Retalhos Literários

Enfeites para um Natal sem enfeite nenhum

11 de Dezembro de 2012, por Evaldo Balbino 0

Outro dia um amigo chegou a minha casa e, vendo que os meus vizinhos enfeitaram suas portas com um Merry Christmas lânguido, perguntou-me por que eu não fizera o mesmo. Sua pergunta me fez pensar um pouco em por que meus Natais são sempre sem enfeite nenhum. Se ele hoje me perguntasse isso de novo, eu lhe diria que o que não parece belo não deixa de ser belo e que é possível extrair das dores alguma plenitude, umazinha que seja.

Hoje, por exemplo, o dia é de chuva fina e de lembranças. Belo Horizonte está chuvosa e, o que é raro, tranquila. Isso é apenas hoje, porque, neste fim de ano que se aproxima, a cidade tem se movimentado mais. Hoje, entretanto, a chuva delicada e tímida, aliada a um domingo, tem esse poder de quietude. E como todo silêncio é propício aos rumores sutis, acabo por ouvir, de mansinho como a chuva caindo lá fora, os meus passados Natais.

Eu ficava feliz com duas coisas nos fins de ano: os desenhos natalinos que me eram dados na escola para colorir e os desenhos animados de Natal vistos na TV.

Eu não acreditava em Papai Noel, pois sabia da vida árdua de uma família de tecelãs e pedreiros. Não acreditava nele, mas com que garbo o coloria nas épocas de Natal! Fazia a barba mais longa e mais branca, a barriga mais gelatinosa e pendente, e o saco estava sempre cheio de brinquedos e promessas.

Nos desenhos, eram árvores de Natal belíssimas, daquelas que não vingam em nossas paragens. Copiando modelos de países setentrionais, nós, os tupiniquins, amamos pinheiros excelsos, altíssimos em sua plenitude. E eu gostava mesmo era de colorir a grande estrela que no cume do pinheiro reinava como rainha absoluta.

Meus pais diziam que aquilo era idolatria e que por isso eles não decoravam nenhuma árvore em casa para o Natal. Mas, sem freios, eu cometia minhas idolatrias. Pegava os lápis de cor e tocava a enfeitar as árvores que as professoras me davam. E se faltava entre as bolotas e a estrela um pouco mais de vida, eu desenhava anjos em revoadas pelos galhos das árvores. Eram anjos tortos, pois eu não sabia desenhar direito. Olhava para os bonequinhos malfeitos, mas acabava me apaixonando por eles. Afinal, todo mundo é torto mesmo, pensava. Qual é o problema de os meus anjos serem desse jeito? Eu já pressentia que debaixo do sol não havia perfeição. Mas o que dizer dos anjos: não eram seres celestiais, vivendo para além do sol? Na verdade, o garoto que eu era não gostava de imaginar anjos no muito além. Meus anjos eram bem da terra. Eu não conseguia e não queria me livrar dos anjos terrestres. Desde cedo me veio um amor pelas pequenas coisas terrenas. Não se pode abrir mão da vida, desta vida que é nossa garantia.

Dos desenhos animados de fins de ano, era a turma do Zé Colmeia que me dava alegrias infindas. Repetia-se todo ano o episódio “O primeiro Natal do Gasparzinho”. E ao invés de me apaixonar pelo menino-fantasma, era do Assombroso, um espectro supostamente assustador, que eu me enamorava.

Os animaizinhos simpáticos e mambembes, chefiados pelo Zé Colmeia, perdiam-se numa estrada cheia de neve, pela qual iam à procura de um hotel para a comemoração do Natal. Encontravam uma casa antiga e mal-assombrada, condenada para demolição. A casa era imensa e fria. Nela, o simpático Gasparzinho convivia com o fantasma Assombroso, também boa-praça, que tinha a mania de considerar-se um monstro temível. Zé Colmeia e os amigos se uniam e começavam uma faxina pelo casarão. Cortavam um pinheiro, enfeitavam as paredes e a árvore, removiam o pó de todos os móveis, varriam o chão com rapidez e felicidade, pegavam lenha no porão e acendiam a lareira.

As lareiras sempre foram minha paixão. Como em Resende Costa fazia muito frio, e ainda faz, lareiras eram e são bem-vindas por lá. Mesmo assim nunca tive lareiras, e com elas sonho até hoje.

Eu amava ver toda a turma do Zé Colmeia transformando um ambiente cheio de más sombras e maus aspectos num lugar apetecível. O episódio caminhava de um ambiente enfeitiçado e embruxado para um lugar luminoso e alegre, e tudo isso com a ajuda do Papai Noel.

E hoje, depois de eu crescido, aqui agora nesta tarde silenciosa e com chuva insistente e fina, vem-me a inegável pergunta: onde está o Papai Noel? Talvez cansado de voar pelos ares e de dar presentes para pessoas cada vez mais interessadas em presentes, ele tenha se aposentado. Talvez ele já esteja, em verdade, de saco cheio deste nosso mundo.

Nos fins de ano brasileiros, sem neve, porque em nossa região pelo menos nunca as houve, a frieza é tamanha. A frieza é mais fria do que a neve. E tanta frialdade me faz pensar em coisas ásperas.

É mais um fim de ano que se aproxima, e as pessoas no mundo se atordoam de um lado para o outro. Correm exasperadas com pacotes de compras e mais compras. A vida deixa de ser vida, se não contemplar as vitrines cheias das lojas e dos mercados. O formigueiro humano tem fome e sede, não de justiça, mas de dinheiro e de supostas lembranças a serem dadas na Noite Santa. E em meio a tudo isso, eu, menino sempre, ainda me pergunto pelo Papai Noel e tento desenhar no ar uma estrela guia, daquelas bem grandonas, para enfeitar a minha fantasia.

Nós e os folhetins

13 de Novembro de 2012, por Evaldo Balbino 0

Assisti com afinco à novela Avenida Brasil em sua reta final. Confesso assistir a novelas, quando há nesses folhetins uma intriga que me instiga, principalmente quando neles são construídas personagens de tanto fôlego, como as que João Emanuel Carneiro arquiteta. Também confesso que não vejo as novelas desde o seu início. Falta-me paciência para ficar todos os dias diante de uma tela que, se eu não tomar cuidado, pode me deglutir. Não preciso fingir aqui que não vejo novelas. Vejo poucas, mas vejo. Já é badalada, nos meios que se dizem cultos da nossa sociedade, a postura de se execrarem a televisão, a rede Globo e companhia. Eu, de minha parte, não me dou aos luxos de uma postura assim tão radical e tão falsa. Cada um de nós tem um gosto vasto, e o meu chega a ser versátil em alguns momentos.

Mas não abro tantas concessões assim não! Gosto do Emanuel Carneiro. Não falo de todo o autor. Mas como resistir a uma Flora, em A favorita, e agora a uma Carminha?! Gosto no Emanuel Carneiro do que há nele de capacidade em erigir folhetins tão densos, tão dramáticos, e em certos casos até mesmo inverossímeis. Um pouco de inverossimilhança tem que existir na arte. Assim todo efeito de realidade é colocado em xeque, e se escancaram aos nossos olhos as artimanhas do enredo, com personagens de nos tirar o fôlego.

No último capítulo de Avenida Brasil, deveras me emocionei com a cena em que Carminha e Rita se abraçam. Após o abraço, durante o qual ambas choram, Carminha dá as costas à Rita e chora maravilhosamente. Na sua dureza, no seu caráter orgulhoso, a personagem sente uma dor, uma dor misturada com alívio. Adriana Esteves está perfeita, com uma interpretação digna de uma grande atriz.

E o que dizer quando ambas estão coando café, em pleno lixão na casa de Lucinda? Essa cena ocorre logo após o abraço das duas.

“Que destino caprichoso esse nosso, hein, traste! Sempre juntas”.

Com essas palavras, Carminha a seu modo está amando Rita. O “traste” sai de sua boca, como quem diz: “Se não há outro jeito, vivamos juntas, então!”. Rita se oferece para servir o café, e Carminha, com seu gênio quase indomável, vai logo dizendo: “Sabe como é que eu gosto, né?! Sem açúcar. É só o que me faltava: engordar”.

Na dureza das palavras, na empáfia que não se perde, temos outra face de Carminha, que não é a única, mas é outra face. Face outra que, durante vários outros momentos, nos capítulos a que assisti, veio à tona. Que veio à superfície inclusive na mesma cena, quando a vó Carminha segura o neto. Face outra que se amplia quando a Carminha mãe segura a mão do filho, o filho que anos antes ela mesma deixara no lixão.

Eu disse agora há pouco não ter uma postura tão radical. Por isso digo que amei essa cena, como gostei de Avenida Brasil. Negar plenamente algo, ser radical nesse sentido, é negar o que há de raiz em nós. Aí sim admito que inevitavelmente somos radicais. Estamos presos às raízes das paixões. E nada melhor do que personagens bem erigidas, complexas, com idas e vindas em suas atitudes e valores, para que possamos, numa maravilhosa e dolorosa catarse, olhar para nós mesmos. E assim, olhando-nos, passamos a nos compreender mais, sempre mais.

Essa busca de nós mesmos que fazemos não é de hoje. Desde tempos antigos, as pessoas se buscam. Nos rituais pré-históricos, nas danças tão eróticas, nas invocações aos deuses, na tragédia grega e também na comédia, no teatro de ontem e de hoje, na literatura que se fez e se faz – em tudo isso o que estamos fazendo é um exercício infindável. Para melhor compreender, escrevemos, interpretamos, ouvimos canções e somos plateia e telespectadores dos espetáculos que fingem ser a vida, não deixando também de sê-la.

Certamente muitas pessoas, as que tinham acesso aos jornais na segunda metade do século XIX, as que liam e as que ouviam as leituras feitas, todas elas se debruçavam sobre as peripécias e as paixões de seres feitos de palavras e inscritos no papel. Acompanhavam os enredos nos folhetins, e com isso acompanhavam a si mesmas. Com a mesma febre, muitos ouvintes depois passaram a ouvir as radionovelas, a ver as fotonovelas. E hoje, as telenovelas reinam quase absolutas.

Sem radicalismos, como eu já disse, portanto sem também plenas concessões, admito que muito do que se oferece na televisão é ruim. É ruim mesmo quando nada nos acrescenta. Se, entretanto, soubermos peneirar (de várias novelas uma novela, de várias cenas algumas, de personagens tantas outras poucas), aí sim concederemos à arte televisa o que ela pode nos conceder: a possibilidade, em nós, de tentarmos desatar os nós que nos habitam.

As cruzes

16 de Outubro de 2012, por Evaldo Balbino 0

Desde criança tenho reverência para com as cruzes. Aprendi que elas não devem ser adoradas, que devem sim ser execradas, pois numa delas, num dia terrível, um homem foi crucificado. E foi nela que ele também perguntou: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”. O céu se fez escuro e a treva desceu sobre a Terra. Rasgando-se o véu do santuário, uma dor cortou os peitos sofridos, uma dor de sufocar a todos em amor, piedade e arrependimento. O véu se rasgando é bem a imagem da dor, de algo lacerante, mas é também a imagem de um vitupério, de uma coisa absurda, como absurdas são muitas coisas já acontecidas neste mundo.

Muitos outros, como Jesus, foram mortos e crucificados. Tiveram muitos que carregar também suas cruzes. E muitas vezes o fizeram sem sentirem um Simão Cireneu os ajudando. Carregamos cruzes sempre. E elas são tão nossas, que às vezes nem as percebemos. Fazem parte de nossos corpos, de nossas vidas, de nossos medos, de nossos sonhos e de nossos pesadelos. Sem cruzes, não teríamos a possibilidade de rever a vida, de descansar em alguns momentos.

Mas há muitos tipos de cruz. As hieráticas, as rígidas e as delicadas, as que brilham e as toscas e opacas, as feitas de pedra ou pau, mas também as fabricadas de suor e ouro e exploração. Existem as simplezinhas que se cravam nas infâncias do mundo, que se fazem de toquinhos, de talos de mamona, pauzinhos amarrados com embira e fé. Basta cruzar um pau com o outro e pronto: eis que uma cruz se desata, passa a existir.

Lembro-me de quando eu estava aprendendo os pontos cardeais na escola primária. A professora Lúcia nos dava luz, nos ensinava a ficar de pé, de braços abertos, e com a mão direita virada para o nascente do sol. Aí saberíamos discernir os pontos cardeais: à direita o leste, à esquerda o oeste, à frente o norte e atrás o sul. Será que é por isso que dizemos que ter um norte é dar sentido à vida, é ter destino? Talvez seja por isso mesmo, pois desde pequeno me ensinaram que o Norte estaria à minha frente. E deduzi de tudo isso que olhar para trás ou para os lados seria fugir do norte, da linha reta, dos caminhos previstos. Mas ninguém na época me deu a fundamental lição que hoje eu já aprendi: olhar sempre para o leste é estar constantemente amanhecendo.

E em pé, lá na escola primária, abrindo os braços sobre um sol delicioso, eu não sabia com o que me fantasiar. Se com a minha sombra projetada no chão, cheia de vida às vezes maior do que eu, ou se com os braços abertos que, com o corpo, formavam uma cruz, também viva, palpitando naquele chão de terra na Escola Estadual Assis Resende.  À época, a escola funcionava no que é hoje a Prefeitura Municipal de Resende Costa, pois o edifício do Grupo Escolar Assis Resende estava em reforma.

Das cruzes que existem, há duas que sempre me molestaram. Cada uma a seu modo. As de cemitério e as de estradas.

Nos dois cemitérios da minha cidade, da minha pequena Resende Costa, as cruzes sempre foram sérias, empedernidas, postadas sobre sepulturas como se fossem sentinelas sombrias, austeras. Sempre me incomodaram essas cruzes, esses guardas que nunca tosquenejam, pois que estão vigiando sempre algo. Algo que nunca consegui saber se é a vida ou a morte. Velam, por acaso, os que jazem entre flores e insetos alados? Ou nos espreitam, a nós que vamos ali chorar nossos mortos? Muitas pessoas tentam mascarar essas cruzes, tentam dar-lhes a gala de senhoras pomposas e bem-vestidas. Senhoras com hálito perfeito para salões e namoros e juventudes. Os entes queridos, os que ainda não transpuseram os umbrais da morte, colocam ao redor das cruzes jarros de flores, fotos dos falecidos, adornos outros e vários. Colocam tudo isso como se dissessem, numa dedicatória amorosa: “Aos mortos, dos que ainda vão morrer”. E nenhum desses adereços apaga o brilho da estrela fatal: a severidade dessas senhoras sobre corpos e insetos e vermes.

Há também as cruzes plantadas nas beiras de estrada. Quando as vejo, um silêncio mais que profundo me toma. Um silêncio rumoroso, daqueles que nos vêm para fazer perguntas. E aí ficamos atônitos, querendo saber por que estão ali aquelas cruzes, o que de fato ocorreu no sítio onde elas reinam silenciosas e também sérias. Tais cruzes são muito simples, humildes, e raramente vejo flores tentando enfeitá-las. Parece que o tempo passa, e as cruzes enraizadas nas beiras de estrada, desleixadas, ficam sendo apenas memória. Memória sem enfeite nenhum.

Mas para que servem os enfeites, se tudo passa mesmo? Acho que eles existem porque gostamos da beleza. E existem uma vez que, na beleza, podemos amar toda feiura. E entre feiuras e belezas, perdemos por fim a noção do que seja uma coisa e outra, e isso pelo fato de tudo ser belo. Assim nos amamos todos, entre cruzes, flores e insetos alados.

Ares de São Paulo

12 de Setembro de 2012, por Evaldo Balbino 0

Domingo, 19 de agosto de 2012. Após dois intensos dias de participação na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, decido-me por caminhar pela Avenida São João, e por fazê-lo namorando o cruzamento dela com a Ipiranga. Sempre quando faço isso, é lógico, lembro-me do Caetano Veloso e da sua canção, a dura cidade concreta erguendo-se perante meus pés e olhos mineiros. O meu amor por São Paulo, como tudo em mim, é dúbio. Mas afianço convictamente que gosto de São Paulo. Aprecio sua poesia rude, sua cara de metrópole desordenada que me instiga, que me tira de um centro urbano um pouco mais pacato, apesar de nem tanto, que é o de Belo Horizonte.

Sempre me hospedo em hotéis do Centro de São Paulo. E desta vez não é diferente. Fora do Anhembi, onde ainda está ocorrendo a Bienal, o que me restam são as ruas sujas do centro paulistano, seus prédios e bares, os cinemas de sexo espalhados por vários pontos, as praças e seus mendigos. Resta-me esse mundo estendido perante minhas vontades.

Ainda na altura da Praça da República, esquina com a Rua dos Timbiras, quase piso em algo, e vejo que se trata de um homem dormindo sob um encardido e fétido cobertor São Vicente. Na minha infância fui acariciado por esses cobertores toscos e baratos, que minha mãe comprava em grande quantidade em São João del-Rei. Eram cobertores com preços acessíveis ao bolso de uma família numerosa e simples. Mas na simplicidade, tínhamos limpeza e nos escondíamos dos frios de junho. Esse não parece ser o caso do homem deitado. Seu corpo está encolhido e treme juntamente com a sujeira do cobertor.

Em São Paulo está frio neste domingo. A manhã tem sol, mas uma brisa saturada de poluição bate nas faces dos transeuntes. E todos andam pela Avenida São João, como se estivessem respirando o ar mais puro do mundo. O costume tem destas coisas: passamos a não estranhar o que nos é danoso no cotidiano que se estende em nossas vidas. E enquanto duramos, duram nossos corpos acostumados a tudo. A sentir um ar sujo e a respirá-lo com prazer, a ver pessoas deitadas na rua como se estivessem numa cama confortável e dentro de uma casa aconchegante. Vemos horrores, porém não os enxergamos. Não há demonstração de nenhum estarrecimento.

Entretanto algo me estarrece. Um mendigo, sentado na calçada mais adiante, aproveita a água que escorre de um restaurante sendo lavado. E vai esfregando os seus pés imundos, vai tirando as crostas que os cobrem. Com água e sabão que já tiveram sua serventia no chão sujo de uma casa noturna, esse homem se limpa, busca tornar-se palatável aos olhos da sociedade.

Atônito fico. Deixo-o lavando-se e sigo o meu caminho. Já são quase 11 horas da manhã, e o tempo avança. Tenho que comer alguma coisa, passar correndo pelo hotel e retirar minha bagagem. O voo de volta para Belo Horizonte será apenas às 18 horas, mas a diária vence ao meio-dia, e não estou disposto a pagar caro por uma parcela de tarde num quarto de hotel.

No Largo Santa Cecília pego o metrô, faço baldeação na Estação da Sé e sigo até a Estação São Judas. Dela saio à rua, pego um ônibus deliciosamente vazio na grande São Paulo, e chego em questão de minutos ao aeroporto de Congonhas. Avisam-me no check-in que posso, caso queira, antecipar minha viagem. Isso muito me alegra, afinal já estou sequioso de minha cama e de um sono tranquilo. Geralmente não durmo bem em quartos de hotel. Uma colega me disse certa vez que em hotel tudo é bom, pois é onde a gente exerce o papel do outro. Essas psicanálises não me convencem. Além disso, em mim mesmo, no meu canto, já faço esse tal exercício. Não preciso de hotéis para isso. Na minha ânsia, quase esqueço meu documento no balcão da companhia aérea. Com o bilhete em mãos e a bagagem despachada, vou para o embarque imediato. Dentro do avião, sento-me espaçosamente, e espero pela decolagem.

A máquina sobe para os céus de São Paulo. Sobe e, de vez em quando, inclina-se para um lado e depois para o outro. Estou à janela. Quando o aparelho tomba para o lado em que estou, fico superior a São Paulo. Ela está lá embaixo, ficando pequena com seus prédios gigantescos, com seus rios sujos como cobras lentas, com seus carros minúsculos num movimento de formigueiro. É domingo, e estou subindo para os céus de São Paulo. À medida que subimos, vamos atravessando nuvens, com um balanço de dar um pouquinho de medo.

Planando agora no ar, na altura já desejada, o que vejo são flocos de algodão, ilhas de vapor lindas e leves levitando sobre a cidade inteira. O avião parece estar navegando mais acima dessas ilhas. E nos movemos pelo ar como se água fosse. As ilhas flutuam, parecem estáticas. E eu fico extático vendo-as assim tão bruma sobre uma cidade cheia de problemas. Inclino o banco do avião e tento dormir. As nuvens são ilhas e ignoram o que está mais abaixo delas. Ignoram também o que sinto e não percebem que estou tentando dormir.

Pedro Pires Bessa e a literatura de Divinópolis em crônicas

13 de Agosto de 2012, por Evaldo Balbino 0

Conheci recentemente, em Montes Claros, o professor, pesquisador e cronista Pedro Pires Bessa. Homem culto, cuja simplicidade imensa tem a força do encanto. Conhecê-lo foi uma dádiva. Doutor em Teoria Literária, professor aposentado da UFJF e praticando a docência atualmente na FUNEDI/UEMG em sua terra natal, Divinópolis, vive uma vida constante para as letras, publicando semanalmente, nessa cidade, crônicas no Jornal Agora.

Em suas crônicas encontramos, no dizer de Márcia Pereira, uma “longa jornada cidadã e solidária”, que “estuda o caleidoscópio sociopolítico brasileiro” e faz isso num “girar frenético do catavento”. É autor de sete livros já publicados, nos quais se debruça sobre as obras de Loyola Brandão, Jadir Vilela de Souza e sobre os temas: literatura em interface com a mídia e literatura de Divinópolis.

Quero destacar aqui o cronista, mais especificamente no seu livro Literatura de Divinópolis em crônicas (2006, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais). Nesse livro, o autor nos dá um panorama, com olhar de cronista atento a tudo e a todos, das várias manifestações culturais da Cidade do Divino, situada no centro-oeste mineiro. Na introdução do seu tomo, diz-nos o cronista: “Estou seguindo o conselho de Massaud Moisés de publicar essas crônicas em livro, no sentido de procurar dar a elas um pouco mais de perenidade”. E eu diria que, ao publicá-las em livro, o autor nos presenteia com a possibilidade de não apenas ter mais perenes seus textos para além das páginas de jornal, mas também de fazer perenes as letras de Divinópolis, as vozes que se grafam e/ou cantam nas páginas que autores e autoras divinopolitanos, de nascença ou de vivência, levam aos seus leitores e ouvintes.

Pedro Pires Bessa descortina diante de nossos olhos, com leveza e agilidade, comentários críticos sobre autores como Adélia Prado, Adriana Versiani, Corgozinho Filho, João da Viola, Julieta Mattar, Lázaro Barreto, Maria da Conceição Elói, Osvaldo André de Mello, Sebastião Benfica Milagre e outros mais. Em suas crônicas, além de uma esmerada atenção ao trabalho que todos esses escritores realizam, Bessa também procura discutir questões variadas e temas polêmicos. Assim, comparecem nos seus textos discussões sobre a infância, a violência desenfreada, a difusão das drogas, a vida individualista que grassa cada vez mais em nosso planeta, a juventude e a velhice, a progressiva mecanização da vida, a literatura infanto-juvenil produzida em Divinópolis, as relações entre música e poesia, a literatura e a televisão, a mulher e a literatura, entre outras questões.

Em todo o livro, Pedro Pires Bessa preocupa-se com a diversidade cultural, reinscrevendo esta preocupação: “temos, atualmente, noção de que, apesar da importância da cultura-padrão, existem outras manifestações culturais tão essenciais quanto ela”. Daí o cronista dizer e refletir sobre a literatura de cordel, o folclore, o dialeto caipira, o compositor João da Viola e os recitais ocorridos em Divinópolis. É nos recitais, diz-nos o autor, que se realiza o ato de devolução da poesia à comunidade em que ela brotou originariamente: “O lugar da poesia é na praça; ela vive é na palpitação dos corações, no entrelaçamento da música com a dança. O poema só resplandece, verdadeiramente, quando é cantado e bailado sem perder a força apolínea, em plena efervescência dionisíaca”.

Pedro Pires Bessa também fala do nosso Gentil Ursino Vale, escritor que nasceu em Resende Costa e que, segundo o comentador, é “o maior memorialista de Divinópolis e um de seus mais primorosos cronistas e contistas”. Assim prossegue o comentarista: “Gentil Ursino Vale relembra pessoas e fatos de sua cidade natal, Resende Costa. Ao primeiro livro de memórias, ele vai sucessivamente acrescentando outras obras. [...] O valor desses textos é incalculável. É um abundante resgate do modo de ser de toda uma comunidade naquilo que ela tem de essencial: a vivência cotidiana de homens, mulheres e crianças em seu mundo próprio. Com seu estilo magnífico, Gentil Ursino Vale coloca todos esses seres e acontecimentos vivos e palpitantes diante de nós”.

Eu, resende-costense e leitor de Gentil Ursino Vale, fiquei emocionado ao ver um filho de nossa terra mencionado e analisado por um escritor contemporâneo da estirpe franciscana de Pedro Pires Bessa. Ler Literatura de Divinópolis em crônicas é prazeroso, pois passamos a conhecer um filho de uma cidade “formada com a presença franciscana” e que, por isso mesmo, “traz, indelevelmente, no seu modo de ser, a marca do Pobrezinho de Assis, riquíssimo em brilhante espiritualidade”.