A Teia do Mundo

Rosa Branca

14 de Novembro de 2009, por José Antônio 0

- Mas, Eunice, a gente só tem uma semana... e eu venho aqui somente nas sextas-feiras.

- Confio em você. Sei que não vai me decepcionar.


A conversa acabou por aí. O sinal tocou e eu voltei para a sala de aula com um peso imenso nas minhas pobres preocupações: teria que preparar, em uma semana, um número teatral para o Dia das Mães.

Primeiro, pensar em algo. Depois, criar alguma coisa. Como se não bastasse, ensaiar todo mundo. Mais outra: cenário, figurino e música. Por fim, uma obrigação moral: não decepcionar a minha amiga Eunice Gomes.

Naquele restinho de noite, um hemisfério do meu cérebro dava aulas enquanto o outro rascunhava cenas. Perdia-me naquela esquizofrenia didático-dramatúrgica.

Na manhã seguinte, a ideia apareceu. Foi vindo tudo de roldão. Comecei a escrever, desenhar, cantar... estava tudo pronto. De São João, liguei para a Eunice.

- Preciso de quinze garotas. A gente começa os ensaios na segunda-feira.

Segunda, terça, quarta... fui a Resende Costa de segunda a sexta. No último dia, tudo estava preparado. Só faltavam as rosas. Eram quatorze rosas vermelhas e uma rosa branca, todas em botão. As vermelhas foram fáceis de achar, mas a tal da rosa branca...

Corri em todas as floriculturas de São João (eram poucas) e não achei um botão de rosa branca. Já era sexta-feira à noite. Minha prima me aconselhou colocar um botão de rosa vermelha dentro de um copo de leite de um dia para o outro. A rosa amanheceria branquinha. Parecia mais simpatia pra conquistar namoro. No desespero, vale até macumba com leite de rosas.

Na manhã do sábado, encontrei apenas uma coalhada florida. Nada de rosa branca. Comecei a correr contra o tempo. Vi uma casa com um jardim na frente. Tinha uma rosa branca lá. Minha consciência foi sendo substituída por um simpático apego ao alheio. Pulei a pequena grade e puxei a rosa. Veio junto a roseira, um varal de roupas molhadas e um cachorro... também branco. Aderi à cor dominante do momento e, branco também, consegui pernas e uma esquina.

O jeito era... qual era o jeito? Não sabia mais o que fazer. Foi quando ali por perto da casa do cachorro branco, nas imediações da igreja de São Francisco de Assis, uma família de turistas estava posando para uma foto. Pediram para eu tirar a foto deles em frente à igreja. Juntei todo mundo na mira da objetiva e, antes de clicar, reparei na beleza singular da menininha.

Agradeceram. Elogiei a filhinha bonita do casal. Era cega. Foram embora levando a menina que não via, mas que era alegre e espevitada. Não olhou pra trás nem deu tchauzinho. De repente, vi que o ursinho dela caiu da bolsa da mãe. Já estavam longe, entrando no carro. Corri e entreguei o brinquedo.

- Que sorte! Ela gosta muito do ursinho. Muito obrigada pela foto e por isso. Aceite um presente nosso. Faço questão. Tome, leve pra sua namorada.

E me deram um botão de rosa... branca.

Naquele sábado à noite, meu coração não havia ofertado flor para a namorada que ele sempre espera. Mas meu olhar aprendeu que, embora sejam cegos alguns dos caminhos, é possível enxergar com outros olhos. Criança cega não é cega, pois sempre consegue enxergar com uma outra outra visão, pura demais para os adultos.

Por causa de alguém que conseguia pintar a alegria no escuro, passei a não me angustiar tanto quando o meu ursinho cai.

E o espetáculo naquela noite foi lindo.

Aniversário

09 de Outubro de 2009, por José Antônio 0

Estou fazendo aniversário. Consegui viver mais 365 dias. Dias pares e dias ímpares, dias solteiros e dias casados. Foram 365 dias marcados num calendário que só tem o hoje. Mas foram 365 hojes.

Tem gente que se esconde no dia do aniversário. Não atende nem telefone. Pelo menos, essa atitude é econômica para os amigos: não é preciso comprar presentes. Outros fingem que se esquecem do próprio aniversário. Você chega, dá os parabéns e o cara se faz de desentendido: Ah, sim... obrigado. Eu nem estava me lembrando.

Não lembrar do aniversário é esquecer que nasceu. Eu prefiro lembrar. Pode parecer piegas, mas eu curto os meus aniversários. Gosto de receber os parabéns, adoro os abraços, os beijos, os e-mails, os telefonemas, as mensagens... É todo mundo sabendo que ainda estou por aqui e por aí.

Costumo dar presente pra mim mesmo neste dia: uma roupinha melhor, um perfume mais caro, um bom vinho... Meus amigos me chegam com pacotes e embrulhinhos coloridos. E lá vem disco, livro, camisa, meias (vários pares!), carteira (umas cinco... não tenho tanto dinheiro assim), pijama... Já me deram até uma pipoqueira usada. Não faz mal, lembraram-se de mim. E coloco todos os presentes em cima da minha cama... todo mundo faz isso. É brega, mas não é briga. Sei que ninguém vai entrar lá pra ver os meus presentes em cima da minha cama. Sei que minha exposição ficará aberta para a visitação pública de mim mesmo. No fim do dia, recolho todos e vou guardando um por um, com um sorriso que sabe misturar alegria, esperança e solidão.

Sinto o cheiro da infância voltando e deixo o meu coração seguir o ritmo feliz de um coral improvisado dentro de mim, cantando o parabéns pra você. E vou dormir em paz. Por isso comemoro os aniversários que faço. Eles me garantem as realizações do meu ainda. Vou abrindo os meus dias do novo ano que começo a viver. Manhãs embrulhadas em cores e laços que devo desatar logo que me levanto. Cheirinho bom do novo, da chance de sempre recomeçar, de não cometer os mesmos erros, apesar de eu ser tão errado.

Cada dia do novo ano da minha nova idade é perdão e oportunidade que a vida me oferece, é confiança que ela me deposita: Vai, filho, você tem mais uma chance de ser melhor. E lá vou eu, consertando, atrapalhando, consertando outra vez... E lá venho eu, arrumando, bagunçando, arrumando outra vez... Pêndulo de carne, osso, sangue e alguma coisa além do farelo que fica no túmulo. Sou eu nascendo, morrendo e renascendo. Fênix cambeta, que escreve com sua própria pena a respeito de suas penas e das penas dos outros.

É meu aniversário. Não conto os dias, pois detesto matemáticas irredutíveis. Procuro vivê-los como criança quando vê mágica. Acho que é isso o que me faz tirar coelhos de cartolas vazias.

De novo, a cenoura

12 de Setembro de 2009, por José Antônio 0

Detesto cenoura.

A coisa começou na infância, quando tentavam me dar papinha de cenoura à força. Dizem que eu cuspia tudo na cara dos torturadores gastronômicos. Depois eu virei adolescente e dessa fase eu guardo muitas memórias. Entre elas, a minha inimizade com a cenoura. Procurei fazer as pazes com a raiz alaranjada, mas ela sempre irredutível: e lá vinha vômito. Adolescente vomitando é muito humilhante.

O jeito foi desistir. Apaguei a cenoura da minha vida, enterrando-a no canteiro das impossibilidades. Sempre que me ofereciam, eu agradecia com os lábios num sorriso e o estômago nos palavrões. Bolo de cenoura, dispenso. Torta de cenoura, passo. Salada com cenoura, desconheço. Se eu tivesse nascido coelho, morreria anoréxico.

Não tenho nada contra a cenoura. Muitas vezes tentei me aproximar, ela é que sempre engrossou o caldo. E caldo grosso eu não bebo, vira angu com caroço. Em algumas refeições, fiz de tudo para ser simpático com ela. Porém, ela nunca deixou de me repugnar: o cheiro da danada me azeda... o sabor da perversa me derruba... a ameaça da tirana me maltrata...

Um dia, fui a uma fazenda perto de Resende Costa. Andaram comigo pelos latifúndios e cercanias até que meu estômago roncasse. Antes de almoçarmos, o chefe da casa ainda me mostrou os porcos, orgulho daquela propriedade rural. Nunca me interessei por leitões vivos, mas tive que me esforçar para me mostrar deslumbrado pelo tesouro suíno daquele fazendeiro amante dos fuçadores e roncadores.

– Eles adoram cenoura! Aqui em casa nós damos muita cenoura pra eles. Eles são importantes, devem comer bem.

Uma vez à mesa, não é que a mulher do fazendeiro me trouxe cenoura? Ainda por cima, falou:

– Preparei especialmente pra você. Afinal, você é importante.

Importante que nem os bacorinhos lá fora.

Nessas horas, a gente tem que ter estratégia. Fui empurrando a cenoura pra baixo do arroz, o arroz pro lado do prato, e comi apenas feijão e carne. Enquanto a mulher foi pegar o doce e o homem foi fazer o cafezinho, raspei o arroz com a cenoura para um gato magro e comprido que me espiava no meio da horta. Comi o doce (não levava cenoura!), tomei o cafezinho, elogiei o almoço, principalmente a cenoura, agradeci e fui embora.

Se não foi na fazenda, foi na cidade. Algum tempo depois, estava eu de novo em Resende Costa, na casa de uma professora amiga minha. Mais uma vez, um casal anfitrião. Mais uma vez, um convite. Mais uma vez, a cenoura. Eu já tinha desconfiado que ia ter cenoura pelo cheiro que vinha lá de dentro. Não deu outra: a cenoura estava de novo no meu prato, fumegante e cheirosa, oferecida e ameaçadora.

E começaram a comer, sorrindo e apreciando. Elogiavam a cenoura, saboreavam a cenoura, repetiam a cenoura. E eu ali, fazendo desenhos sem sentido no prato, passando o garfo sobre a cenoura.

– Você não vai comer? Está perdendo.

Estava perdido. Enchi o garfo, fechei os olhos, lacrimejei por dentro e comi. Perguntaram se estava bom e eu disse que nunca havia comido uma cenoura assim (nunca mesmo!).

– Então, come mais.

E o meu prato recebeu mais uma remessa de cenoura.

À tardinha, fui embora. O sol morrendo no Morro do Chapéu e o meu estômago despejando açúcar, caroteno e glúten no Buraco do Inferno. Talvez tenha tudo despencado no Hades subterrâneo. Ou, quem sabe, tenha virado semente para voltar a me ameaçar de novo num prato cínico.

Saudade

16 de Agosto de 2009, por José Antônio 1

Parece um sonho... mas meus sonhos são tão diferentes.

Parece uma brincadeira... mas não participo de brincadeiras assim.

Parece um pesadelo... mas meus pesadelos nunca me fizeram chorar.

Parece que foi ontem... criança ainda, menino de calça curta, mais novo do que eu, sempre me acompanhando medroso nas travessuras. Eu fugia de casa e você ia atrás, porém voltava no meio do caminho. E eu apanhava sozinho.

Parece que foi ontem... o primeiro dia de escola, o uniforme engomado, o material escolar novinho, eu de mãos dadas com você, menor que eu. Cartilha da Lili, O Circo do Carequinha... as primeiras letras e os primeiros números... Até hoje, para mim, as letras são sempre primeiras.

Futebol na rua, vidros quebrados na igreja ao lado, janelas com moradores que viravam torcida, alaridos e chutes, fuga da polícia que sempre queria a nossa bola, gente descalça, gente de kichute, gente de conga, tinha até jogador de sapato. E a bola, fiel à ânsia de alegria da meninada, procurava pés calçados e pés descalços, ricocheteando nas curvas da alegria.

Parece que foi ontem... nós dois ajudando a missa na matriz. Coroinhas dos mais antigos, coroinhas um tanto desorganizados com o horário. Tinha vez que o próprio padre nos esperava chegar para começar a missa. É que estávamos tomando café.

Parece que foi ontem... nossas saídas à noite, dinheiro curto para comprar lanche e refrigerante, às vezes era uma coca-cola e um pastel... e os olhos vistoriando as passantes, cabelos soltos e rabos de cavalo, batons e sombras, vestidos e saias... onde estaria a nossa namorada? Músicas dos Beatles, Bee Gees, discoteca... até uns passos treinamos.

Parece que foi ontem... cenários e luzes e a gente no palco. Teatro lotado, peças que marcavam época, você fazendo sucesso entre as meninas, mais do que eu. E eu o admirava e respeitava por isso. Era bom ter um irmão assim.

Parece que foi ontem. Nosso começo de vida. Sonhos, lutas, lágrimas, tentativas, amigos, vitórias. Meu filho, seu afilhado. Seu filho, meu afilhado. Minhas dores, seus conselhos. Suas dúvidas, minhas ponderações.

Tudo passou. Inclusive você, meu irmão. Foi embora o meu parceiro de vida. Foi embora o primeiro leitor de muitos de meus textos. Foi embora o amigo que jamais me puxou o tapete. Foi embora o admirador do meu humor. Foi embora o crítico sincero dos meus erros. Foi embora o meu amigo de sangue.

Na estação fiquei só. Não tem outro trem. Ainda ouço o eco dos alaridos da infância, do sino chamando para a missa, da sua voz me chamando pra brincar, da alegria que um dia eu tive na vida.

Você se foi e eu não pude acompanhá-lo nessa aventura. Mais uma vez, eu apanhei sozinho. Confesso a você, meu irmão, que a dor da sua partida fere mais que a palmada e o chinelo.

Lembro-me de você, última imagem, olhos fechados e flores ao redor. Dorme em paz. Na verdade, viva em paz, pois quem está em Deus não está morto. No entanto, não posso deixar de dizer, minha solidão às vezes se pinta de non sense e o absurdo molha meus olhos. Não ouso perguntar por quê. Querer a resposta seria arrogância demais. Apenas aceito e vivo, mesmo tropeçando nas surpresas da saudade.

Sei que um dia o verei de novo. E você estará com as mãos descruzadas e os braços abertos, chamando-me para uma nova aventura, um novo palco, uma nova vida... a mesma parceria.

Até lá, meu irmão!

... seu eu merecer.

O inconveniente

13 de Julho de 2009, por José Antônio 1

– Oi!
– Oi!
– O que é que você está fazendo aí?
– Esperando o ônibus.
– Ele vem de onde?
– De São João del-Rei.
– E vai pra onde?
– Pra São João del-Rei.
– Então por que ele saiu de lá?
– É que os passageiros...
– Passageiro? Você é um passageiro?
– Todo mundo é passageiro, filho. Na verdade, tudo é passageiro.
– Todo mundo? E pra onde é a passagem?
– Quantos anos você tem?
– Eu tenho cinco. E me chamo Mateus. Pra onde é a sua passagem?
– Pra São João del-Rei.
– Hum! E o que você tá fazendo aqui em Resende Costa?
– Eu sou professor.
– Eu já sei escrever.
– Legal! Como é que você escreve o seu nome?
– Com uma caneta.
– Você está sozinho na rua?
– Não, a mamãe tá comigo. É aquela ali perto do poste. Ela comprou um brinquedo pra mim.
– Bonita a sua mamãe. Ela gosta muito de você. Comprou um brinquedo. Ela é boa.
– Manhê!!! O moço aqui falou que você é bonita e boa!
– Ops! Chegou o ônibus. Tenho que entrar depressa.
– Cuidado, não suba a escadinha do ônibus assim correndo. Você pode cair. Nossa! Já chegou na janelinha.
– Tchau, Mateus! Você é um menino muito legal. Agora eu vou fechar a cortina da janelinha pra dormir um pouco, tá? O ônibus já tá saindo. Tchau!
– Que dia que você volta?
– Qualquer dia. Aí eu vou brincar com você lá na sua casa. Quer dizer, se a sua mãe der licença pra mim.
– Manhê!!! O moço pediu licença... é pra você dar pra ele!
– VAMOS EMBORA, GÉRSON! O ÔNIBUS JÁ ESTÁ COMPLETO. ACELERA ESSA COISA PELO AMOR DE DEUS!!!