Os “turcos” em Resende Costa VIII
14 de Dezembro de 2010, por João Magalhães 1

Miguel Salomão
Nossa série sobre os “Turcos” em Resende Costa termina com a família Salomão.
A raiz “Salomão” em Resende Costa foi Miguel Salomão, conhecido de todos como “Miguel Turco”.
De seus filhos, viva só está a Filomena, infelizmente, sem condições de relatar suas vivências. Como não se conseguiu qualquer documento, só nos restou o recurso a lembranças, aliás, muito esparsas, de quem com ele conviveu. Nossas fontes principais são, por coincidência, duas Terezinhas.
Terezinha Hannas, sua sobrinha por parte da esposa dona Maria (Marin, no Líbano), informa que ele nasceu em Halet, no Líbano. Seus pais: Simão e Dunna Salomão. Portanto, conterrâneo do João Daher e dos El-Corab, sobre cuja trajetória já escrevemos.
Veio para o Brasil nos inícios do século XX (1900-1910), com um grupo de conhecidos, entre eles, João Daher, Chicre Salomão, Bichara, Abraão e Alfredo Hannas, Sebastião Nagib Roman, Nacif, Zacarias e outros.
Motivos? Os mesmos de todos: busca de melhores condições de vida, fuga da opressão turca etc.
Sua nora, Terezinha (82 anos), filha do Sérgio Procópio, viúva de seu filho, Alberto Salomão, relata que, aos 12 ou 13 anos, vindo morar na cidade, ouvia o povo falar que Miguel “depois voltou na Turquia (sic). Casou com dona Maria e veio morar em Santos. Lá morou, não sei quanto tempo. Lá em Santos, tiveram Amélia, Adélia, Florinda e o Zé. Acho que tiveram quatro filhos em Santos”
Por informações da filha de Chicre Salomão, via Terezinha Hannas, sabe-se que ambos trabalharam juntos na venda de cereais e na criação de carneiros. Miguel morou com Chicre em Capelinha, depois em Garça (Morro da Garça?). Tinha, na ocasião, cerca de 20 anos.
Como o primeiro filho seu a nascer em Resende Costa foi o Alberto, em 29 de julho de 1911, conclui-se que entre os anos 1909 e 1910 já se estabelecera aqui na cidade.
Montou seu negócio nos “Quatro Cantos”, atualmente esquina da Av. Mons. Nelson com a Rua Assis Resende, uma parte, ainda propriedade de seus descendentes. Era a “Loja Árabe”. Um cartaz de sua loja, ao que parece muito antigo, contém as palavras seguintes, ao pé da letra: “Completo sortimento de Fazendas, Roupas, Chapéos, Calçados, Armarinho, Ferragens, Louças, Generos do Paiz, etc, etc. Miguel Salomão & filho. Villa Rezende Costa – E. de Minas” .
Tal como os demais sírio e libaneses por aqui, cresceu economicamente. Além do comércio, tinha um terreno, lá na “Fonte da Ilha”, mais tarde, propriedade do filho caçula, Antônio Salomão.
Criou numerosa família: Amélia, Adélia, Florinda, Filomena, Jamile, Dalila, Olga (falecida ainda criancinha), José, Alberto, Simão, Clemenceau (Sossó) e Antônio.
Conforme Terezinha Hannas (Lembranças Esparsas, p.66), Amélia foi a maior tristeza da vida de Dona Maria. Por volta de 1913, Miguel, contra a vontade da mulher, enviou Amélia e Adélia para o Líbano, a fim de cuidar da mãe dele. Explodiu a 1ª Guerra Mundial (1914/1918) e Amélia desapareceu no Líbano e sobre ela ninguém jamais ouviu falar.
Cedo espaço para a prodigiosa memória do Gentil Vale (Escavações no tempo, p.116): “Nos quatro cantos também duas outras lojas abriam suas portas. A do Miguel Turco e a do Calixto Hannas. Vendiam tecidos, armarinhos. Seu Miguel, como o tratávamos, era natural do Líbano. A casa do Sr. Miguel ficava na esquina, ao lado da do Osório. No amplo quintal, duas imensas paineiras e muitas jabuticabeiras. Casa farta e sempre cheia de gente. Nela também moravam o Pedro turco, seu irmão Joaquim e o Zacarias”
Miguel Turco era um homem alto e forte. Na mocidade, era chamado de Miguelão. Trabalhador inquieto e sempre pronto. Homem correto com indiscutível crédito no comércio. Afável e muito brincalhão.
Dos costumes árabes, parece que só manteve os hábitos culinários mais tradicionais: quibes de carne de carneiro, charutinhos etc. A Filomena do Dezinho (mãe do Luís Ezequiel de Resende, o Bacarini) lembra-se de uns figos cristalizados deliciosos que faziam. Devia ser novidade, na época, em Resende Costa. Antônio de Paula Pinto (Tonico do cartório), que por amizade com o Antônio Salomão, frequentava muito a casa, diz que dependuravam numa porta perto da cozinha um carneiro abatido e limpo. Embaixo, uma baciinha com sal e uma faca. Cortava-se uma tira de carne (crua) passava-se no sal e comia-se.
Miguel não gostava de falar o árabe, nem para xingar, mas dominava-o, pois, morando com o Chicre, traduzia para a mulher dele, brasileira, cartas chegadas do Líbano. Gostava de acompanhar os acontecimentos: sobre o balcão, sempre um jornal do Rio de janeiro.
Faleceu em sete de janeiro de 1956, na faixa dos 80 anos. Ainda lúcido, sempre controlando suas contas. Só então se livrou do suplício de uma ferida na perna, incicatrizável, que o acompanhava nos últimos tempos.
Seu numeroso clã familiar movimentou bastante a roda social e política de nossa cidade. E ainda gira, através de netos e bisnetos.
O espaço nos permite citar apenas alguma atuação ou acontecimento. A opção foi para os mais lembrados nas entrevistas.
Está na memória da cidade o Sossó, que tinha um nome próprio incomum: Clemenceau. Poderia ser uma homenagem ao famoso primeiro-ministro George Clemenceau, que governou a França durante a 1ª. Guerra Mundial (1914-1918). Foi o melhor goleiro que o mítico time dos “Expedicionários” já teve. Teve convite para jogar no Rio de janeiro. Não foi por oposição do pai.
Escreve Terezinha Hannas: “não me lembro em que ano, a filha Jamile resolveu ser rainha na festa do Rosário, que aconteceria no final do mês de outubro. As rainhas eram sempre escolhidas entre mulheres da raça negra, cuja comunidade local não gostou da presença de uma rainha branca”.
Alberto Salomão, fanático pelo ex-presidente da República Jânio Quadros, de vassourinha na lapela, marcou presença por ter sido delegado de polícia e juiz de paz.
E claro, na História política de Resende Costa, não se pode omitir o Antônio Salomão, por sua longa atuação na Câmara Municipal. Vereador secretário da câmara no mandato do prefeito Geraldo Monteiro (1950-1954). Novamente, no mesmo cargo, no mandato do prefeito Antônio Honório (1955-1959). Presidente da Câmara, no biênio 1989-1990, no mandato do prefeito Camilo Lélis (1989-1992).
Teste e proteste!
12 de Novembro de 2010, por João Magalhães 0
O Brasil oficializou o acordo ortográfico da Língua Portuguesa (1990), com os decretos 6583 a 6585 de 29 de setembro de 2008. Embora, pioneiramente, esta coluna já se tenha pronunciado criticamente (JL: “O verso e o controverso”, Ed. 62, junho de 2008, p.9), volto ao assunto para exemplificar nosso tema e para aderir a um ou outro protesto que já brota por aí. Se escrevi, na ocasião, que achava o acordo “pífio, insuficiente e pouco contributivo”, agora, amplio. Acho-o, complicador e prejudicial para a aprendizagem da escrita. Se ensinar ortografia já era difícil, agora piorou. Faça o teste.
Aboliram o acento dos ditongos tônicos “ei” “oi” das paroxítonas. Não devia. O acento orientava a pronúncia. Só piorou. Faça o teste. Como você pronuncia estes exemplos: alcateia – ameia – boleia, - coreico – azoico – zoina – troica?
“alcatéia”( ) ou “alcatêia”( ); “améia”( ) ou “ameia ( ); “boléia”( ) ou “bolêia”( ); “coréico”( ) ou “corêico”( ); “azóico”( ) ou “azôico” ( ); “zóina”( ) ou “zôina”( ) e “tróica”( ) ou “trôica ( )?
Aboliram o trema. Não devia. Era útil. Ajudava na pronúncia. Exemplo: como se pronuncia: relinquir – réquiem – requestionar?
“Relinkir”( ) ou “relincuir”( ); “rékiem”( ) ou “récuiem”( ); “rekestionar”( ) ou “recuestionar”( )?
Mexeram com o hífen. Se antes era um problema, agora só se você decorar as complicadas “bases” do acordo, com as exceções e entender a linguagem “técnica” delas, ou consultar um dicionário atualizado. Você já tem?! Não está barato! Teste:
Pão de ló ( ) ou pão-de-ló ( ); pé de moleque ( ) ou pé-de-moleque ( ); autoestrada ( ) ou “auto-estrada ( )?
Uma pergunta às centenas de excolegas (amigo leitor, com hífen, ou sem?) professores de português: pediram a vocês alguma opinião, alguma sugestão, algum palpite?
Encerro com mais um exemplo. Por estes dias, procurei em duas enormes lojas de material de construção de São Paulo um adaptador para estas tomadas elétricas do modelo novo que o país impõe a todos os consumidores. Não achei. Para você plugar os produtos elétrico, lançados a partir de agora, não há saída: ou consiga os adaptadores ou troque tudo! Invocaram razões técnicas e de segurança. Pergunto: para obter isto, precisava modificar tudo? Nós, cidadãos, fomos consultados? Fora a quietude? Viva a inquietação. Fora o conformismo? Fora o “fazê o quê, né”? No mínimo, vamos protestar. É o que penso. E você?
Os “turcos” em Resende Costa – VII
11 de Outubro de 2010, por João Magalhães 2

O casal Nagib Miguel Roman e Emília Cezarina, com os filhos Miguel Alderico, Sebastião Nagib, José Nagib e Ana Teodora
A família Roman
Começo pelo agradecimento por todas as informações recebidas. Faço-o, encarecidamente, a Maria Lúcia Pinto Roman (Lucinha do Góes), nora de Sebastião Nagib Roman, filho de Nagib Miguel, fundador da família Roman, em Resende Costa.
Não se conseguiu saber o nome árabe de família de Nagib Miguel, pois seu sobrenome original foi trocado por “Romain”, quando de sua passagem pela França e por “Roman” ao aportar no Brasil. Por que trocou-se? A resposta até hoje não chegou. Talvez por ser ele de Fé católica romana?
Nagib Miguel vem para o Brasil com o irmão Jorge e um primo, Antônio. Como a imigração “turca” (O leitor já sabe que não são turcos e sim sírio-libaneses que foram apelidados de turcos por virem para cá, com documentação do império turco que dominava suas regiões, na época), em Resende Costa, acontece entre a 1ª e 2ª décadas do séc. XX, por Nagib ter nascido em 1869 e por ter casado, no Brasil, em 1903, a possibilidade maior é de ter desembarcado em nosso país nos inícios de 1900. Quem sabe, até um pouco antes. Vieram de Trípoli, Líbano, que na época pertencia à Síria, dominada por sua vez pelo Império Otomano (Turco). Razões da emigração? As mesmas dos demais: busca de melhores condições de sobrevivência, fuga da opressão turca, escape de recrutamento militar.
O primo Antônio foi morar em São Paulo. O irmão Jorge separou-se dos negócios com Nagib e foi para os Estados Unidos, não se apurou quando.
Da família de Nagib, sabe-se de seus pais: Miguel e Ana Fidélis; de seus irmãos, Jorge (que veio com ele para o Brasil) e Habib que morreu numa “guerra” no Líbano; de três irmãs: uma que ficou no Líbano, outra que foi para a França e uma terceira que emigrou para a África do sul.
Trajetória? Também a mesma. No caso de Nagib, mascateagem por sete Estados brasileiros, até optar por Minas gerais. Nestas andanças, conhece Emília Cesarina de Miranda, nascida no Curralinho, Resende Costa, mas residente em Congonhas do Campo. Aí se casam, em 1903, e vão morar em Juiz de Fora, onde nasce o primogênito Miguel Alderico Roman. Associa-se, então, ao estabelecimento comercial de Jorge, seu irmão e muda-se para o Rio de Janeiro, onde nasce José Nagib e Ana Teodora.
Escreve Lucinha: “Ao separar-se do irmão, Nagib reuniu todo o dinheiro que possuía e voltou ao Líbano para vender uma propriedade que recebera como herança. Investiu todo o dinheiro apurado em couro e retornou ao Brasil. Seu precioso carregamento de couro perdeu-se na viagem por causa de infiltração de água no porão do navio. Viu-se, então, com mulher e filhos, que na época já eram quatro, sem capital e sem parentes. Veio então para Resende Costa e começou a trabalhar no seu ofício de carpinteiro. Aforou um lote na rua Nova (Dr. Gervásio), construiu uma casa espaçosa, continuou criando sua família. Em Resende Costa, nasceram: Uriel, Bernadete, Nagibinho e Jorge. Nunca quis lhes ensinar o árabe e repetia sempre: “Sua pátria é o Brasil sua língua, o Português”.
Faço aqui uma breve digressão para anotar um documento que, penso, interessa à História de Resende costa. “Atheneu Rezendino. Curso primário e secundario. Internato e semi-internato para meninos e externato mixto. Director; Joaquim da Silva Mourão. Rezende Costa. Estado de minas. O Snr Nagib Miguel Romã deve, Rezende Costa 26 de Fbro de 1918, junho30, import despesas de 15,00. Um quadro de 10.000. Saldo a meu favor 5.000. Peço-vos dar a impor supra ao snr Francisco Marcos dos Reis. Cumprimento.JSMourão.”
A doença veio mais cedo do que se esperava; não obstante o amparo de seus patrícios aqui, como o do Miguel Salomão (“Miguel Turco”), a morte o buscou, em 1926, aos 57 anos
Novamente, Lucinha: “Dona Emília, apoiada pelos filhos mais velhos, tocou a vida com dificuldade. Não pode educar os filhos como desejou. Todos eles, como era comum na época, aprenderam um ofício, tornando-se assim alfaiates (Sebastião e Uriel), carpinteiros (José Nagib e Nagib Geraldo), sapateiro (Alderico). Este, mais tarde, tornou-se cambista de loteria. Jorge ganhou a vida como motorista, em São Paulo. As mulheres casaram-se e morreram relativamente cedo”.
Como vimos, aqui em Resende Costa, a família Roman influiu mais no campo das profissões importantes e indispensáveis, na época, mas aquele sangue comercial, tão característico dos libaneses, não secou nas veias Roman. José Nagib tornou-se comerciante como o pai, no bairro do Horto, em belo Horizonte, onde manteve fielmente por longos anos a “Miscelânea” do Nagib. Ricardo, bisneto do velho patriarca, está hoje à frente de um antigo e famoso restaurante de Belo horizonte: o “Maria das Tranças”.
A semente Roman reproduziu-se num leque amplo: advogado, engenheiro, médico, professor, psicólogo, comerciante... até piloto de aviação. “Nada mal, como diz Lucinha, para um imigrante que perdeu tudo nas idas e vindas pelo país e pelo mundo...”.
E dada a importância de sua atuação, este final vai para um neto do velho Nagib Miguel Roman e nas palavras de Lucinha: “No dia 8 de setembro próximo passado faleceu em Congonhas do Campo seu neto José Hélio de Miranda, político (eleito vereador por duas vezes) e radialista. Por 18 anos, manteve na Rádio Congonhas, seu programa “Participovo”, no qual, com recorde de audiência, dava voz ao povo em seus anseios e dificuldades. Seu velório mobilizou a cidade, mesmo em dia de jubileu e seu corpo, acompanhado por uma grande multidão, subiu a ladeira de acesso à igreja Matriz, onde talvez, seu avô, o imigrante Nagib, tenha subido carregando sua mala de mascate, buscando, ansioso, na saída de alguma missa, os olhos claros da moça Emília, com quem viria a se casar e passar seus dias de alegria e sofrimentos na nova Pátria. No carro de som e na voz do povo, as palavras da canção do Gonzaguinha, música de seu programa: ‘Viver e não ter vergonha de ser feliz, cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...é a vida!É a vida! È a vida!’”.
Os “Turcos” em Resende Costa – VI
10 de Agosto de 2010, por João Magalhães 1

Dona Rafa e seu irmão Pedro Carlos
A família El Corab – II
Antes que alguém questione, não são turcos, são os sírio-libaneses que, por aqui, foram apelidados de “turcos” por virem de regiões dominadas, na época, pelo império turco.
As raízes mais profundas e amplas dos El Corab em Resende Costa devem-se a Pedro Carlos El Corab e, sobretudo, a Rafa El Corab, carinhosamente chamada pela população de “dona Arafa”.
Elisabete (Bete), sua filha, a quem devo a quase totalidade das informações, explica: “Rafa” vem do hebraico: “Rafika”, em português, “Rebeca”.
Parafraseando o Evangelho de Mateus (Mt 1): Pedro Jorge El Corab e Rafa Isaac El Corab geraram Carlos Pedro El Corab. Kalil José El Corab e Franzie Saade El Corab geraram Maria Kalil El Corab. Carlos Pedro El Corab e Maria Kalil El Corab (primos em 1º grau) geraram Pedro Carlos El Corab e Rafa El Corab, a dona Arafa.
Exceto Pedro Carlos e Rafa, todos nasceram no Líbano, em Hallet, patriarcado de Monte Líbano. Como temos visto, uma boa parte dos sírio-libaneses que adentraram nossa região são familiares ou amigos, nucleados naquela localidade do Líbano.
Bete informa que por volta de 1910, seu avô Carlos veio com o irmão Addia e os tios deles, Tobias e Ibrahim Isaac El Corab, pai do conhecido José Abrão (Yussef Ibrahim El Corab). A família de sua avó materna (Maria Kalil El Corab), inclusive sua bisavó, Franzie Saade, também veio, quase toda.
Todos esses “turcos” percorreram trajetórias parecidas: imigração sob tormentosas condições, trabalhos exaustivos no mascateio e em seus estabelecimentos fixos. Por fim, êxito social e econômico.
Carlos Pedro casa-se com Maria Kalil, monta residência em Desterro de Entre Rios, firmando-se aí, após muita luta, como próspero comerciante, que vende de tudo, como todos, aliás, seus conterrâneos do Líbano. Em 10 de janeiro de 1914, nasceu Pedro Carlos e a sete de março de 1919, Rafa. Quando Rafa tinha mais ou menos, dois anos, a família voltou para o Líbano, retornando, porém, após um ano, por problemas de doença nos olhos de Pedro e Rafa. Neste tempo em que estiveram no Líbano, tiveram mais um filho: Alberto. Na viagem de volta ao Brasil, o bebê faleceu e foi sepultado em Gênova.
Carlos: calmo de temperamento, emotivo e muito reservado, embora gostasse de cantar em árabe. Era também muito alegre e receptivo às crianças. Emotivo. Como tinha o hábito de ouvir notícias pelo rádio, chorava quando ouvia notícias de guerra em sua terra natal, da qual tinha saudades. Religioso, ia à igreja quando vinha à cidade e lia a Bíblia diariamente. Vida cultural, também, pois Bete lembra-se de dona Rafa comentar sobre o romance “O Conde de Monte Cristo” (Alexandre Dumas). Muito popular em Desterro, reunia-se, frequentemente, com amigos e fregueses para papos, comer alguma coisa, ouvir novela pelo rádio. Apreciador de legumes crus, principalmente jiló e quiabo. Aos poucos, com glaucoma, foi perdendo a visão. Mesmo assim, pelo tato, conhecia o valor das notas. Faleceu em 12 de outubro de 1962.
Maria Kalil: Temperamento forte e muito brava. Exímia cozinheira, sobretudo, de pratos árabes. Famosa por seus pães sírios. Muito habilidosa, também, em trabalhos manuais, como crochê, bordados, rendas etc. Não se alfabetizou em português, que falava com dificuldade. Os dois, em casa, conversavam entre si em sua língua natal. Faleceu em 1960.
Os dois filhos, criados com muito mimo, ao se casarem, se transferem para o município de Resende Costa. Pedro Carlos casou-se com Adotiva Aarão (Estrelinha). Eles não tiveram filhos, no entanto criaram sua sobrinha Sônia. Foram donos da Fazenda dos Coelhos. Pedro Carlos faleceu em cinco de dezembro de 1965.
Em 14 de maio de 1938, Rafa casou-se com Antônio de Resende (1916-1973), o nosso conhecido Antônio Honório. Escreve Bete: “Meu pai foi um grande político e idealista, tendo grande visão de progresso. Foi vereador em Resende Costa por três legislaturas e prefeito por dois mandatos (1955-59; 1967-70)”. O JL já o destacou merecidamente, em “Gente que Fez e faz História”, texto de Maristela de Oliveira Peluzi (JL, ano III, ed. 34, 2006, p. 4).
Do casamento com Rafa nasceram 13 filhos: Humberto, Hugo (falecido em 17 de março de 1992), José Geraldo (Lalado), Lúcia (falecida em 14 de maio de 1963), Maria Helena (Lena), Sônia, Antônio (Toninho), Carlos Roberto (Carzinho), Luciano (Grilo), Maria das Mercês (Cezinha), Elizabete (Bete), Goretti e Luciene.
Donos da fazenda São João (hoje propriedade do advogado Márcio Resende, Filho de Cassiano Resende e Eni). A fazenda prospera com a criação de gado, produção de leite, fábrica de doce, manteiga e polvilho. Muita movimentação, emprego para muita gente.
1960/61, anos cinzentos. A filha Lúcia, que já era debilitada, piorou muito. Gastaram tudo o que puderam e não puderam. Venderam a fazenda. Mudaram para São João del- Rei e lá, na Colônia do Marçal, Lúcia “partiu” aos 18 anos. No 2º mandato de prefeito, Antônio de Resende retorna apara Resende Costa e a família começa a residir na conhecida “Chácara” (hoje do Luciano). Com a morte do marido, em 1973, novamente momentos difíceis para dona Arafa, que já sofrera muito com o falecimento da filha. Bete novamente: “Ele faleceu em 28 de dezembro de 1973, com tumor na medula. Com sua ausência, o meu irmão Hugo tornou-se o esteio e o porto seguro de minha mãe e de todos os irmãos. Tínhamos apenas onde morar e os irmãos mais velhos iam ajudando os mais novos, até todos terem condições de se manter e ajudar minha mãe”.
Rafa (dona Rafa): mulher laboriosa, caridosa e religiosa. Era catequista em Desterro de Entre Rios. Às vezes, na narrativa de Bete, “roubava” alimentos e roupas na venda para dar aos pobres. “Não gostava que ninguém que estivesse precisando saísse de sua casa com fome ou frio” Assumiu com muita garra a administração doméstica de sua numerosa prole. Craque na cozinha árabe, donde saíam quibes, tabules, lentilhas, coalhadas sírias e grãos de bico de excelente qualidade. Dona Rafa deixou-nos, em 2 de setembro de 1986, mas o clã El Corab, por ela expandido para Resende Costa, continua fortificando a vida de nosso município em todos os setores.
Permita-me o leitor, finalizar com um momento pessoal, ao dedicar este texto ao amigo, colega de adolescência e de escola, Hugo Resende, que se “despediu” de nós, muito cedo. Estudamos juntos da 1ª à 4ª série do primário, no Assis Resende, sempre com a mesma professora, para nós inesquecível: dona Maria Ivone Sousa.
A família El Corab
13 de Julho de 2010, por João Magalhães 1

Da esq. para dir. Licher, Yussef Ibrahim, Mona com Ibrahim no colo, Antenor, Helena, May, Ibrahin I. El Corab e Gassan
Devemos todas as informações desta matéria à dona Isarina e a seus filhos Raimundo, Charles e Ângela. Dona Isarina, 90, é esposa de Yussef (que no Brasil é José Ibrahim El Corab, o popular benemérito de São João del-Rei, José Abrão). Charles nos informa que a família El Corab, aqui na Região das Vertentes, é uma árvore de muitos ramos. E Ângela explica que, pelo costume árabe de se colocar o primeiro nome do pai após o nome próprio de cada filho, seguido depois pelo sobrenome, muitos nomes aqui no Brasil transformaram-se em sobrenome. Por exemplo, seu avô materno chamava-seJosé (nome próprio)Kanaan (nome de seu pai) El Corab (sobrenome de família). Aqui, oKanaan virou sobrenome e o El Corabdesapareceu, dando-se o mesmo com osIsaac,os Salomãoe muitos outros que não contestaram na época do registro dos seus filhos.
Segundo Charles, El Corabvem de El Horeb. Explico: trata-se do monte Horeb, onde, segundo a Bíblia (Dt 4,10;15), Deus ditou a Moisés os mandamentos para o povo de Israel.
Os El Corab chegam ao Brasil na transição do século XIX para o XX (1899, 1900 e 1905). Um dos primeiros a sediar-se em São João del-Rei é Yussef (José) Kanaan El Corab, portanto, um dos pais fundadores dos Kannan. Mais tarde, aporta outro fundador da família: Ibrahim Isaac El Corab, junto com seus irmãos, Elias Isaac El Corab e Tobias Isaac El Corab, deixando, ainda, no Líbano um irmão chamado César Isaac El Corab. Entre 1910 e 1920 ele emigra do Líbano, vindo de Hallet, na época um distrito da cidade de Byblos. Estabelece-se na cidade de Patrocínio, no triângulo mineiro e mais tarde, por volta de 1939, ele e o filho, Yussef, que viera em 1935, fixam-se em São João del-Rei, onde prosperam, tecendo uma ampla rede econômica (transportadora, posto de gasolina, cerealista, armazéns, hotel, bares, pedreira, padaria).
Ao emigrar do Líbano em busca de melhores dias, Ibrahim Isaac El Corab deixou lá quatro filhos de seu casamento com Hima Nacif: Yussef Ibrahim El Corab (o José Abrão, assim chamado aqui), Sadia, Licher, e Chemel. E do segundo casamento com May, também dois filhos: Antenor e Clymance. Hima Nacif faleceu quando nasceu Chemel, que foi levado para um orfanato e de quem nunca mais se teve notícia, embora Yussef, que era o irmão mais velho, o tenha procurado durante muito tempo.
Yussef, por ser o mais velho dos irmãos, junto com a madrasta May, sustentou a família com a venda de produtos agrícolas (pepinos, principalmente), que levava para comerciar em Beirute, capital do Líbano. Aos 27 anos de idade, Yussef veio ao Brasil buscar o pai, Ibrahim. Em 1941, casa-se com a filha de seu primo (Yussef Canaan El Corab), Isarina Canaan, tendo ele 31 anos e ela 21.
Ibrahim, pai de Yussef, retorna ao Líbano. Já o filho, não consegue o mesmo, devido ao clima de pré-guerra e, posteriormente, 2ª Guerra Mundial, ficando, portanto, definitivamente no Brasil.
Dois ramos dos El Corab estendem-se a Resende Costa: o ramo do José Ibrahim (José Abrão), pois, segundo Charles, possuía terras nas bandas do Barro Vermelho e o ramo dos antepassados de dona Rafa (popularmente “dona Arafa”), de quem falaremos no próximo número.