Retalhos Literários

Sardinhas enlatadas e pirataria em alto trânsito

12 de Julho de 2011, por Evaldo Balbino 1

Com vocês um produto refinado. Trata-se da mais alta tecnologia desenvolvida nas grandes cidades brasileiras. Não sei falar de muitas metrópoles, mas sobre Belo Horizonte, por experiência cotidiana, posso discorrer. Posso dizer de belezas e maldades, concretos e verduras, amizades e assaltos, paz e sequestros. Posso falar de ruas, becos ou até mesmo de algumas quebradas, para utilizar aqui a gíria dos malandros, dos boys e de muitos marginais. Posso discursar sobre as serras no entorno da cidade, as chamuscadas por barracões verticais, casebres de concreto sem acabamento ou de madeira gasta, sem pintura. Também sobre as verdes serras, como a do Curral, as exceções que me acalmam.

Mas voltemos às ruas da cidade, que a natureza merece discurso próprio.

É nessas ruas que medram fábricas da intolerância. Até nossas sombras guerreiam entre si por um naco de espaço. Parafraseando Sartre, pode-se dizer que sempre se esquecem de que a liberdade tem limites. Não pensando que a liberdade de um termina onde começa a do outro, atropelamo-nos nas ruas nossas de cada dia.

Querem um exemplo mais específico de tanta intolerância plantada e colhida com um esmero muito estorvado? Volto a apresentar-lhes a alta tecnologia de que lhes falava. Quem já teve a graça de empoleirar-se nos lotações de Belo Horizonte? Aos atropelos entramos neles, os lotações nossos de cada dia, e que não são nossos! São motores roncando e lataria sacolejando, a estragarem uma noite já mal dormida e a anteciparem outra noite de um sono também atropelado. Galinhas entre telas e telhados usufruem de melhores condições nos galinheiros. Elas são equilibristas. E sempre me espantaram essas bípedes apoiadas num só pé quando dormem! Quanto a nós, pobrezinhos bípedes desengonçados, não temos tal poder.

Entre braços levantados tentando imitar macacos, axilas nem sempre agradáveis, apertos que podem até excitar alguns e que sinceramente não excitam este que lhes fala, seguimos todos aflitos com a chegada a um destino sem fim. E aquelas pessoas que adoram falar aos celulares? E gritam, pois certamente do outro lado o interlocutor seja surdo. Ou, na melhor das hipóteses, são elas que se equivocam e gritam, gritam, porque no meio de tanto barulho também acham que o seu ouvinte não esteja escutando nada. Já me perguntei muitas vezes se essa falação alta com boca grudada em tais aparelhos não seja também um modo de extravasar uma raiva por tudo, pela carga que somos em carros tão cheios. Como não nasci para gritos, escrevo esta crônica, este modo meu de gritar.

Bancos apertados, lixeirinhas exíguas que mal abarcam um papel de bala ou chiclete mascado por dentes nervosos. Sem falar nos educados cidadãos que ainda insistem em jogar lixo pelas janelas. Uma vez ouvi um cara dizendo que joga mesmo tudo lá fora, pois isso é um modo de empregar garis. Com as ruas sujas, não faltará emprego. Santa ignorância! Santa e irresponsável!

Ultimamente, o que mais me tem irritado é o comportamento que vejo em alguns motoristas e trocadores. Fui perceber isto por agora, eu com esta mania de não ver podridão em frutos bonitos postos em bancas limpas. Faz dois meses mais ou menos que um trocador me disse com a cara mais lavada do mundo: “Fica aí na frente, não precisa passar pela roleta não. Me dá só R$2,00; o chegado aí vai te deixar descer na frente”. Fiquei estarrecido! Não que eu seja um santo, mas também com que cara eu desceria pela frente? Todos me olhando e se perguntando por que eu estaria fazendo aquilo. Não, eu não queria levantar suspeitas sobre minha pessoa. Deus me livre! Respondi que não, que passaria pela roleta e pronto. Paguei R$2,45. O trocador levantou os ombros e me deixou passar como se eu fosse ninguém. Vi os olhos do motorista no retrovisor, seu olhar me fulminando.

Depois disso passei a observar mais as pessoas passando ou não pelas roletas. E pude constatar que tal prática (a de pessoas que não pagam ou que pagam menos para descerem pela porta da frente) não é pouco comum. Nos pequenos pontos da vida, sempre há algo que foge a certa engrenagem. Por que não buscar outros modos de contestação ao abuso no valor das passagens? É, parece que cada um sobrevive como pode.

Certa feita brinquei com um amigo: “ainda vou comprar um ônibus só pra mim. Somente eu terei o direito de passar pela roleta, pagar e andar sozinho no meu lotação”. Mas depois dessa experiência, acho melhor não. E se o trocador me subornar outra vez?

Catar feijão

16 de Junho de 2011, por Evaldo Balbino 0

Quando minha mãe dizia “tem que botar feijão na panela pra cozinhar”, eu ia lamentando até a lata grande de banha, que me esperava para abri-la e retirar o feijão plantado e colhido por meus irmãos e meu pai. Aquele feijão entre pedras. E eram muitas, as de duro trato!

Nas roças debaixo de um sol de matar, ouviam-se do lado de fora dos ranchos as varas vergando em mãos cheias de calo e suor. Tentei algumas vezes ajudar os meus, pegava também uma vara e tentava bater feijão como um adulto fazia. Meu esforço era muito, e o resultado era pouco. Eu achava bonito como as palhas de feijão voavam, algumas faziam curva no espaço e iam parar macaqueadas em árvores do entorno. Como eu tinha inveja de ver meus irmãos dando vergadas nos montes de palha ressequida! Nem se viam as varas como relâmpagos no ar! Mas eram audíveis os sons que faziam desde lá de cima até as batidas sobre o feijão açoitado.

Não vendo frutos do meu esforço, o que eu gostava mesmo era de agachar nas laterais do terreiro e catar os grãos tresmalhados, os sem-vergonha que ainda queriam ficar por ali, no meio da terra, para brotar mais vida no meio do mato.

Os terreiros eram batidos. Mesmo assim soltavam pedrinhas intratáveis. E eu ficava matutando por que meu pai não cimentava aqueles eirados, por que não evitava que as pedrinhas viessem incomodar a nós, pobres humanos sem propensão para degustar pedras. Somente depois é que pude entender muita coisa. Como um agricultor poderia gastar o dinheiro que não tinha? Como um meeiro poderia cimentar um pedaço de terra que não era seu? Para nossa subsistência, o feijão tinha que ser cultivado. E só metade dele é que meu pai levava para nossa despensa. O jeito era mesmo bater feijão no terreiro de terra batida!

E lá ficava eu diante da lata de banha. Uma guerra se travando. Tinha vontade de resmungar. Como enfrentar aquelas pedras medonhas, que de tão pequenas eram insuportáveis? Espertas, aproveitavam a pequenez para fugir entre feijões, até mesmo confundiam-se com eles. Mas no prato nosso de cada dia, ali quando comíamos com boca e vontade, essas pedrinhas aumentavam de tamanho a ponto de sufocar qualquer apetite. Aí vinham os xingamentos, o coro de vozes da família martelando no meu ouvido que eu era porco, que não fazia nada direito. E ninguém se condoía com minha expressão de tristeza, de fome roubada num relance.

Lembro-me de uma vez ter visto alguém numa novela catando feijão. A nossa TV era em preto e branco, e me deu uma agonia ver aqueles grãos acinzentados, numa parecença com possíveis pedrinhas no meio deles. Como se não bastasse o poder de mimetização que essas pedrinhas têm, a confusão entre pedras e grãos era aumentada demasiadamente. Resolvi nem ficar olhando muito aquelas mãos na faina perigosa, no risco de ouvirem depois que eram porcas, que não trabalhavam direito.

Tempos depois, já não morando no Ribeirão e sim em Resende Costa, passei a achar chique minha mãe levando fubá e arroz na “limpadeira do Vantuir”. As máquinas ficavam abaixo do nível da rua. Na entrada já se sentia um cheirinho gostoso de fubá que não acabava mais! Descíamos um corredor cimentado, antigo. O dono das máquinas pegava os sacos e despejava o conteúdo dentro delas. Era um barulho de dar medo. E eu achava tudo maravilhoso. Não me lembro de minha mãe levando vagens secas de feijão para limpar. Não havia máquinas para isso ali. E eu tinha que continuar em casa, separando o trigo do joio.

Hoje em dia catar feijão é mais fácil. Os pacotes chegam bonitos, trazendo grãos brilhosos, meio seda. Dá gosto vê-los com pedra quase nenhuma. Deslizo-os entre meus dedos; e se uma ou outra pedrinha tenta me enganar, pego-a de surpresa, e lhe digo a que vim, qual a minha função diante da nobre tarefa de limpar o que será comido. Jogo-a fora como quem se livra de um estorvo, de um possível incômodo.

A propósito do que estou falando, lembro aqui o poema “Catar feijão” de João Cabral de Melo Neto. O poeta, um exímio catador de palavras, buscava a pedra que “dá à frase seu grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual, / açula a atenção, isca-a com o risco”. Eu, particularmente, não gosto de tais pedras. Quero leituras fluviais e flutuantes, palavras boiando para todo lado. Quanto aos feijões, Deus me livre de pedras no meio deles! Essas eu também queria flutuando. Pegaria todas e as jogaria fora. Se tudo fosse assim desde sempre, acho que eu teria sofrido menos, não as ruminando na minha infância entre mãos e boca.

Piteiras e emplastros

10 de Abril de 2011, por Evaldo Balbino 0

As piteiras são grandes, leques abertos para o céu. Como é possível essa atenção para as nuvens, lá onde o vento as carrega, lá onde elas são arejadas e sopradas? As nuvens são mulheres espaventadas em dia de verão. Faz calor entre os terrões jogados na pirambeira do pasto do Chicão, entulhos do desaterramento em uma construção mais acima do pasto, e as nuvens lá, folgadas, leves e esvoaçantes. Ele gosta delas, atribuindo-lhes formas, modelando-as como se deseja modelar a vida. Mas o problema são os leques abertos, as piteiras que se abrem para o céu, jogando suas folhas largas para o espaço. Lançam-se, não como a espada de São Jorge contra o dragão, mas como lanças verdes e espinhentas contra não se sabe o quê.

Quando ele corta algumas dessas folhas, faz isso sem maldade nenhuma. Todavia não deixa de pensar, com ares de maldade bem ingênua, que o que faz é uma pequena vingança. As piteiras olham para as nuvens e o desdenham, e ele faz dessas piteiras seu joguete, um jogo de camicase. Transformando cada folha de borda espinhenta em prancha, ele pode brincar com a morte. E aí se sente importante, um pequeno vilão, talvez até mais formidável do que os vilões que desfilam nas telenovelas.

Como não tem mar em Minas, as ondas de terra, mato e lixo avançam barranco abaixo até morrerem como águas tranquilas lá no fundo do pasto, entre ossadas de animais domésticos, plantinhas sem-vergonha do campo e cupinzeiros rijos.

Surfar hoje promete ser uma atividade feliz. Ele é o mais rápido. Desce pela ribanceira, entre poeira e adrenalina, como um esquiador profissional. Sentado na folha convexa e oblonga, é o marujo dos mares de Minas. O aguilhão na ponta da folha segue uma direção misteriosa. Não se pode saber o que vem pela frente. Os perigos são fartos, no entanto sua coragem de marujo indomável é descomunal. Os cupinzeiros são recifes de coral erguendo-se das águas. Com mãos fortes e ágeis, ele guina a ponta da piteira ora para a direita ora para a esquerda. Assim, desvia a embarcação de todos os obstáculos. As pequenas ossadas são perigosos monstros marinhos, dos quais o garoto se desvencilha astuciosamente.

E se um polvo enorme o abraçar com tentáculos mortais, como viu certa vez na capa de Vinte mil léguas submarinas? Se aqueles marinheiros criam no monstro, por que ele não pode também acreditar? Se for atacado, não terá problemas! Os espinhos da piteira serão seu livramento. O grande molusco perderá seu tempo, pois, no contato com os espinhos, haverá de afastar-se amedrontado e com dor.

O trajeto pelo qual desce o menino não é tão longo. Porém na infância tudo é imenso. Um mata-burro que se atravessa é uma ponte desmedida, ligando até mesmo mundos distantes e distintos, galáxias diferentes. Enquanto singra os mares de um Júlio Verne, eis que a folha de piteira se choca com uma pedra, e o garoto é arremessado nas águas, ou melhor, na terra.

Vai rolando entre poeira e medo, folhas secas, papéis descartados, terra dura e pedras intratáveis. Quando definitivamente para, seu pé direito bate-se contra uma pedra. E a dor é maior do que o medo. É terrível, contudo ainda é a garantia de que está vivo. Chora o menino, e só consegue voltar para casa amparado nos braços dos amigos.

A mãe pensa em gritar, puxar-lhe a orelha. Mas a compaixão aplaina o furor. Os cuidados requerem a primazia. Se não há remédio para as capetices de uma criança saudável, há que se buscar a cura para o pé torcido, inchado e vermelho.

A vizinha Trindade chega bisbilhoteiramente no quarto em que depositaram o acidentado. Ela vem com bafo de pito de palha, afora dois outros pitos atrás de suas grandes orelhas, um em cada uma. Chega calma, como se na vida tudo acontecesse em câmara lenta. Olha com seus olhos grandes para o menino e receita para a mãe: emplastro de minhoca frita com alho roxo.

À revelia dos enjoos e das caretas do filho, a mãe segue o conselho, amarrando-lhe no tornozelo o pano cheio da gosma fedorenta. Nem sobra no pensamento do menino espaço para ter pena das minhocas, tamanha a náusea que o aflige.

Choramingando, o audaz navegante vai adormecendo. Vai caindo no sono à medida que a dor some. E sonha. Imagina coisas que não sabe e que ainda lerá um dia: Brás Cubas quis ficar afamado com a invenção de um emplastro miraculoso e nunca produzido. Já a mãe do menino e Dona Trindade fazem bizarros emplastros, vivem sem nunca pensar na fama e nem por isso deixam de ser famosas. Famosas pelas mãos que agora as escrevem.


Crônica de um educador

14 de Marco de 2011, por Evaldo Balbino 0

Assisti outro dia a um evento na Universidade Federal de Minas Gerais. Tratou-se da entrega de diplomas e medalhas a alunos vencedores da Olimpíada Mineira de Química de 2010: a OMQ, sigla entre outras siglas, esta mania de batizar, num relâmpago, muito do que existe.

O que pude presenciar desde o início da cerimônia foi um triste índice. Triste e óbvio para as mentes antenadas de hoje. Não me lembro aqui de números, mas digo do que presenciei. Falou-se da quase ausência de escolas do lado norte de Minas Gerais nas Olimpíadas. Para cima de Belo Horizonte, praticamente nenhuma instituição de ensino marcou comparecimento no processo.

Tudo bem que se discutiu sobre futuros projetos nos quais buscarão a entrada de tais estabelecimentos na OMQ. Sobre outro fato, no entanto, ninguém nada comentou. O de que praticamente 100% das escolas premiadas são da rede privada de ensino e, espantosamente, situadas em Belo Horizonte. Centramentos políticos e outros centramentos andam de fato juntos.

Nomes conhecidos de escolas desfilaram perante os olhos e os ouvidos da plateia, composta em sua maioria por alunos e seus familiares. Não cito nomes, pois talvez isso não seja politicamente correto. Além disso, propagandas como as que presenciamos são insuperáveis. Basta dizer que são escolas da nata econômica da capital mineira. A exceção ficou por conta de algumas poucas escolas estaduais e uma municipal.

Diplomas de honra ao mérito, medalhas de bronze, prata e ouro foram distribuídos. Não faltaram, em alguns momentos, cumprimentos característicos entre alunos de colégios militares e um professor também militar. Confesso que, diante de tais saudações, eu teria me emocionado se tudo tivesse acontecido sob os auspícios parnasianos do Hino Nacional. Nada contra o Hino, que é belíssimo a despeito de suas ideologias equivocadas. Mas miro sempre de soslaio essas pantomimas engraçadas que andaram inventando no passado e que ainda hoje muitos papagaios repetem. É sinal de respeito, defendem. E fico me perguntando o que entendem pelo verdadeiro respeito.

As exceções são sempre atraentes. E eis que um desses alunos militares quebrou o protocolo, passando pelo professor militar e cumprimentando-o educadamente como fazem os mortais: deu-lhe apenas um aperto de mão.

Falando ainda das exceções, cheguemos agora à escola municipal, a bendita fruta entre as “maiores”. Ao final do evento, uma professora, que doravante é a coordenadora da OMQ, fez uma homenagem às escolas cujo maior número de alunos obteve diplomas e medalhas. Citou a Escola Municipal Paula Assis, cravada no povoado onde nasci há 34 anos, o Ribeirão de Santo Antônio. E falou das condições da zona rural, da ausência de telefone e de outras modernidades, fatos esses que não impediram o mérito de um aluno ali ter obtido uma medalha de bronze. O nome da escola, diferentemente dos demais nomes, foi projetado todo ele em letras maiúsculas numa tela diante dos nossos olhos. Quando a diretora Virgínia foi pegar o troféu dado à escola, a plateia bateu palmas mais fortes e mais duradouras.

Confesso que neste momento, o das palmas destacadas, me emocionei muito. E não se trata aqui de bajular o meu sobrinho Rodrigo, o ganhador da medalha de bronze, a Eunice, sua professora de Química também homenageada, nem a Escola Paula Assis, que recebeu um bonito troféu. Eles não precisam disso, e tampouco eu preciso me sujeitar a tal atitude. O que busco é parabenizá-los como se faz a uma equipe que trabalha. E o mesmo faço em relação a todas as escolas públicas do país. Essas escolas, computando aqui as minhas eternas Escola Estadual Assis Resende e Escola Estadual Conjurados Resende Costa, contam com professores e alunos que realmente querem chegar a algum lugar e que estudam para isso.

Esta crônica não vem apenas das mãos de um parente do aluno premiado ou de um conterrâneo da escola galardoada. Do mesmo modo ela não vem de um binarista, que sai por aí acusando escolas particulares de Lobo Mal e defendendo as escolas públicas como se fossem pobres cordeiros. Toda escola é bem-vinda e não sou de um marxismo reducionista. Esta crônica vem é das mãos de um educador. De alguém que acredita em sonhos possíveis. De alguém com a consciência de que para sonhar não se paga, bastando apenas (o que já é muito) arregaçar as mangas e correr atrás dos sonhos. E tudo isso, apesar de tudo. Um tudo que se resume nos descasos que vêm sofrendo nossas escolas públicas há tempos.

De animais e de gentes

14 de Fevereiro de 2011, por Evaldo Balbino 0

Cravada em terra úmida, uma cruz parece falar em silêncio. Sem nome, acabou de ser batizada com um número, 305. Mais um entre centenas de outros que registraram as mortes neste janeiro de 2011, na região serrana do Rio de Janeiro. Iniciamos o ano com tristes índices, que não se devem apenas a catástrofes naturais, mas que se relacionam ao crescimento desordenado de nossas metrópoles. As casas instáveis, à beira de barrancos e abismos, dizem das instabilidades humanas e, no caso, da vulnerabilidade econômica e social de muitas pessoas.

Voltemos à cruz com seu número. Ao lado dela, pelo que vejo numa foto que está circulando pela mídia, um maior silêncio jaz, deitado, com os olhos perdidos sabe-se lá onde e com as patas plantadas na terra molhada. Chamaram-no de Caramelo. É um cachorro bonito, vira-lata dos bons, rente à sepultura de Cristina M. C. Santana, supostamente sua dona, morta em consequência da catástrofe que atingiu Teresópolis.

Caramelo já foi adotado por uma família que vive na Barra da Tijuca. Esse nome tem mesmo a ver com sua cara, com sua cor de um marrom inequívoco. O cão já está a salvo e o drama é passado, segundo afirmam alguns. Mas a fotografia ficou. Tanto que ela deu o que falar pela internet.

Olhemos mais uma vez a fotografia. O silêncio do cão é mais rumoroso que o da cruz. Ela é de madeira, objeto sem vida sobre a morte. O cachorro é vida pura, silenciosa, velando a vida que não deveria ter ido embora. Velar a morte inesperada, desnecessária como muitas mortes, e assisti-la em silêncio como faz o nosso quadrúpede, é um ato que substitui qualquer discurso de dor e qualquer palavrório político. O cachorro fala com seus olhos e com seu corpo deitado sobre a terra. Diz sobre saudade, tristeza, apego, amor. Não interessa que falem tratar-se de um animal que não pertencia ao corpo da mulher ali inumada. Sabemos que é um cão, um ser velando a morte e lamentando a perda da vida.

Somaram-se às especulações sobre a imagem alguns comentários que o colunista Michel Blanco, no dia 25 de janeiro, postou na internet, mostrando-se indignado, e com razão, pelas mortes e pelos desalojados no Rio de Janeiro. O comentador, entretanto, pagando um tributo à defesa do ser humano, achou por bem execrar o que ele chama de humanização excessiva dos animais. Fala de uma “atenção exagerada aos cães desabrigados pela tragédia”, zelo que toma a cena do que deveria estar no centro do palco: o fato de que “quase três mil crianças estavam sem casa só em Teresópolis”. Ecoando o lema “troque seu cachorro por uma criança pobre”, da canção Rock da cachorra de Leo Jaime, o autor denuncia o pouco valor que damos à infância, já que “a cachorrada chegou antes à condição de vítima”.

Argumentando que “somos cada vez mais ridículos no trato com animais de estimação, elevados à condição de filho mimado”, o colunista alega que “humanizamos a relação com os bichos ao mesmo tempo em que é lugar comum da vida urbana queixar-se da deterioração de relações interpessoais”.

Comuns entre as gentes, tais ideias não me assustam. Blanco, pelo visto, pensa enfaticamente nas relações entre pessoas, esquecendo que todos nós somos também animais. Por que insistimos tanto em olvidar esse fato?

“Animalesco” é sinônimo de selvageria, vandalismo, estado regressivo no seio das evoluções. Assim caracterizamos a conduta de humanos em diversas situações: “aquele homem é um animal”, “sua atitude é animalesca”, e assim por diante. Agora, quando afirmamos “aquele cão age como gente, é educado, parece humano”, não estaríamos mitificando o comportamento humano?

Não estou execrando os cuidados com os humanos e defendendo apenas cães, gatos e bois. Somos também animais, gados entre gados. Se nos julgamos mais preparados para entender a vida (suas vulnerabilidades físicas, psíquicas e espirituais), eis aí um motivo para endossarmos aquilo que chamamos de humanismo, humanidade ou seja lá o que for.

Protejamo-nos uns aos outros, mas também amemos as outras vidas que comungam conosco as felicidades e as adversidades da existência. Todos nós animais possuímos coração e sentimento, temos dor biológica e psíquica. Existindo como todos nós, os amigos animais podem também provar que somos bons. Afinal, como afirmou o filósofo Arthur Schopenhauer, “a compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”.