Apesar das coisas ásperas
12 de Julho de 2012, por Evaldo Balbino 0
O salmista chegou a escrever que “os mortos não louvam o SENHOR, nem os que descem à região do silêncio”. Lindo isso! Se é verdade, não tenho garantias. A garantia que tenho na vida é o momento que estou vivendo agora. E neste exato e prezado momento, garanto que estou vivo, que estou respirando, que estou sentindo o perfume do mundo, mesmo com seus odores ásperos. Asperezas à parte, louvemos ao Senhor agora, glorifiquemos a vida. Saltitemos! Façamos piruetas como loucos irremediáveis. Tal qual a poeira no redemoinho, rodopiemos plenos de vida e com vida agraciados.
Ela caminha com dores e odores desagradáveis. Caminha atravessada de agonias e maus-cheiros a vida. Mas é também a mesma vida que devemos colocar numa balança. Estamos sempre medindo na vida, não é mesmo? Mensuremos, então, o que nos vale, o que vale realmente a pena. Se medimos tudo na vida, meçamos também a ela própria. Tão cheia de problemas, ela não deixa de carregar suas plenitudes. Aqueles sentimentozinhos que nos tomam muitas vezes e que nos fazem gostar de viver, de respirar o ar que nos chega, mesmo que poluído nas grandes cidades. Cheio de detritos da vida moderna, o ar não deixa de ser abençoado. A vida é assim, tão cheia de momentos extáticos, instantes em que, sem nenhuma percepção às vezes, algo se nos revela. Um segredo de amor, de vontade palpitante de amar e de ser amado.
Vejam as pedras! Percebam como elas têm vozes, como falam, como clamam em sua inteireza. Têm sentimentos as pedras. Numa aparência de estaticidade, o que elas são é movimento puro. É volteio latejante do corpo, do cosmos. Vejam também as árvores, cheias de seiva. Olhem também para as mortas, as que um dia tiveram vida explicável pela ciência, mas que agora são natureza para sempre eterna, viva. Um moirão segurando cercas tem vida própria, respira o ar que respiramos, apoia braços tão cansados, tão desejosos. Olhemos para os céus, onde nuvens nos separam do espaço, mas nos dizem dele, da sua imensidão estendendo-se para um longe indefinido. Pensar nessa lonjura é ter a capacidade de nos sabermos potentes para o sonho, para a luz. E tudo isso porque pensamos. Pensamos não para compreender, mas para amar.
Se na região do silêncio não se pode falar, quero, então, ficar nestas paragens mesmo. Aqui onde há muitos ruídos e onde muitas vezes não sabemos sequer ouvir necessários silêncios. Aqueles silêncios que nos dizem muita coisa sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o universo. Não quero me calar numa sepultura. Então, com meu corpo desajeitado vou glorificando a vida agora, vou batendo palmas para tudo e todos – menos para as coisas ásperas.
Bato palmas para os corpos se amando, para as bocas se beijando. Gosto de ver os problemas todos ganhando uma resolução. Nos olhares das pessoas, apesar das iras da vida, tenho prazer em verificar vontades de amor, de doação, de ajuda. Mesmo que tenhamos pequenos atritos uns com os outros, afinal não há como fugir disso, mesmo que rosnemos uns aos outros de vez em quando, o que há de melhor em nós é a capacidade de querer roçar um corpo no outro corpo. É a capacidade de olhar para um amigo ou até mesmo um desconhecido na rua e dizer: “somos tão pequeninos, frágeis, mas é exatamente isso que nos faz grandes e unidos. Unidos, apesar do que é áspero”.
Bato palmas sim! Canto louvores a homens, mulheres, crianças, bichos, viagens, barcos, amores, planetas, ruas, praças, cidades, estrelas, mares, rios, árvores – tudo merece salmos e mais salmos. Louvo até aqueles bichos que muitos dizem horrendos. Amo a barata no seu silêncio noturno e os ratos cujos olhinhos são tão bonitos de doer. As cobras, até mesmo as venenosas. Os escorpiões e sua postura bélica perante ameaças. O piolho, amo até o piolho, aquele cuja morada é entre fios de cabelos sem nome, cabelos de quaisquer seres. Louvo e amo até o bicho-de-pé. Aplaudo os gestos heroicos dos que me seguravam à força quando eu era criança e tiravam com extrema perícia os bichinhos-de-pé que me atormentavam. Lembro-me de uma coleguinha de infância que adorava ter bichos-de-pé. A coceira que eles causam, ela dizia, é muita gostosa. Cada louco com sua mania! E que em nossas loucuras louvemos a vida, apesar dos acontecimentos ásperos.
Por num canto tudo o que é áspero não significa fechar os olhos e usar lentes cor-de-rosa diante da vida. De jeito nenhum! É antes saber que algo existe de incômodo, mas também é encarar esse algo como objeto comezinho, como a fragilidade de um vidro perante a resistência da pedra. Falo aqui da vida cheia de espinhos, mas faceira e sempre com plena e eterna idade.
Ela caminha com dores e odores desagradáveis. Caminha atravessada de agonias e maus-cheiros a vida. Mas é também a mesma vida que devemos colocar numa balança. Estamos sempre medindo na vida, não é mesmo? Mensuremos, então, o que nos vale, o que vale realmente a pena. Se medimos tudo na vida, meçamos também a ela própria. Tão cheia de problemas, ela não deixa de carregar suas plenitudes. Aqueles sentimentozinhos que nos tomam muitas vezes e que nos fazem gostar de viver, de respirar o ar que nos chega, mesmo que poluído nas grandes cidades. Cheio de detritos da vida moderna, o ar não deixa de ser abençoado. A vida é assim, tão cheia de momentos extáticos, instantes em que, sem nenhuma percepção às vezes, algo se nos revela. Um segredo de amor, de vontade palpitante de amar e de ser amado.
Vejam as pedras! Percebam como elas têm vozes, como falam, como clamam em sua inteireza. Têm sentimentos as pedras. Numa aparência de estaticidade, o que elas são é movimento puro. É volteio latejante do corpo, do cosmos. Vejam também as árvores, cheias de seiva. Olhem também para as mortas, as que um dia tiveram vida explicável pela ciência, mas que agora são natureza para sempre eterna, viva. Um moirão segurando cercas tem vida própria, respira o ar que respiramos, apoia braços tão cansados, tão desejosos. Olhemos para os céus, onde nuvens nos separam do espaço, mas nos dizem dele, da sua imensidão estendendo-se para um longe indefinido. Pensar nessa lonjura é ter a capacidade de nos sabermos potentes para o sonho, para a luz. E tudo isso porque pensamos. Pensamos não para compreender, mas para amar.
Se na região do silêncio não se pode falar, quero, então, ficar nestas paragens mesmo. Aqui onde há muitos ruídos e onde muitas vezes não sabemos sequer ouvir necessários silêncios. Aqueles silêncios que nos dizem muita coisa sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o universo. Não quero me calar numa sepultura. Então, com meu corpo desajeitado vou glorificando a vida agora, vou batendo palmas para tudo e todos – menos para as coisas ásperas.
Bato palmas para os corpos se amando, para as bocas se beijando. Gosto de ver os problemas todos ganhando uma resolução. Nos olhares das pessoas, apesar das iras da vida, tenho prazer em verificar vontades de amor, de doação, de ajuda. Mesmo que tenhamos pequenos atritos uns com os outros, afinal não há como fugir disso, mesmo que rosnemos uns aos outros de vez em quando, o que há de melhor em nós é a capacidade de querer roçar um corpo no outro corpo. É a capacidade de olhar para um amigo ou até mesmo um desconhecido na rua e dizer: “somos tão pequeninos, frágeis, mas é exatamente isso que nos faz grandes e unidos. Unidos, apesar do que é áspero”.
Bato palmas sim! Canto louvores a homens, mulheres, crianças, bichos, viagens, barcos, amores, planetas, ruas, praças, cidades, estrelas, mares, rios, árvores – tudo merece salmos e mais salmos. Louvo até aqueles bichos que muitos dizem horrendos. Amo a barata no seu silêncio noturno e os ratos cujos olhinhos são tão bonitos de doer. As cobras, até mesmo as venenosas. Os escorpiões e sua postura bélica perante ameaças. O piolho, amo até o piolho, aquele cuja morada é entre fios de cabelos sem nome, cabelos de quaisquer seres. Louvo e amo até o bicho-de-pé. Aplaudo os gestos heroicos dos que me seguravam à força quando eu era criança e tiravam com extrema perícia os bichinhos-de-pé que me atormentavam. Lembro-me de uma coleguinha de infância que adorava ter bichos-de-pé. A coceira que eles causam, ela dizia, é muita gostosa. Cada louco com sua mania! E que em nossas loucuras louvemos a vida, apesar dos acontecimentos ásperos.
Por num canto tudo o que é áspero não significa fechar os olhos e usar lentes cor-de-rosa diante da vida. De jeito nenhum! É antes saber que algo existe de incômodo, mas também é encarar esse algo como objeto comezinho, como a fragilidade de um vidro perante a resistência da pedra. Falo aqui da vida cheia de espinhos, mas faceira e sempre com plena e eterna idade.
Relembranças II
13 de Junho de 2012, por Evaldo Balbino 0
(Continuação de crônica iniciada na edição 109, maio/2012)
Tempos depois, quando meu pai comprou lá em casa uma geladeira de segunda mão, eu já era adolescente, mas não hesitei em me esbaldar nos chup-chups. Quase me matava de tanto Q-suco congelado. Era de groselha, de limão, de laranja, de morango, de tudo. Até mesmo de pêssego, que era meio sem graça. Eu gostava mesmo era do de uva. A língua ficava vermelha e, mesmo já sendo um cavalão, ficava junto com a meninada mostrando a língua vermelha, fazendo caretas esquisitas, e rindo de tanta vida que se vivia.
Lembro-me de que certa feita, quando eu estava na quinta série em 1988, a professora Fatinha deu um trabalho de Português. O meu grupo tinha que teatralizar o texto bíblico “O bom samaritano”. E eu, todo feliz por já ser andarilho pelas bíblias, ofereci-me para compor o elenco e ser a vítima socorrida pelo samaritano benfeitor.
A discussão foi grande para decidirmos nos ensaios como daríamos um efeito mais real à violência que os salteadores infligiram ao pobre rapaz. Então tive uma ideia, brilhantíssima – disseram. No momento em que eu tomasse um soco na boca, de mentirinha é claro, morderia num saquinho de chup-chup feito de uva, um saquinho bem pequeno, e assim deixaria o líquido vermelho escorrer pela boca sofrida, ultrajada. Como minha personagem não teria que falar nada, pois havia sempre um narrador nos bastidores contando tudo, não me seria difícil encenar com o saquinho de suco de uva na boca, bem escondidinho.
No dia da apresentação da peça, só Deus sabe como sofri.
Pouco antes da aula de Português, uma cantineira da escola fez o Q-suco para o nosso grupo, mas se esqueceu de colocar açúcar. Colocou muito pó e pouca água, para dar efeito mesmo de sangue, bem pastoso. Entretanto nada de açúcar ela pôs, nem uma pitada sequer.
Na hora em que tomei o murro, simultaneamente mordi no saquinho. O líquido amargo e horrendo, aquele sangue espesso de dar medo em qualquer pobre coitado, desceu mais pela minha garganta do que para o queixo. Era um sangue alarmante, digno de um filme de terror, desses que são vermelhos até na capa dos DVDs, que são rubros até mesmo nos cartazes. Desses filmes que, quando os vemos, saímos do cinema encharcados de suor e sangue.
Não me chamem de exagerado, por favor! É que minha garganta doeu tanto, o amargor me sufocou de tal modo, que não encontro aqui outra descrição melhor. Além disso, a arte tem suas vantagens, e uma delas é permitir os exageros. Continuo, então, com as minhas demasias.
O sangue que escorria pela minha boca, e que também eu engolia, era aquele tipo de sangue que faria inveja a um Freddy Krueger ou a um Jason Voorhees. Doía minha goela, e já que a cena era muito séria e ao mesmo tempo jocosa pelo que eu passava, citemos aqui aqueles filmes horrorosos aos que não faltam sangrias. O sangue que me escorria era digno de uma cena, por exemplo, de um Jogos Mortais, de um O Massacre da Serra Elétrica, de Viagem Maldita, dos Jogos Sangrentos, ou de A Casa de Cera. Digno até mesmo de um Exorcista – o início. Com aquela mulher endemoniada, que mais parecia um vampiro sequioso de sangue e mostrando uma língua obscena, o filme até nos causa risos.
E se não causei risos no dia da apresentação do trabalho de Português, foi porque segurei firme. Fiquei ali, deitado no chão, esforçando-me para não tossir, praticamente engasgado. Fiquei aturando aquele amargor, e torcendo para que o maldito bom samaritano me pegasse logo pelos braços e me socorresse daquele sofrimento realíssimo, daquele suplício que não terminava. Deu vontade até de mudar o bendito texto, encurtá-lo. Já não me interessava mais ficar ali deitado, padecido, e ouvindo um monólogo cristão de um samaritano tão bonzinho assim. Ora essa!! Ele não estava sofrendo como eu, aquele atorzinho! Não estava comendo um saco de sal, ou melhor, bebendo um saquinho de Q-suco sem açúcar, como eu estava.
Eu queria brilhar como ator, não queria? Além disso, me tinham dito que minha ideia era brilhante. Ora, o que brilhou de fato foi minha cabeça, pois saí da peça vendo estrelas, tonto, sufocado por tanto sangue artificial. Mas, como dizem, não desci do salto, continuei desempenhando o papel de quem está sofrendo. Não foi difícil, pois estava mesmo.
Tempos depois, quando meu pai comprou lá em casa uma geladeira de segunda mão, eu já era adolescente, mas não hesitei em me esbaldar nos chup-chups. Quase me matava de tanto Q-suco congelado. Era de groselha, de limão, de laranja, de morango, de tudo. Até mesmo de pêssego, que era meio sem graça. Eu gostava mesmo era do de uva. A língua ficava vermelha e, mesmo já sendo um cavalão, ficava junto com a meninada mostrando a língua vermelha, fazendo caretas esquisitas, e rindo de tanta vida que se vivia.
Lembro-me de que certa feita, quando eu estava na quinta série em 1988, a professora Fatinha deu um trabalho de Português. O meu grupo tinha que teatralizar o texto bíblico “O bom samaritano”. E eu, todo feliz por já ser andarilho pelas bíblias, ofereci-me para compor o elenco e ser a vítima socorrida pelo samaritano benfeitor.
A discussão foi grande para decidirmos nos ensaios como daríamos um efeito mais real à violência que os salteadores infligiram ao pobre rapaz. Então tive uma ideia, brilhantíssima – disseram. No momento em que eu tomasse um soco na boca, de mentirinha é claro, morderia num saquinho de chup-chup feito de uva, um saquinho bem pequeno, e assim deixaria o líquido vermelho escorrer pela boca sofrida, ultrajada. Como minha personagem não teria que falar nada, pois havia sempre um narrador nos bastidores contando tudo, não me seria difícil encenar com o saquinho de suco de uva na boca, bem escondidinho.
No dia da apresentação da peça, só Deus sabe como sofri.
Pouco antes da aula de Português, uma cantineira da escola fez o Q-suco para o nosso grupo, mas se esqueceu de colocar açúcar. Colocou muito pó e pouca água, para dar efeito mesmo de sangue, bem pastoso. Entretanto nada de açúcar ela pôs, nem uma pitada sequer.
Na hora em que tomei o murro, simultaneamente mordi no saquinho. O líquido amargo e horrendo, aquele sangue espesso de dar medo em qualquer pobre coitado, desceu mais pela minha garganta do que para o queixo. Era um sangue alarmante, digno de um filme de terror, desses que são vermelhos até na capa dos DVDs, que são rubros até mesmo nos cartazes. Desses filmes que, quando os vemos, saímos do cinema encharcados de suor e sangue.
Não me chamem de exagerado, por favor! É que minha garganta doeu tanto, o amargor me sufocou de tal modo, que não encontro aqui outra descrição melhor. Além disso, a arte tem suas vantagens, e uma delas é permitir os exageros. Continuo, então, com as minhas demasias.
O sangue que escorria pela minha boca, e que também eu engolia, era aquele tipo de sangue que faria inveja a um Freddy Krueger ou a um Jason Voorhees. Doía minha goela, e já que a cena era muito séria e ao mesmo tempo jocosa pelo que eu passava, citemos aqui aqueles filmes horrorosos aos que não faltam sangrias. O sangue que me escorria era digno de uma cena, por exemplo, de um Jogos Mortais, de um O Massacre da Serra Elétrica, de Viagem Maldita, dos Jogos Sangrentos, ou de A Casa de Cera. Digno até mesmo de um Exorcista – o início. Com aquela mulher endemoniada, que mais parecia um vampiro sequioso de sangue e mostrando uma língua obscena, o filme até nos causa risos.
E se não causei risos no dia da apresentação do trabalho de Português, foi porque segurei firme. Fiquei ali, deitado no chão, esforçando-me para não tossir, praticamente engasgado. Fiquei aturando aquele amargor, e torcendo para que o maldito bom samaritano me pegasse logo pelos braços e me socorresse daquele sofrimento realíssimo, daquele suplício que não terminava. Deu vontade até de mudar o bendito texto, encurtá-lo. Já não me interessava mais ficar ali deitado, padecido, e ouvindo um monólogo cristão de um samaritano tão bonzinho assim. Ora essa!! Ele não estava sofrendo como eu, aquele atorzinho! Não estava comendo um saco de sal, ou melhor, bebendo um saquinho de Q-suco sem açúcar, como eu estava.
Eu queria brilhar como ator, não queria? Além disso, me tinham dito que minha ideia era brilhante. Ora, o que brilhou de fato foi minha cabeça, pois saí da peça vendo estrelas, tonto, sufocado por tanto sangue artificial. Mas, como dizem, não desci do salto, continuei desempenhando o papel de quem está sofrendo. Não foi difícil, pois estava mesmo.
Relembranças I
14 de Maio de 2012, por Evaldo Balbino 0
A meninada gritava muito, e corria de um lado para outro, feito barata tonta sendo perseguida, ou então feito boiada sem norte, sem rumo certo, sem destino traçado. Mas a criançada sabia o que queria, ah se não sabia! Todos queriam andar na roda gigante e rodar pelo ar naquela sombrinha engraçada a que chamam carrossel. E aqueles cavalinhos enferrujados não nos assustavam; estavam descoloridos, mas decolavam pelo ar, erguidos por correntes fortes de ferro, também meio enferrujadas.
E o medo do menino que eu era não me confundia. Era menor do que a vontade de voar sobre os cavalinhos, mesmo que velhinhos já, mesmo que oxidados. Naquela época eu não sabia que “ferrugem” era consequência de uma “oxidação”. Eu não era um menino pré-histórico, era simplesmente pré-conhecedor dos processos químicos, dessas parafernálias da ciência. Talvez era até mesmo mais feliz por isso mesmo. É muito bom esse negócio de beber água porque se tem sede, e não por se saber que dois átomos de hidrogênio combinados com um átomo de oxigênio são fundamentais à vida. Nada melhor do que viver por viver, sem consciência, sem muitas teologias.
E do mesmo modo que eu não sabia das propriedades químicas da água, que não sabia tratar-se a ferrugem de um processo de oxidação, também não sabia que o ar ventando em nossas caras era repleto de oxigênio, desse algo também imprescindível aos nossos pulmões. Eu apenas respirava, sentia o vento e o ar, porque eram gostosos, porque eram o ar e o vento, simplesmente. Faziam-me bem, sem cobrar de mim que os conhecesse cientificamente. Aliás, até hoje não me cobram isso; apenas pedem que os sinta, como se sente Deus. E assim eu vivo todos os instantes da minha vida: sentindo o ar, o vento e Deus.
A roda gigante eu não queria. Para mim era insosso ficar ali, num movimento lento, indo e voltando para o mesmo ponto, em câmara-lenta. No carrossel também tudo era circular. Voltava-se toda hora para o mesmo ponto, mas pelo menos se ficava tonto, sentia-se o vento mais forte, mais bulinador em nosso corpo. Minha irmã mais velha até dizia: “Ah, como é bom numa roda gigante, a gente ali sentados, namorando, o mundo lá embaixo e o amor acontecendo, rodando devagar!”. Isso tudo podia ser verdade. Mas como eu não pensava ainda em namoros, só queria a adrenalina (na época eu não conhecia esse tal nome “adrenalina”), continuei, então, gostando do meu carrossel, dos meus giros enlouquecidos pelo ar.
Quem me escuta falando assim até pensa que em Resende Costa, lá na minha infância, apareciam muitos parques, e também pensa que eu tinha dinheiro para ficar sempre pagando entradas em brinquedos gostosos. Não, nada disso! Meus pais não tinham condições para tais luxos.
Acreditam que até para comprar picolé era a maior dificuldade? Na época nem tínhamos geladeira. Pouquíssimas pessoas na cidade tinham. Passavam meninos com uma caixa de isopor na rua e gritavam esganiçadamente: “ôooo, picooolé! Ôooo, picooolé!!!”. De dentro de casa meus ouvidos namoravam esses gritos, mas o bolso não podia responder aos apelos. Raramente nós nos dávamos ao prazer de refrescar a boca com picolé nos verões de Resende Costa. Longe de mim ser a raposa diante das uvas maduras, aquela da fábula de Esopo! Mas afirmo, sem nenhum outro sentido, que os tais picolés não eram grande coisa. Eram pedras de gelo, feitas de Q-suco, aquele pó artificialíssimo e forte de matar. E até que eu gostava desse sucozinho sem-vergonha, porém com muito açúcar.
Falando em picolé, o que mais se vendia nas ruas de Resende Costa, sob um sol que nos arrancava a pele, era chup-chup. Aqueles saquinhos – gelo puro também feito de Q-suco – atormentavam os pais que sofriam diante dos filhos pedindo dinheiro, chorando, esperneando. Também pudera! Todo santo dia passava alguém com a conhecida caixa de isopor gritando escandalosamente o nome da oferenda. E não há ouvido de criança que resista a isso! Nem ouvido nem boca.
E o medo do menino que eu era não me confundia. Era menor do que a vontade de voar sobre os cavalinhos, mesmo que velhinhos já, mesmo que oxidados. Naquela época eu não sabia que “ferrugem” era consequência de uma “oxidação”. Eu não era um menino pré-histórico, era simplesmente pré-conhecedor dos processos químicos, dessas parafernálias da ciência. Talvez era até mesmo mais feliz por isso mesmo. É muito bom esse negócio de beber água porque se tem sede, e não por se saber que dois átomos de hidrogênio combinados com um átomo de oxigênio são fundamentais à vida. Nada melhor do que viver por viver, sem consciência, sem muitas teologias.
E do mesmo modo que eu não sabia das propriedades químicas da água, que não sabia tratar-se a ferrugem de um processo de oxidação, também não sabia que o ar ventando em nossas caras era repleto de oxigênio, desse algo também imprescindível aos nossos pulmões. Eu apenas respirava, sentia o vento e o ar, porque eram gostosos, porque eram o ar e o vento, simplesmente. Faziam-me bem, sem cobrar de mim que os conhecesse cientificamente. Aliás, até hoje não me cobram isso; apenas pedem que os sinta, como se sente Deus. E assim eu vivo todos os instantes da minha vida: sentindo o ar, o vento e Deus.
A roda gigante eu não queria. Para mim era insosso ficar ali, num movimento lento, indo e voltando para o mesmo ponto, em câmara-lenta. No carrossel também tudo era circular. Voltava-se toda hora para o mesmo ponto, mas pelo menos se ficava tonto, sentia-se o vento mais forte, mais bulinador em nosso corpo. Minha irmã mais velha até dizia: “Ah, como é bom numa roda gigante, a gente ali sentados, namorando, o mundo lá embaixo e o amor acontecendo, rodando devagar!”. Isso tudo podia ser verdade. Mas como eu não pensava ainda em namoros, só queria a adrenalina (na época eu não conhecia esse tal nome “adrenalina”), continuei, então, gostando do meu carrossel, dos meus giros enlouquecidos pelo ar.
Quem me escuta falando assim até pensa que em Resende Costa, lá na minha infância, apareciam muitos parques, e também pensa que eu tinha dinheiro para ficar sempre pagando entradas em brinquedos gostosos. Não, nada disso! Meus pais não tinham condições para tais luxos.
Acreditam que até para comprar picolé era a maior dificuldade? Na época nem tínhamos geladeira. Pouquíssimas pessoas na cidade tinham. Passavam meninos com uma caixa de isopor na rua e gritavam esganiçadamente: “ôooo, picooolé! Ôooo, picooolé!!!”. De dentro de casa meus ouvidos namoravam esses gritos, mas o bolso não podia responder aos apelos. Raramente nós nos dávamos ao prazer de refrescar a boca com picolé nos verões de Resende Costa. Longe de mim ser a raposa diante das uvas maduras, aquela da fábula de Esopo! Mas afirmo, sem nenhum outro sentido, que os tais picolés não eram grande coisa. Eram pedras de gelo, feitas de Q-suco, aquele pó artificialíssimo e forte de matar. E até que eu gostava desse sucozinho sem-vergonha, porém com muito açúcar.
Falando em picolé, o que mais se vendia nas ruas de Resende Costa, sob um sol que nos arrancava a pele, era chup-chup. Aqueles saquinhos – gelo puro também feito de Q-suco – atormentavam os pais que sofriam diante dos filhos pedindo dinheiro, chorando, esperneando. Também pudera! Todo santo dia passava alguém com a conhecida caixa de isopor gritando escandalosamente o nome da oferenda. E não há ouvido de criança que resista a isso! Nem ouvido nem boca.
(Esta crônica continua no próximo número deste jornal.)
Estátuas aéreas
09 de Abril de 2012, por Evaldo Balbino 0
Desfilavam perante seus olhos bois, carneiros, cabeças de pássaros. Quando não eram animais, apareciam aquelas cruzes iguaizinhas às que ele via em cemitérios ou à beira de estradas. Também via nas nuvens flores, árvores sem raízes, rostos de homem ou de mulher. Eram de mulher, tinha certeza, quando os cabelos se mostravam fartos e longos. Tudo bem que mulheres também cortam o cabelo. Mas no seu mundo o que ele conhecia eram mulheres de cabelos longos, como véus descendo pelo pescoço, abraçando as espáduas, chegando à cintura. Algumas vezes a pergunta: e o que fazer com as mulheres de cabelos curtos, as poucas que ele via de relance em alguns momentos pelas ruas? Como vê-las voando nos altos céus? Bem, nesses casos, optava pelo mais fácil: as feições de cabeças com cabelos curtos eram de homens. Não haveria de complicar a vida ali transmudada em nuvens. A vida por si mesma já era difícil. Então queria ver a simplicidade nas metamorfoses aéreas.
Muitas noites também buscou contar carneirinhos, como os que via voando nos céus, as nuvens fugitivas. Quando as noites eram escuras, e o sono tranquilizador não vinha para aplainar os medos, principalmente da morte, então procurava contar carneiros. Mas eles não vinham. Não se mostravam enfileirados, saltitantes, como os que ele via nos sonos tranquilos das personagens dos desenhos de televisão.
Certa vez sua tia insistiu em dizer que tinha visto entre as nuvens o Sagrado Coração de Jesus. Ele não duvidou. Dessas coisas não se duvida. Sua tia andava de um lado para outro, gesticulava, falava alto, animadíssima com o êxtase que experimentara. Juro que vi, gente, juro que vi! – berrava aos quatro ventos e ainda acrescentou: aposto que é pelas provas que já passei na vida; já sofri tanto, que Jesus se mostrou pra mim!
Para ele Jesus nunca se mostrara. Desde bem pequeno ouvia falar desse nazareno andando pelos caminhos, curando cegos, levantando mortos, fazendo andarem os paralíticos. Ouvia falar desse homem que pregava boas novas, mas não o conhecia. Em sua igreja não se aceitavam imagens de santos. Quando um dia, depois da relutância de sua mãe, foi para uma outra igreja – também evangélica – para estudar num catecismo aos domingos, foi que viu Jesus pela primeira vez: cabelos longos, barba imensa por fazer, olhos azuis como os de um escandinavo, vestes longas. Andava na simplicidade, mas com uma brancura de corpo e de alma que dava gosto – pelo menos era isso que dizia a catequista.
Chegou à sua casa espevitado depois desse primeiro dia de catequese. Foi logo dizendo à mãe que vira Jesus. A mãe o olhou, sem espanto, e perguntou com tranquilidade:
– Ah, é? E como é ele?
Foi dizendo tudo, descrevendo a grande personagem, detalhe por detalhe. Mas a mãe foi dura:
– Que mentirada, meu filho! Cristo não tinha cabelos longos nem olhos azuis. Ninguém aqui viu ele pra sair desenhando assim não! Vê lá se o Filho de Deus ia usar cabelo grande!
O menino ficou triste, frustrado. Será que a professora catequista havia mentido mesmo para ele?
Mas criança, se não esquece tudo, sabe pelo menos mudar de um problema para outro, fantasiando cada dificuldade com outras brincadeiras. E o garoto não mais se preocupou com aquela “mentira”. Tempos depois, quando lhe apresentaram na escola um desdenho do mártir Tiradentes, pensou: ou esse enforcado é irmão gêmeo de Jesus ou então tá todo mundo mentindo de verdade!
Continuou por sua vida afora buscando Jesus, principalmente nas nuvens. Querendo ver, se não aqueles cabelos longos e barba imensa, pelo menos um homem com ares divinos. O problema é que ele não saberia nunca distinguir como é que é um ser divino.
Ainda era cedo, e o menino não tinha descoberto até aquele momento que Deus está é dentro da gente e não fora. Se ele aparece nas nuvens, são nossos olhos que o projetam lá: projetam as nossas próprias almas.
Muitas noites também buscou contar carneirinhos, como os que via voando nos céus, as nuvens fugitivas. Quando as noites eram escuras, e o sono tranquilizador não vinha para aplainar os medos, principalmente da morte, então procurava contar carneiros. Mas eles não vinham. Não se mostravam enfileirados, saltitantes, como os que ele via nos sonos tranquilos das personagens dos desenhos de televisão.
Certa vez sua tia insistiu em dizer que tinha visto entre as nuvens o Sagrado Coração de Jesus. Ele não duvidou. Dessas coisas não se duvida. Sua tia andava de um lado para outro, gesticulava, falava alto, animadíssima com o êxtase que experimentara. Juro que vi, gente, juro que vi! – berrava aos quatro ventos e ainda acrescentou: aposto que é pelas provas que já passei na vida; já sofri tanto, que Jesus se mostrou pra mim!
Para ele Jesus nunca se mostrara. Desde bem pequeno ouvia falar desse nazareno andando pelos caminhos, curando cegos, levantando mortos, fazendo andarem os paralíticos. Ouvia falar desse homem que pregava boas novas, mas não o conhecia. Em sua igreja não se aceitavam imagens de santos. Quando um dia, depois da relutância de sua mãe, foi para uma outra igreja – também evangélica – para estudar num catecismo aos domingos, foi que viu Jesus pela primeira vez: cabelos longos, barba imensa por fazer, olhos azuis como os de um escandinavo, vestes longas. Andava na simplicidade, mas com uma brancura de corpo e de alma que dava gosto – pelo menos era isso que dizia a catequista.
Chegou à sua casa espevitado depois desse primeiro dia de catequese. Foi logo dizendo à mãe que vira Jesus. A mãe o olhou, sem espanto, e perguntou com tranquilidade:
– Ah, é? E como é ele?
Foi dizendo tudo, descrevendo a grande personagem, detalhe por detalhe. Mas a mãe foi dura:
– Que mentirada, meu filho! Cristo não tinha cabelos longos nem olhos azuis. Ninguém aqui viu ele pra sair desenhando assim não! Vê lá se o Filho de Deus ia usar cabelo grande!
O menino ficou triste, frustrado. Será que a professora catequista havia mentido mesmo para ele?
Mas criança, se não esquece tudo, sabe pelo menos mudar de um problema para outro, fantasiando cada dificuldade com outras brincadeiras. E o garoto não mais se preocupou com aquela “mentira”. Tempos depois, quando lhe apresentaram na escola um desdenho do mártir Tiradentes, pensou: ou esse enforcado é irmão gêmeo de Jesus ou então tá todo mundo mentindo de verdade!
Continuou por sua vida afora buscando Jesus, principalmente nas nuvens. Querendo ver, se não aqueles cabelos longos e barba imensa, pelo menos um homem com ares divinos. O problema é que ele não saberia nunca distinguir como é que é um ser divino.
Ainda era cedo, e o menino não tinha descoberto até aquele momento que Deus está é dentro da gente e não fora. Se ele aparece nas nuvens, são nossos olhos que o projetam lá: projetam as nossas próprias almas.
A amante
13 de Marco de 2012, por Evaldo Balbino 0
Esta ouvi de minha mãe, que por sua vez ouvira, na sua ida infância, da Conceição da Salota. Foi lá naqueles tempos em que as assombrações tinham mais vida, falavam, riam zombeteiramente em cima das porteiras impedindo que carreiros passassem com boiadas e bois. Foi lá naquele tempo, em que a morte e a vida andavam ainda mais juntas, amigas, imiscuindo-se escancaradamente uma com a outra, que uma caveira passou por suas penas.
O Ribeirão de Santo Antônio não se dava ao luxo de possuir um coveiro oficial. No campo santo, quem tinha mãos e enxada não era rei, mas com certeza servia à morte e à vida numa faina de escavar e esconder os mortos.
Eis que um dia, um desses benditos serventes, o seu Benedito das Cruzes, descobriu numa sepultura uma caveira quieta, fria, mas ainda quente das memórias tristes da vida. Na fronte do crânio jazia um epitáfio, provavelmente escrito no além túmulo, ou melhor, dentro do túmulo. Assim diziam as palavras grafadas, parecia que a ferro e fogo: “Já penei muito e não sei até quando vou penar”.
Seu Benedito mirou fixamente a cabeça sofrida, penada, porque caveiras penadas existem, e ficou se perguntando por que aquela frase não terminava com um ponto de exclamação. Sofrimento assim deve ser forte, tão forte, que merece um sinal de pontuação à altura. Benedito, de poucos estudos, admirava as frases muito pontuadas, as exclamativas, as exaltadas.
Com piedade cristã da caveira, decidiu retirá-la do cemitério e levá-la para um lugar seguro onde ela não penaria mais. Decidiu ajudá-la, como um bom cristão o faria. Em sua casa, escondido da mulher, colocou os ossos sofridos numa gaveta, trancando-os em seguida a sete chaves. Ali guardado, o esqueleto ficaria esquecido dos problemas da vida, ou da morte talvez, e não se entregaria à esquisitice, à esquizofrenia dos que labutam na jornada cósmica.
Os dias se passavam, e seu Benedito, com a chave que valia por sete no bolso, com a chave e com um segredo bem guardado, ia e vinha constantemente. Do trabalho para sua casa, da sua casa para o trabalho. Fidelíssimo a sua esposa, fidelíssimo ao seu morto engavetado, e também fidelíssimo aos seus mortos de que bem cuidava às vezes entre as cruzes e as flores. Um cuidado que dividia com os afazeres de sua vida de trabalhador de eito.
Desconfiada, a mulher de seu Benedito, a dona Constância, que tudo arrumava dentro de casa, começou a sentir comichões nas mãos, na mente e no coração. Este, quando sente algo parecido com uma coceira, um aperto de ciúme, de suspeita, leva seu dono ou dona a ter cada vez mais um pé-atrás. E Dona Constância, julgando inconstantes os sentimentos do marido, começou a julgá-lo. Decerto estaria dentro da gaveta algo terrível, como cartas de amantes ou coisas piores.
Certa feita, quando o marido se ausentou por mais dias da casa, a mulher decidiu acabar com suas comichões, com aquilo que a dilacerava. E se amante houvesse, brigaria com o seu homem. Ah, brigaria e muito!
Gaveta trancada não se abre. Ainda mais quando guarda uma caveira penada. Constância decidiu, por isso, arrombá-la. E se nada houvesse ali dentro e o marido chegasse depois e questionasse tamanha destruição, ela daria uma desculpa qualquer. O que não poderia continuar acontecendo era o bichinho do despeito amoroso roer-lhe tanto o coração.
Com o machado do marido, a madeira de jacarandá cedeu, e eis que o espanto da mulher se manifestou. Nunca tivera medo da morte. Agora é que não teria. Mas o que era aquilo, meu Deus! Certamente os restos mortais de uma antiga amante do marido. Cartas, palavras denunciadoras, pétalas murchas de rosas trocadas, perfumes em lenços obscenos, marcas de batom pecaminoso – nada disso estava ali. O que ela viu era mais forte: os restos da mulher amada. Mas restos podem muitas vezes ser tudo. E ainda continuam sendo na vida um atropelo, uma lembrança no sapato ou na cabeça.
Dona Constância leu aquelas palavras sangradas: “Já penei muito e não sei até quando vou penar”. Leu, e disse para si mesma: “Pois é, sua safada, saiba que você ainda vai penar muito mais!” Acendeu o forno lá na horta, não economizando a lenha cortada pelo suor do marido traidor. Quando o fogo já se erguia esfomeado para as alturas do forno, ela juntou os ossos de vida fácil e os jogou na fornalha do demo. E que queimassem todos, os prostitutos!
As palavras que o esqueleto escrevera não eram epitáfio falso. Tratava-se sim de uma ossada sofrida, e ainda por cima ultrajada pelas acusações da mulher. E, para terminar, ainda teve que passar pelo lago de fogo ardente em que se transformara o forno de Dona Constância.
Mas na sua raiva de amor e ciúme, a mulher não viu que horas depois de a caveira ser chamuscada, um pombo branco saiu das chamas e foi voando paras as nuvens. Não era o Espírito Santo. Isso não era! Não era amante nenhuma também. Era apenas uma alma liberta amando nuvens e espaços.
O Ribeirão de Santo Antônio não se dava ao luxo de possuir um coveiro oficial. No campo santo, quem tinha mãos e enxada não era rei, mas com certeza servia à morte e à vida numa faina de escavar e esconder os mortos.
Eis que um dia, um desses benditos serventes, o seu Benedito das Cruzes, descobriu numa sepultura uma caveira quieta, fria, mas ainda quente das memórias tristes da vida. Na fronte do crânio jazia um epitáfio, provavelmente escrito no além túmulo, ou melhor, dentro do túmulo. Assim diziam as palavras grafadas, parecia que a ferro e fogo: “Já penei muito e não sei até quando vou penar”.
Seu Benedito mirou fixamente a cabeça sofrida, penada, porque caveiras penadas existem, e ficou se perguntando por que aquela frase não terminava com um ponto de exclamação. Sofrimento assim deve ser forte, tão forte, que merece um sinal de pontuação à altura. Benedito, de poucos estudos, admirava as frases muito pontuadas, as exclamativas, as exaltadas.
Com piedade cristã da caveira, decidiu retirá-la do cemitério e levá-la para um lugar seguro onde ela não penaria mais. Decidiu ajudá-la, como um bom cristão o faria. Em sua casa, escondido da mulher, colocou os ossos sofridos numa gaveta, trancando-os em seguida a sete chaves. Ali guardado, o esqueleto ficaria esquecido dos problemas da vida, ou da morte talvez, e não se entregaria à esquisitice, à esquizofrenia dos que labutam na jornada cósmica.
Os dias se passavam, e seu Benedito, com a chave que valia por sete no bolso, com a chave e com um segredo bem guardado, ia e vinha constantemente. Do trabalho para sua casa, da sua casa para o trabalho. Fidelíssimo a sua esposa, fidelíssimo ao seu morto engavetado, e também fidelíssimo aos seus mortos de que bem cuidava às vezes entre as cruzes e as flores. Um cuidado que dividia com os afazeres de sua vida de trabalhador de eito.
Desconfiada, a mulher de seu Benedito, a dona Constância, que tudo arrumava dentro de casa, começou a sentir comichões nas mãos, na mente e no coração. Este, quando sente algo parecido com uma coceira, um aperto de ciúme, de suspeita, leva seu dono ou dona a ter cada vez mais um pé-atrás. E Dona Constância, julgando inconstantes os sentimentos do marido, começou a julgá-lo. Decerto estaria dentro da gaveta algo terrível, como cartas de amantes ou coisas piores.
Certa feita, quando o marido se ausentou por mais dias da casa, a mulher decidiu acabar com suas comichões, com aquilo que a dilacerava. E se amante houvesse, brigaria com o seu homem. Ah, brigaria e muito!
Gaveta trancada não se abre. Ainda mais quando guarda uma caveira penada. Constância decidiu, por isso, arrombá-la. E se nada houvesse ali dentro e o marido chegasse depois e questionasse tamanha destruição, ela daria uma desculpa qualquer. O que não poderia continuar acontecendo era o bichinho do despeito amoroso roer-lhe tanto o coração.
Com o machado do marido, a madeira de jacarandá cedeu, e eis que o espanto da mulher se manifestou. Nunca tivera medo da morte. Agora é que não teria. Mas o que era aquilo, meu Deus! Certamente os restos mortais de uma antiga amante do marido. Cartas, palavras denunciadoras, pétalas murchas de rosas trocadas, perfumes em lenços obscenos, marcas de batom pecaminoso – nada disso estava ali. O que ela viu era mais forte: os restos da mulher amada. Mas restos podem muitas vezes ser tudo. E ainda continuam sendo na vida um atropelo, uma lembrança no sapato ou na cabeça.
Dona Constância leu aquelas palavras sangradas: “Já penei muito e não sei até quando vou penar”. Leu, e disse para si mesma: “Pois é, sua safada, saiba que você ainda vai penar muito mais!” Acendeu o forno lá na horta, não economizando a lenha cortada pelo suor do marido traidor. Quando o fogo já se erguia esfomeado para as alturas do forno, ela juntou os ossos de vida fácil e os jogou na fornalha do demo. E que queimassem todos, os prostitutos!
As palavras que o esqueleto escrevera não eram epitáfio falso. Tratava-se sim de uma ossada sofrida, e ainda por cima ultrajada pelas acusações da mulher. E, para terminar, ainda teve que passar pelo lago de fogo ardente em que se transformara o forno de Dona Constância.
Mas na sua raiva de amor e ciúme, a mulher não viu que horas depois de a caveira ser chamuscada, um pombo branco saiu das chamas e foi voando paras as nuvens. Não era o Espírito Santo. Isso não era! Não era amante nenhuma também. Era apenas uma alma liberta amando nuvens e espaços.