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Sobre a descrença no potencial do fascismo

28 de Outubro de 2026, por Vinícius Oliveira

Não é novidade dizer que os Bolsonaro são capachos de Donald Trump – subservientes e instrumentalizados para a defesa dos interesses yankees. Não é segredo a nova abordagem da Doutrina Monroe, agora, cinicamente denominada “Donroe”. Não é velado o desejo de tornar a América Latina quintal: é fato dito em voz alta e propagado como a peste. Contudo, me é estarrecedora a leviandade com que essa consequência de fatos se consolida cabível como alternativa a um governo impopular e, principalmente, a um desafeto pessoal.

A operação do governo norte-americano é clara: se um Estado soberano se coloca contra seus interesses, sofre embargos comerciais duríssimos e tem implantadas crises econômicas e político-institucionais duradouras, tem fomentada uma oposição traidora e oportunista que carrega o país à ruína e depois sofre intervenção direta, por bem ou por mal. Sofremos com essa estratégia no caso dos tarifaços intermediados por Eduardo Bolsonaro – notem, a presença dessa família de párias é constante e ativa. Por outro lado, se o Estado soberano tem, em sua representação, figuras adeptas aos planos do norte global, como é o caso da Argentina de Milei, são essas próprias figuras que dissolvem as instituições e intensificam as inúmeras crises, lançando a população a um verdadeiro deus-dará e reforçando a subserviência. Flávio Bolsonaro se encontra no segundo caso – com pretensões resolutas de adaptar o modelo argentino ao Brasil.

Se seu interesse como eleitor é que o Brasil não se torne a Venezuela – outro país que sofreu intervenção criminosa dos americanos sob o pretexto mais sem vergonha possível –, talvez tenha de fazer um apanhado de informações sobre qual modelo se apresenta como comparável ou tendente a esta imagem de crise: o do Brasil dos últimos quatro anos, estando à décima economia do mundo, um dos maiores credores dos EUA e com reservas internacionais no valor de US$ 372 bilhões; ou o da Argentina de Milei, com uma taxa de 32,3% da população em situação de pobreza e 7,5% em situação de indigência, segundo o INDEC, com uma dívida externa de US$ 327 bilhões, e que busca a aprovação de venda de terras rurais a capital estrangeiro. Sejamos profundamente honestos: sob nenhum critério ou dado factível a mentira deslavada que o Brasil está quebrado cola.

Este é o modelo operacional do bolsonarismo e da extrema-direita, tão associados ao fascismo: acobertamento e distorção dos fatos, produção e amplificação de crises, fabricação de inimigos internos, deslegitimação das instituições democráticas, ataques à imprensa e ao conhecimento científico – o país acende o alerta ao possível retorno do sarampo, eco dos atos antivacina do governo Jair Bolsonaro, que poderia ter evitado 400 mil das 700 mil mortes na pandemia de Covid-19, sem a omissão na compra de vacinas e se não apoiasse tratamentos sem comprovação de eficácia –, incitação ou normalização da violência política, instrumentalização da religião e da moralidade, erosão dos mecanismos de controle institucional e revisionismo histórico.

O resultado potencial de Flávio Bolsonaro na presidência, tal qual foi o resultado do pai – o “8 de janeiro” não nos deixa esquecer – é a deterioração progressiva do pluralismo democrático: adversários são inimigos, a violência torna-se justificável entre apoiadores e a verdade factual perde espaço para o capachismo ideológico. Todo o espectro político brasileiro sangra.

São os ecos de falas irresponsáveis e criminosas do ex-presidente Jair Bolsonaro que cooptou trabalhadores e aposentados a uma tentativa frustrada de golpe de Estado, enquanto ele se escondia fora do país. São ecos de seu posicionamento pessoal e institucional contra as vacinas, durante a pandemia, que traz à tona doenças até então controladas pela vacinação. São ecos da instrumentalização religiosa, estrategicamente promovida pelos Bolsonaro, que levam uma pessoa em sofrimento psíquico profundo a ser exposta de maneira absurdamente cruel ao julgamento público. Não sejamos vãos ao dizer que uma coisa não tem a ver com a outra: não é sobre um ou outro caso isolado, existe lastro na realidade de falas que se extrapolam e ganham materialidade, se tornam cadeia viva de ações. Esse pessoal não é ingênuo. Não se esqueça que usam celebridades para nos vender produtos em publicidades nas redes sociais ou na TV. E a gente compra. Dá resultado.

Não desacredite na entrega dos nossos recursos aos norte-americanos, não desacredite na mudança da Constituição, não desacredite que discursos violentos tenham repercussão justamente nos mais vulneráveis. Não desacredite no potencial do fascismo, nem tema nomeá-lo pelo verdadeiro nome. Existe materialidade contundente para que nada disso seja palavrório inofensivo. Os Bolsonaro são mestres em incitar movimentos, inclusive criminosos, e tirar o corpo fora.

Se me permitem alguma futurologia: assim que concluído seu papel entreguista, eles serão lançados ao lixo da História pelos próprios senhores. Nós pagaremos o preço.

 

Nota da redação: A edição nº 282 do Jornal das Lajes foi fechada e enviada à gráfica antes do resultado final do segundo turno das eleições no dia 25 de outubro.

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