Brancas nuvens
14 de Marco de 2011, por José Antônio 0
Mais uma edição do BBB. Onze anos no ar. Tenho o orgulho de dizer que nunca, jamais em minha vida vi um só minuto desse programa. Nunca vi a cara de uma dessas figuras. Sou ocupado convicto e não tenho tempo para prestar atenção a desocupados convictos.
Pelo que sei, ganha quem fica mais tempo entregue à vagabundagem e à intriga. Isso não é novidade em nosso país, até mesmo nos altos escalões. O que me preocupa é a lição de casa que o povo aprende: vale a pena ser vagabundo.
Comida paga, piscina liberada, academia de ginástica, fama, dinheiro, luxo... E tudo isso sem precisar trabalhar. É só ficar seminu e batendo papo, jogando uns contra os outros. Reality show... Pra mim, deveria ser reality shower, ou seja, dar uma chuveirada nessa lambança de realidade.
Dizem também que o BBB é a vitrine da Playboy. E aí fica aquele negócio: uma parte é vagabunda e a outra é bunda vaga.
Fico pensando nessa garotada de cabeça fácil que acompanha esse lixo pela TV. Essa mesma garotada se diz cabeça aberta. Concordo: a cabeça é tão aberta que entra qualquer porcaria. E o que entra fecha a cabeça por dentro. Com isso, os olhos não veem o subliminar, os ouvidos não escutam o subentendido e a inteligência boceja até dormir com pijama de burro. E todos dormem tranquilos na inteligência rasa da aldeia global.
Voltando ao pessoal do programa: pessoal que fica confinado ao conforto e ao nada que fazer. Pois é, viram celebridades. Ainda bem que são celebridades rápidas, tão fugazes que no ano seguinte ninguém se lembra mais delas. Pelo menos, há algo positivo nisso: as celebridades são celeridades.
Viva o à toa! Viva a ociosidade! Viva o vazio cultural! Viva o programa que fez voto de pobreza: pobreza de princípios.
Faço parte de uma pequena parcela que pode pagar por uma televisão de alguma qualidade. Sou privilegiado por não ser obrigado a me entorpecer com tanta droga midiática. Há tempos que não sei o que é canal aberto. Não é novidade: aquilo que é de graça para o povo só pode ser de baixa qualidade. Não quero nem vou engolir goela abaixo o sabor amargo do BBB: Boçalidade, Baboseira e Baixaria.
Não sei a quantas anda o tal programa, se está no meio ou no fim. É mais um que vai passar em brancas nuvens.
Você pode me perguntar se são brancas nuvens mesmo. Se não tomo conhecimento desse programinha, então por que estou falando dele? Simples: é que ontem alguém me falou que o BBB desse ano está sendo o pior em termos de audiência. Então resolvi colocar o que está virando nada nas minhas nuvens brancas. E o tal do BBB continua sendo um nada navegando em outro nada.
Pelo que sei, ganha quem fica mais tempo entregue à vagabundagem e à intriga. Isso não é novidade em nosso país, até mesmo nos altos escalões. O que me preocupa é a lição de casa que o povo aprende: vale a pena ser vagabundo.
Comida paga, piscina liberada, academia de ginástica, fama, dinheiro, luxo... E tudo isso sem precisar trabalhar. É só ficar seminu e batendo papo, jogando uns contra os outros. Reality show... Pra mim, deveria ser reality shower, ou seja, dar uma chuveirada nessa lambança de realidade.
Dizem também que o BBB é a vitrine da Playboy. E aí fica aquele negócio: uma parte é vagabunda e a outra é bunda vaga.
Fico pensando nessa garotada de cabeça fácil que acompanha esse lixo pela TV. Essa mesma garotada se diz cabeça aberta. Concordo: a cabeça é tão aberta que entra qualquer porcaria. E o que entra fecha a cabeça por dentro. Com isso, os olhos não veem o subliminar, os ouvidos não escutam o subentendido e a inteligência boceja até dormir com pijama de burro. E todos dormem tranquilos na inteligência rasa da aldeia global.
Voltando ao pessoal do programa: pessoal que fica confinado ao conforto e ao nada que fazer. Pois é, viram celebridades. Ainda bem que são celebridades rápidas, tão fugazes que no ano seguinte ninguém se lembra mais delas. Pelo menos, há algo positivo nisso: as celebridades são celeridades.
Viva o à toa! Viva a ociosidade! Viva o vazio cultural! Viva o programa que fez voto de pobreza: pobreza de princípios.
Faço parte de uma pequena parcela que pode pagar por uma televisão de alguma qualidade. Sou privilegiado por não ser obrigado a me entorpecer com tanta droga midiática. Há tempos que não sei o que é canal aberto. Não é novidade: aquilo que é de graça para o povo só pode ser de baixa qualidade. Não quero nem vou engolir goela abaixo o sabor amargo do BBB: Boçalidade, Baboseira e Baixaria.
Não sei a quantas anda o tal programa, se está no meio ou no fim. É mais um que vai passar em brancas nuvens.
Você pode me perguntar se são brancas nuvens mesmo. Se não tomo conhecimento desse programinha, então por que estou falando dele? Simples: é que ontem alguém me falou que o BBB desse ano está sendo o pior em termos de audiência. Então resolvi colocar o que está virando nada nas minhas nuvens brancas. E o tal do BBB continua sendo um nada navegando em outro nada.
Ovo podre
14 de Fevereiro de 2011, por José Antônio 0
Nunca duvidei de três coisas quanto ao Mário Márcio: ele é meu amigo, ele toca maravilhosamente o violão, ele é teimoso. Pois o meu teimoso violeiro amigo conseguiu desovar uma situação indigesta que quase arrebentou as cordas do seu intestino. Tudo por causa da teimosia.
Estávamos em casa depois das aulas Marcos eu e o Mário. Era tarde e o Mário cismou de fritar um ovo.
– Mário, já vai dar meia-noite...
– E daí? Ovo é ovo de dia e de noite. Além disso, não tem geladeira aqui e esse ovo está dando sopa há semanas. Se não for agora, é nunca mais. Não vou desperdiçar esse ovo.
Tentei uma última ponderação:
– Antes, vamos colocar o ovo numa panela com água. Se o ovo boiar, então ele está podre.
O Marcos encheu uma caçarola e mergulhou o ovo. Ele voltou à tona rapidamente. A operação foi repetida e, mais uma vez, o ovo boiou. Marcos ainda achou ânimo para dar uma explicação da física quanto ao fenômeno do ovo boiativo... mas o Mário insistia em comer aquele ovo que tinha despencado da cloaca da galinha numa semana já perdida no tempo.
– Mário, o ovo está até meio verde.
– Tem ovo que é assim mesmo.
Nem mesmo uma curetagem no zigoto convenceria o meu amigo. Em poucos minutos, o ovo estava frito. Cheirava bem e mal ao mesmo tempo. Mário comeu e ainda jogou catchup por cima. Depois foi tocar violão.
No dia seguinte, o destino deu um show de ironia e sadismo. Mário ganhou, no Assis Resende, um bolo que uma aluna fez especialmente para ele. O confeito foi levado para nossa casa depois das aulas. Porém, o Mário não conseguiu comer. Contorcia-se de dor, estava pálido, pontadas no abdômen... era o ovo podre! Nem queria olhar para o bolo. Marcos sugeriu que ele passasse catchup no bolo, quem sabe?
O negócio foi parar no hospital. Com isso, Mário pegou um afastamento... um período mais ou menos igual ao que a galinha leva para chocar um ovo.
Quando retornou, teve que conviver com aquela coisa de provar que focinho de porco não é tomada nem Tratado de Tordesilhas é tarado atrás das ilhas: a escola toda jurava que a menina do bolo era terrorista e a menina do bolo jurava que jamais pensou em matar o Mário.
Meu amigo veio me procurar para saber como ele se sairia daquela.
– Deixe pra lá, Mário. Se mexer com isso, não vai demorar e você terá uma granja só de ovo podre.
O tempo passou. Um a um, fomos saindo de Resende Costa e seguindo outros rumos. Quanto a mim, jamais fiquei sabendo quem é a menina do bolo. Caso você esteja lendo essas linhas, menina do bolo, saiba que jamais teve culpa de coisa alguma. Foi tudo culpa do ovo podre.
... mas o Mário ainda insiste que a culpa foi do catchup.
Estávamos em casa depois das aulas Marcos eu e o Mário. Era tarde e o Mário cismou de fritar um ovo.
– Mário, já vai dar meia-noite...
– E daí? Ovo é ovo de dia e de noite. Além disso, não tem geladeira aqui e esse ovo está dando sopa há semanas. Se não for agora, é nunca mais. Não vou desperdiçar esse ovo.
Tentei uma última ponderação:
– Antes, vamos colocar o ovo numa panela com água. Se o ovo boiar, então ele está podre.
O Marcos encheu uma caçarola e mergulhou o ovo. Ele voltou à tona rapidamente. A operação foi repetida e, mais uma vez, o ovo boiou. Marcos ainda achou ânimo para dar uma explicação da física quanto ao fenômeno do ovo boiativo... mas o Mário insistia em comer aquele ovo que tinha despencado da cloaca da galinha numa semana já perdida no tempo.
– Mário, o ovo está até meio verde.
– Tem ovo que é assim mesmo.
Nem mesmo uma curetagem no zigoto convenceria o meu amigo. Em poucos minutos, o ovo estava frito. Cheirava bem e mal ao mesmo tempo. Mário comeu e ainda jogou catchup por cima. Depois foi tocar violão.
No dia seguinte, o destino deu um show de ironia e sadismo. Mário ganhou, no Assis Resende, um bolo que uma aluna fez especialmente para ele. O confeito foi levado para nossa casa depois das aulas. Porém, o Mário não conseguiu comer. Contorcia-se de dor, estava pálido, pontadas no abdômen... era o ovo podre! Nem queria olhar para o bolo. Marcos sugeriu que ele passasse catchup no bolo, quem sabe?
O negócio foi parar no hospital. Com isso, Mário pegou um afastamento... um período mais ou menos igual ao que a galinha leva para chocar um ovo.
Quando retornou, teve que conviver com aquela coisa de provar que focinho de porco não é tomada nem Tratado de Tordesilhas é tarado atrás das ilhas: a escola toda jurava que a menina do bolo era terrorista e a menina do bolo jurava que jamais pensou em matar o Mário.
Meu amigo veio me procurar para saber como ele se sairia daquela.
– Deixe pra lá, Mário. Se mexer com isso, não vai demorar e você terá uma granja só de ovo podre.
O tempo passou. Um a um, fomos saindo de Resende Costa e seguindo outros rumos. Quanto a mim, jamais fiquei sabendo quem é a menina do bolo. Caso você esteja lendo essas linhas, menina do bolo, saiba que jamais teve culpa de coisa alguma. Foi tudo culpa do ovo podre.
... mas o Mário ainda insiste que a culpa foi do catchup.
Cursinho pré-vestibular
10 de Janeiro de 2011, por José Antônio 0
Não me lembro de quem partiu a ideia. Só sei que a coisa foi crescendo e o monstrengo já estava formado: o tal do cursinho pré-vestibular.
Monstrengo, pois o negócio era um Frankstein. Um apanhado de professores, cada um com uma pedagogia deferente, como se fossem membros variados de corpos diversos formando um todo desengonçado e assustador. Típica inserção de Mary Shelley no terror escolar.
O cursinho tinha diretor, o que não tinha era direção. O diretor era mais conselheiro honorário do que administrador. Na primeira reunião não apareceu. Na segunda mandou um substituto. Na terceira fomos todos pra casa dele sem avisar: só assim a reunião poderia acontecer.
Durante a reunião, o diretor mais parecia um gato na piscina, de tão apavorado. Ainda mais porque já havia trinta alunos matriculados e esperançosos. Depois de muitas perguntas sem respostas, a escalação do corpo docente apareceu. Porém, faltava professor para biologia. Sugere daqui, discorda dali, até que o diretor apresentou uma solução: dentre os matriculados, havia um aluno que era fera em biologia. Então, o rapaz poderia lecionar a tal disciplina e ser aluno, tudo ao mesmo tempo, e ele teria um bom desconto em sua mensalidade.
Pobre cursinho! Já começou esquizofrênico. O aluno de biologia é aluno e não é aluno... o professor de biologia é professor e não é professor.
Todos acharam um absurdo, inclusive o diretor. Mas era a única saída, uma vez que os alunos já estavam cobrando o início das aulas. E num rasgo de estupidez conjunta, a ideia foi aceita. O corpo docente franksteiniano já estava montado.
O primeiro dia de aula foi marcado para a próxima segunda-feira. Fiel ao seu estilo social, o diretor não compareceu devido a exames médicos – a bem da verdade, ele iria a um laboratório pegar o resultado de seu exame de fezes. Assim, logo na estreia, o cursinho iria se apresentar lá sem direção.
Lá onde? Outra pergunta sem resposta. Não havia local para o cursinho funcionar. E aí veio uma lista imensa de imóveis adaptáveis: garagem, sacristia da igreja, salão paroquial, boteco desativado, casa de algum parente solitário... O último imóvel da lista era a capelinha do cemitério de cima.
Depois de algumas negociações, a Lilia Lara – então diretora – permitiu que o cursinho funcionasse no Conjurados. No primeiro dia, sala lotada. Na segunda semana, sala pela metade. Na terceira semana, apenas cinco alunos. Na quarta semana, apenas o diretor apareceu por lá, para apagar as luzes. Todos tínhamos desistido.
Já vai longe esse ano de 1986. Ainda tenho comigo a lista dos alunos. Vejo ainda o rosto ansioso de cada um em minha memória, assentados nas carteiras e querendo passar no vestibular. Vejo ainda o rosto revoltado de cada um em minha memória, postados em fila e querendo o dinheiro de volta.
O cursinho não foi pra frente, nenhum professor recebeu uma só gratificação e ainda tivemos que ressarcir os alunos.
Quanto ao resultado do exame do nosso diretor...ele estava contaminado pela Entamoeba histolytica. Em outras palavras, o cara tinha uma ameba de estimação. Mas já está curado.
Monstrengo, pois o negócio era um Frankstein. Um apanhado de professores, cada um com uma pedagogia deferente, como se fossem membros variados de corpos diversos formando um todo desengonçado e assustador. Típica inserção de Mary Shelley no terror escolar.
O cursinho tinha diretor, o que não tinha era direção. O diretor era mais conselheiro honorário do que administrador. Na primeira reunião não apareceu. Na segunda mandou um substituto. Na terceira fomos todos pra casa dele sem avisar: só assim a reunião poderia acontecer.
Durante a reunião, o diretor mais parecia um gato na piscina, de tão apavorado. Ainda mais porque já havia trinta alunos matriculados e esperançosos. Depois de muitas perguntas sem respostas, a escalação do corpo docente apareceu. Porém, faltava professor para biologia. Sugere daqui, discorda dali, até que o diretor apresentou uma solução: dentre os matriculados, havia um aluno que era fera em biologia. Então, o rapaz poderia lecionar a tal disciplina e ser aluno, tudo ao mesmo tempo, e ele teria um bom desconto em sua mensalidade.
Pobre cursinho! Já começou esquizofrênico. O aluno de biologia é aluno e não é aluno... o professor de biologia é professor e não é professor.
Todos acharam um absurdo, inclusive o diretor. Mas era a única saída, uma vez que os alunos já estavam cobrando o início das aulas. E num rasgo de estupidez conjunta, a ideia foi aceita. O corpo docente franksteiniano já estava montado.
O primeiro dia de aula foi marcado para a próxima segunda-feira. Fiel ao seu estilo social, o diretor não compareceu devido a exames médicos – a bem da verdade, ele iria a um laboratório pegar o resultado de seu exame de fezes. Assim, logo na estreia, o cursinho iria se apresentar lá sem direção.
Lá onde? Outra pergunta sem resposta. Não havia local para o cursinho funcionar. E aí veio uma lista imensa de imóveis adaptáveis: garagem, sacristia da igreja, salão paroquial, boteco desativado, casa de algum parente solitário... O último imóvel da lista era a capelinha do cemitério de cima.
Depois de algumas negociações, a Lilia Lara – então diretora – permitiu que o cursinho funcionasse no Conjurados. No primeiro dia, sala lotada. Na segunda semana, sala pela metade. Na terceira semana, apenas cinco alunos. Na quarta semana, apenas o diretor apareceu por lá, para apagar as luzes. Todos tínhamos desistido.
Já vai longe esse ano de 1986. Ainda tenho comigo a lista dos alunos. Vejo ainda o rosto ansioso de cada um em minha memória, assentados nas carteiras e querendo passar no vestibular. Vejo ainda o rosto revoltado de cada um em minha memória, postados em fila e querendo o dinheiro de volta.
O cursinho não foi pra frente, nenhum professor recebeu uma só gratificação e ainda tivemos que ressarcir os alunos.
Quanto ao resultado do exame do nosso diretor...ele estava contaminado pela Entamoeba histolytica. Em outras palavras, o cara tinha uma ameba de estimação. Mas já está curado.
Papai Noel...? Tô fora!
14 de Dezembro de 2010, por José Antônio 0
Pra começar, a festa nem dele é. O Papai Noel entrou de gaiato no Natal e se deu bem. O Aniversariante fica esquecido e o obeso risonho de barbas brancas posa de pop star com o saco nas costas.
Uns não gostam de limão... outros não gostam de jiló... tem gente que não gosta de samba... mais alguns detestam funk... Ora, eu também tenho o direito de não gostar de alguma coisa. Papai Noel... sei lá, nunca me afinei muito bem com ele.
Pra mim, esse cara é um fintão. Tem menino que pede bicicleta e ganha uma bermuda. Já vi menina escrevendo carta caprichadinha, papel rosa e cheirinho de morango, pedindo computador. E lá vem um fogãozinho com panelinha de plástico.
Isso sem falar nas fintas que o velhinho dá nas criancinhas pobres. Elas também escrevem cartas pro Papai Noel. E é cada presente que elas pedem... E o velhinho nem tchum! Tem criança pobre que pede carrinho e no dia do Natal o pai continua desempregado. Há criança pobre que pede boneca e no dia seguinte a mãe, que abandonou a família, ainda não voltou.
São coisas do bom velhinho. Bom velhinho... bom pra quem? Pros lojistas, é claro. O Papai Noel até pode trazer presentes, mas ele deixa tudo nas lojas pra gente comprar.
Além disso, Papai Noel pra mim é meio sem noção. Dezembro no Brasil: calor rachando o pepino, sol tostando a mamona, seca pra tudo quanto é lado, malária, dengue, febre terçã... e o homem aparece por aqui todo agasalhado, de touca e luvas de frio. Olho pra ele e tenho sintomas de insolação.
Papai Noel brasileiro tinha que ser do nosso jeito. Pra começar, nada de aparecer como se fosse um bombeiro fora de forma. Ele viria de calção e sem camisa, chinelo havaiana e um copo de cachaça. Só mesmo tungado é que ele entraria nessa de entregar presente pra todo mundo. Trenó? Nem pensar. Viria de busão e vale-transporte. Do seu saco, ele tiraria um pandeiro, um cavaquinho e um surdo. Encharcaria todo mundo de pinga. Depois era só mandar um Jingle Bell num ritmo de pagode e estaria todo mundo conversado. Inclusive, teríamos dois natais: um em dezembro e outro em fevereiro.
Não sei quem trouxe o Papai Noel pro Brasil. Devem ser os mesmos que trouxeram o Michael Jackson, o Paul McCartney, o Queen, o Frank Sinatra... Todos esses conheceram o Reino Desencantado de Tupiniquim, mas foram embora depressa. Nunca mais falaram do Brasil. Só o gordo do trenó é que teima em voltar. Vai ver que esses caras do show bizz pagam uma nota rechonchuda pro rechonchudo.
Não é à toa que ele sempre passa no céu com aquela risada irritante: Oh! Oh! Oh! No mínimo, ele está levando algum. Ninguém ri assim com tanto gosto metido num modelito de Polo Norte e tostando na fornalha tropical.
Por outro lado, lembrar-se do Aniversariante é também lembrar-se de que existem injustiças... é lembrar-se do perdão que a gente não dá... das traições que a gente faz... dos amores que a gente amordaça... das guerras que a gente semeia... do agradecimento que a gente não faz... E todo mundo vai preferindo colocar essas coisas todas dentro do saco do Papai Noel pra ele levar embora.
Fica dentro de nós um vazio estranho. A gente quer chorar e não sabe por quê. E lá no céu, alguém ri: Oh! Oh! Oh!
Uns não gostam de limão... outros não gostam de jiló... tem gente que não gosta de samba... mais alguns detestam funk... Ora, eu também tenho o direito de não gostar de alguma coisa. Papai Noel... sei lá, nunca me afinei muito bem com ele.
Pra mim, esse cara é um fintão. Tem menino que pede bicicleta e ganha uma bermuda. Já vi menina escrevendo carta caprichadinha, papel rosa e cheirinho de morango, pedindo computador. E lá vem um fogãozinho com panelinha de plástico.
Isso sem falar nas fintas que o velhinho dá nas criancinhas pobres. Elas também escrevem cartas pro Papai Noel. E é cada presente que elas pedem... E o velhinho nem tchum! Tem criança pobre que pede carrinho e no dia do Natal o pai continua desempregado. Há criança pobre que pede boneca e no dia seguinte a mãe, que abandonou a família, ainda não voltou.
São coisas do bom velhinho. Bom velhinho... bom pra quem? Pros lojistas, é claro. O Papai Noel até pode trazer presentes, mas ele deixa tudo nas lojas pra gente comprar.
Além disso, Papai Noel pra mim é meio sem noção. Dezembro no Brasil: calor rachando o pepino, sol tostando a mamona, seca pra tudo quanto é lado, malária, dengue, febre terçã... e o homem aparece por aqui todo agasalhado, de touca e luvas de frio. Olho pra ele e tenho sintomas de insolação.
Papai Noel brasileiro tinha que ser do nosso jeito. Pra começar, nada de aparecer como se fosse um bombeiro fora de forma. Ele viria de calção e sem camisa, chinelo havaiana e um copo de cachaça. Só mesmo tungado é que ele entraria nessa de entregar presente pra todo mundo. Trenó? Nem pensar. Viria de busão e vale-transporte. Do seu saco, ele tiraria um pandeiro, um cavaquinho e um surdo. Encharcaria todo mundo de pinga. Depois era só mandar um Jingle Bell num ritmo de pagode e estaria todo mundo conversado. Inclusive, teríamos dois natais: um em dezembro e outro em fevereiro.
Não sei quem trouxe o Papai Noel pro Brasil. Devem ser os mesmos que trouxeram o Michael Jackson, o Paul McCartney, o Queen, o Frank Sinatra... Todos esses conheceram o Reino Desencantado de Tupiniquim, mas foram embora depressa. Nunca mais falaram do Brasil. Só o gordo do trenó é que teima em voltar. Vai ver que esses caras do show bizz pagam uma nota rechonchuda pro rechonchudo.
Não é à toa que ele sempre passa no céu com aquela risada irritante: Oh! Oh! Oh! No mínimo, ele está levando algum. Ninguém ri assim com tanto gosto metido num modelito de Polo Norte e tostando na fornalha tropical.
Por outro lado, lembrar-se do Aniversariante é também lembrar-se de que existem injustiças... é lembrar-se do perdão que a gente não dá... das traições que a gente faz... dos amores que a gente amordaça... das guerras que a gente semeia... do agradecimento que a gente não faz... E todo mundo vai preferindo colocar essas coisas todas dentro do saco do Papai Noel pra ele levar embora.
Fica dentro de nós um vazio estranho. A gente quer chorar e não sabe por quê. E lá no céu, alguém ri: Oh! Oh! Oh!
Sono
12 de Novembro de 2010, por José Antônio 0
Era dia 29 de setembro de 1992. Naquela terça-feira, o Collor tinha sofrido o impeachment lá em Brasília. Até hoje não sei quem ganhou com isso. Os artistas mudaram, mas o circo continua o mesmo. Não existem mais os caras-pintadas, porém o povo continua aquele velho palhaço de sempre.
No final da aula daquele dia, um casal de alunos me parou no portão da escola. Eram namorados e estavam tocando juntos um comércio na cidade. Iriam fazer um concurso e queriam aulas particulares comigo.
– Não tem como. Dou aula de segunda a sexta, de seis às dez e meia da noite.
Estavam dispostos a tudo. Até mesmo aulas depois das aulas.
– É muito puxado. Já terão trabalhado o dia inteiro e ainda virão da escola, depois de cinco aulas. A gente só vai terminar depois de meia-noite.
Aceitaram. Aceitei. Aceitamos.
As aulas aconteceriam num cômodo do pai da garota. Era um lugar apertado, cheio de coisas. Um tear, vários rolos de fios, panos e panos, umas caixas de papelão que eu nunca soube o que havia dentro, algumas latas de leite, três bicicletas, uma moto, gaiolas e um cachorro. No meio desse sarapatel doméstico, uma tábua esverdeada que imitava um quadro-negro. Ela era apoiada numa mesa velha debaixo da qual o cachorro dormia. O casal se assentava em uma mesinha e eu ficava de pé.
Nas duas primeiras noites ninguém dormiu. Nem o cachorro. Esse, inclusive, sempre que eu chegava, rosnava lá debaixo da mesa. Vai ver que dormia cedo e agora tinha que ficar acordado até de madrugada ouvindo coisas que jamais iria entender.
Lá pela quinta noite, comecei a perceber que a garota já dava uns cochilos longos. Virava a cabeça pra trás, abria a boca, roncava e, num sobressalto, acordava. Voltava ao normal, olhando constrangida ao redor. O rapaz não ficava atrás. Ou melhor, ficava do lado. Uma vez, os dois dormiram tanto um ao lado do outro que suas cabeças se chocaram.
– Gente, isso não vai dar certo. Vocês querem continuar mesmo?
Numa das últimas noites, o rapaz me fez um pedido estranho:
– Professor, será que você pode nos acordar quinze pra meia-noite? É que a gente tá cansado mesmo.
Olhei o relógio: onze e quinze. Queriam dormir meia hora. Fiquei parado trinta minutos esperando o casal dormir. No horário certo, acordei os dois e a aula continuou.
Teriam a doença do sono? Em Resende Costa havia focos da mosca tsé-tsé? Ou estavam dormindo por causa das minhas aulas? Existe a “narcolepsia didática”?
No último dia, deram-me um café com bolo e me pagaram. Não quis aceitar, pois o que eles não fizeram foi participar das aulas. Somente dormiram. O rapaz insistiu, com farelos de bolo espalhados pela boca:
– Que isso, professor? Você teve boa vontade com a gente. Não foi, bem? – e deu uma cutucada no braço da garota, que, por sinal, acordou.
Aceitei o dinheiro, mas não fiquei com ele. No dia seguinte, dei-o a uma instituição de caridade. A atendente pegou o dinheiro, sorriu e me agradeceu dizendo:
– Que bom! Estamos precisando comprar uma cama. Tem gente que está dormindo muito mal por aqui.
No final da aula daquele dia, um casal de alunos me parou no portão da escola. Eram namorados e estavam tocando juntos um comércio na cidade. Iriam fazer um concurso e queriam aulas particulares comigo.
– Não tem como. Dou aula de segunda a sexta, de seis às dez e meia da noite.
Estavam dispostos a tudo. Até mesmo aulas depois das aulas.
– É muito puxado. Já terão trabalhado o dia inteiro e ainda virão da escola, depois de cinco aulas. A gente só vai terminar depois de meia-noite.
Aceitaram. Aceitei. Aceitamos.
As aulas aconteceriam num cômodo do pai da garota. Era um lugar apertado, cheio de coisas. Um tear, vários rolos de fios, panos e panos, umas caixas de papelão que eu nunca soube o que havia dentro, algumas latas de leite, três bicicletas, uma moto, gaiolas e um cachorro. No meio desse sarapatel doméstico, uma tábua esverdeada que imitava um quadro-negro. Ela era apoiada numa mesa velha debaixo da qual o cachorro dormia. O casal se assentava em uma mesinha e eu ficava de pé.
Nas duas primeiras noites ninguém dormiu. Nem o cachorro. Esse, inclusive, sempre que eu chegava, rosnava lá debaixo da mesa. Vai ver que dormia cedo e agora tinha que ficar acordado até de madrugada ouvindo coisas que jamais iria entender.
Lá pela quinta noite, comecei a perceber que a garota já dava uns cochilos longos. Virava a cabeça pra trás, abria a boca, roncava e, num sobressalto, acordava. Voltava ao normal, olhando constrangida ao redor. O rapaz não ficava atrás. Ou melhor, ficava do lado. Uma vez, os dois dormiram tanto um ao lado do outro que suas cabeças se chocaram.
– Gente, isso não vai dar certo. Vocês querem continuar mesmo?
Numa das últimas noites, o rapaz me fez um pedido estranho:
– Professor, será que você pode nos acordar quinze pra meia-noite? É que a gente tá cansado mesmo.
Olhei o relógio: onze e quinze. Queriam dormir meia hora. Fiquei parado trinta minutos esperando o casal dormir. No horário certo, acordei os dois e a aula continuou.
Teriam a doença do sono? Em Resende Costa havia focos da mosca tsé-tsé? Ou estavam dormindo por causa das minhas aulas? Existe a “narcolepsia didática”?
No último dia, deram-me um café com bolo e me pagaram. Não quis aceitar, pois o que eles não fizeram foi participar das aulas. Somente dormiram. O rapaz insistiu, com farelos de bolo espalhados pela boca:
– Que isso, professor? Você teve boa vontade com a gente. Não foi, bem? – e deu uma cutucada no braço da garota, que, por sinal, acordou.
Aceitei o dinheiro, mas não fiquei com ele. No dia seguinte, dei-o a uma instituição de caridade. A atendente pegou o dinheiro, sorriu e me agradeceu dizendo:
– Que bom! Estamos precisando comprar uma cama. Tem gente que está dormindo muito mal por aqui.