Retalhos Literários

O pintor

13 de Fevereiro de 2012, por Evaldo Balbino 0

É com palavras que faço pinturas. Desenho esboços para a eternidade. Não há nenhuma presunção no que digo. A eternidade de que falo é um flash dado por minhas mãos brancas e cansadas, porém retratistas. Coisas e cenas e pessoas são congeladas. Bichos também. E todos ficam entre palavras presos, mas para sempre cheios de vida. Pois terão novamente vida toda vez que um mortal como eu abrir uma página qualquer e acessar amorosamente essas palavras.
 
A vida é leitura do que se pintou e se pinta. Nossos olhos têm o poder de ressuscitar mortos, de fazer renascerem constantemente passados. Perante os leitores nada sucumbe: o tempo e a morte perdem a sua força diante da fome de qualquer leitura.
 
Desenho agora formigas caminhando em suas trilhas. Caminham porque uma força maior ou uma necessidade as move, e não porque as retrato assim. Sou apenas um desenhista. Caminham hoje como antes o faziam. O mundo muda, mas nem tanto. Nas transformações que se operam, continuamos como formigas em nossa faina. Continuamos como insetos alados, os que voam entre plantas e desejos. Ali e acolá plantas rasteiras, as que dominam em sua pequenez as majestades da vida. Cupinzeiros solenes, prédios de terra. Troncos de árvores verdes ou já mortos, quietos no chão. Tudo isso eu desenho.
 
Na casinha ao lado, com tijolos à mostra, dona Esmeralda brilha sob a luz do sol, quarando roupas entre pedras de anil espalhadas. Seu filho, tão raquítico e feliz, serelepe formiguinha, bate algumas toalhas brancas na pedra ao lado do riachozinho. A cerca de arame farpado dança com o vento, em cores brancas e outras cores. Parece tudo uma multidão de dançarinos bailando o baile da vida.
 
O riozinho corre, um ribeirozinho de nada, com lodo nas margens, serratucanos apetitosos, folhas diversas navegando sobre as águas poucas, tranquilas. Folhas que ainda não morreram. Águas sem raiva nenhuma, as do riozinho. Sua cólera é como a fúria dos xingamentos de mamãe, numa autoridade amorosa com os filhos.
 
Quando criança eu gostava de ser esse menino. Gostava de fazer descerem sobre essas águas as cascas dos umbigos de banana. Dizíamos “imbigo”, e ficava tão bonito assim, desse modo sem escola: o imbigo era mais gostoso. Eram as côncavas proteções do miolo, apaixonadamente roxas, que singravam as águas. E os filamentozinhos brancos lá de dentro é que eu comia com boca boa. Mamãe os cortava em rodelas, esfregava-os com afinco e limão para que não escurecessem – o sempre medo do escuro. E depois os ferventava, buscando tirar-lhes o amargor que não presta. E assim lhes dava um tom rosáceo, um roxo claro, ainda sutilmente da cor da paixão.
 
Assim como o menino bate a roupa na pedra, espumas coloridas tomando um banho de sol, desse mesmo modo eu fazia. Ajudava mamãe a torcer todos os panos, a desdobrar os tecidos que ela cosia, que ela nos fazia e com os quais agasalhava a todos nós. Ajudava a desdobrá-los com um imenso poder. Poder que ela tinha e que me transmitia. Dádiva que não se nega: a de desdobrar vidas.
 
O que mais desdobro hoje em dia são palavras. Antes eu só as ruminava, comia-as como se fossem aqueles amendoins em casca que meu pai me levava nas noites do Ribeirão de Santo Antônio. Aqueles mesmos amendoins que depois ele ainda me levou algumas vezes, quando já morávamos na Várzea, periferia do centro de Resende Costa, entre terra vermelha e piteiras. É isto mesmo: à medida que eu ia crescendo, meu pai já não me levava mais amendoins em casca. Eu, um ser tão pequeno, um elefantizinho de nada, sendo desmamado aos poucos.
 
As palavras eram comidas, ração de outro mundo para um menino que não as lia. Ração que aos poucos foi virando tão íntima, tão do garoto que as ruminava com sabor e medo. Eram saborosas a ponto de me viciar.
 
Hoje, além de ruminar as palavras, também as distendo como se fossem lençóis de cores fartas. E abrir as palavras, quará-las ao sol com alegria e vontade, é como ver formiguinhas andando bem ao rés-do-chão, e ver nesse andar o que nós somos. É ver uma criança e sua mãe batendo roupa ao lado do riachozinho, como se estivéssemos vendo a nós mesmos batendo nossas vidas, quarando nossos desejos debaixo dum sol amorável.
 
Escrever tudo isso é pintar com palavras. É um modo de não nos esquecermos e de firmarmos nossa pousada eterna entre as páginas de um livro. Um dia, mesmo amareladas, guardadas com esmero ou perdidas entre outras folhas sem importância nenhuma, essas páginas palpitarão, produzirão rumores de cores imorredouras.

Os sacrifícios desnecessários

10 de Janeiro de 2012, por Evaldo Balbino 0

Em novembro de 2011 ocorreu em Formosa, Goiás, um triste episódio: uma enfermeira matou a pancadas seu cãozinho de estimação. Irônico isso, pois o que é de minha estimação deve receber, no mínimo, respeito da minha parte. Não maltrato aquele ou aquilo a que estimo. Mas animal de estimação é tido, muitas vezes, como um objeto de posse, de troca e venda. Não é à toa que lucramos com as vidas. Muitos humanos sempre tiveram esta capacidade: lucrar com vidas. Muitas vezes lucramos e ainda o fazemos até mesmo com vidas humanas. Os sistemas escravocratas, os servilismos, as explorações da mão de obra, o trabalho infantil – tudo isso atravessa a história para comprovar o que estou dizendo.

Não entendo de leis. Portanto não falo aqui alicerçado em artigos, parágrafos, incisos, alíneas. Entendo de vida e de respeito pela vida. Do necessário respeito pela vida e da necessidade de punição daqueles que não a respeitam. Dirão a mim que a lei também respeita a vida. Sim, concordo. Mas também sei que a justiça é construção humana. É instituição daquele que olha para o próprio umbigo e esquece que o mundo, o universo, vai muito além de si mesmo. Vai muito além, sem excluí-lo, é claro! Haverá punição legal para a enfermeira que matou, diante da filhinha de dois anos, o seu cão? Essa pergunta não se cala.

Vejo muita coisa e não posso entender. Vejo muita coisa e não posso aceitar. Vejo muita coisa e me recuso a acolher. Vejo homens, mulheres, crianças, animais – vejo todos sofrendo, e muitas vezes de um sofrimento que poderia ser eliminado.

Corramos os olhos pelos açougues. Eles são apenas espaços de cheiro forte com cadáveres. As vidas que neles se mostram são as dos que vendem e dos que compram. Já com os cadáveres é outra história. Os sofrimentos, as dores, os espasmos, os olhos arregalados na iminência da morte, as contrações dos músculos, a revolta das vísceras, o desejo extremo de fuga sem nenhuma possibilidade – tudo isso se escoou com o sangue vivo, tudo isso se derramou com o sangue morto lá nos matadouros. E o que comercializamos já é sangue morto. Alguns até me dizem: “vamos comer, já está morto mesmo!” Comer a morte parece tão natural. Outros até falam: “matar eu não mato, mas comer é tranquilo”.

Estarei fazendo aqui apologia ao vegetarianismo? Quem sou eu, meu Deus, para tal façanha? Não posso impor a ninguém a minha filosofia de vida. Médicos, comerciantes, empresários, fisiologistas, cozinheiros, economistas, açougueiros, gastrônomos, chefes de cozinha, donos de matadouros – pessoas enfim, milhares de pessoas, me matariam por tal defesa.

E me defendo de todos. Não simplesmente apelando para a minha liberdade de expressão. O que escrevo nestas linhas parte de uma experiência própria, pela qual passei recentemente. Nunca fui dado a comer carne, pois algo sempre me incomodava quando o fazia. Ou seja, já existia em mim uma náusea, uma dor. Era isto mesmo: eu comungava a dor das vidas que me eram oferecidas em banquete.

Essa comunhão chegou à plenitude em março de 2011, quando passei pela experiência de ser sequestrado. Três cidadãos, seres da minha espécie, me tomaram no meu carro e me mantiveram durante toda uma madrugada em suas mãos. Coagido, sob ameaças com faca, revólver, olhos vendados para não ver as fisionomias daqueles seres tão da minha espécie, fui mantido deitado entre os bancos do meu carro, apertado a ponto de ficar com hematomas nos ombros, na cabeça, no rosto, os braços dormentes, as pernas também. Eles, os seres da minha espécie, usavam o meu carro como se fosse deles. Fumavam, riam. E cantavam. As cantorias alternavam-se com ameaças, empurrões no meu corpo, exigências das minhas senhas dos cartões de crédito – e tudo isso faziam ao som duma rádio aqui de Belo Horizonte, da qual nunca gostei e que, a partir daí, passei a detestar mais ainda: a Jovem Pan. Sei que a emissora não tem nada a ver com isso, com a minha trágica experiência. Mas é que esta se somou aos estilos musicais que a Jovem Pan toca e que nunca me agradaram.

Aqueles jovens – eram jovens, pois suas vozes mostravam isso – usavam meu carro e ouviam o rádio à vontade. Circulavam eu não sabia por onde. Mas eu ia percebendo aos poucos que estávamos entrando por matas densas, pois chovia, eu sentia cheiro de terra molhada, de barro, barulho de bátegas sobre plantas. Tive a sensação de que aqueles seriam os derradeiros odores e ruídos que eu sentiria na vida.

Encurtemos esse episódio, cuja descrição aqui já é dolorosa. Pararam o carro no meio de um mato. Levaram-me para uma casa em construção. Deitaram-me de bruços no chão, e com os cadarços dos meus tênis amarraram-me os pés e as mãos para trás. O cano de um revólver e a ponta de uma faca não descolavam de minha cabeça e do meu pescoço. Não me mataram, porque não reagi em momento algum. Deixaram-me ali e se foram cantando, como cantando estavam durante todo o tempo do meu lado. Fiquei sem o carro, sem documentos, fiquei dopado por um comprimido que me obrigaram a tomar, fiquei com prejuízos financeiros e psicológicos – mas fiquei com a vida, com a minha vida. Tanto que estou aqui, lúcido, escrevendo estas linhas.

Não sei dizer se tenho medo da morte. Mas sei dizer o que senti naqueles momentos, principalmente quando me amarravam. Senti-me como aqueles porcos que eu via os homens amarrarem quando eu era criança. Amarrarem e esfaquearem – uma pontada de ferrugem e aço no coração. E a gritaria dos porcos, cuja linguagem não era e não podia ser humana, a civilizada linguagem humana. Uma gritaria que ecoava nas redondezas amanhecendo e que por certo fazia muitos pensarem ainda em sua cama: “Que beleza, hoje vamos ter carne fresca!”. Quanto a mim, aquela era uma gritaria de me matar. Uma gritaria que doía muito e que ia diminuindo até não existir mais.

Eu era um porco sendo amarrado. Como também me encarnei agora naquele cachorrinho lá em Formosa, sendo pouco a pouco assassinado por sua “dona”, uma enfermeira, uma “cuidadora de vidas”.

Não posso suportar a dor, nem a própria nem a alheia. E o que não suporto mesmo é a dor causada intencionalmente ou por desequilíbrios pelos quais somos atravessados. Sou apenas, aqui, um ser humano frágil, um animal entre outros animais, ganindo contra tantas mortandades.

A missa e o homicídio

13 de Dezembro de 2011, por Evaldo Balbino 0

Os olhos de dona Lilica nem piscam. O padre fala de um mundo maravilhoso, longe do fogo do inferno. Quando a exortação gira em torno de demônios, lagos de fogo ardente, enxofre, sofrimento eterno, ela faz questão de orar mais, de fechar mais os olhos para exorcizar o que é incômodo. Falando assim, desse jeito sério e repetido, é capaz de o diabo aparecer mesmo e aí pronto: estou perdida! Sem altas teologias, pratica uma fé de preferência mais iluminada, mais próxima das nuvens do que dos subterrâneos da vida. Pensando nas nuvens, pelo menos não corre o risco de ir para as profundezas. A sepultura deve ser o inferno, ou a porta dele, já que não tem dúvidas quanto a este dogma: as profundidades do inferno ficam no subsolo da Terra.
  
O novo padre fala muito em demônios. Então ela tem que aproveitar os lapsos de céu na boca do homem de Deus para poder experimentar um pouco de êxtase, sem perigos com cheiro de enxofre. Empertiga-se toda ouvidos para os novos céus, uma cidade gloriosa pairando sobre a terra, anjos e arcanjos resgatando o povo que durante mil anos sofreu destinos malignos. O padre diz de pedras preciosas, paredes de diamante. Palavra bonita esta, fazendo-lhe pensar em paredes de amantes, não apenas um e sim vários. Um amante só é pouco. Aí se penitencia em pensamento: amante no sentido bonito da expressão, ora essa! Deus me livre pensar em amante! Nem quando o Onório me desposava, quando ele estava vivinho do meu lado, meu companheiro e minha pedra no sapato, nem nessa época eu pensava em amante senão em Deus.
 
Na Nova Terra, leões e cordeiros viverão pacificamente, não existirá dor nenhuma, a terra não terá de ser lavrada, o homem não terá que viver mais com o suor do seu rosto, o amor tomará conta de tudo. Haverá fartura por toda parte, ninguém vai passar fome. Vem-lhe de repente a lembrança do que leu certa vez no livro Nosso lar de Chico Xavier, onde se fala de um mundo em que todos bebem ar e água o tempo todo. Aí o medo de ter que passar por tanta escassez, logo ela que adora massas: macarronadas em domingos são sagradas! Melhor mesmo confiar no padre, Deus me livre! Até que ele não está falando coisas tão esdrúxulas assim. Comida no céu é coisa boa, bem-vinda. O pior era o padre anterior da sua paróquia, o que saiu da cidade já há alguns meses. Acreditam que cismou de dizer um dia, e na maior seriedade, uma coisa sem pé nem cabeça? Pois é, olhou pra todo mundo e disse: “E que ninguém pense que Deus precisa da gente. Não precisa não. Pois saibam todos que Ele não pediu a ninguém nem um saco de cimento emprestado pra construir o mundo. Fez tudo sozinho, e em seis dias!”. Vejam que loucura. E ainda acrescentou: “E se tivesse pedido emprestado, ele não é ruim de negócio não. Teria devolvido tudo, e até em dobro!”. Comida no céu sim, Maria Santíssima, mas daí falar em saco de cimento já é demais, como se Deus fosse um pedreiro dado a tais concretudes.
 
Pra herdar toda essa terra e suas glórias, continua o padre, a glória desse mundo não pode nos iludir. Toda riqueza deve ser combatida. Ainda bem que não sou rica, com meus dois salários vivo bem, com dignidade. O Onório, mesmo com suas ignorâncias, me deixou essa pensão que me serve, agora tenho outro salário, afinal meus sessenta anos merecem. Ai, meu Deus, como já trabalhei nesta terra! Mas não tenho preguiça não. Inclusive não me preocupa se tiver que continuar suando o rosto no céu. O que não pode é faltar macarronada lá aos domingos. Isso não pode!
 
Meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs, fiéis do Deus vivo todo poderoso, tomemos cuidado com as coisas deste século! Ela não sabe que século tem dois sentidos. Mas qual é o problema deste século, meu Deus? Desde que o mundo é mundo é essa fuzarca, essa latomia, é reclamação que não para mais! E ficam aí falando que tudo tá ruim, tá com problema. Minha mãe já dizia isso, meu avô também, minha bisavó, e todos os meus antepassados até Adão. Lá no Éden já devia ter problemas, ah já devia!!
 
Hoje em dia, filhos do Todo Poderoso, principalmente hoje em dia, já perdemos os parâmetros, o que é certo e errado. Por exemplo, a televisão! Desde meados deste século (agora ela entende corretamente a palavra “século”), a humanidade vem se entregando às ilusões que uma simples tela alimenta. Simples, porém perigosa, enganadora, aliciadora das ingenuidades. O que é aliciadora? – pergunta-se dona Lilica. Podemos dizer que a televisão é um lobo atacando um cordeiro. Agnes dei! Ela adora ouvir latim. Não entende nada, mas soa bonito, um som poderoso. Nem diabo em latim soa feio. Fica até angelical.
 
O padre vai falando dos males que a televisão traz a todos. E vai ensinando a igreja a fugir de tais armadilhas. Enquanto ele prega, dona Lilica vai pensando em anjos cantando em latim, orando em latim, um coro de enlevar a alma. Dura um bom tempo o seu devaneio.
 
Quando dá por si, o padre está alongando os ensinamentos. Olha para o relógio, e as horas já estão avançadas. Vira-se para a comadre Dulce e só vê uma baba descendo da boca que ronca quase que silenciosamente. Começa a preocupar-se. Perderá a novela. Começa a pedir a Deus para que a missa acabe. E sem nenhuma culpa faz isso. Sem nenhuma culpa como um santo. Deus atende, precipita o culto. Lilica acorda a comadre de rosto sonolento, cabeça apoiada no encosto do banco da frente.
 
De fora da igreja, nem há tempo de conversar com a amiga, que também perdeu o sono e vai caminhando a passos largos. Vamos, comadre – afirma ofegante a dona Lilica –, hoje vai passar quem matou a Odete Roitman!

Raimundo Mundo

11 de Outubro de 2011, por Evaldo Balbino 0

Os pés sujos em alpercatas, feitas com suas mãos vacilantes. Pés encardidos pela poeira das estradas nas quais iam e vinham. Calça amarrada acima da cintura. Camisa de gola cinzento-amarelada e com mangas compridas sob um paletó marrom. Um casaco de outras eras, alcançando os quadris lentos e com os bolsos sempre derramando rapé. Unhas grandes, sempre limpas em dedos longos, finos, como os de tocadores de pianos. As mãos trêmulas, que seguravam canecas esmaltadas de café com leite ou que ficavam passando e repassando palhas e fumo. Suas mãos agiam com o esmero dos que obram como se na vida tudo tivesse que ser talhado, bem cuidado, para que possamos um dia também partir meticulosamente, sem pressa nenhuma.

Chapéu de palha, ele não usava. Para a cabeça buscava coisa mais grã-fina. Levava sempre um borsalino surrado, com suas abas largas levemente viradas para cima e com uma concavidade na copa. Fazia questão de dizer, numa pequena manifestação de vaidade (quase nenhuma tinha), que o feltro utilizado na confecção do seu chapéu era especial, de pelo de lebre e não de coelho.

Barba sempre por fazer, um rosto meio que parecendo o de um judeu e com uma voz estranha, mais para dentro do que para fora, ele contava coisas que me deixavam extasiado. Suas histórias pareciam verdadeiras, convincentes, mesmo que cheias de invencionices. Criava mundos como fazia o Teotônio. Mundos em que nós pudéssemos entrar e viver. Língua peregrina como suas pernas, cambaleante e lenta, a me levar a tramas que me emaranhavam.

Raimundo Mundo. Assim o chamavam todos os compadres e comadres. E a criançada fazia eco com esse nome que já tinha em si o próprio eco. Só os animais é que não pronunciavam a alcunha. Refiro-me aos chamados irracionais. Mas com muita inteligência paravam para ouvir o Seu Raimundo, entendendo tudo o que ele dizia, tremulando olhos e meneando cabeças.

Raimundo Mundo não era reencarnação do São Francisco. Isso não era! Bastava olhar para o seu chapéu de lebre, que se notava isso. Porém contava daquilo que os animais sabiam, sentiam, viviam. Eram-lhe audiência os bois e as vacas, os ruminadores de ervas e palavras. Também compunham a plateia os cachorros e as cadelas, as galinhas com seus pintos, os galos de papo empinado e cujo canto parava diante das palavras do Raimundo. Os gatos mais esquivos se arrodeavam, escutando. Até os papagaios faladores paravam para ouvi-lo. Na casa da minha tia havia um, o Papaco, que efusivamente insistia em nos repetir a todos e que também gostava de bicar meus pés de menino que o incomodava. Do mesmo modo ardoroso, o Papaco recebia o Raimundo chegando de mansinho do outro lado da porteira.  Com Raimundo falando, o danado do papagaio parava para olhar e ouvir. Todos sustavam as próprias vidas e os próprios hábitos, para orelhar as falas antigas daquele homem, parecido com um judeu de voz oracular. Até nós humanos, pobres animais presunçosos, estacávamos perante as palestras estrangeiras e muito nossas.

Lembro-me das pessoas ouvindo tudo. Se com atenção falsa ou verdadeira, não sei. Quanto a mim, mesmo pequenino, frágil ser humano desde sempre e até hoje, eu fitava meus olhos vidrados de curiosidade na boca do Raimundo e nas suas dentaduras duplas com dentes claros, um dente encapado com ouro se destacando.

Eu fixava meus olhos nos seus gestos lentos, comedidos, pensados. Algumas coisas nele me intrigavam, como o hábito de cheirar rapé a toda hora ou de enrolar seu pito de palha que, me parecia, nunca estava enrolado. E as baforadas que dava? A fumaça subia, fazendo espirais que me deixavam tonto de tanto namorá-las. Eu via aquelas ondas encaracoladas e dizia para mim mesmo, só em pensamento, que um dia ainda iria fumar daquele jeito, iria tragar um pito com vontade e perícia. Sorveria a fumaceira e emitiria aquelas sinuosidades, a ponto de fazer inveja a meu pai que do mesmo modo fumava, mas que não produzia as ondulações perfeitas no ar.

O Raimundo vivia de trabalhar nas casas dos que o recebiam. Cortava lenhas, catava feijão, aguava a hort’couve, fazia cercas de taquara, tecia peneiras bonitas. Fazia tudo isso murmurando, falando consigo mesmo numa língua que ninguém entendia. Muitas vezes o vi varrendo o terreiro na casa da minha vó, e cantando enquanto o sol queimava o seu chapéu de lebre e a poeira se levantava em torno do seu corpo, enfeitando-o de mistério, de neblina.

Passou o tempo, e o Raimundo na sua solidão e na sua faina foi envelhecendo como todos nós. Disseram-me um dia, depois de anos da minha saída de Resende Costa, que ele morrera sobre os cuidados da Lili, minha prima.

Igualzinho a tudo e a todos, Raimundo Mundo era semelhante às ondas que ele fazia com suas baforadas quando pitava. As ondas de fumaça subiam, iam se ampliando, conquistando espaços, expandindo as possibilidades de existirem. Tanto cresciam, que se dissipavam após atingirem um ponto alto. Tornavam-se vagas, completamente invisíveis.

O cavalo de três pernas

13 de Setembro de 2011, por Evaldo Balbino 1

Há os que dizem: “não me venham com histórias de assombração, pois tenho medo!”. Existem também os céticos: “podem falar e falar, não adianta; o que é inventado não me espanta!”. Rima à parte, não sabem os descrentes que até mesmo a ausência de credo não abre mão de cultos. Enterramos em nós, muitas vezes, o que em algum momento mexeu com nossas cabeças, ou melhor, com nossos cabelos.

Que me perdoem medrosos e incrédulos, pois o que quero falar insiste em minha língua. Sinto-me um contador de causos que nem precisa de cachaça e fumo para tagarelar. Talvez doses de café, que este não dispenso. Quando criança, lá no Ribeirão de Santo Antônio, ouvi muitas histórias, e com um gosto de palavras proferidas por pessoas que nunca passaram por bancos de Escola. Cada vogal e consoante em pronúncias peculiares, tudo me era melhor do que o café em canecas esmaltadas. Ou igual a ele, pois cafeína e palavras são fundamentais para manter olhos e mentes acesos sem perigo de sono.

Que me perdoem, então, pois relembro aqui uma das ficções verdadeiras do Raimundo Mundo. Só ele mesmo para contar coisas como fazia o Teotônio. Sua língua peregrinava tanto como suas pernas. Sempre chegava lá em casa com pés cansados, todavia dispostos a se arrastarem pelas estradas do Ribeirão. Relembro aqui uma história que ele contou certa feita. Rememoro-a sem transcrevê-la, pois transcrição plena é impossível. Se a traição às palavras alheias é inevitável, assumo desde logo que sou traidor. E assim vou escrevendo.

O baile fora animado. As luzes mortiças dos lampiões ainda iluminavam o cansaço da madrugada. No terreiro, poucas pessoas. As mulheres já tinham se recolhido a suas casas. Quase todos os homens já tinham ido também. Era sábado.

O domingo seria para descanso, mas tinha a missa das seis horas, e o padre não gostava de ver a capela vazia. Quando a maioria dos fiéis se atrasava, ele até que começava o culto. E fazia isso murmurando ladainhas com má vontade, ferindo o latim como falamos rispidamente com quem nos contraria.

O outro dia seria domingo, e quase ninguém dava mais sinal de vida no terreiro da Fazenda do Morro das Antas. Foi aí que o Seu Chicota, o meu avô que era dado a bailes e viola, pegou seu instrumento de corda, dependurou-o nas costas e passou pela porteira escancarada. Nesse ponto o Raimundo Mundo colocava como protagonista da peripécia o meu antepassado, e fazia isso sem nos pedir licença.

O Chicota, então, viu que a lua o ajudava. A estrada se mostrava branca, como se fosse de leite. Depois de atravessar a ponte cujas madeiras rangiam a cada passo, ficou sem discernir o que mais fazia ruído, se a ponte sob os pés ou se o bambuzal ao lado. Subiu até a capela com o adro em barrancos e foi descendo até o Ribeirão do Meio pela cava profunda, cercada de matos que pareciam virgens de tão densos.

Dentro da cava era tudo mais espesso, o escuro mais caudaloso. Sem a contribuição da lua, o pó já não era mais lácteo, e sim um estorvo balofo em que as botinas afundavam. Chicota foi descendo e assoviando, no ritmo ainda do baile. Eis que de repente notou um cavalo se aproximando. A silhueta era esbelta, garbosa, mas com o escuro não dava para ver direito a cor do animal. Com arreio posto, deu para perceber a rédea se arrastando pelo chão. Porém era estranha a ausência do cavaleiro.

Preocupado, pensando que o cavalariano estivesse bêbado e houvesse caído mais lá para baixo, num pulo segurou a rédea do cavalo desinquieto, e foi puxando o mesmo consigo.

O cavalo bufava estranhamente. O ar que soltava era mais frio do que o vento soprando na densa vegetação escurecida. Seu Chicota, então, se lembrou de repente da história de um tal cavalo de três pernas. Um que diziam perambular sozinho pelas madrugadas daquelas grotas, mas que durante os dias não era visto por ninguém. O medo tomou conta do violeiro. Mesmo assim resolveu olhar para os pés do animal. O susto foi GRANDE, dum tamanho sem par.

Nessa parte da historieta o Raimundo riu com seus dentes amarelos. Riu com vontade, gargalhou entre goladas de café. Suas mãos tremiam sempre, mas agora vibravam mais. Vibravam de felicidade incontida, dessas que nos levam a viver com sobressaltos.

E terminou a fábula entre mãos e boca felizes, dizendo que o Chicota chegara a casa depois de uma corrida com forças que não tinha.  Chegara com as calças molhadas de urina e com a camisa rasgada numa cerca de arame. Terminou como se dissesse: “Quem tem ouvidos ouça o que diz esta boca verdadeira”.