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Nhá Chica fez travessia

28 de Outubro de 2026, por Mário Márcio de Quadros

À sombra do menino Evaldo Balbino

 

No Ribeirão de Santo Antônio o dia amanheceu alongado, jururu e borocoxô. Por esses longes das Gerais, o céu embaralhou brilho, em cantoria de saracura. Água de mina, fria e farta, calor de desmaio. Nhá Chica fez travessia. A vida tem dessas coisas, carece de ir embora. Destino nosso. Cada dia é um dia, de criatura ausente, distante. No cocuruto do vento, zunidos de gastura e desamparo. Na lei do comum, ribeiro desce ladeira, sem prazo de remo, num espreguiçar sem fim. A olho e faro, nuvens carregadas tecem arcos-da-aliança, em horizonte de pedra. Noite nos olhos, caverna, clausura, alucinação. Coruja-da-igreja avoa susto, acaso e mau-agouro. 

Em vida, Nhá Chica sempre foi opiniúda e confiante, desde moça. Não suportava duvidação e nem ofensa a seus modos. Sua mãe, dona Maria do Rosário, alertava:

- Minha filha, fecha essas pernas! Acerta esse corpo! Cê tá parecendo home barbado!

- Quem sabe nasci no corpo errado, mamãe? Quem sabe Deus errou a fôrma?

- Que fôrma, filha?! E pare de coçar as partes, criatura! Seu pai sabe desses seus modos?

- O papai não quer saber de mulher com ele na roça não, mamãe! Eu mais ele limpa pasto, dia inteiro! Arruma cerca. Trata e cuida dos animais. Sou moça trabalhadeira! e não nego obrigação.

- Ah, tá! Nessa base, Francisca, cê vai demudar documento.

- Que importância tem, mamãe!

- Tem que o povo vai descer a língua.

- E a língua do povo vai pagar nossas contas?

- Não paga, mas.... Pare de coçar as partes, filha! E acerta esse corpo, Criatura!

Mulher feita, Nhá Chica cheirava rapé. Mascava fumo e pitava seu cigarrinho de palha; assentada em seus calcanhares, fosse onde fosse. Labutava o dia inteiro no campo, roçando pasto; arrumando cerca; apurando trato e alinho dos animais, ela e o pai dela. As obrigações caseiras ficavam para o depois a gente faz, quando der. E se não desse, e nunca dava, caberia à criançada e ao marido dela tomar tenência e cuidar da limpeza e encargos domésticos.

Por falar em afazeres domésticos, Jacinto, seu marido, vivia perlengado; descrido da vida, enfiado em meias e cobertores, casmurro e lerdo, dentro de casa. De um lado, não se dava com o sereno da manhã; de outro, o braseiro do nascer do sol torrava seus miolos. Porém, não podia ver um rabo de saia. Revelava-se galanteador em presença das mulheres. E não tinha santo, promessa ou oração que esconjurasse o travesso do corpo endemoninhado do Jacinto. O homem virava tição de fogo, em madeira de lei. E ousava, feito cão no cio, mordedura, bote e montaria, fosse onde fosse. 

Dia desses, por conta dos excessos, Nhá Chica chinelou o falo do marido; inté o pinto dele virar jesus-meu-deus em bexiga de sangue. Dizem que foi por conta do afogo de Santo Antônio em copo de shot repleno d’água ardente. Em desgoverno de incêndio, o marido da Nhá Chica entrou em corte com mulher recém-casada, na barraca do beijo. Sete filhos para sustentar; e o diabo do homem em comitiva com mocinha nova! O que Jacinto pensa da vida?! Que juízo esse homem tem, mamãe?

Dias depois do ocorrido, Chiquinha cismou de arrancar fora dos trilhos, e a unha, os badalos do marido. Tudo por conta de uma cachaça que ela tomou na Venda do Nélson. Desde então, Jacinto corre distância da mulherada do Vilarejo. Contam que o imperador perdeu espada em duelo. E que o marruco fora capado para engorda de corte. A despeito disso, e com um sorriso bobo na cara, o bocó revela que perdeu crença com mulher! Vê se pode! Um maquinista, depois de velho, andar fora dos trilhos!

- Entonce, Nhá Chica será o homem da casa, Jacinto.

- Que importância tem, minha sogra!

- Tem que o povo vai descer a língua.

- E a língua do povo vai pagar nossas contas?

- Não paga, mas... Desencruze essas pernas, meu filho! Apruma e firma esse corpo, Criatura!

No Ribeirão de Santo Antônio o dia amanheceu arengado, pobre e descalço. Por esses longes das Gerais, o céu embaralhou brilho, em toada de seriema. Água de cacimba, fria e farta, calor de desmaio. Nhá Chica fez travesseiro de madeira. Descansou. A vida tem dessas coisas, carece de ir embora. Destino nosso. Cada dia é dia de ausência. Noite nos olhos, isolamento, desamparo.

- Quem sabe Deus errou a fôrma, mamãe?!

- Que fôrma, filha? E pare de coçar as partes, Francisca!

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