Retalhos Literários

Educar um filho

16 de Abril de 2013, por Evaldo Balbino 1

Li meses atrás a triste notícia de que um pai fora preso no Mato Grosso do Sul após haver espancado sua filha de nove anos. À época, foi postado um vídeo na internet, gravado por um vizinho, mostrando o modo terrível como o homem "educava" sua filha. Surrava-a porque ela havia retirado um ímã da geladeira!

No dia em que li essa triste notícia, escrevi estas notas: “Estou indignado! Lamentável tudo isso. Que os responsáveis paguem pelo que fizeram. Que a justiça seja feita. E que a garotinha espancada possa, se Deus quiser, superar essa situação terrível da vida e oxalá possa livrar-se desses adultos que deveriam educá-la, e que deveriam fazê-lo com carinho e amor”.

Hoje, tempos depois, volto a essa minha nota, hábito que tenho desde sempre. Minha vida de leitor e de escritor se perfaz em idas e vindas ao que leio e ao que escrevo.

Por exemplo: esta semana mesmo travei contato com o nosso Antônio Torres, escritor já consagrado nas letras brasileiras. Para mim isso foi uma alegria, pois é bom falarmos com quem admiramos. Falando com o autor, mais uma vez voltei ao seu romance Adeus, velho, que eu li há muitos anos, ainda adolescente, em Resende Costa. E naquela época, me lembro, fui marcado de imediato já nas primeiras páginas do livro. Primeiro, com as duas epígrafes de abertura; depois, fui tomado pela primeira frase do narrador se referindo a um “velho e carcomido cruzeiro dos montes”.

Uma epígrafe foi retirada de João Cabral de Mello Neto – poeta delicioso: “Para os bichos e rios / nascer já é caminhar”. Outra, o autor buscou no poeta espanhol Antônio Machado – poeta que, obviamente, eu ainda não conhecia à época, pois o máximo a que eu já tinha chegado, até então, eram os poetas portugueses: “Caminante, no hay camino, / se hace el camino al andar”.

A primeira frase do narrador é esta: “Braços abertos contra o tempo, o cruzeiro voava”. Achei isso lindo à época. Esse negócio de resistir ao tempo é muito bom! Sou amante de cruzeiros, eu que sempre namorei o cruzeiro em Resende Costa, aquele que está plantado na saída para o Ribeirão de Santo Antônio. Gostei de ver a imagem, em Antônio Torres, do cruzeiro voando. Um cruzeiro voando, mesmo com um “pé preso à terra por dentro de uma pilastra de cimento”. Uma pilastra, completa o narrador, que “também servia de degrau para os joelhos dos pecadores”.

Meu Deus, que lindo tudo isso! Todos nós somos pecadores, eu já sentia isso na época. E que bom sermos assim, incompletos, buscando sempre completudes. Por tudo isso e muito mais, voltando agora à nota que fiz sobre o espancamento da filhinha pelo pai, é que posso dizer: errar é humano! Mas quando o erro é inconsequente, quando ele prejudica um ser tão puro e indefeso, a justiça deve ser feita. Para isso existem as leis, para isso nós, há muito mais que dois milênios, tentamos nos organizar em sociedade.

Nenhum espancamento é justificável, muito menos numa situação como a descrita! Que mundo é este, meu Deus? O homem espancando a filha, na cabeça, nas costas, em todo o corpo, e fazendo isso diante da irmãzinha dela, menor ainda! E a madrasta da menina? Coadjuvante do ato! Pois no vídeo ela era vista, calada, lá da porta da casa, vendo a tudo e silenciosa, sem nada fazer em prol da inocente vítima.

Defendo que se um homem e uma mulher sabem fazer filhos – e geralmente gostam de fazer isso –, que pensem também nas responsabilidades que envolvem a decisão de se ter um filho. Fazer é simples, é biológico, mas educar não é. Tudo que diz respeito a uma formação cultural é mais complexo, é mais difícil.

Volto aqui, nas minhas idas e vindas, às epígrafes do livro Adeus, velho e também ao próprio livro em questão. E faço isso com licença do João Cabral de Mello Neto e dos dois Antônios, o Machado e o Torres.

Volto às epígrafes e ao livro para dizer que nascer não basta, que a biologia por si só não nos serve. Caminhar é que é importante. Se tudo começa no nascedouro, se nós começamos como os bichos e os rios, também como eles devemos caminhar. As crias crescem, mas precisam enfrentar a vida. As águas correm, e atravessam em sua corrida muitas pedras, muitas quedas ferozes. E os nossos filhos? Eles crescem, amadurecem como frutos bem-vindos. Mas não deveriam eles lutar simplesmente na e com a vida? Com a linda, deliciosa e triste vida? E digo mais: deveriam os nossos filhos, lutando contra o tempo, voar como os cruzeiros de braços abertos. Voar para a vida, a qual é cheia de ares perigosos, mas aprazíveis.

O mais lamentável perigo é aquele que começa dentro de casa. Nesse espaço onde, com carinho e afeto, deveriam os nossos pequenos aprender a trilhar a vida. Não a violência da vida. Uma educação estruturada está alicerçada no amor. E o amor pode ser simplesmente isto: um respeito ao outro, incondicional. O meu filho é outro para mim e, como tal, merece meu respeito.

De outras coisas complicadas ou As doçuras de Deus

12 de Marco de 2013, por Evaldo Balbino 0

Na crônica de janeiro deste ano falei de um texto da Clarice Lispector, “Das doçuras de Deus”, que versava sobre uma empregada sua, a Aninha, ou melhor, Aparecida. Lispector nos contou, nesse texto, das manias de Aparecida, dos seus gostos supostamente duvidosos em se vestir, das suas preferências literárias. Mas só quero retomar aqui uma informação: Aparecida, relatou-nos Clarice, enlouqueceu. E sua loucura me fez escrever a crônica de janeiro. Mas eis que, depois de tê-la escrito, eu me deparei com outra crônica de Clarice, e com um título também belíssimo de nos apaixonarmos: “De outras doçuras de Deus”.

A escritora, nesse segundo texto, aparentemente não deixa os fatos sem andamento, não abandona Aparecida numa loucura em aberto. Relata-nos que, passado um tempo, Aparecida bateu à sua porta. Clarice assustou-se, pois a doméstica estava internada num hospício. Como poderia estar ali, na sua frente? Mas ela parecia melhor. No hospital, lembrara-se dos nomes dos familiares de Clarice e do endereço, e pedira para visitar a família e buscar um dinheiro que lhe era devido. Indagada, obviamente, em relação a como conseguira sair do hospital, explicou a mulher que aquilo era um teste: deixaram-na sair para verificarem se ela dava conta do mundo lá fora, com autonomia. De fato parecia mesmo melhor. Estava, segundo Clarice, “mais bonitinha, à custa de ter engordado com tantos soros, e tomou três choques elétricos”.

Após pagar a ex-empregada, Clarice surpreendeu-se com a fala que a sua cozinheira dirigiu à mulher, também a testando: “Conte para mostrar que você sabe contar”. E não é que Aparecida contou direito mesmo!? E mais: além de contar, verificou que Clarice lhe pagara o mês todo e agradeceu.

Penso que Aparecida estava preparada de fato para a vida, e não por apenas saber contar o dinheiro que lhe fora dado, mas também e principalmente por estar pronta para o mundo. E estar pronto para mundo é isto: é estar pronto para a vida e seus percalços. E na preparação de Aparecida, ela até se preocupou com a literatura de Clarice, com as palavras em estado de arte. Tanto se preocupou, que desfechou a pergunta: “A senhora ainda está escrevendo?”.

Essa pergunta comoveu a escritora. E também, devo dizer, me comoveria, se eu estivesse ali, diante de tais palavras de uma mulher supostamente enlouquecida.

A casa de Clarice ficou alegre, como uma dádiva divina. Na reta final da conversa, Aparecida (que na verdade se chamava Aninha) disse que agora queria ter um namorado e mesmo ir para um programa de televisão que arranjava casamento. E ainda acrescentou que no hospital descobriram as suas potencialidades e que, depois que tivesse alta, iria ficar lá trabalhando por uns tempos.

A crônica de Clarice termina com tais informações. Como eu disse, a autora, aparentemente, não deixou de dizer nada.

Mas ainda não sei, já passados uns 36 anos desde o relato desses fatos, se Aninha realmente teve alta, se ela de fato chegou a trabalhar no hospital. Se ela chegou a ter um namorado ou se chegou a apresentar-se num programa televisivo para arranjar casamento. Terá casado mesmo a nossa Aninha?

Será que ela de fato “desenlouquecera”? E o que é a loucura num mundo onde parâmetros são poucos, mesmo que supostamente claros e científicos? Era realmente louca a nossa Aparecida? E olha que ainda pensava em literatura mesmo depois de internada, tanto que perguntou a Clarice pelos livros que esta escrevia. Gostava de livros complicados, a nossa louca. Se isso é loucura ou não é loucura, não sei. Mas essa mania eu quero para mim.

Os livros complicados, como todas as coisas complicadas, têm aguilhões que nos incomodam, mas que são necessários à vida, para que possamos exercitar nela toda e qualquer busca. Incomodados, devemos nos mover para diante. Numa comparação horrenda, pode-se dizer dos bois sob as cangas. Emparelhados e em filha indiana, eles são forçados a ir para frente, pois são cutucados, incomodados pelos boiadeiros que, infelizmente, chegam até a exagerar com os ferrões.

Se é impossível saber da loucura de Aparecida, como de qualquer loucura, é possível saber pelo menos que ela era uma mulher simples. O que ela queria é o que todos nós queremos. Nas coisas simples da vida (como por exemplo namorar, casar, ter filhos, contar um dinheiro, sentir-se mais bonito nem que seja um pouco, trabalhar), nessas coisas mesmo tão corriqueiras é que buscamos uma trilha. Mesmo que sinuosa, nós desejamos encontrá-la para não perdermos o rumo. O rumo da vida. Da vida complicada, mas doce.

Santa Maria, rogai por nós!

15 de Fevereiro de 2013, por Evaldo Balbino 2

28 de janeiro de 2013. São seis horas da manhã, e o avião, roncando, já começa seu passeio pelo campo de decolagem do Aeroporto Internacional de Confins. Destino: Rio de Janeiro. Algo me incomoda, mas esse algo ainda não veio para o meu consciente. Sei que algo me incomoda, contudo ainda não sei o quê. Uma noite mal dormida, virando de um lado para outro, o corpo dolorido, um sono irrequieto. Algo me incomoda, e ainda faltam umas duas ou três horas para eu perceber exatamente o que me incomoda.

O avião levanta o voo, e o meu coração sofre um pouco com a velocidade exorbitante, com a máquina buscando as nuvens como se leve fosse. Não é costume esse meu estresse, esse medo de avião. Algo, no entanto, me incomoda. Sobrevoamos os céus da Grande Belo Horizonte. As nuvens estão cinzas, anunciando chuva. Uma chuva triste, duradoura. Em alguns momentos, a aeronave atravessa nuvens compactas, plenas de água na iminência de desaguar. Turbulências pequenas me fazem lembrar que a vida é frágil. Basta um quê de nada e ela, a vida, deságua como a água da chuva, desaba para um precipício final. Logo após, servem-nos um amendoim enjoativo, mas um suco de laranja me salva.

Sobrevoando agora, uns 40 minutos depois, o céu também cinzento do Rio de Janeiro, o que primeiro vejo é o Cristo de braços abertos. Ele parece querer abraçar a cidade inteira, e em mim a sensação de que ele não consegue isso. A aterrissagem me assusta um pouco. O Santos Dumont sempre me parece pequeno, como se fôssemos todos mergulhar nas águas turvas do oceano. Albatrozes às avessas, faríamos uma imersão sem retorno.

Faríamos, mas não fizemos, pois agora, já com a bagagem no hotel, estou na Cinelândia caminhando entre pessoas apressadas. Olho para a Biblioteca Nacional, edifício por que sempre me apaixono. Vou na direção do Theatro Municipal. Carros, garoa, pessoas de um lado para outro, turistas, camelôs, bancas de jornal lotadas de observadores olhando para as notícias do mundo. Nunca gosto de namorar as bancas, de ver os espetáculos que a mídia nos joga nos olhos.

Algo brilha, de repente, em minhas retinas. Um reflexo, uma luz dolorosa, apesar da garoa. No Rio, mesmo quando chove, o tempo é abafado, quente, úmido. A pouca luz é suficiente para incomodar meus olhos frágeis. O que joga reflexos em meus olhos é um pequeníssimo objeto no chão da Cinelândia. Abaixo-me e vejo que é um pingente de prata. É uma prata que faz doerem os olhos. Entretanto, o que mais me dói é ver o que o pingente representa: o Sagrado Coração de Jesus. Um coração que nos punge, um coração ardendo e envolto por uma coroa de espinhos. Recolho o objeto sagrado e o guardo no bolso da calça.

Decido-me ir até à Rua da Carioca, para comprar alguns livros num sebo meu conhecido. Na entrada da livraria, o primeiro livro que me vem às mãos é o Entardecer, de Menotti Del Picchia. Como é um poeta de que gosto muito, compro a brochura, e dou de cara com estas palavras: “Todos na vida temos um ‘entardecer’. / Somos como as árvores. / A infância é verde. / A mocidade um festivo explodir / de brotos e de flores. / É na hora melancólica da tarde / que surgem e amaduram os frutos”. Tais versos me incomodam, de tão lindos e tristes. Volto para o Largo da Carioca pensando neles. Quando viro para a direita, percebo o que nunca percebi antes: o Convento de Santo Antônio. Pasmem, podem rir de mim: um edifício imenso como esse, e eu nunca o vi antes. O seu nome me leva às terras do meu Ribeirão de Santo Antônio, o santo casamenteiro.

Tomado de saudades, de uma tristeza errante, erro pelas escadas de acesso ao convento e chego a uma capela, onde estão começando a celebrar uma missa em memória de São Tomás de Aquino. E fico sabendo que hoje a Igreja Católica relembra a figura de um dos maiores doutores que ela já consagrou. De repente, a ajudante do padre começa a leitura do Salmo 98. E na liturgia a que assisto, as palavras iniciais do texto “Cantai ao SENHOR um cântico novo, / porque ele tem feito maravilhas” me tomam. Elas me tomam, pois são transformadas em estribilho repetido a cada versículo pelos fiéis que estão ali condoídos e buscando uma ligação com o sagrado. Um homem, de joelhos à minha frente, segura nas mãos vários santinhos. Não de políticos, mas de santos mesmo: São Jorge, Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio com o Menino Jesus nos braços, São José também com o Menino Jesus e um ramo florido de lírios. O homem pega um a um dos santos, beija-os, e chora, e murmura palavras que não consigo entender. Ele parece triste, mas de uma tristeza sagrada.

Assisto à missa e saio do convento. Olho para o céu ainda cinza, e sinto ainda uma dor imensa, uma dor vinda não sei de onde. Caminho pelo Largo da Carioca em direção à Rio Branco. Tenho dificuldade de trânsito ao lado de uma banca. Muitas pessoas lendo jornais tampam o caminho. Vou pedindo passagem, e escuto o comentário: “Pra que tanta morte, meu Deus!?”. Então olho para as capas dos jornais e vejo estampada em todas a tragédia ocorrida em Santa Maria, RS, onde um incêndio matou mais de 230 pessoas, a maioria de jovens, na boate Kiss no dia anterior.

Ontem, dia do triste episódio, eu aparentemente estava fora do planeta. Ocupado com uma amiga que recentemente perdera o marido e com os preparativos para a minha viagem, não liguei a TV nem o rádio nem a internet. Leio agora algumas manchetes dependuradas na banca, escuto murmurações, e meus pensamentos vão fazendo pontes, cruzando fios, enlaçando-se como aquela coroa de espinhos no coração de Jesus.

Tantos santos nesta manhã desfilaram perante meus olhos. Tantos santos e o medo. O Cristo Redentor, Jesus e o seu Sagrado Coração, Santo Antônio, São Tomás de Aquino, Deus na liturgia que presenciei, São Jorge, Santo Expedito, São Judas Tadeu, São José e o Menino Jesus. Para coroar tudo isso, para além da coroa de espinhos, veio-me o ramo de lírios, florescido. Mas agora me vem Santa Maria, não a cidade e sim a santa mesma, e com ela também me chega a coroa de espinhos no coração de Jesus.

De que me adiantam os lírios de José, os que anunciam núpcias, se não estou agora para casamentos, mas para o choro?!

E choro e clamo a todos os santos, mormente a Santa Maria. Rogai por nós, ó mãe de Deus! Rogai pelos que amanheceram mortos em Santa Maria e pelos que ainda morrerão. Rogai pelos sobreviventes e pelos parentes vivos dos que morreram. Rogai pelos nossos medos de incêndios e aviões. Rogai pela juventude que não “explodiu em brotos e flores”, mas que “entardeceu”, não “na hora melancólica da tarde”, e sim numa madrugada agônica e escura. E mais que tudo, Santa Maria, rogai por nós, que somos um gado perdido, manada condoída espalhada pela Terra, cada rês seguindo seus pares, aturdida, em dores compartidas aos quatro cantos do mundo...

Coisas complicadas

16 de Janeiro de 2013, por Evaldo Balbino 0

“Deus faz doçuras muito tristes”. Essa frase não é minha; é da Clarice Lispector. O espectro que nos chega sempre tão claro. Por isso vai entre aspas, que não sou nenhum plagiador. Pelo menos acho que não. Mas vamos direto ao assunto.

Clarice escreveu essa poesia cheia de verdades em 1967 e a publicou em 16 de dezembro do mesmo ano no Jornal do Brasil, numa crônica lindamente chamada “Das doçuras de Deus”. Ela dizia sobre uma empregada sua, Aninha, que, segundo a cronista, deveria se chamar Aparecida. Deveria se chamar assim, mas Clarice não sabia explicar por quê.

Mulher feia com uma ausência de dentes dianteiros, calada, mineira com gestos apagados, Aninha usava nos dias de folga uma saia vermelha estampada (muito mais comprida que seu tamanho) e uma blusa marrom. Essa falta de gosto era, na opinião de Clarice, uma das doçuras de Aninha.

Tenho cá comigo que de fato a empregada era doce, e de uma doçura peculiar. Quanto à combinação do vermelho estampado com o marrom, me eximo de concordar com a autora, mas também não discordo. Fico neutro, se é que a neutralidade seja possível. Aposto que muitos me olham e devem pensar: “Que homem de mau gosto, com essas roupas feias que não combinam entre si!”. É verdade: nunca fui muito bom nesse negócio de moda, principalmente em se tratando de mim. Só não dou conta mesmo é de andar pelado, infelizmente.

Voltando ao assunto principal desta crônica. A doçura verdadeira de Aninha era realmente algo para surpreender. Foi ela mesma quem disse a Clarice Lispector que não gostava de livros “água com açúcar”, que queria sim era ler os livros da autora que a própria Clarice caracterizou de complicados. Lispector, não desejando atmosfera de literatura em sua casa, resolveu dar-lhe um romance policial, cuja tradução era de próprio punho. Dias depois a empregada disse-lhe que acabara de ler o livro, gostara do enredo, mas que o achara um tanto infantil. E arrematou: “Eu gostava era de ler um livro seu”.

Que maravilha! Aninha era complicada também. Fazia parte da minha patota. Combinava vermelho estampado com marrom, não portava uma beleza de que alguém possa se gabar e ainda por cima gostava de livros complicados.

Ponhamos algumas coisas em pratos limpos. Pois quando estão sujos, os pratos não nos permitem comer como se deve.

Primeiramente, não me sinto nenhum patinho feio. Nem posso dizer se Aninha também sentia isso ou não.

Em segundo lugar, que fique claro o seguinte: livro complicado não quer dizer livro difícil. Livro complicado é aquele que não escamoteia a vida, que não coloca lentes cor-de-rosa nos olhos de um leitor ingênuo e sai dizendo aos quatro ventos que o mundo é várzea. Pode até falar de rosas, de jardins floridos, de sonhos ao pé de uma serra maravilhosa, de amores que se encontram felizes para sempre. Pode falar de tudo isso. Mas se for bom, será complicado, terá a capacidade de tirar não apenas o tapete dos nossos pés, mas o chão inteiro, forçando-nos a levitar desconjuntadamente.

Aninha – como Clarice, prefiro dizer também Aparecida – era de uma doce complicação não simplesmente porque gostava de livros complicados. E sim porque, além de ser ela mesma, com seus gostos supostamente duvidosos, com suas manias tidas como estranhas, ainda houve por bem desembocar no único caminho que lhe possibilitava enfrentar as complicações da vida. Aparecida, a que sumira de Minas Gerais e aparecera como empregada no apartamento de Clarice Lispector lá no Rio de Janeiro, enlouqueceu.

Um dia de manhã, depois de haver demorado muito na rua para fazer as compras, Aparecida surgiu diferente. Um sorriso brando mostrando os dentes postiços que antes lhe faltavam na frente. O dinheiro das compras amassado na mão direita. E dentro do saco de compras dependurado no punho da mão esquerda existiam, cheios de vida e utilidade, pedaços de papel sujo e tampinhas de garrafa de leite e de outras garrafas.

Numa atitude pueril, Aparecida foi para o quarto mostrando o alto da cabeça e dizendo que sentia uma dor ali, bem ali. Deitou-se e permaneceu calada. Ainda com sorriso brando, disse, quando indagada, que pegara tudo o que estava no saco para enfeitar o seu quarto. E o que é um quarto, senão um pedaço da vida? A vida precisa mesmo de enfeite.

O que Aparecida queria enfeitar, então, era a vida. E queria fazer isso com a doce pureza de uma criança chamada loucura. Na suavidade mansa dos seus devaneios, ela transmitiu muitas lições, como aquelas que os livros complicados nos transmitem. Estar doida era também um modo de dizer: “Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar”.

Enfeites para um Natal sem enfeite nenhum

11 de Dezembro de 2012, por Evaldo Balbino 0

Outro dia um amigo chegou a minha casa e, vendo que os meus vizinhos enfeitaram suas portas com um Merry Christmas lânguido, perguntou-me por que eu não fizera o mesmo. Sua pergunta me fez pensar um pouco em por que meus Natais são sempre sem enfeite nenhum. Se ele hoje me perguntasse isso de novo, eu lhe diria que o que não parece belo não deixa de ser belo e que é possível extrair das dores alguma plenitude, umazinha que seja.

Hoje, por exemplo, o dia é de chuva fina e de lembranças. Belo Horizonte está chuvosa e, o que é raro, tranquila. Isso é apenas hoje, porque, neste fim de ano que se aproxima, a cidade tem se movimentado mais. Hoje, entretanto, a chuva delicada e tímida, aliada a um domingo, tem esse poder de quietude. E como todo silêncio é propício aos rumores sutis, acabo por ouvir, de mansinho como a chuva caindo lá fora, os meus passados Natais.

Eu ficava feliz com duas coisas nos fins de ano: os desenhos natalinos que me eram dados na escola para colorir e os desenhos animados de Natal vistos na TV.

Eu não acreditava em Papai Noel, pois sabia da vida árdua de uma família de tecelãs e pedreiros. Não acreditava nele, mas com que garbo o coloria nas épocas de Natal! Fazia a barba mais longa e mais branca, a barriga mais gelatinosa e pendente, e o saco estava sempre cheio de brinquedos e promessas.

Nos desenhos, eram árvores de Natal belíssimas, daquelas que não vingam em nossas paragens. Copiando modelos de países setentrionais, nós, os tupiniquins, amamos pinheiros excelsos, altíssimos em sua plenitude. E eu gostava mesmo era de colorir a grande estrela que no cume do pinheiro reinava como rainha absoluta.

Meus pais diziam que aquilo era idolatria e que por isso eles não decoravam nenhuma árvore em casa para o Natal. Mas, sem freios, eu cometia minhas idolatrias. Pegava os lápis de cor e tocava a enfeitar as árvores que as professoras me davam. E se faltava entre as bolotas e a estrela um pouco mais de vida, eu desenhava anjos em revoadas pelos galhos das árvores. Eram anjos tortos, pois eu não sabia desenhar direito. Olhava para os bonequinhos malfeitos, mas acabava me apaixonando por eles. Afinal, todo mundo é torto mesmo, pensava. Qual é o problema de os meus anjos serem desse jeito? Eu já pressentia que debaixo do sol não havia perfeição. Mas o que dizer dos anjos: não eram seres celestiais, vivendo para além do sol? Na verdade, o garoto que eu era não gostava de imaginar anjos no muito além. Meus anjos eram bem da terra. Eu não conseguia e não queria me livrar dos anjos terrestres. Desde cedo me veio um amor pelas pequenas coisas terrenas. Não se pode abrir mão da vida, desta vida que é nossa garantia.

Dos desenhos animados de fins de ano, era a turma do Zé Colmeia que me dava alegrias infindas. Repetia-se todo ano o episódio “O primeiro Natal do Gasparzinho”. E ao invés de me apaixonar pelo menino-fantasma, era do Assombroso, um espectro supostamente assustador, que eu me enamorava.

Os animaizinhos simpáticos e mambembes, chefiados pelo Zé Colmeia, perdiam-se numa estrada cheia de neve, pela qual iam à procura de um hotel para a comemoração do Natal. Encontravam uma casa antiga e mal-assombrada, condenada para demolição. A casa era imensa e fria. Nela, o simpático Gasparzinho convivia com o fantasma Assombroso, também boa-praça, que tinha a mania de considerar-se um monstro temível. Zé Colmeia e os amigos se uniam e começavam uma faxina pelo casarão. Cortavam um pinheiro, enfeitavam as paredes e a árvore, removiam o pó de todos os móveis, varriam o chão com rapidez e felicidade, pegavam lenha no porão e acendiam a lareira.

As lareiras sempre foram minha paixão. Como em Resende Costa fazia muito frio, e ainda faz, lareiras eram e são bem-vindas por lá. Mesmo assim nunca tive lareiras, e com elas sonho até hoje.

Eu amava ver toda a turma do Zé Colmeia transformando um ambiente cheio de más sombras e maus aspectos num lugar apetecível. O episódio caminhava de um ambiente enfeitiçado e embruxado para um lugar luminoso e alegre, e tudo isso com a ajuda do Papai Noel.

E hoje, depois de eu crescido, aqui agora nesta tarde silenciosa e com chuva insistente e fina, vem-me a inegável pergunta: onde está o Papai Noel? Talvez cansado de voar pelos ares e de dar presentes para pessoas cada vez mais interessadas em presentes, ele tenha se aposentado. Talvez ele já esteja, em verdade, de saco cheio deste nosso mundo.

Nos fins de ano brasileiros, sem neve, porque em nossa região pelo menos nunca as houve, a frieza é tamanha. A frieza é mais fria do que a neve. E tanta frialdade me faz pensar em coisas ásperas.

É mais um fim de ano que se aproxima, e as pessoas no mundo se atordoam de um lado para o outro. Correm exasperadas com pacotes de compras e mais compras. A vida deixa de ser vida, se não contemplar as vitrines cheias das lojas e dos mercados. O formigueiro humano tem fome e sede, não de justiça, mas de dinheiro e de supostas lembranças a serem dadas na Noite Santa. E em meio a tudo isso, eu, menino sempre, ainda me pergunto pelo Papai Noel e tento desenhar no ar uma estrela guia, daquelas bem grandonas, para enfeitar a minha fantasia.