Meio Ambiente

Processos erosivos em Resende Costa

29 de Outubro de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Voçorocas vistas a partir do Mirante das Lajes, em Resende Costa (foto arquivo Adriano Valério Resende)

Continuando nossa conversa sobre informações geográficas de Resende Costa, baseada num documento impresso elaborado pelo Estado de Minas Gerais em 1982, falaremos sobre os processos erosivos no município.

Regionalmente, a bacia hidrográfica do rio das Mortes é considerada, na sua quase totalidade, como área com alta susceptibilidade à erosão dos solos e com alta ocorrência de focos erosivos isolados ou concentrados. Localizada no trecho médio do rio das Mortes, a bacia do rio Santo Antônio, e em especial o município de Resende Costa, é conhecida na literatura (Moreira, 1992; Moreira et al., 2003; Larios e Calijuri, 2012) como uma área de referência em degradação ambiental devido a processos erosivos, sobretudo voçorocas. Para se ter uma ideia, na bacia do rio Santo Antônio foram identificados 754 focos de erosão, sendo 447 voçorocas ativas e 384 paleovoçorocas (que são processos erosivos antigos, já estabilizados e colonizados por vegetação).

A declividade do relevo, o alinhamento das falhas geológicas, o tipo de solo (com destaque para os cambissolos) e especialmente as questões antrópicas justificam porque a bacia do rio Santo Antônio está sujeita a fortes processos erosivos. Comumente chamadas de barrancos, as voçorocas fazem parte da paisagem do nosso município. No entorno da cidade elas estão visíveis, notadamente nas direções norte e oeste. No cartão- postal de Resende Costa, o Mirante das Lajes, pode-se ver as marcas das voçorocas na paisagem.

Antes de irmos ao texto do documento, convém fazermos alguns comentários e definições. Os processos erosivos são os maiores desencadeadores da degradação dos solos, o que contribui para a diminuição do potencial produtivo das terras, bem como para o assoreamento e decréscimo da qualidade dos recursos hídricos. Eles podem ser naturais ou antrópicos. Em ambientes com cobertura vegetal natural e sem pressão de fatores antrópicos, a erosão se manifesta de forma muito lenta, sendo perceptível após um longo período. Já a erosão antrópica ou acelerada é fruto da ocupação inadequada dos solos por atividades agropecuárias ou urbanas e está associada a solos sem cobertura vegetal, compactados ou recentemente movimentados.

Em termos técnicos, erosão é o processo de desprendimento e arraste acelerado de partículas do solo causado, entre outros fatores, pela ação da água da chuva, a chamada erosão hídrica, que se caracteriza por duas formas principais: erosão laminar e erosão linear. A primeira é a remoção, com certa uniformidade, da camada superior do solo, sendo comum até mesmo em áreas com pequeno grau de declividade.

Já a erosão linear é causada por concentração das linhas de fluxo das águas de escoamento superficial, o que resulta em incisões no solo na forma de sulcos, ravinas e voçorocas. A erosão em sulcos acontece quando a enxurrada escorre por pequenas irregularidades do terreno, formando riscos mais ou menos profundos. As ravinas são feições de maior porte, com profundidade variável e não atingindo o nível de água subterrâneo. As voçorocas são o estágio final dos processos erosivos, havendo deslocamento de grandes massas de solo e formação de grandes cavidades em extensão e profundidade.

Diante das colocações, podemos ir ao documento: “No município de Resende Costa, os processos erosivos são bastante atuantes, o que pode ser observado pela extensão e quantidade de voçorocas ativas e de erosões laminares. Os ravinamentos e as voçorocas colonizadas, embora presentes no município, não apresentam um quadro significativo.”

“As formas de erosão predominantes são as voçorocas ativas, ocasionadas pelo lençol de escoamento superficial. Essas formas erosivas distribuem-se por todo o município, exceto na porção central (o povoado do Ribeirão está praticamente no centro do município). Em alguns pontos, como as proximidades do Córrego do Retiro (perto do Curralinho dos Maias) e a oeste do núcleo urbano de Resende Costa, as voçorocas ocorrem em grande número e paralelas umas às outras.”

“As formas laminares apresentam-se também bastante difundidas no município, ocupando, na sua maioria, os topos das colinas, ou seja, as áreas de menor declividade. Aí os solos apresentam coloração mais clara e a vegetação rarefeita contribui para os processos mais ativos de lixiviação.”

Cidades-esponja: uma esperança para o futuro

01 de Outubro de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Yasmine Santos Mesquita*

Adriano Valério Resende**

 

Nas últimas décadas, houve um aumento da população morando em cidades e concomitantemente os problemas ambientais urbanos vêm se acumulando. A ideia de cidades sustentáveis parece ser um dos caminhos mais promissores para mitigar esses problemas. Um exemplo são as chamadas cidades-esponja. Sendo assim, vale pensar um pouco mais sobre a questão.

Atualmente, cerca de 55% da população mundial reside em áreas urbanas, conforme estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU-Habitat) e esse percentual tende a aumentar, alcançando aproximadamente 68% até 2050. O Brasil se tornou um país urbano na década de 1970 e, de acordo com o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, a população urbana chegou a 87,4%. Assim, há perspectiva de uma crescente urbanização no mundo e de estabilização da população urbana no Brasil nas próximas décadas.

Com a tendência de aumento do contingente de pessoas vivendo em cidades no mundo, há também uma ampliação dos problemas ambientais que impactam o meio ambiente urbano. Na maioria das situações, esses fenômenos possuem causas naturais, mas são potencializados pelo processo de intervenção antrópica, assim como pela acentuada transformação da natureza. O Brasil já convive com muitos problemas que estão ligados à expansão desordenada dos centros urbanos. Por exemplo, São Paulo e Rio de Janeiro, as maiores cidades do país, são exemplos de metrópoles que acumulam problemas ambientais urbanos devido à aglomeração de indústrias e de pessoas. Dentre esses problemas, destacam-se: poluição do ar e da água, ilhas de calor, inversão térmica, chuvas ácidas, enchentes e deslizamentos de terra.

As cidades sustentáveis são uma alternativa para a diminuição da poluição em centros urbanos, pois têm como foco central reordenar o seu funcionamento para evitar o esgotamento e a deterioração do meio ambiente, mas mantendo as cidades habitáveis para as gerações futuras, adotando várias práticas inteligentes para o aprimoramento da qualidade de vida da população e a preservação ambiental.

Um modelo de cidade sustentável são as chamadas cidades-esponja - conceito baseado na integração de infraestruturas verdes e azuis em paisagens urbanas (como parques alagáveis, telhados verdes, jardins de chuva e pavimentos permeáveis) para absorver, limpar, infiltrar e armazenar a água da chuva no próprio solo urbano, evitando escoamento superficial, reduzindo enchentes, recarregando aquíferos e, assim, aumentar a resistência das cidades frente a eventos climáticos extremos.

O conceito de cidade-esponja foi desenvolvido pelo arquiteto paisagista e urbanista chinês Kongjian Yu. A partir de 2013, essa ideia vem se transformando numa iniciativa governamental adotada na China para enfrentar os problemas de inundação urbana causados pelos rios locais. Recentemente, foi lançado um programa para criar 30 cidades-esponja em todo o país, com o objetivo de garantir que 80% das áreas urbanas possam absorver e reutilizar pelo menos 70% da água da chuva até 2030. Desde então, esse modelo de cidade sustentável, ou pelo menos alguns de seus princípios, vêm sendo aplicado em vários locais ao redor do mundo, como em Bangkok, Berlim, Cardiff, Copenhague, Nova York, Roterdã e Curitiba, aqui no Brasil.

Por fim, enfrentar os problemas ambientais urbanos é um processo complexo e caro, mas é possível solucionar os desafios a partir de um planejamento sustentável que combine infraestrutura verde, gestão eficiente de recursos, tecnologia e participação social. A expansão de áreas verdes urbanas contribui para a redução das ilhas de calor, melhoria da qualidade do ar e absorção de água da chuva, enquanto a modernização da gestão de resíduos previne a saturação dos aterros e reduz impactos ambientais. A adoção de soluções com o design urbano sensível à água, como as cidades-esponja, também é uma abordagem eficiente no combate aos obstáculos da resolução da poluição na zona urbana, contribuindo para a mitigação de enchentes e otimizando o uso do recurso hídrico. Somado a isso, ações de educação ambiental, em parceria com a participação ativa da comunidade, são fundamentais para a sensibilização e o engajamento dos cidadãos e de gestores públicos na realização de práticas sustentáveis.

 

*Aluna do Curso Técnico de Meio Ambiente – CEFET/MG.

**Professor CEFET/MG.

O relevo de Resende Costa

27 de Agosto de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Fotografia tirada na região do povoado do Cajuru que mostra o terreno ondulado, típico do município de R. Costa (foto arquivo Adriano Valério)

Continuando nossa conversa sobre informações geográficas de Resende Costa, baseada num documento impresso elaborado pelo estado em 1982, falaremos sobre o relevo do município, acrescentando alguns comentários quando for necessário.

Conforme consta no documento: “No município de Resende Costa predominam as declividades fortes, englobadas no intervalo de 12 a 50% que, segundo o Manual Brasileiro para Levantamento da Capacidade de Uso da Terra, podem ser trabalhadas mecanicamente em curvas de nível (esta técnica consiste na orientação do plantio seguindo as linhas imaginárias que unem pontos de mesma altitude em um terreno) e por máquinas simples de tração animal ou em certos limites por tratores de esteira. As vertentes formam ângulos que variam de 7º a 26º. Essas áreas distribuem-se por todo o município sendo mais densa na porção NW.”

“Outra classe bastante representativa no município é a que engloba declividades inferiores a 12%. Corresponde a um relevo suave, com ângulos de 40’ a 7º, que pode ser trabalhado em todas as direções e sentidos, e em alguns casos em curva de nível por tratores de roda. Distribui-se por todo o município correspondendo aos topos das colinas e principalmente às planícies fluviais dos rios do Peixe e Santo Antônio, dos ribeirões do Pinhão, dos Pintos, dos Marianos, de Baixo, de Cima, dos Paulos, São José da Ponte Nova e do Mosquito.”

“Ocupando uma área pouco expressiva ocorrem no município alguns núcleos de declividade superior a 50%, correspondendo aos trechos serranos: serra da Galga, do Capão Grande, dos Macacos, da Água Limpa, do Ginete, do Corisco e das Vertentes. São áreas bastante íngremes com vertente que formam ângulos de 26º a 45º. São terrenos que não podem ser trabalhados mecanicamente nem mesmo por máquinas simples de tração animal e, em alguns casos, existem limitações até mesmo para os trabalhos com instrumentos e ferramentas manuais.”

Falando propriamente do relevo, o município de Resende Costa está localizado num cinturão orogenético conhecido como Planalto e Serras do Atlântico Leste-Sudeste e no domínio morfoclimático dos “Mares de Morros”. Essa denominação faz referência ao aspecto ondulado do relevo da região, com destaque para as colinas e os morros arredondados que lembram ondas no horizonte.

Ressalta-se que, conjuntamente com o documento escrito, há um mapa do município contendo várias informações, dentre essas a declividade. Pela análise visual do citado mapa, das terras do município, em termos percentuais, aproximadamente 60% são onduladas (declividades fortes, englobadas no intervalo de 12 a 50%), 30% são planas (declividades inferiores a 12%) e 10% são “montanhosas” (declividade superior a 50%).

Sobre a utilização das terras do município, as áreas planas, especialmente as várzeas dos cursos d’água, e as encostas mais suaves foram historicamente utilizadas para a agricultura. Até o terceiro quartel do século XX era muito comum a utilização da tração animal para movimentar as terras (seja com a aração ou com o trabalho no solo) ou para transportar insumos e a produção. Posteriormente passou-se a utilizar máquinas modernas, o que aumentou a área cultivada e a produção.

Uma questão a ser destacada é que a nossa região não foi alvo de grandes empresas agrícolas ou de reflorestamento de eucalipto, que expandiram nos anos 1970/80 por Minas. Isso foi devido ao maior preço da terra se comparado com o centro-norte-leste do estado e, especialmente, à geografia regional. Nesse quesito, as questões do relevo e hídricas foram determinantes. O relevo ondulado dos “Mares de Morros” limita a mecanização em algumas áreas. E a existência de muitas nascentes e cursos d’água diminui a área produtiva, uma vez que o seu entorno é Área de Preservação Permanente, isto é, deve ser mantido com vegetação nativa. Tomemos como exemplo a bacia do rio Santo Antônio, onde, além da predominância de um relevo ondulado, há uma alta densidade de drenagem e de rios.

A densidade de drenagem ou densidade da rede de canais é calculada dividindo-se o comprimento total de todos os canais (em km) pela área da bacia hidrográfica (em km²). A bacia do rio Santo Antônio possui uma drenagem média de 2,51 km/km², considerada alta pela literatura específica da área. Já a densidade de rios é a relação entre o número de rios ou curso d’água e a área da bacia hidrográfica. Se for comparada com a literatura, percebe-se que a bacia citada também possui elevada densidade de rios, uma média de 3,52 rios/km².

Agropecuária e a emissão de gases do efeito estufa

04 de Agosto de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Júlia Fernandes*

Adriano Valério Resende**

Sabemos que o efeito estufa é um processo natural e essencial para a vida no planeta, uma vez que, por meio dele, é retida parte do calor irradiado pela superfície, o que mantém o equilíbrio térmico do planeta e a sobrevivência da biosfera. O gás carbônico é o mais importante nesse processo. Ele é emitido, por exemplo, pela respiração dos seres vivos, queimadas naturais e até mesmo na liberação de pólen pelas plantas. Um detalhe é que o gás carbônico é essencial para a realização da fotossíntese das plantas, portanto, para a vida no planeta.

Já o chamado aquecimento global é o aumento descomedido e progressivo da temperatura do planeta que vem acontecendo após a primeira Revolução Industrial, realizada no século XVIII. A intensa ação humana sobre a natureza, especialmente pela queima de combustíveis fósseis e pela alteração do uso do solo, tem liberado excessivamente os chamados Gases do Efeito Estufa (GEE), principalmente gás carbônico, metano, óxido nitroso e clorofluorcarbonetos. O aquecimento global é, sem dúvida, o protagonista das mudanças climáticas, cujos efeitos mais visíveis são as temperaturas cada vez mais altas e as alterações nos padrões climáticos, como as chuvas intensas, o que têm provocado cada vez mais transtornos à população.

Mundialmente, a queima de combustíveis fósseis, especialmente para obtenção de energia, é o maior responsável pela emissão dos GEEs. Já no Brasil, para 2023, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG), os setores que mais contribuíram foram: mudança de uso da terra e floresta (46,2%), agropecuária (27,5%) e energia (18,3%). Para se ter uma ideia, a agropecuária no Brasil liberou cerca de 631 milhões de toneladas de CO². Os Estados que mais contribuíram para as emissões totais de GEEs foram: Pará, Mato Grosso, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Bahia. Minas contribuiu com 7,4% do total de GEEs, o que representou quase 170 milhões de toneladas de CO². No estado, os setores que mais emitiram gases foram: agropecuária (35,2%), mudança de uso da terra e floresta (21,7%) e energia (21,1%). Destaca-se que nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste o setor predominante na emissão de gases estufa foi a agropecuária, seguido dos setores de energia (predominante em SC, SP, RJ e ES) e mudança de uso da terra e floresta (MT). Esse último setor foi o predominante nas regiões Norte e Nordeste, exceto nos Estados de AL, SE e PE.

A criação de animais, principalmente o processo de fermentação entérica nos bovinos, gera o gás metano, que é 30 vezes mais estufa que o CO2 e é responsável por cerca de 30% do aquecimento global. O principal fator para a emissão do metano envolve a dieta dos bovinos com alta porcentagem de concentrados, alimentos de baixa fibra e alto teor energético, como o milho. Um bovino pode produzir até 109,5 kg/ano de metano e um ovino 14,4 kg/ano. Como melhoria técnica para os dejetos da pecuária há os biodigestores, que são decompositores anaeróbios de matéria orgânica que possui a capacidade de reduzir a emissão GEE em 40% e de transformar dejetos dos animais em biogás (o próprio metano usado como energia). Além da pecuária, a agricultura (plantios inundados), disposição de resíduos sólidos urbanos (lixo) e queima de combustíveis fósseis produzem metano.

Cabe destacar que tanto o agronegócio quanto a agricultura tradicional causam malefícios diretos ao meio ambiente. Além dos já conhecidos desmatamentos e queimadas, uma prática agrícola muito prejudicial é a aração profunda do solo, que consiste em trazer partes inferiores do solo para a superfície, alterando seus fatores químicos e removendo a matéria orgânica superficial. Outra questão é a aplicação excessiva de fertilizantes químicos nitrogenados, que além de prejudicar o solo e os lençóis freáticos, o nitrogênio liberado forma o óxido nitroso (N2O), um agente 298 vezes mais agressivo que o CO2 e responsável por cerca de 6% do aquecimento global. Hoje existem diversas maneiras de mitigar a emissão de GEE na agricultura, como, por exemplo, a substituição de produtos químicos, como agrotóxicos e fertilizantes, por alternativas mais naturais (manipulação de vírus ou bactérias, biofertilizantes etc.), a rotação e intercalação de culturas, o que ajuda a melhorar a qualidade do solo, assim como o plantio direto.

Por fim, é preciso reconhecer a importância da agropecuária para a alimentação da humanidade; no entanto, temos o iminente desafio de tornar suas práticas mais sustentáveis.

 

*Aluna do Curso Técnico de Meio Ambiente – CEFET/MG

**Professor CEFET/MG

Vale do Jequitinhonha: economia e meio ambiente

02 de Julho de 2025, por Instituto Rio Santo Antônio 0

Maria Eduarda Batista Cordeiro e Lucas Miguel Barroso Afonso*

Adriano Valério Resende**

 

O Vale do Jequitinhonha está localizado no nordeste de Minas Gerais, sendo marcado por sua beleza natural e riqueza cultural, como a Serra do Espinhaço, os artesanatos e as festas tradicionais. A região possui aproximadamente um milhão de habitantes, distribuídos pelos 55 municípios banhados pelo rio Jequitinhonha, cujo nome é de origem indígena e provém da junção das palavras “Jequi”, que na língua nativa significava “armadilha para pegar peixes”, e “onha”, que designa peixes.

Antes de sofrer as ações da colonização portuguesa, o Vale do Jequitinhonha era habitado pelos povos indígenas do tronco Macro-Jê, como os Botocudos, Aranãs, Tocoiós, Ofaié e Cariri. Historicamente, a primeira expedição chegou em terras do Vale em 1553, liderada por Francisco Bruza Espinosa, que estava acompanhado pelo padre jesuíta João de Azpilcueta Navarro, chegando até as cabeceiras do rio, na Serra do Espinhaço. Em 1573, à procura de metais preciosos, a segunda expedição chegou ao rio Araçuaí, principal afluente do Jequitinhonha. No ano seguinte, a expedição de Antônio Dias encontrou indícios de metais preciosos na região.

A ocupação do Vale se iniciou efetivamente na primeira metade do século XVIII, com a descoberta de ouro nas proximidades da cidade do Serro, o que atraiu muitos garimpeiros. Posteriormente, houve a descoberta dos diamantes no Arraial do Tejuco, hoje Diamantina. A fama de riqueza da região entrou em decadência na segunda metade do século XIX, quando foram encontrados diamantes na África do Sul, fazendo com que o preço do metal se desvalorizasse por aqui, levando muitos comerciantes e mineradores à falência. O abandono político e econômico do Vale foi denunciado no final do século XIX pelo jornal “O Jequitinhonha”, criado por Joaquim Felício e Teófilo Otoni. Mas, até meados do século XX, o Jequitinhonha ficou esquecido pela política nacional e, nesse sentido, começou a ser conhecido como o “Vale da Miséria”, visão que, erroneamente, persiste até os dias atuais.

A mineração reapareceu como importante atividade econômica na segunda metade do século XX com a extração de granito para fins ornamentais, especialmente no Médio Jequitinhonha. Muitas empresas vieram do Espírito Santo para atuar na região. Outra atividade que se instalou foi a Silvicultura. Com o objetivo de desenvolver o Vale, na década de 1970, o estado de Minas Gerais repassou as terras devolutas das chapadas para a empresa estatal Acesita, que plantou milhares de hectares de eucalipto para a produção de carvão vegetal, utilizado na siderurgia. Tal situação gerou conflitos com as comunidades locais, principalmente com as que viviam da criação de gado solto nas Chapadas.

Atualmente, a monocultura de eucalipto continua a se expandir, especialmente na região de Capelinha, município referência na cultura do café, trazendo preocupações ambientais devido ao alto consumo de água e impactos sobre a biodiversidade. A pecuária e a agricultura familiar ainda se mantêm como pilares tradicionais da economia local, apesar dos desafios impostos pelas mudanças no uso da terra. A geração de energia é representada, principalmente, pela UHE Irapé, construída em 2006, que inundou uma grande extensão de terras no entorno do rio Jequitinhonha. Recentemente, o Vale vivencia outra transformação econômica: a expansão da mineração de lítio, impulsionada por investimentos significativos que prometem gerar milhares de empregos e atrair investimentos de até R$ 30 bilhões até 2030. Destaca-se que essas dinâmicas econômicas coexistem com a forte presença da fé e das tradições culturais, que continuam a desempenhar um papel central na identidade e na resistência das comunidades locais frente às transformações em curso. 

A questão ambiental tem ganhado cada vez mais importância na região. Mesmo com a presença de recursos ambientais valiosos, como rios importantes, rica biodiversidade e grandes potencialidades econômicas, a região enfrenta sérios desafios. Problemas como o desmatamento, a degradação do solo e a escassez de água são frequentes, agravados pela má gestão dos recursos naturais e pela falta de políticas públicas ambientais eficazes. Apesar disso, o Vale apresenta grandes oportunidades. Citamos a geração de crédito de carbono, que pode ser alcançada por meio do reflorestamento de eucalipto, e o uso de fontes de energia renovável, como a solar e a eólica, favorecidas pelas condições naturais da região, a radiação solar e os ventos em regiões mais altas. Portanto, a valorização dos recursos naturais e das potencialidades sociais presentes e a adoção de estratégias e práticas ambientalmente corretas são fundamentais para o crescimento sustentável do Vale do Jequitinhonha.

 

*Alunos do Curso Técnico em Meio Ambiente – CEFET/MG

**Professor CEFET/MG