Namorar
13 de Junho de 2009, por José Antônio 0
Namorar é coisa simples.
Não é necessário realizar enormes empreitadas por causa de um namoro. Namoro não combina com grandes gastos, pois o carinho é gratuito. Namoro dispensa carro importado, pois o amor trafega no peito. Namoro não se preocupa com vaidade, pois o amor é nu. Namoro não se concentra em resultados, pois o amor é eterno presente. Namoro não combina com morrer de paixão, pois o amor é vida. Namoro não é posse, pois a alegria é livre.
Ah!... namorar!
Namorar não é desejo desenfreado, pois o prazer precisa da paciência. Namorar não é dar anel de ouro, pois o amor se encanta é com bilhetinhos improvisados. Namorar não é ficar, pois o amor exige caminhar. Namorar não é comparar idades, pois o importante é o que não envelhece e o que não é infantil.
Ah!... as marcas do namoro!
Uma pétala seca entre as páginas de uma história que não é mais contada...
Um cartão com a data do passado, mas a emoção de agora...
Uma fotografia parada, olhando fixamente para coisas que ainda se movem...
Um vermelho no pescoço... um batom na camisa... mas como é bom ter que esconder essas coisas!
Marcas concretas e palpáveis, sinalizadoras do intangível, tais como quadro de artista: palpável e concreto, porém o quadro mesmo não é o que vemos, e sim o que sentimos ao ver.
Ah!... os paradoxos do namoro!
Namorar é sentir-se único e não se sentir só.
Namorar não é prender, mas é segurar o outro na hora dele ir embora.
Namorar não é sofrer, no entanto a gente sempre chora um pouquinho.
É possível namorar no amor? É necessário, pois o amor é alimentado por idas e vindas, brigas e perdões, encontros, conquistas, planos em comum, fidelidade, doação.
É possível amar no namoro? Sim, mas apenas para os que acreditam que namorar é entrelaçar vidas, mesmo que somente as mãos andem juntas.
Não é necessário realizar enormes empreitadas por causa de um namoro. Namoro não combina com grandes gastos, pois o carinho é gratuito. Namoro dispensa carro importado, pois o amor trafega no peito. Namoro não se preocupa com vaidade, pois o amor é nu. Namoro não se concentra em resultados, pois o amor é eterno presente. Namoro não combina com morrer de paixão, pois o amor é vida. Namoro não é posse, pois a alegria é livre.
Ah!... namorar!
Namorar não é desejo desenfreado, pois o prazer precisa da paciência. Namorar não é dar anel de ouro, pois o amor se encanta é com bilhetinhos improvisados. Namorar não é ficar, pois o amor exige caminhar. Namorar não é comparar idades, pois o importante é o que não envelhece e o que não é infantil.
Ah!... as marcas do namoro!
Uma pétala seca entre as páginas de uma história que não é mais contada...
Um cartão com a data do passado, mas a emoção de agora...
Uma fotografia parada, olhando fixamente para coisas que ainda se movem...
Um vermelho no pescoço... um batom na camisa... mas como é bom ter que esconder essas coisas!
Marcas concretas e palpáveis, sinalizadoras do intangível, tais como quadro de artista: palpável e concreto, porém o quadro mesmo não é o que vemos, e sim o que sentimos ao ver.
Ah!... os paradoxos do namoro!
Namorar é sentir-se único e não se sentir só.
Namorar não é prender, mas é segurar o outro na hora dele ir embora.
Namorar não é sofrer, no entanto a gente sempre chora um pouquinho.
É possível namorar no amor? É necessário, pois o amor é alimentado por idas e vindas, brigas e perdões, encontros, conquistas, planos em comum, fidelidade, doação.
É possível amar no namoro? Sim, mas apenas para os que acreditam que namorar é entrelaçar vidas, mesmo que somente as mãos andem juntas.
Coquinho-Babão
16 de Maio de 2009, por José Antônio 0
Em vários sábados de 1987 tivemos aulas à noite. Reposição de uma greve da qual não entendi o resultado até hoje. De concreto, como já disse, apenas as aulas aos sábados. Os alunos iam todos arrumados, pois, afinal de contas, era sábado. Os garotos engomados e as meninas de longo e maquiadas.
O movimento na avenida começava, nesses sábados, depois das dez e meia. Era aquela porção de gente passeando pra lá e pra cá, todo mundo carregando livros e cadernos. De vez em quando, um namorado cavalheiro carregava a tralha colegial da namorada na mão esquerda e dava a mão direita à dama.
Os bares lotavam... depois das dez e meia; a avenida se alegrava... depois das dez e meia; a noite virava uma criança... depois das dez e meia. O toque de recolher fora trocado pelo toque de escolher, e todo mundo escolhia o barzinho, a esquina, a companhia, a conversa... Coisas que não estão muito longe no tempo, mas que trazem uma saudade danada, como que nostalgia de uma inocência festiva que de repente aprendeu a ficar no passado.
Num desses sábados, Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu resolvemos tomar uma cerveja no bar do Miguel. Pedimos também uma porção de azeitonas. A conversa rolava solta enquanto cada azeitona rolava dentro da boca de cada um até cair nuazinha em caroço chupado dentro de um pires.
Eis que entra um bebum. O cara parou de mesa em mesa que nem beija-flor etílico. De repente, olhou em nossa direção e disparou:
– Olha os professor bebeno! Olha os professor bebeno!
Todo mundo parou a conversa para ver qual seria a reação dos professor bebeno.
Mário e Marcos fingiram que não ouviram, ou melhor, fingiram que eram surdos, pois o cara gritou com tudo o que tinha na traqueia. Chamei o bebum para se reunir ao corpo docente e tudo voltou ao normal: as pessoas continuaram suas conversas, o bebum pediu uma pinga e meus dois amigos voltaram a escutar.
– Oceis é tudo gente fina. Me dá mais uma pinga. E eu quero comer também.
E enfiou a mão nos caroços de azeitona, chupados e cuspidos.
– Não! – gritei – Isso aí é...
Tarde demais. O bebum encheu a boca. Mastigava sem entender nada. Até que perguntou, com raiva:
– O que é que eu tô mastigano?
Revelar a verdade seria coragem ou, quem sabe, crueldade. Entabulei uns monossílabos desarticulados, que rodavam em minha boca do mesmo modo que os caroços na boca do bebum. Não consegui cuspir uma frase, mas o cara cuspiu tudo na mesa e saiu irritado:
– Detesto coquinho-babão!
Pedi mais uma cerveja para embriagar a minha consciência e afogar os meus escrúpulos. Prometi a mim mesmo comprar muitas azeitonas para o bebum.
Nunca mais vi o homem. Muitas vezes me sentei com o Mário e o Marcos para tomar cerveja, na esperança de vê-lo. Teve até uma noite em que bebi sozinho no mesmo bar, frente a uma porção de azeitonas, torcendo para que esse meu irmão aparecesse. Mas ele não veio. Cheguei a sonhar com os caroços rolando na boca dele, entupindo sua garganta e ele morrendo sufocado. Horrível.
Aos poucos, essas imagens foram sumindo até virar névoa.
No entanto, aprendi que às vezes é melhor um caroço de azeitona fantasiado de coquinho-babão do que um coquinho-babão se transformando em caroço de azeitona. O coquinho-babão provocou asco; o caroço chupado de azeitona provocaria ódio. Entre o asco e o ódio, nem mesmo bicarbonato de sódio: quero paz no coração. E viva o coquinho-babão!
O movimento na avenida começava, nesses sábados, depois das dez e meia. Era aquela porção de gente passeando pra lá e pra cá, todo mundo carregando livros e cadernos. De vez em quando, um namorado cavalheiro carregava a tralha colegial da namorada na mão esquerda e dava a mão direita à dama.
Os bares lotavam... depois das dez e meia; a avenida se alegrava... depois das dez e meia; a noite virava uma criança... depois das dez e meia. O toque de recolher fora trocado pelo toque de escolher, e todo mundo escolhia o barzinho, a esquina, a companhia, a conversa... Coisas que não estão muito longe no tempo, mas que trazem uma saudade danada, como que nostalgia de uma inocência festiva que de repente aprendeu a ficar no passado.
Num desses sábados, Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu resolvemos tomar uma cerveja no bar do Miguel. Pedimos também uma porção de azeitonas. A conversa rolava solta enquanto cada azeitona rolava dentro da boca de cada um até cair nuazinha em caroço chupado dentro de um pires.
Eis que entra um bebum. O cara parou de mesa em mesa que nem beija-flor etílico. De repente, olhou em nossa direção e disparou:
– Olha os professor bebeno! Olha os professor bebeno!
Todo mundo parou a conversa para ver qual seria a reação dos professor bebeno.
Mário e Marcos fingiram que não ouviram, ou melhor, fingiram que eram surdos, pois o cara gritou com tudo o que tinha na traqueia. Chamei o bebum para se reunir ao corpo docente e tudo voltou ao normal: as pessoas continuaram suas conversas, o bebum pediu uma pinga e meus dois amigos voltaram a escutar.
– Oceis é tudo gente fina. Me dá mais uma pinga. E eu quero comer também.
E enfiou a mão nos caroços de azeitona, chupados e cuspidos.
– Não! – gritei – Isso aí é...
Tarde demais. O bebum encheu a boca. Mastigava sem entender nada. Até que perguntou, com raiva:
– O que é que eu tô mastigano?
Revelar a verdade seria coragem ou, quem sabe, crueldade. Entabulei uns monossílabos desarticulados, que rodavam em minha boca do mesmo modo que os caroços na boca do bebum. Não consegui cuspir uma frase, mas o cara cuspiu tudo na mesa e saiu irritado:
– Detesto coquinho-babão!
Pedi mais uma cerveja para embriagar a minha consciência e afogar os meus escrúpulos. Prometi a mim mesmo comprar muitas azeitonas para o bebum.
Nunca mais vi o homem. Muitas vezes me sentei com o Mário e o Marcos para tomar cerveja, na esperança de vê-lo. Teve até uma noite em que bebi sozinho no mesmo bar, frente a uma porção de azeitonas, torcendo para que esse meu irmão aparecesse. Mas ele não veio. Cheguei a sonhar com os caroços rolando na boca dele, entupindo sua garganta e ele morrendo sufocado. Horrível.
Aos poucos, essas imagens foram sumindo até virar névoa.
No entanto, aprendi que às vezes é melhor um caroço de azeitona fantasiado de coquinho-babão do que um coquinho-babão se transformando em caroço de azeitona. O coquinho-babão provocou asco; o caroço chupado de azeitona provocaria ódio. Entre o asco e o ódio, nem mesmo bicarbonato de sódio: quero paz no coração. E viva o coquinho-babão!
O show
18 de Abril de 2009, por José Antônio 0
Era sempre assim. As aulas terminavam quase onze da noite, Mário Márcio e eu passávamos no trailer dos irmãos Érik e João Marcelo, pegávamos um sanduíche e íamos para a casinha do beco. Lá, apanhávamos o violão e era hora de um mostrar para o outro a última canção que tinha feito, ou uma que estava no meio do caminho... Às vezes, cantávamos coisas já antigas, músicas nossas e dos outros.
Lembro-me das cantigas, dos acordes, das madrugadas. Tudo passou... Sei lá se passou. Acho que quem passou fui eu. Essas coisas ainda estão presentes num tempo que perdura nas encenações dos meus fantasmas. Eles me assaltam sem pena e me fustigam de passado. Não consigo sangrar, mas meus olhos ficam úmidos.
- Vai dar certo, Zé! O povo vai adorar.
Era o Mário. Vinha movido a entusiasmo.
- Um show, Mário?
–Tem tudo pra dar certo, Zé! A gente pode cantar as nossas músicas e aquelas que a gente sempre canta nas serestas que a gente faz por aqui.
O meu amigo conseguiu me convencer. Marcamos a data e escolhemos o repertório. A propaganda foi feita no mano a mano com os alunos, principais alvos de nossa platéia, uma vez que grande parte deles estava ameaçada de ser reprovada.
Na noite do show, o teatro paroquial estava lotado. Até parecia uma conferência para alunos de recuperação. Não havia na platéia um único aluno de nota boa. Eles não precisavam daquele espetáculo. Somente as notas vermelhas compareceram com o sorriso amarelo, pois a coisa estava preta. Eram as cores do show!
Lembro-me de que eu e o Mário esmeramos no requinte: elaboramos até uma roupa para a dupla. Os dois de jeans, camisa vermelha de manga comprida e um colete verde.
Alguém nos anunciou. As cortinas se abriram e entraram em cena aqueles dois pintassilgos enferrujados. Pude ouvir alguns risos abafados pelo medo da reprovação. Os aplausos nos receberam. Poucos, mas aconteceram. Falei alguma coisa engraçada para o público e o público não achou nada engraçado. Mário contou emocionado e sério a história da composição de algumas de nossas canções. O público achou engraçado.
Cantamos coisas bonitas e acabamos envolvendo todo mundo. Depois, foi a hora de cada um da dupla cantar sozinho. Mário cantou primeiro e, quando terminou, saiu do palco. Entrei e comecei a me ajeitar em frente a um tripé, onde coloquei as músicas.
Sem que ninguém chamasse, entra o Mário em cena. Caminhou até o tripé e resolveu firmá-lo mais. Foi só o Mário encostar no tripé que o negócio desmontou, espalhando minhas canções pelo chão e para um fosso que havia abaixo do palco. Olhei repreensivamente para o meu amigo, mas já era tarde: ele já completava seu segundo rolamento no chão. Tinha tropeçado no fio do próprio violão. Caiu com a viola e tudo.
A risada foi geral. Olhei bravo e ameaçador, não mais para o público, mas para os meus alunos. Silêncio total, pois se lembraram da cor das notas. Abaixei para catar as músicas e, ao me levantar, bati com a cabeça no microfone, mandando-o para o fosso.
Dessa vez, azar para as notas. A platéia se rachou de rir. Número hilário, comédia das mais brilhantes. E tudo isso sem uma palavra sequer. Continuamos o show e chegamos até o fim.
Quando saímos do teatro, fomos abordados por uma garotinha. Olhou pra cima e perguntou:
– Amanhã vai ter outra vez?
Perguntei, todo paternal:
– Por que você quer saber, meu amor?
– É porque eu não vim. E tá todo mundo falando que eu perdi a palhaçada.
Lembro-me das cantigas, dos acordes, das madrugadas. Tudo passou... Sei lá se passou. Acho que quem passou fui eu. Essas coisas ainda estão presentes num tempo que perdura nas encenações dos meus fantasmas. Eles me assaltam sem pena e me fustigam de passado. Não consigo sangrar, mas meus olhos ficam úmidos.
- Vai dar certo, Zé! O povo vai adorar.
Era o Mário. Vinha movido a entusiasmo.
- Um show, Mário?
–Tem tudo pra dar certo, Zé! A gente pode cantar as nossas músicas e aquelas que a gente sempre canta nas serestas que a gente faz por aqui.
O meu amigo conseguiu me convencer. Marcamos a data e escolhemos o repertório. A propaganda foi feita no mano a mano com os alunos, principais alvos de nossa platéia, uma vez que grande parte deles estava ameaçada de ser reprovada.
Na noite do show, o teatro paroquial estava lotado. Até parecia uma conferência para alunos de recuperação. Não havia na platéia um único aluno de nota boa. Eles não precisavam daquele espetáculo. Somente as notas vermelhas compareceram com o sorriso amarelo, pois a coisa estava preta. Eram as cores do show!
Lembro-me de que eu e o Mário esmeramos no requinte: elaboramos até uma roupa para a dupla. Os dois de jeans, camisa vermelha de manga comprida e um colete verde.
Alguém nos anunciou. As cortinas se abriram e entraram em cena aqueles dois pintassilgos enferrujados. Pude ouvir alguns risos abafados pelo medo da reprovação. Os aplausos nos receberam. Poucos, mas aconteceram. Falei alguma coisa engraçada para o público e o público não achou nada engraçado. Mário contou emocionado e sério a história da composição de algumas de nossas canções. O público achou engraçado.
Cantamos coisas bonitas e acabamos envolvendo todo mundo. Depois, foi a hora de cada um da dupla cantar sozinho. Mário cantou primeiro e, quando terminou, saiu do palco. Entrei e comecei a me ajeitar em frente a um tripé, onde coloquei as músicas.
Sem que ninguém chamasse, entra o Mário em cena. Caminhou até o tripé e resolveu firmá-lo mais. Foi só o Mário encostar no tripé que o negócio desmontou, espalhando minhas canções pelo chão e para um fosso que havia abaixo do palco. Olhei repreensivamente para o meu amigo, mas já era tarde: ele já completava seu segundo rolamento no chão. Tinha tropeçado no fio do próprio violão. Caiu com a viola e tudo.
A risada foi geral. Olhei bravo e ameaçador, não mais para o público, mas para os meus alunos. Silêncio total, pois se lembraram da cor das notas. Abaixei para catar as músicas e, ao me levantar, bati com a cabeça no microfone, mandando-o para o fosso.
Dessa vez, azar para as notas. A platéia se rachou de rir. Número hilário, comédia das mais brilhantes. E tudo isso sem uma palavra sequer. Continuamos o show e chegamos até o fim.
Quando saímos do teatro, fomos abordados por uma garotinha. Olhou pra cima e perguntou:
– Amanhã vai ter outra vez?
Perguntei, todo paternal:
– Por que você quer saber, meu amor?
– É porque eu não vim. E tá todo mundo falando que eu perdi a palhaçada.
O Padre
15 de Marco de 2009, por José Antônio 1
A expectativa cria o ponto de vista. Às vezes, tudo conspira para que criemos uma hipótese, mas vamos além e criamos uma certeza. Tudo por causa da expectativa. Uma vez, fui ver um espetáculo da Esquadrilha da Fumaça. Todo mundo olhando para o céu e nada de avião. E todos à espera de algum sinal no céu. O atraso colocava um torcicolo na paciência de cada um. Nem um zumbido. Nem sombra de asa. Nem nada.
De repente, comecei a vislumbrar ao longe um grupo de aviões. Vinham como que em silêncio, uma vez que estavam distantes. Vinham juntos, fazendo já alguns círculos, um ao lado do outro.
– Ali, gente! A Esquadrilha da Fumaça!!!
Antes que todos começassem a rir, eu mesmo já tinha olhado melhor: era um pequeno grupo de urubus. Por isso que não havia fumaça.
Para mim, era a turma da acrobacia aérea. Tudo ali conspirava para que fossem os aviões. A expectativa me fez criar um ponto de vista.
No Sábado de Aleluia de 1989, Dona Terezinha, professora de música, me convidou para cantar uma das leituras na missa da noite, lá na matriz. Pois eu fui, todo formal, vestido de preto e com uma camisa de gola branca. No meio dos padres, lá no altar, subi à tribuna e soltei a voz. Confesso que caprichei.
Quando acabou a cerimônia, fui abordado por uma senhora bem vestida. Cabelo tão branco que já era azul. Muito magra e muito alta. Um palito de cabelo azul. Não era de Resende Costa, morava no Rio de Janeiro. Pediu para conversar comigo e fomos ali para o adro lateral da igreja. Já assentados na mureta, a mulher disse que estava afastada da Igreja havia muito tempo, mas queria retomar a sua devoção.
– O senhor pode me ajudar? – perguntou aflita.
– Sim, minha senhora. Eu vou conduzi-la...
– Conduzir para onde? Para a paz? Para o céu? Para onde? Eu preciso que alguém me conduza. Para onde o senhor vai me conduzir?
Me deu vontade de conduzir aquele cotonete para o cemitério.
– Padre, eu preciso de uma direção.
Padre?! A carioca do cabelo azul pensou que eu era padre e queria se confessar comigo. A coisa ficou mais séria quando a dona me confiou a própria salvação.
Se eu falasse que não era padre, a mulher despencaria direto para o inferno, tamanha a decepção. Depois de um sarapatel de justificativas, convenci a Madalena Arrependida a procurar um outro Cristo. Um dos padres, daqueles de verdade, reconduziu a ovelha para o rebanho.
Respirei aliviado e fui para casa. Pus uma bermuda, o chinelo, uma camiseta e fui desfilar num bloco de amigos, que sairia por volta da meia-noite. Desfilei cantando, dançando e abraçado a uma namorada. Foi aí que eu vi, em frente ao bar do Miguel, a mulher do cabelo azul, junto com uma família.
Passei dançando de costas para ela, quase agachado, fazendo de tudo para que não sobrasse nenhum buraquinho no chão por onde pudesse despencar uma alma desiludida para o caldeirão do capeta.
– Olha lá! – alguém gritou. E todos olharam para o céu.
Eram os foguetes anunciando a Aleluia.
Ainda bem que não era um bando de urubus...
De repente, comecei a vislumbrar ao longe um grupo de aviões. Vinham como que em silêncio, uma vez que estavam distantes. Vinham juntos, fazendo já alguns círculos, um ao lado do outro.
– Ali, gente! A Esquadrilha da Fumaça!!!
Antes que todos começassem a rir, eu mesmo já tinha olhado melhor: era um pequeno grupo de urubus. Por isso que não havia fumaça.
Para mim, era a turma da acrobacia aérea. Tudo ali conspirava para que fossem os aviões. A expectativa me fez criar um ponto de vista.
No Sábado de Aleluia de 1989, Dona Terezinha, professora de música, me convidou para cantar uma das leituras na missa da noite, lá na matriz. Pois eu fui, todo formal, vestido de preto e com uma camisa de gola branca. No meio dos padres, lá no altar, subi à tribuna e soltei a voz. Confesso que caprichei.
Quando acabou a cerimônia, fui abordado por uma senhora bem vestida. Cabelo tão branco que já era azul. Muito magra e muito alta. Um palito de cabelo azul. Não era de Resende Costa, morava no Rio de Janeiro. Pediu para conversar comigo e fomos ali para o adro lateral da igreja. Já assentados na mureta, a mulher disse que estava afastada da Igreja havia muito tempo, mas queria retomar a sua devoção.
– O senhor pode me ajudar? – perguntou aflita.
– Sim, minha senhora. Eu vou conduzi-la...
– Conduzir para onde? Para a paz? Para o céu? Para onde? Eu preciso que alguém me conduza. Para onde o senhor vai me conduzir?
Me deu vontade de conduzir aquele cotonete para o cemitério.
– Padre, eu preciso de uma direção.
Padre?! A carioca do cabelo azul pensou que eu era padre e queria se confessar comigo. A coisa ficou mais séria quando a dona me confiou a própria salvação.
Se eu falasse que não era padre, a mulher despencaria direto para o inferno, tamanha a decepção. Depois de um sarapatel de justificativas, convenci a Madalena Arrependida a procurar um outro Cristo. Um dos padres, daqueles de verdade, reconduziu a ovelha para o rebanho.
Respirei aliviado e fui para casa. Pus uma bermuda, o chinelo, uma camiseta e fui desfilar num bloco de amigos, que sairia por volta da meia-noite. Desfilei cantando, dançando e abraçado a uma namorada. Foi aí que eu vi, em frente ao bar do Miguel, a mulher do cabelo azul, junto com uma família.
Passei dançando de costas para ela, quase agachado, fazendo de tudo para que não sobrasse nenhum buraquinho no chão por onde pudesse despencar uma alma desiludida para o caldeirão do capeta.
– Olha lá! – alguém gritou. E todos olharam para o céu.
Eram os foguetes anunciando a Aleluia.
Ainda bem que não era um bando de urubus...
O santo, o fogo e a caixa dágua
07 de Fevereiro de 2009, por José Antônio 3
Sabe aqueles títulos de filme que brincam com o absurdo? A volta dos que não foram... O pistoleiro sem dedo... O que o cego Jeremias viu na lua... Pois eu participei de um filme desses: “Incêndio na caixa dágua”!
Talvez o absurdo não seja tão estrambótico. Talvez o estrambótico seja apenas uma lógica da qual ainda não tínhamos tomado conhecimento. Pensando assim, o espírito se acalma diante das esquisitices, não sendo mais preciso surtar, pois o absurdo deixou de ser absurto.
Sábado à tarde. Era dia de uma procissão em Resende Costa. Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu marcamos esse dia para lavar a caixa dágua. O projeto começou a mostrar suas rachaduras logo de manhã: perdemos o ônibus. Ou melhor, eu fiz com que perdêssemos o ônibus.
A desculpa que eu dei pelo atraso foi uma que sempre dava quando pegava carona com o meu saudoso amigo Jósimo: engarrafamento. Mas, engarrafamento em São João del-Rei? Em 1987? Num sábado de manhã? Seria mais fácil engarrafar a nossa caixa dágua num só pote do que engarrafar o trânsito na terra do Tancredo.
Depois de levar um sabão dos dois lavadores de caixa dágua, consegui – por obrigação moral – uma carona para nós três. Era um caminhãozinho velho, data ignorada e marca apagada. Além disso, iria passar pela estrada de terra. Até Coronel, a viagem foi festiva lá na pequena carroceria de madeira furada. Quando pegamos a estrada de terra seca, o estômago virou ioiô nos solavancos e batidas daquela BR (Batedeira Ressequida).
Chegamos às Lajes com a alma amarelada de pó. Depois de um banho – esfregando com Bombril, pois não tínhamos esponja nem bucha –, fomos banhar a caixa dágua. Estávamos limpos e arranhados.
A bem da verdade, nossa caixa dágua era um exemplo de ecologia: algas e lodo mantinham a flora; insetos e um pardal morto garantiam a fauna. Esvaziamos nossa reserva natural pelas torneiras e partimos para o sabão em pó e as vassouras. Depois de tudo lavado, Mário cismou de desinfetar.
– Como? – indagou o Marcos – não temos desinfetante. Não dá nem pra esfregar com mais capricho.
Pensei no Bombril, mas fiquei quieto.
Num relâmpago de sabedoria, Mário desceu do terraço e voltou trazendo uma garrafa de álcool. Aderimos à sapiência pragmática do Mário e enchemos a caixa dágua de álcool. Quando o fósforo desceu, uma explosão surda se ouviu, acompanhada de um clarão. Bem na hora em que a procissão passava em frente ao nosso beco.
– Viva! – gritaram os fiéis, agradecidos por aquela manifestação luminosa de devoção.
A procissão passou e saímos de trás da caixa dágua. O sino tocava festivo, a banda acertava nos acordes, os fogos espocavam na praça. Lá no beco, o ritual era outro: eu levava baldes de água para o Mário, o Mário tentava apagar o incêndio na caixa dágua e o Marcos se livrava das chamuscadas no próprio rosto. Absurdo? Quem sabe havia uma lógica inocente em tudo isso?
O povo rezava e a gente xingava. As preces subiam e a água descia. A vela ardia e a caixa torrava. Lá do andor, o santo olhava para o povo e para o beco. Do povo, ele levava os louvores. Do beco, apanhava algumas gargalhadas para levar para o Céu e fazer os anjos rirem.
Talvez o absurdo não seja tão estrambótico. Talvez o estrambótico seja apenas uma lógica da qual ainda não tínhamos tomado conhecimento. Pensando assim, o espírito se acalma diante das esquisitices, não sendo mais preciso surtar, pois o absurdo deixou de ser absurto.
Sábado à tarde. Era dia de uma procissão em Resende Costa. Marcos Geraldo, Mário Márcio e eu marcamos esse dia para lavar a caixa dágua. O projeto começou a mostrar suas rachaduras logo de manhã: perdemos o ônibus. Ou melhor, eu fiz com que perdêssemos o ônibus.
A desculpa que eu dei pelo atraso foi uma que sempre dava quando pegava carona com o meu saudoso amigo Jósimo: engarrafamento. Mas, engarrafamento em São João del-Rei? Em 1987? Num sábado de manhã? Seria mais fácil engarrafar a nossa caixa dágua num só pote do que engarrafar o trânsito na terra do Tancredo.
Depois de levar um sabão dos dois lavadores de caixa dágua, consegui – por obrigação moral – uma carona para nós três. Era um caminhãozinho velho, data ignorada e marca apagada. Além disso, iria passar pela estrada de terra. Até Coronel, a viagem foi festiva lá na pequena carroceria de madeira furada. Quando pegamos a estrada de terra seca, o estômago virou ioiô nos solavancos e batidas daquela BR (Batedeira Ressequida).
Chegamos às Lajes com a alma amarelada de pó. Depois de um banho – esfregando com Bombril, pois não tínhamos esponja nem bucha –, fomos banhar a caixa dágua. Estávamos limpos e arranhados.
A bem da verdade, nossa caixa dágua era um exemplo de ecologia: algas e lodo mantinham a flora; insetos e um pardal morto garantiam a fauna. Esvaziamos nossa reserva natural pelas torneiras e partimos para o sabão em pó e as vassouras. Depois de tudo lavado, Mário cismou de desinfetar.
– Como? – indagou o Marcos – não temos desinfetante. Não dá nem pra esfregar com mais capricho.
Pensei no Bombril, mas fiquei quieto.
Num relâmpago de sabedoria, Mário desceu do terraço e voltou trazendo uma garrafa de álcool. Aderimos à sapiência pragmática do Mário e enchemos a caixa dágua de álcool. Quando o fósforo desceu, uma explosão surda se ouviu, acompanhada de um clarão. Bem na hora em que a procissão passava em frente ao nosso beco.
– Viva! – gritaram os fiéis, agradecidos por aquela manifestação luminosa de devoção.
A procissão passou e saímos de trás da caixa dágua. O sino tocava festivo, a banda acertava nos acordes, os fogos espocavam na praça. Lá no beco, o ritual era outro: eu levava baldes de água para o Mário, o Mário tentava apagar o incêndio na caixa dágua e o Marcos se livrava das chamuscadas no próprio rosto. Absurdo? Quem sabe havia uma lógica inocente em tudo isso?
O povo rezava e a gente xingava. As preces subiam e a água descia. A vela ardia e a caixa torrava. Lá do andor, o santo olhava para o povo e para o beco. Do povo, ele levava os louvores. Do beco, apanhava algumas gargalhadas para levar para o Céu e fazer os anjos rirem.