Retalhos Literários

Hoje me convém pousar em tua casa

15 de Maio de 2013, por Evaldo Balbino 0

Hoje venho pousar em teus olhos, leitor. Venho fazer isso através destas linhas. Peço licença para entrar em tua casa, através de palavras tantas e tontas, pois demasiado e tonto sou nesta vida. Sempre estou rodopiando na existência, transitando entre passados e presentes e desejando futuros. Deixa-me entrar na tua casa, para mais uma vez falar da criança eterna que há em todos nós.

Crianças têm suas manias. Suas virtudes e seus defeitos como qualquer adulto. E mesmo assim há quem diga que criança tem um par de asas levitando sobre o tempo. Ora essa, eu já fui criança, no sentido exato do termo! Digo “exato”, pois recorrentemente escrevo que ainda sou criança. Tudo o que escrevo é, na verdade, uma brincadeira com palavras. Continuo brincando como fazia quando era pequeno.

Hoje, não muito grande, não sou mais criança exatamente, não tenho mais a pequenez de um menino. Meço aproximadamente um metro e sessenta e nove centímetros, medida essa que me denuncia. Tudo bem que muitas vezes minto a minha altura quando sobre ela me perguntam. Respondo convictamente que tenho um metro e setenta. E o pior é que chego a acreditar nisso! Não sei o motivo dessa mentira que digo a todos e me digo. Se pela praticidade do arredondamento dos números (que me salve a matemática!) ou se simplesmente para me querer mais alto, não sei. Por via das dúvidas, fiquemos com as duas explicações juntas.

Pois bem, quando eu era pequeno, lá no Ribeirão de Santo Antônio, fui acostumado desde cedo a ir para a igreja. Uma igreja evangélica, de muitos louvores e orações. A estrada era íngreme para menino tão catatau, mas eis que meu irmão Elton e minhas irmãs e meus pais me levavam no colo. O Elton, muitas vezes, me levou sobre o seu pescoço. E lá ia eu, boneco desconjuntado, sob um sol queimando ou debaixo de estrelas tantas. Que estas eram muitas lá no Ribeirão! Não havia eletricidade. Com a parca luz das lamparinas, sobravam visões de um céu estrelado. A estrada em escarpas não era nada para um menino sobre ombros e abarcado por braços tão cuidadosos.

Fui palmilhando desde cedo, pois, a vida de beato. Fui aprendendo orações e louvores a Deus sem a necessidade de usar meus pés infantis. E como era bom voltar da igreja em noites escuras, envolvido por colchas de retalho que mamãe tecia, e com as quais ela nos abarcava para nos proteger do frio lá no alto do Ribeirão. Lá onde imperava e ainda impera a capela, uma igrejinha católica.

E como eu gostava da igreja, a que eu frequentava! O cooperador (a que muitos chamam de pastor) ia pastoreando com palavras as ovelhas. Nem todas atentas, algumas até bocejando, mas todas no intuito único de buscar os céus, de angariar a divina existência. E lá na igreja eu ouvia as palavras, proferidas com fé, com ímpeto, numa exortação às vezes de dar medo, noutras de causar piedade e noutras de nos levar, em vida, para a vida eterna prometida pelas bíblias.

O cooperador Totonho, meu tio porque tio de meu pai, falou uma vez sobre uma passagem do Cristo Jesus por estrada cheia de gente, estrada onde pessoas se amontoavam no intuito de ver o Filho de Deus. E Totonho falou, porque leu nas bíblias, sobre um homem muito importante, um tal de Zaqueu. Era um homem baixo, de pequena estatura mesmo. E, numa vontade imensa de presenciar Jesus, Zaqueu subiu numa figueira brava para ver o divino ser passando. Eis que o nazareno ergueu os olhos para o homem baixo lá no alto da árvore e disse:

– Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

Esta exortação foi um achado e tanto para mim e para uns primos meus. Tínhamos um colega, que também era nosso primo um pouco longe, o qual se chamava nada mais nada menos que Zaqueu. Foi uma festa! Todos os domingos, depois daquela exortação do Totonho, passamos a perseguir o menino no adro da igreja, dizendo-lhe as solenes palavras:

– Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

E íamos repetindo a interpelação, num prazer sem remorsos, sagrado e mexeriqueiro. Íamos fazendo isso atrás de um menino que fugia de nós, que nos xingava, que proferia palavrões inadequados a um adro de igreja. E nós, meninos inocentes, anjinhos serelepes, julgávamos adequada nossa atitude. Afinal, usávamos as bíblias para mexer com o amiguinho. Sendo assim, o que fazíamos era sob os auspícios de Deus.

Mas eu gostei dessa passagem de Zaqueu não foi só por isso. É que também me deixava feliz, atônito até, um homem tão pequeno (eu o imaginava um anãozinho) fazendo a peripécia de escalar uma figueira brava para ver uma luz tão alta, uma luz tão bela.

E hoje, mais do que nunca, sei que posso, com um metro e sessenta e nove de altura, também ver tal luz. E posso do mesmo modo, é claro, pousar em tua casa, meu caro leitor! Na casa de teus olhos.

Educar um filho

16 de Abril de 2013, por Evaldo Balbino 1

Li meses atrás a triste notícia de que um pai fora preso no Mato Grosso do Sul após haver espancado sua filha de nove anos. À época, foi postado um vídeo na internet, gravado por um vizinho, mostrando o modo terrível como o homem "educava" sua filha. Surrava-a porque ela havia retirado um ímã da geladeira!

No dia em que li essa triste notícia, escrevi estas notas: “Estou indignado! Lamentável tudo isso. Que os responsáveis paguem pelo que fizeram. Que a justiça seja feita. E que a garotinha espancada possa, se Deus quiser, superar essa situação terrível da vida e oxalá possa livrar-se desses adultos que deveriam educá-la, e que deveriam fazê-lo com carinho e amor”.

Hoje, tempos depois, volto a essa minha nota, hábito que tenho desde sempre. Minha vida de leitor e de escritor se perfaz em idas e vindas ao que leio e ao que escrevo.

Por exemplo: esta semana mesmo travei contato com o nosso Antônio Torres, escritor já consagrado nas letras brasileiras. Para mim isso foi uma alegria, pois é bom falarmos com quem admiramos. Falando com o autor, mais uma vez voltei ao seu romance Adeus, velho, que eu li há muitos anos, ainda adolescente, em Resende Costa. E naquela época, me lembro, fui marcado de imediato já nas primeiras páginas do livro. Primeiro, com as duas epígrafes de abertura; depois, fui tomado pela primeira frase do narrador se referindo a um “velho e carcomido cruzeiro dos montes”.

Uma epígrafe foi retirada de João Cabral de Mello Neto – poeta delicioso: “Para os bichos e rios / nascer já é caminhar”. Outra, o autor buscou no poeta espanhol Antônio Machado – poeta que, obviamente, eu ainda não conhecia à época, pois o máximo a que eu já tinha chegado, até então, eram os poetas portugueses: “Caminante, no hay camino, / se hace el camino al andar”.

A primeira frase do narrador é esta: “Braços abertos contra o tempo, o cruzeiro voava”. Achei isso lindo à época. Esse negócio de resistir ao tempo é muito bom! Sou amante de cruzeiros, eu que sempre namorei o cruzeiro em Resende Costa, aquele que está plantado na saída para o Ribeirão de Santo Antônio. Gostei de ver a imagem, em Antônio Torres, do cruzeiro voando. Um cruzeiro voando, mesmo com um “pé preso à terra por dentro de uma pilastra de cimento”. Uma pilastra, completa o narrador, que “também servia de degrau para os joelhos dos pecadores”.

Meu Deus, que lindo tudo isso! Todos nós somos pecadores, eu já sentia isso na época. E que bom sermos assim, incompletos, buscando sempre completudes. Por tudo isso e muito mais, voltando agora à nota que fiz sobre o espancamento da filhinha pelo pai, é que posso dizer: errar é humano! Mas quando o erro é inconsequente, quando ele prejudica um ser tão puro e indefeso, a justiça deve ser feita. Para isso existem as leis, para isso nós, há muito mais que dois milênios, tentamos nos organizar em sociedade.

Nenhum espancamento é justificável, muito menos numa situação como a descrita! Que mundo é este, meu Deus? O homem espancando a filha, na cabeça, nas costas, em todo o corpo, e fazendo isso diante da irmãzinha dela, menor ainda! E a madrasta da menina? Coadjuvante do ato! Pois no vídeo ela era vista, calada, lá da porta da casa, vendo a tudo e silenciosa, sem nada fazer em prol da inocente vítima.

Defendo que se um homem e uma mulher sabem fazer filhos – e geralmente gostam de fazer isso –, que pensem também nas responsabilidades que envolvem a decisão de se ter um filho. Fazer é simples, é biológico, mas educar não é. Tudo que diz respeito a uma formação cultural é mais complexo, é mais difícil.

Volto aqui, nas minhas idas e vindas, às epígrafes do livro Adeus, velho e também ao próprio livro em questão. E faço isso com licença do João Cabral de Mello Neto e dos dois Antônios, o Machado e o Torres.

Volto às epígrafes e ao livro para dizer que nascer não basta, que a biologia por si só não nos serve. Caminhar é que é importante. Se tudo começa no nascedouro, se nós começamos como os bichos e os rios, também como eles devemos caminhar. As crias crescem, mas precisam enfrentar a vida. As águas correm, e atravessam em sua corrida muitas pedras, muitas quedas ferozes. E os nossos filhos? Eles crescem, amadurecem como frutos bem-vindos. Mas não deveriam eles lutar simplesmente na e com a vida? Com a linda, deliciosa e triste vida? E digo mais: deveriam os nossos filhos, lutando contra o tempo, voar como os cruzeiros de braços abertos. Voar para a vida, a qual é cheia de ares perigosos, mas aprazíveis.

O mais lamentável perigo é aquele que começa dentro de casa. Nesse espaço onde, com carinho e afeto, deveriam os nossos pequenos aprender a trilhar a vida. Não a violência da vida. Uma educação estruturada está alicerçada no amor. E o amor pode ser simplesmente isto: um respeito ao outro, incondicional. O meu filho é outro para mim e, como tal, merece meu respeito.

De outras coisas complicadas ou As doçuras de Deus

12 de Marco de 2013, por Evaldo Balbino 0

Na crônica de janeiro deste ano falei de um texto da Clarice Lispector, “Das doçuras de Deus”, que versava sobre uma empregada sua, a Aninha, ou melhor, Aparecida. Lispector nos contou, nesse texto, das manias de Aparecida, dos seus gostos supostamente duvidosos em se vestir, das suas preferências literárias. Mas só quero retomar aqui uma informação: Aparecida, relatou-nos Clarice, enlouqueceu. E sua loucura me fez escrever a crônica de janeiro. Mas eis que, depois de tê-la escrito, eu me deparei com outra crônica de Clarice, e com um título também belíssimo de nos apaixonarmos: “De outras doçuras de Deus”.

A escritora, nesse segundo texto, aparentemente não deixa os fatos sem andamento, não abandona Aparecida numa loucura em aberto. Relata-nos que, passado um tempo, Aparecida bateu à sua porta. Clarice assustou-se, pois a doméstica estava internada num hospício. Como poderia estar ali, na sua frente? Mas ela parecia melhor. No hospital, lembrara-se dos nomes dos familiares de Clarice e do endereço, e pedira para visitar a família e buscar um dinheiro que lhe era devido. Indagada, obviamente, em relação a como conseguira sair do hospital, explicou a mulher que aquilo era um teste: deixaram-na sair para verificarem se ela dava conta do mundo lá fora, com autonomia. De fato parecia mesmo melhor. Estava, segundo Clarice, “mais bonitinha, à custa de ter engordado com tantos soros, e tomou três choques elétricos”.

Após pagar a ex-empregada, Clarice surpreendeu-se com a fala que a sua cozinheira dirigiu à mulher, também a testando: “Conte para mostrar que você sabe contar”. E não é que Aparecida contou direito mesmo!? E mais: além de contar, verificou que Clarice lhe pagara o mês todo e agradeceu.

Penso que Aparecida estava preparada de fato para a vida, e não por apenas saber contar o dinheiro que lhe fora dado, mas também e principalmente por estar pronta para o mundo. E estar pronto para mundo é isto: é estar pronto para a vida e seus percalços. E na preparação de Aparecida, ela até se preocupou com a literatura de Clarice, com as palavras em estado de arte. Tanto se preocupou, que desfechou a pergunta: “A senhora ainda está escrevendo?”.

Essa pergunta comoveu a escritora. E também, devo dizer, me comoveria, se eu estivesse ali, diante de tais palavras de uma mulher supostamente enlouquecida.

A casa de Clarice ficou alegre, como uma dádiva divina. Na reta final da conversa, Aparecida (que na verdade se chamava Aninha) disse que agora queria ter um namorado e mesmo ir para um programa de televisão que arranjava casamento. E ainda acrescentou que no hospital descobriram as suas potencialidades e que, depois que tivesse alta, iria ficar lá trabalhando por uns tempos.

A crônica de Clarice termina com tais informações. Como eu disse, a autora, aparentemente, não deixou de dizer nada.

Mas ainda não sei, já passados uns 36 anos desde o relato desses fatos, se Aninha realmente teve alta, se ela de fato chegou a trabalhar no hospital. Se ela chegou a ter um namorado ou se chegou a apresentar-se num programa televisivo para arranjar casamento. Terá casado mesmo a nossa Aninha?

Será que ela de fato “desenlouquecera”? E o que é a loucura num mundo onde parâmetros são poucos, mesmo que supostamente claros e científicos? Era realmente louca a nossa Aparecida? E olha que ainda pensava em literatura mesmo depois de internada, tanto que perguntou a Clarice pelos livros que esta escrevia. Gostava de livros complicados, a nossa louca. Se isso é loucura ou não é loucura, não sei. Mas essa mania eu quero para mim.

Os livros complicados, como todas as coisas complicadas, têm aguilhões que nos incomodam, mas que são necessários à vida, para que possamos exercitar nela toda e qualquer busca. Incomodados, devemos nos mover para diante. Numa comparação horrenda, pode-se dizer dos bois sob as cangas. Emparelhados e em filha indiana, eles são forçados a ir para frente, pois são cutucados, incomodados pelos boiadeiros que, infelizmente, chegam até a exagerar com os ferrões.

Se é impossível saber da loucura de Aparecida, como de qualquer loucura, é possível saber pelo menos que ela era uma mulher simples. O que ela queria é o que todos nós queremos. Nas coisas simples da vida (como por exemplo namorar, casar, ter filhos, contar um dinheiro, sentir-se mais bonito nem que seja um pouco, trabalhar), nessas coisas mesmo tão corriqueiras é que buscamos uma trilha. Mesmo que sinuosa, nós desejamos encontrá-la para não perdermos o rumo. O rumo da vida. Da vida complicada, mas doce.

Santa Maria, rogai por nós!

15 de Fevereiro de 2013, por Evaldo Balbino 2

28 de janeiro de 2013. São seis horas da manhã, e o avião, roncando, já começa seu passeio pelo campo de decolagem do Aeroporto Internacional de Confins. Destino: Rio de Janeiro. Algo me incomoda, mas esse algo ainda não veio para o meu consciente. Sei que algo me incomoda, contudo ainda não sei o quê. Uma noite mal dormida, virando de um lado para outro, o corpo dolorido, um sono irrequieto. Algo me incomoda, e ainda faltam umas duas ou três horas para eu perceber exatamente o que me incomoda.

O avião levanta o voo, e o meu coração sofre um pouco com a velocidade exorbitante, com a máquina buscando as nuvens como se leve fosse. Não é costume esse meu estresse, esse medo de avião. Algo, no entanto, me incomoda. Sobrevoamos os céus da Grande Belo Horizonte. As nuvens estão cinzas, anunciando chuva. Uma chuva triste, duradoura. Em alguns momentos, a aeronave atravessa nuvens compactas, plenas de água na iminência de desaguar. Turbulências pequenas me fazem lembrar que a vida é frágil. Basta um quê de nada e ela, a vida, deságua como a água da chuva, desaba para um precipício final. Logo após, servem-nos um amendoim enjoativo, mas um suco de laranja me salva.

Sobrevoando agora, uns 40 minutos depois, o céu também cinzento do Rio de Janeiro, o que primeiro vejo é o Cristo de braços abertos. Ele parece querer abraçar a cidade inteira, e em mim a sensação de que ele não consegue isso. A aterrissagem me assusta um pouco. O Santos Dumont sempre me parece pequeno, como se fôssemos todos mergulhar nas águas turvas do oceano. Albatrozes às avessas, faríamos uma imersão sem retorno.

Faríamos, mas não fizemos, pois agora, já com a bagagem no hotel, estou na Cinelândia caminhando entre pessoas apressadas. Olho para a Biblioteca Nacional, edifício por que sempre me apaixono. Vou na direção do Theatro Municipal. Carros, garoa, pessoas de um lado para outro, turistas, camelôs, bancas de jornal lotadas de observadores olhando para as notícias do mundo. Nunca gosto de namorar as bancas, de ver os espetáculos que a mídia nos joga nos olhos.

Algo brilha, de repente, em minhas retinas. Um reflexo, uma luz dolorosa, apesar da garoa. No Rio, mesmo quando chove, o tempo é abafado, quente, úmido. A pouca luz é suficiente para incomodar meus olhos frágeis. O que joga reflexos em meus olhos é um pequeníssimo objeto no chão da Cinelândia. Abaixo-me e vejo que é um pingente de prata. É uma prata que faz doerem os olhos. Entretanto, o que mais me dói é ver o que o pingente representa: o Sagrado Coração de Jesus. Um coração que nos punge, um coração ardendo e envolto por uma coroa de espinhos. Recolho o objeto sagrado e o guardo no bolso da calça.

Decido-me ir até à Rua da Carioca, para comprar alguns livros num sebo meu conhecido. Na entrada da livraria, o primeiro livro que me vem às mãos é o Entardecer, de Menotti Del Picchia. Como é um poeta de que gosto muito, compro a brochura, e dou de cara com estas palavras: “Todos na vida temos um ‘entardecer’. / Somos como as árvores. / A infância é verde. / A mocidade um festivo explodir / de brotos e de flores. / É na hora melancólica da tarde / que surgem e amaduram os frutos”. Tais versos me incomodam, de tão lindos e tristes. Volto para o Largo da Carioca pensando neles. Quando viro para a direita, percebo o que nunca percebi antes: o Convento de Santo Antônio. Pasmem, podem rir de mim: um edifício imenso como esse, e eu nunca o vi antes. O seu nome me leva às terras do meu Ribeirão de Santo Antônio, o santo casamenteiro.

Tomado de saudades, de uma tristeza errante, erro pelas escadas de acesso ao convento e chego a uma capela, onde estão começando a celebrar uma missa em memória de São Tomás de Aquino. E fico sabendo que hoje a Igreja Católica relembra a figura de um dos maiores doutores que ela já consagrou. De repente, a ajudante do padre começa a leitura do Salmo 98. E na liturgia a que assisto, as palavras iniciais do texto “Cantai ao SENHOR um cântico novo, / porque ele tem feito maravilhas” me tomam. Elas me tomam, pois são transformadas em estribilho repetido a cada versículo pelos fiéis que estão ali condoídos e buscando uma ligação com o sagrado. Um homem, de joelhos à minha frente, segura nas mãos vários santinhos. Não de políticos, mas de santos mesmo: São Jorge, Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio com o Menino Jesus nos braços, São José também com o Menino Jesus e um ramo florido de lírios. O homem pega um a um dos santos, beija-os, e chora, e murmura palavras que não consigo entender. Ele parece triste, mas de uma tristeza sagrada.

Assisto à missa e saio do convento. Olho para o céu ainda cinza, e sinto ainda uma dor imensa, uma dor vinda não sei de onde. Caminho pelo Largo da Carioca em direção à Rio Branco. Tenho dificuldade de trânsito ao lado de uma banca. Muitas pessoas lendo jornais tampam o caminho. Vou pedindo passagem, e escuto o comentário: “Pra que tanta morte, meu Deus!?”. Então olho para as capas dos jornais e vejo estampada em todas a tragédia ocorrida em Santa Maria, RS, onde um incêndio matou mais de 230 pessoas, a maioria de jovens, na boate Kiss no dia anterior.

Ontem, dia do triste episódio, eu aparentemente estava fora do planeta. Ocupado com uma amiga que recentemente perdera o marido e com os preparativos para a minha viagem, não liguei a TV nem o rádio nem a internet. Leio agora algumas manchetes dependuradas na banca, escuto murmurações, e meus pensamentos vão fazendo pontes, cruzando fios, enlaçando-se como aquela coroa de espinhos no coração de Jesus.

Tantos santos nesta manhã desfilaram perante meus olhos. Tantos santos e o medo. O Cristo Redentor, Jesus e o seu Sagrado Coração, Santo Antônio, São Tomás de Aquino, Deus na liturgia que presenciei, São Jorge, Santo Expedito, São Judas Tadeu, São José e o Menino Jesus. Para coroar tudo isso, para além da coroa de espinhos, veio-me o ramo de lírios, florescido. Mas agora me vem Santa Maria, não a cidade e sim a santa mesma, e com ela também me chega a coroa de espinhos no coração de Jesus.

De que me adiantam os lírios de José, os que anunciam núpcias, se não estou agora para casamentos, mas para o choro?!

E choro e clamo a todos os santos, mormente a Santa Maria. Rogai por nós, ó mãe de Deus! Rogai pelos que amanheceram mortos em Santa Maria e pelos que ainda morrerão. Rogai pelos sobreviventes e pelos parentes vivos dos que morreram. Rogai pelos nossos medos de incêndios e aviões. Rogai pela juventude que não “explodiu em brotos e flores”, mas que “entardeceu”, não “na hora melancólica da tarde”, e sim numa madrugada agônica e escura. E mais que tudo, Santa Maria, rogai por nós, que somos um gado perdido, manada condoída espalhada pela Terra, cada rês seguindo seus pares, aturdida, em dores compartidas aos quatro cantos do mundo...

Coisas complicadas

16 de Janeiro de 2013, por Evaldo Balbino 0

“Deus faz doçuras muito tristes”. Essa frase não é minha; é da Clarice Lispector. O espectro que nos chega sempre tão claro. Por isso vai entre aspas, que não sou nenhum plagiador. Pelo menos acho que não. Mas vamos direto ao assunto.

Clarice escreveu essa poesia cheia de verdades em 1967 e a publicou em 16 de dezembro do mesmo ano no Jornal do Brasil, numa crônica lindamente chamada “Das doçuras de Deus”. Ela dizia sobre uma empregada sua, Aninha, que, segundo a cronista, deveria se chamar Aparecida. Deveria se chamar assim, mas Clarice não sabia explicar por quê.

Mulher feia com uma ausência de dentes dianteiros, calada, mineira com gestos apagados, Aninha usava nos dias de folga uma saia vermelha estampada (muito mais comprida que seu tamanho) e uma blusa marrom. Essa falta de gosto era, na opinião de Clarice, uma das doçuras de Aninha.

Tenho cá comigo que de fato a empregada era doce, e de uma doçura peculiar. Quanto à combinação do vermelho estampado com o marrom, me eximo de concordar com a autora, mas também não discordo. Fico neutro, se é que a neutralidade seja possível. Aposto que muitos me olham e devem pensar: “Que homem de mau gosto, com essas roupas feias que não combinam entre si!”. É verdade: nunca fui muito bom nesse negócio de moda, principalmente em se tratando de mim. Só não dou conta mesmo é de andar pelado, infelizmente.

Voltando ao assunto principal desta crônica. A doçura verdadeira de Aninha era realmente algo para surpreender. Foi ela mesma quem disse a Clarice Lispector que não gostava de livros “água com açúcar”, que queria sim era ler os livros da autora que a própria Clarice caracterizou de complicados. Lispector, não desejando atmosfera de literatura em sua casa, resolveu dar-lhe um romance policial, cuja tradução era de próprio punho. Dias depois a empregada disse-lhe que acabara de ler o livro, gostara do enredo, mas que o achara um tanto infantil. E arrematou: “Eu gostava era de ler um livro seu”.

Que maravilha! Aninha era complicada também. Fazia parte da minha patota. Combinava vermelho estampado com marrom, não portava uma beleza de que alguém possa se gabar e ainda por cima gostava de livros complicados.

Ponhamos algumas coisas em pratos limpos. Pois quando estão sujos, os pratos não nos permitem comer como se deve.

Primeiramente, não me sinto nenhum patinho feio. Nem posso dizer se Aninha também sentia isso ou não.

Em segundo lugar, que fique claro o seguinte: livro complicado não quer dizer livro difícil. Livro complicado é aquele que não escamoteia a vida, que não coloca lentes cor-de-rosa nos olhos de um leitor ingênuo e sai dizendo aos quatro ventos que o mundo é várzea. Pode até falar de rosas, de jardins floridos, de sonhos ao pé de uma serra maravilhosa, de amores que se encontram felizes para sempre. Pode falar de tudo isso. Mas se for bom, será complicado, terá a capacidade de tirar não apenas o tapete dos nossos pés, mas o chão inteiro, forçando-nos a levitar desconjuntadamente.

Aninha – como Clarice, prefiro dizer também Aparecida – era de uma doce complicação não simplesmente porque gostava de livros complicados. E sim porque, além de ser ela mesma, com seus gostos supostamente duvidosos, com suas manias tidas como estranhas, ainda houve por bem desembocar no único caminho que lhe possibilitava enfrentar as complicações da vida. Aparecida, a que sumira de Minas Gerais e aparecera como empregada no apartamento de Clarice Lispector lá no Rio de Janeiro, enlouqueceu.

Um dia de manhã, depois de haver demorado muito na rua para fazer as compras, Aparecida surgiu diferente. Um sorriso brando mostrando os dentes postiços que antes lhe faltavam na frente. O dinheiro das compras amassado na mão direita. E dentro do saco de compras dependurado no punho da mão esquerda existiam, cheios de vida e utilidade, pedaços de papel sujo e tampinhas de garrafa de leite e de outras garrafas.

Numa atitude pueril, Aparecida foi para o quarto mostrando o alto da cabeça e dizendo que sentia uma dor ali, bem ali. Deitou-se e permaneceu calada. Ainda com sorriso brando, disse, quando indagada, que pegara tudo o que estava no saco para enfeitar o seu quarto. E o que é um quarto, senão um pedaço da vida? A vida precisa mesmo de enfeite.

O que Aparecida queria enfeitar, então, era a vida. E queria fazer isso com a doce pureza de uma criança chamada loucura. Na suavidade mansa dos seus devaneios, ela transmitiu muitas lições, como aquelas que os livros complicados nos transmitem. Estar doida era também um modo de dizer: “Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar”.