calijuri, 2012) como uma área de referência em degradação ambiental devido a processos erosivos, sobretudo voçorocas. Para se ter uma ideia, na bacia do rio Santo Antônio foram identificados 754 focos de erosão, sendo 447 voçorocas ativas e 384 paleovoçorocas (que são processos erosivos antigos, já estabilizados e colonizados por vegetação).
A declividade do relevo, o alinhamento das falhas geológicas, o tipo de solo (com destaque para os cambissolos) e especialmente as questões antrópicas justificam porque a bacia do rio Santo Antônio está sujeita a fortes processos erosivos. Comumente chamadas de barrancos, as voçorocas fazem parte da paisagem do nosso município. No entorno da cidade elas estão visíveis, notadamente nas direções norte e oeste. No cartão- postal de Resende Costa, o Mirante das Lajes, pode-se ver as marcas das voçorocas na paisagem.
Antes de irmos ao texto do documento, convém fazermos alguns comentários e definições. Os processos erosivos são os maiores desencadeadores da degradação dos solos, o que contribui para a diminuição do potencial produtivo das terras, bem como para o assoreamento e decréscimo da qualidade dos recursos hídricos. Eles podem ser naturais ou antrópicos. Em ambientes com cobertura vegetal natural e sem pressão de fatores antrópicos, a erosão se manifesta de forma muito lenta, sendo perceptível após um longo período. Já a erosão antrópica ou acelerada é fruto da ocupação inadequada dos solos por atividades agropecuárias ou urbanas e está associada a solos sem cobertura vegetal, compactados ou recentemente movimentados.
Em termos técnicos, erosão é o processo de desprendimento e arraste acelerado de partículas do solo causado, entre outros fatores, pela ação da água da chuva, a chamada erosão hídrica, que se caracteriza por duas formas principais: erosão laminar e erosão linear. A primeira é a remoção, com certa uniformidade, da camada superior do solo, sendo comum até mesmo em áreas com pequeno grau de declividade.
Já a erosão linear é causada por concentração das linhas de fluxo das águas de escoamento superficial, o que resulta em incisões no solo na forma de sulcos, ravinas e voçorocas. A erosão em sulcos acontece quando a enxurrada escorre por pequenas irregularidades do terreno, formando riscos mais ou menos profundos. As ravinas são feições de maior porte, com profundidade variável e não atingindo o nível de água subterrâneo. As voçorocas são o estágio final dos processos erosivos, havendo deslocamento de grandes massas de solo e formação de grandes cavidades em extensão e profundidade.
Diante das colocações, podemos ir ao documento: “No município de Resende Costa, os processos erosivos são bastante atuantes, o que pode ser observado pela extensão e quantidade de voçorocas ativas e de erosões laminares. Os ravinamentos e as voçorocas colonizadas, embora presentes no município, não apresentam um quadro significativo.”
“As formas de erosão predominantes são as voçorocas ativas, ocasionadas pelo lençol de escoamento superficial. Essas formas erosivas distribuem-se por todo o município, exceto na porção central (o povoado do Ribeirão está praticamente no centro do município). Em alguns pontos, como as proximidades do Córrego do Retiro (perto do Curralinho dos Maias) e a oeste do núcleo urbano de Resende Costa, as voçorocas ocorrem em grande número e paralelas umas às outras.”
“As formas laminares apresentam-se também bastante difundidas no município, ocupando, na sua maioria, os topos das colinas, ou seja, as áreas de menor declividade. Aí os solos apresentam coloração mais clara e a vegetação rarefeita contribui para os processos mais ativos de lixiviação.”