Velinha azul com número
13 de Setembro de 2010, por José Antônio 0
Setembro, mês do meu aniversário. Acredita que, dos muitos aniversários que fiz, só em um eu soprei aquela velinha com o número da idade da gente?
Bolo nunca faltou, nem velas. Mas, na minha infância, as velas de aniversário eram iguaizinhas a um palmito enfeitado. Brancas, finas e pequenas, com alguns leves brocados dourados ao longo. A primeira vez que tive uma velinha com número em cima do bolo, aliás duas, foi quando fiz 40 anos. Soprei o quatro bem devagar. Depois foi a vez do zero. O pessoal até cantou parabéns duas vezes, uma pra cada vela.
Era comum, quando eu trabalhava em Resende Costa, alunos prepararem festas de aniversário para alguns professores. Era tudo surpresa. Eu tinha participado da festa do Mário Márcio em fevereiro; também estive na do Marcos em agosto. E aí chegou setembro. Vão fazer uma festa pra mim também. – pensei.
Setembro passava e, em mim, a antiga vontade das velinhas com número. Acho que desta vez vai ter um bolo bonito com duas velinhas azuis. Não vejo a hora!
Cultivava o meu desejo no silêncio cálido das ausências. Passei a notar, durante as aulas, cochichos entre os alunos, risinhos... uma vez até vi no caderno de uma garota que se assentava na frente a minha idade escrita lá.
– Vai ter velinha! – falava eu comigo mesmo, vestindo as calças curtas de menino que sonha.
Chegou o dia. Dez e meia da noite e eu saí da escola. Mário e Marcos não me esperaram. Bom sinal. Apertei o passo, pois o coração eu não conseguia apertar mais. Cruzei o jardim em frente à matriz naquela noite florida de primavera jovem.
Quando abri a porta, tudo escuro. De repente, as luzes se acenderam. E vem presente daqui, abraço de lá, beijo mais aqui, risos e falas. Alguém colocou uma música e todo mundo já dançava.
Lá pelas tantas, o Mário desligou o som:
– Agora, o parabéns!
Entrou na sala um grupo de alunas carregando um lindo bolo que elas mesmas fizeram. Meu coração pulou pra boca. Então, uma delas disse:
– Só que a gente vai cantar de luz acesa. Não achamos velinha pra comprar.
O mundo parou ali. Fiquei sem pensar em coisa alguma durante uns segundos. Meu sorriso desmaiou e voltou. Depois do choque, engoli o coração e trabalhei a minha alegria. Não foi daquela vez.
Quase no fim da festa, alguém me abordou:
– Quero te apresentar a minha tia. Ela queria te conhecer. Ajudou no bolo.
E a tia confeiteira me olhava sorrindo, no alto de seus oitenta e tantos anos. Vestia uma camiseta de político, daquelas que trazem o número do candidato. Ela me abraçou e me puxou pro centro da sala. Queria dançar.
Não é que ela era um tanto... pois é... digamos... avançada e avançadora? A coisa não iria ficar bem. Fingi cansaço e expirei forte. Acabei, sem querer, soprando o pescoço dela. Pedi desculpas, mas ela me pediu mais sopros, pois estava fazendo calor.
Antes que eu passasse o resto da festa soprando o respeitável cangote de uma senhora de oitenta e tantos anos com uma camisa cheia de números (sei lá, vai que o fogo pega!), joguei uma piadinha sutil e elegante... e me mandei.
Afinal, alguma coisa eu já tinha conseguido: tudo bem, não soprei velinha com número, mas soprei velhinha com número. E olha que o cabelo dela era meio azulado.
Outros tempos
10 de Agosto de 2010, por José Antônio 0
Aniversário da linda Luísa, filhinha do meu amigo Marcos Geraldo. A menina, vestida de princesa, fazia quatro anos. Era uma noite de julho. Como são geladas as noites de julho em Resende Costa!
Causos, anedotas, lembranças, novidades... Reencontrei pessoas, conheci outras, recolhi abraços e conversei muito. Cheguei até a rir. Num determinado momento, todos rodearam a mesa do bolo e entoaram o parabéns pra você. A alegria era geral.
Ainda fiquei por um bom tempo ali entre balões, músicas e conversas. No entanto, aos poucos fui percebendo que me encontrava naquele risco de começar a contar coisas que já tinha falado. Isso é sinal de que o assunto acabou.
Despedi-me e mergulhei no frio lá fora. Como são geladas as noites de julho em Resende Costa!
Andei pela cidade, eram quase dez da noite. Havia festa no Parque do Campo e muita gente se dirigia pra lá. Eu, por minha vez, de novo contra o fluxo do comum e do esperado, caminhava pra onde ninguém se dirigia. Já fui a uma ou duas festas lá no Parque do Campo. Outros tempos, outros sonhos, outras companhias. Tudo tão diferente agora.
As casas me espiavam e as esquinas me espreitavam. Quanta construção nova na cidade! Mas as antigas, tão minhas, tão cúmplices, ainda teimavam em se manter altivas, apesar de algumas me olharem um tanto tímidas.
Um carro barulhento passou por mim, vomitando um som horrível e irritante. Um casal, ali perto do Rosário, discutia bravo e aos gritos. Rostos, pernas, cabelos, vozes e olhares de pessoas que nunca vi na vida. A sombra era eu.
Deslizei por algumas ruas e... ninguém conhecido. Onde estariam aqueles que me recebiam? Onde se escondiam aqueles que comigo cantavam serestas e ilusões? Onde se encontravam aquelas que costuraram tantas vezes comigo o tecido ora alegre, ora triste, mas sempre louco, dos momentos compartilhados?
Talvez bastasse bater à porta de alguém, quem sabe, ali com certeza moraria uma testemunha concreta de tantas coisas que viraram névoa. Resolvi não incomodar ninguém e continuei a minha caminhada só. Como são geladas as noites de julho em Resende Costa!
Peguei o carro e desci a ladeira que leva todo mundo embora da cidade. Passei em frente ao salão do aniversário. Ainda pude ver o Marcos guardando uns presentes no porta-malas. A festa já chegara ao fim.
Lembrei-me da linda Luísa. Tão inocente, tão princesa, tão feliz. Aí eu entendi que o meu coração teima em continuar festas que um dia têm que chegar ao fim. Meu coração é criança que vive se ferindo nas mortes do passado.
Por isso, eu faço da minha crônica uma escrita que, é certo, também vai virar passado, mas continuará sendo festa que não se acaba em cada leitor que ali se vê, e chora, e ri, e sonha, e lembra...
Pé de valsa
13 de Julho de 2010, por José Antônio 0
A tal da menina cismou de arranjar quinze pares para a dança da valsa de debutante. Conversa daqui, anuncia dali, promete mais acolá... Pronto. Eu era um dos quinze.
No primeiro ensaio, todos a postos. A mãe da menina realizava a façanha de ser mais fresca do que a filha:
– Atenção, meus amores que dançam! Vocês vão participar da valsa mais importante de suas vidas. Quinze anos da Juliana. Quero todos bem alegres.
E começou a bater palminhas e dar pulinhos:
–Bem alegres. Sorriam, a vida é florida.
Aquilo não iria dar certo. Ainda mais porque ninguém ali sabia dançar valsa. Porém, não havia tempo de transformar aquela porção de bibelôs em dançarinos. A grande noite chegou e cada casal tentou dançar a sua própria valsa. Lembro-me de que dancei jogando os pés pra fora, que nem pato angustiado. Pisei nos pés até da menina do outro par.
O tempo passou e já era fim de 1986: formatura dos terceiros anos do Assis Resende, uma turma de Contabilidade e outra de Magistério. Eu estava em sala de aula quando recebi um recado de que a Eunice, diretora da escola, estava me chamando.
–Gostaria que você ensinasse os formandos a dançarem valsa. Você sabe dançar valsa?
Lembrei-me do pato angustiado.
–É coisa simples. É que o pessoal está meio duro. Falta um pouco de molejo. Você faria isso por mim?
Sempre gostei muito da Eunice e acabei aceitando. Botaram o Danúbio Azul pra rodar e comecei as lições.
– Atenção, meus alunos que dançam! Vocês vão participar da valsa mais importante de suas vidas. Quero todos bem alegres.
Lembrei-me da mãe da Juliana e parei de falar antes que eu começasse a bater palminhas e dar pulinhos.
Na noite do baile, a hora da valsa. Todos fizeram silêncio. Os rapazes chegaram em fila elegantemente vestidos e se aproximaram das moças – lindas naquele salão. As vênias foram feitas e o Danúbio Azul voltou a rodar. E todos os pares fizeram exatamente como eu tinha ensinado. Notei que todos os casais jogavam discretamente os pés pra fora. Estilo do mestre.
Quando tudo terminou, voltei sozinho pra casa. Pensei até em montar um balé. Mas logo afastei a ideia. Já existe a Morte do Cisne. Pra que montar a Morte do Pato?
Minhas caras
15 de Junho de 2010, por José Antônio 0
Curto o réveillon, participo da festa, abraço todo mundo, desejo alegrias pra quem chega perto de mim... mas tudo não passa de mais um dia após o outro. O calendário é uma invenção. E como a gente inventa em cima do calendário! Reinventamos o calendário a cada ano, tem que ser assim, senão a gente não esquece que ele é apenas uma convenção matemática.
Voltando ao jantar na casa da minha namorada, lá pelas tantas a minha ex-futura-sogra interrompeu a conversa do meu ex-futuro-sogro para dizer que iria bater uma foto de todo mundo ali. E toca todo mundo a ajeitar cabelo, esticar camisa, estufar o peito, ensaiar sorrisos... Germes remotos de um inocente fotoshop.
– Venha também, afinal você já é da família. – era o meu ex-futuro-cunhado, já me integrando à minha ex-futura-clã.
Como ainda não havia máquina digital, o negócio era confiar nos critérios estéticos do retratista:
– Vou bater outra, o Fulano saiu dormindo. Ih, cara! Vou bater de novo, a Beltrana tampou o Sicrano. Lá vai... atenção... tira essa jarra aí da mesa, está atrapalhando... Vocês querem de corpo inteiro ou só da cintura pra cima?
- Também fiz o meu fotoshop rústico, criando um espelho em minha imaginação, mas...
– Não, cara! Você está que nem retrato três por quatro. Abre um sorriso.
Abri o sorriso e tenho certeza de que fiquei com cara de idiota.
– Pensando bem, é melhor você não sorrir. Procure uma posição natural. Abrace alguém.
Abracei o avô da namorada e o homem fez que nem pêndulo: foi e voltou numa perna só. Bêbado.
– Quer saber de uma coisa? Eu vou bater várias fotos e aí você faz caras diferentes. Se não for assim, o negócio não desanda.
E a cada flash eu montava e desmontava uma cara diferente. Fiz cara de intelectual, festeiro, Napoleão, atleta, triste, turista, detetive, sargento... Na última eu estava com cara de toureiro.
Nunca vi o resultado. Com o tempo, o namoro terminou. Com o tempo, muitos outros réveillons se passaram. Com o tempo, eu fui me esquecendo daquilo tudo.
Com esse mesmo tempo, eu reencontrei a minha ex-namorada casualmente na rua. Mais amadurecida e acompanhada de uma garotinha: sua filha. Pois é... quanto tempo... é mesmo... e aí?... vou bem... sua filha?... linda, igual à mãe... tem mais filhos ou é só ela?... Até que o assunto caiu no maldito jantar do réveillon.
– O pessoal lá em casa ainda pergunta por você. Inclusive tem umas fotos em que você está. Lembra-se daquele réveillon?
Foi então que a menininha arregalou os olhos e disparou:
– É ele, mãe? Ele é o homem das mil caras? O pior é que nenhuma das mil presta.
A mãe só tinha uma cara... e não sabia onde enfiar. Eu, por minha vez, não tinha mais cara: já tinha queimado todas as minhas caras naquele jantar. O negócio foi dar um sorriso de miss: forçado, montado, ridículo e sonso.
Fui embora. Olhei pra trás e ainda vi a minha ex-futura-esposa dando um safanão no bracinho da minha possível-ex-futura-filha. Ainda bem que não me casei com ela. Com que cara eu iria pedir a sua mão?
Mãe
12 de Maio de 2010, por José Antônio 0
Deus,
sei que o senhor é muito importante. Também sei que tem muita gente falando ao mesmo tempo aos seus sagrados ouvidos. Desse modo, poucos fazem silêncio para perceber que o senhor fala mais com a gente do que a gente com o senhor.
Deus,
vivo tentando compreendê-lo, mas a sua lógica foge às limitações do meu entendimento. Porém, meus olhos são teimosos em parar nos detalhes distraídos que a vida deixa pingar em nossa existência. Eu gosto de catar esses fragmentos jogados ao longo do dia a dia. Com eles eu faço literatura. Poemas cambetas, crônicas errantes, canções trôpegas... mas eu não desprezo os detalhes. Meus olhos são teimosos. E todo cronista empaca nos detalhes até que descubra neles a obra. Isso é procurar pelo senhor?
Deus,
peço a sua atenção, mesmo tendo tanta gente lhe falando junto comigo. Peço a sua atenção, mesmo que eu compreenda tantas vezes atrasado a sua resposta. Escrevo. Escrevo coisas que procuram trazer todo homem e toda mulher para o espaço infinito do meu texto. Escrevo coisas que fazem despertar a eternidade dos cotidianos que pensam que já morreram. Escrevo crônicas.
Deus,
quis escrever uma crônica para as mães. No entanto, mãe é algo tão especial que eu também quis um leitor especial: o senhor. Sabe, Deus, eu não quis escrever um texto água com açúcar, mas mãe é tão doce... Eu não quis escrever um texto chorão, mas mãe emociona... Eu não quis escrever um texto laudatório... mas mãe é divina. Mãe, tenho febre... nunca a doença foi tão boa! Mãe, tenho medo do escuro... que escuro, se a mãe dá à luz? Mãe, estou com fome... e o leite jorra em diferentes formas de alimentar... Mãe, volto logo... às vezes o filho não volta, mas mãe sempre espera.
Deus,
eu queria inventar uma frase que ficasse, que fosse repetida em todos os dias das mães. Presunção de um pobre escritor, catador de detalhes, sendo que eu mesmo sou um simples detalhe no todo da criação. Talvez o senhor seja cronista, por isso sabe valorizar e engrandecer cada detalhe chamado homem e mulher. Cronista maior, que eterniza o ser humano com o infinito que chamamos de amor. É nesse infinito que o coração da mãe se escreve como incondicional. É nesse coração que o senhor deixou um vislumbre maior do seu próprio amor. Vou olhar mais para as mães. É nelas que vou encontrar algum conforto para alguns cansaços que me fustigam sem mostrarem um sentido.
Deus,
essa é a minha crônica. Obrigado por ter lido. Obrigado por continuar a ler através dos olhos do meu leitor. Por falar nisso, quando os olhos do meu leitor estiverem percorrendo minhas linhas, faça com que alguma coisa pura e líquida escorra a fim de que apareça cristalina a imagem de um anjo que um dia nos embalou e nos fez crescer, doando sem pedir. Deus, nesse Dia das Mães dê um beijo em minha mãe, em todas as mães. Na sua também, pois o senhor também tem uma.