O Verso e o Controverso

A família Daher - II parte

15 de Junho de 2010, por João Magalhães 0

João Daher e sua segunda esposa Alzira

Esclarecimento ao leitor “que chegou agora”: são libaneses ou sírios, alguns apelidados de “turcos”, por virem de regiões dominadas pelo império turco.
 
Relatos de filhos, netos e conhecidos (inclusive reste redator) retratam João Daher como uma pessoa honesta, atenciosa, cortês, discreta, de pouco falar, mas afável. Gentil Ursino Vale escreve: “comerciante sério, conservava a loja sempre sortida. Pescador apaixonado. Gostava de caçar. Lembro-me do João Daher jogando bilhar no salão do Jesus de Melo. Dificilmente perdia uma partida. Só para o Alberto do seu Miguel (Miguel Turco). Faleceu em Resende Costa há pouco tempo, deixando um batalhão de filhos e seu exemplo de honestidade e cavalheirismo” (“Escavações no Tempo” p.117, 1984).
 
Sua morte aconteceu a 28 de junho de 1973. Escreve sua filha Maria Alacoque (Tote): “a saúde foi ficando fraca, minada pela má circulação e a arterioesclerose que o tornou totalmente debilitado e regredido. Se tornou uma verdadeira criança”.
 
João Daher incorporou quase plenamente os costumes da Resende Costa antiga. O lazer se reduzia às pescarias constantes e às frequentes caçadas, “chumbeando” jacus, codornas e nhambus. Lembro-me dele, com algum acompanhante, serpeando nos campos, pelos lados do Tijuco, com a ajuda dos “incansáveis cachorros, como o Rex, o Tupi”, segundo a Tote. Além do bilhar, periodicamente um carteado (buraco), até altas horas, com amigos como, por exemplo, o Sérgio Procópio.
 
Mantinha certo contato com conterrâneos de fora. Cito, como exemplo, um calendário do ano 1971, bilíngue, árabe/inglês, com uma foto ou pintura em cada mês, muito bonitas, por sinal, instigando os patriotas guerrilheiros árabes a intensificar a luta contra o Estado judeu (Israel). Chafic Hamie, de Formosa, GO, faz-lhe uma dedicatória nesse calendário, com os dizeres: “viva o nacionalista árabe Gamal Nasser”, “abaixo os judeus” “viva Castelo Branco, Costa e Silva” e “viva o presidente de integração nacional, o nacionalista presidente Medici”.
 
Algumas vivências árabes permaneceram, como a criação de carneiros, sacrificados pelo Duque, cujos miúdos (fígado, rins etc.) ao limão, azeite, tomate alface e demais temperos, compunham bem com os tragos da “branquinha” que nunca faltava. E a Tote completa: “não cozinhava no sentido certo da palavra, mas o café pela manhã era feito por ele. Gostava de fazer alguma carne, quibe ou outra comida de sua terra. Apreciava muito a coalhada síria com pão sem fermento, comidas cruas, regadas com limão e azeite. Para acompanhar, gostava de uma caipirinha, um bom vinho e, no frio, um pouco de conhaque com leite. Era apreciador de um bom mingau de fubá com canela. Quando gripado, comia alho assado na brasa e cinzas, sem deixar queimar. E prossegue: “falava francês e português com sotaque.
 
Usava sua língua natal para xingar.  Lia, lia muito. Tenho guardado alguns de seus romances, por exemplo, ”Mulheres de bronze” (com dois volumes) e “Rocambole” (com 13 volumes.) Gostava de escrever. A Tote passou-me um poema, manuscrito dele, não publicado aqui por falta de espaço. Foi um dos primeiros a comprar um rádio a válvulas, ainda funcionando em perfeito estado de conservação nas mãos de seu neto, Túlio.
 
Prezava muito a instrução. Sua filha Vanda informa: “todas as filhas do primeiro e do segundo casamentos ele colocou para estudar no colégio interno em Barbacena, Colégio Imaculada Conceição. Somente quatro terminaram os estudos”.
 
Gostava de vestir-se bem. Terno de linho no calor e de casimira no frio. Diz Vanda: “ficava bravo ao ver seu filho (Pe. Ézio, salesiano, já falecido) com a batina remendada e desbotada”. E acrescenta: era “muito católico. Semana Santa, lá estava ele, carregando o andor. Na construção do Salão Paroquial, ele foi várias vezes ao Rio de janeiro, buscar material, inclusive uma linda cortina de veludo azul”. Pertencia à Irmandade do Rosário”.
 
Era político, fanático por Jânio Quadros (com sua vassourinha) e por Magalhães Pinto (com um alfinete em forma de pintinho). Relembra sua filha Vanda: “quando Jânio Quadros ganhou, ele fez a maior festa com as vassourinhas”. Em Resende Costa nunca se candidatou a cargo eletivo, mas partidarizava-se com a UDN e depois ARENA. Essa participação era antiga, como ilustra um documento de 1931 assinado por ele, que transcrevo, por interesse histórico, do modo como escreveu: “Villa Rezende Costa 18 de Fevereiro de 1931. Ilmo Sr Prefeito Municipal de Rezende Costa. O abaixo assignado obedecendo as disposições que vieram transcriptas em o Minas Geraes de 2 e 3 de Fevereiro corrente, na parte referente a formação do Conselho Consultivo a onde diz que é exigido para o cargo de membro do Conselho o seguinte requisito: ser cidadão brasileiro, vem mui respeitosamente pedir  V. Excia  exoneral-o  daquelle cargo, fazendo V. Excia o obsequio de comunicar essa sua resolução ao Sr. Secretário do Interior. Serve-se da ocasião para apresentar a V. Excia os protestos da sua mais legitima estima e consideração”.
 
João Daher fez história em Resende Costa e permanece, através de sua ampla família, que continua atuando em nossa cidade nas esferas religiosa, política (um neto, duas vezes presidente da Câmara Municipal) e comercial.  Na área cultural, o JL -  legado de um de seus netos, o Denílson Daher, seu fundador -, não pode deixar de agradecer o apoio, através do patrocínio que lhe dão desde sua primeira edição os seus netos, proprietários da “Padaria e Supermercado Sobrado” e da “Drogaria São Geraldo”.

O “Turcos” em Resende Costa – III

12 de Maio de 2010, por João Magalhães 0

Maria Margarida de Alacoque, primeira esposa de João Daher


A família Daher – primeira parte
Re-explico. “Turcos”, entre aspas, pois, muitos membros dessas famílias que aqui se fixaram foram alcunhados de “turcos”, porque emigraram de regiões, na época, dominadas pelos turcos (Império Otomano), que, por sinal, os perseguiam.
 
Além da importância para Resende Costa, o JL tem mais um motivo para destacar os Daher. Nosso jornal é “filho” desta família, pois foi gerado e conduzido, em suas primeiras edições, por Denilson Daher, neto do patriarca fundador, João Daher.
 
Os Daher constituem uma família enorme no Brasil. Armo uma hipótese de Daher ser um nome próprio que, por aqui, se transforma em sobrenome. Baseio-me num Daher famoso e muito antigo: Daher El-Omar (1690-1775), conterrâneo de Jesus Cristo, pois nasceu na Galileia e foi herói na luta contra os turcos. É considerado pelos nacionalistas árabes como pioneiro da libertação dos árabes do domínio estrangeiro. E, também, num documento de 22 de julho de 1921, “Justificação de estado livre”, de João Daher, assinado pelo Pe. José Maria Fernandes (à época vigário em Resende Costa) e pelas testemunhas Salomão Assad, Zacarias Addi e Carmo Germenos Addy. Consta desse documento a sua filiação: Bolos Roqui e Maria Addi. O Daher só aparece quando ele assina “João Daher”. Se houver equívoco, algum Daher que o souber, por favor, corrija-nos.
 
“Nascido e batizado na freguesia de Hellet, patriarchado de Monte Líbano (Syria)”, na escrita do Pe. Fernandes, em 22 de setembro de 1897, João vem para o Brasil com 15 para 16 anos, com um grupo de amigos, entre eles, Chicre Salomão, Bichara, Carlos e Maria El Corab, Miguel Salomão, Abrão Hannas, Alfredo Hannas, Nagib Roman, Nacif, Zacarias. Escreve sua filha Maria Alacoque (Tote): “dizia sempre que saiu de sua terra natal fugindo da guerra. Sua cidade era passagem de guerrilheiros e tudo estava destruído”. Desembarcaram de um porão de navio, no Rio de Janeiro. Escreve sua filha Vanda: “tornou-se caixeiro viajante, transportando suas mercadorias no lombo de um cavalo. Em suas viagens, chegou até Resende Costa e aqui ficou. Saía pelas cidades vizinhas vendendo chapéus, capas (do tipo “ideal”) e tecidos. Exercia ainda a profissão de barbeiro”. Pelo documento assinado, está em Resende Costa desde 1913. Em 23 de julho de 1921, casa-se com Maria Margarida de Alacoque Melo. Teve com ela 7 filhos: Elmo, Elio (“Lio”), Ezio, Elaine, Elzi, Elisa e Édson . Desses filhos, ainda estão vivos Elaine e Édson. Pouco depois do nascimento de Édson, Alacoque adoece e falece em 20 de janeiro de 1935. Em 28 de abril de 1937, casa-se com Alzira Reis, irmã dos conhecidos Syla Reis e Bilico. Desse matrimônio vieram dez filhos: João Daher Filho (Joãozito), Geraldo (Didi), Sebastião, José (Zezé, pai do Denilson), Álcio, Maria de Lourdes (Lolô), Lúcia, Carmen, Maria Alacoque (Tote) e Vanda. Desses 10 filhos são já falecidos João Daher Filho, Geraldo e Carmen.
 
Seu estabelecimento comercial, “Casa Aurora”, funcionava perto da igreja do Rosário, hoje propriedade da família do “Galo” que foi seu genro. Em 1943, comprou do amigo Barbosinha o terreno ao lado, praticamente uma quadra, dando frente para a Praça Sousa Maia e fundos para a Rua Joaquim Leonel. As áreas atualmente pertencentes ao Oromar e a este redator foram do João Daher. Aí construiu sua nova casa, hoje caprichosamente restaurada e de propriedade de sua filha Tote. Vendia de tudo, desde agulha até cimento. Conquistou fregueses muito fiéis. Meus pais, por exemplo, só compravam dele panos, aviamentos, instrumentos agrícolas etc. Quantas vezes este redator ouvia de sua mãe: “Saindo do grupo (Assis Resende), passa lá no “João Daia” e traz um carretel de linha”.
 
Antecipando uma das características de sua personalidade, finalizo com esta narrativa dele, feita numa cadernetinha, com a bela caligrafia que tinha, à nanquim. Mostra bem seu espírito.
 
 “Ipsis litteris”, isto é, como o próprio escreveu: “Maria Margarida de Alacoque Daher deu a luz no dia 26 Dezembro de 1934 no dia 3 de Janeiro de 1935 levantou-se da cama teve de pé 4 dias no dia dia 7 do mesmo pareceu com febre foi medicada pelo Dr João B. Gaudencio durante 8 dias no dia 15 do mesmo foi chamado Dr. José V.Costa Pinto e tiver em comferencia  Dr Costa  Pinto fez esame e encontrou puz no uter fez raspagem e continuo a fazer os curativos durante 5 dias no dia 20 do mesmo foi chamado Dr. Andrade de S. João de El Rey e teve em comferencia com Dr.Costa Pinto e fizer esame o Dr. Andrade achou o caso grave e no mesmo dia de Janeiro de 1935 dia de S. Sebastião falleceu as 8:1/2horas da noite o corpo foi acompaniado e encomendado no dia 21 pelo padre José Epiphanio Gonçalves este escrito foi feito para recordação de seu esposo e seus filhos Seu triste viúvo João Daher no dia da missa de 7º dia menino Edison foi entregue a sua madrinha Anna Rocha [D. Nininha, diretora do Grupo Escolar Assis Resende] para criar como filho até perta [certa] idade depois entregar a seu pai João Daher”.
 
(Este texto continua na próxima edição, 86)

Os “Turcos” em Resende Costa – II

12 de Abril de 2010, por João Magalhães 0

Milled Hannas na época em que foi prefeito de Resende Costa

A família Hannas – parte II

Por exigência editorial e espaço, os closes vão para a atuação dos Hannas, em Resende Costa, que foi marcante.

No âmbito comercial, João Velho (Hannah Antunes) e os quatro filhos criaram a “João Antônio, Filhos e Cia. Ltda.”. Vendia-se de tudo. Autêntico bazar árabe para a época. Mercadorias para toda classe de consumidor. Na loja de quatro portas (hoje só duas), na avenida dos Expedicionários (hoje Gabriel Passos), achavam-se desde artigos finos importados da Inglaterra até pinicos baratinhos! Doces árabes nunca faltavam. O abastecimento se fazia no Rio de Janeiro, mormente na Rua da Alfândega, que concentrava o comércio sírio-libanês. Abrahão tinha uma instintiva capacidade de marketing, inventando até nomes complicados para seus tecidos incomuns. Por exemplo, sabedor do apreço que se tinha pelas máquinas Singer, vendia a marca Sigma com o nome de “Singer Sigma”. A mercadoria é que devia ir ao encontro do comprador. Quando o Abrahão apontava com suas canastras no lombo dos animais, nas fazendas e povoados, era uma festa, mas igualmente uma apreensão, pois ia cobrar dívidas também! Percorria todas as cidades vizinhas. Em Prados, melhor reduto de sua freguesia, inventaram até uma quadrinha: “Compre fiado / Vista-se bem / Corra pro mato / que o turco já vem!”. Mente pioneira, chegou a reunir um grupo, com o intuito de instalar uma fábrica de tecidos em Resende Costa. Claro, valeu o sonho! O pessoal mais idoso lembra-se do laticínio que funcionou ao lado da loja.

A área cultural e educacional foi uma preocupação grande dos Hannas. Foram os primeiros a comprar um rádio em Resende Costa, que chegou pelos anos 40. Escreve Terezinha: “foi uma festa a chegada do aparelho. Com quase um metro de altura, os primeiros rádios eram destaque nas salas. Na época da guerra, que terminou em 45, viam-se todos com os ouvidos colados no aparelho (Observação: esse rádio encontra-se com a família, até hoje, como peça de museu). Os filhos de Abrahão e Alfredo, quase todos se diplomaram: as mulheres, encaminhando-se para o Magistério de 1º, 2º e 3º graus e Psicologia (algumas foram diretoras de colégio). Os homens para medicina e veterinária. Um deles, João, encaminhou-se para a carreira religiosa, tornando-se bispo da “Igreja Católica Apostólica Brasileira”.

Tiveram um relevante papel na educação em Resende Costa as professoras Inésia e Maria José Hannas. A primeira, filha do Abrahão e a segunda, do Alfredo. Ambas foram competentes professoras no antigo “Grupo Escolar Assis Resende”. Da. Maria José Hannas, também conhecida como Da. Paixão - por ter nascido em uma sexta-feira da paixão -, foi diretora do Assis Resende até se aposentar. Foi casada com Helvécio Chaves, filho de Osório Chaves. Estudiosa de francês e árabe, foi também pintora (aprendeu pintura a óleo com Weber Lacerda, que fazia um trabalho na matriz de nossa cidade). Lecionou também no primeiro colégio de Resende Costa (o antigo ginásio).

Quanto ao Milled, o JL já o destacou dignamente ao publicar uma importante entrevista sua (entrevistado por Aline Resende e Alair Coelho (JL, Ed. 42, set/out de 2006), mas não se pode omitir que foi uma das maiores culturas clássicas de Resende Costa: conhecia as línguas latim, grego e hebraico. Poeta refinado até em latim. Está em poder deste articulista, a “Carmen ad dilectissimam urbem Resendecostensem” (Poesia, ou canto de louvor à diletíssima cidade de Resende Costa.), composta por ocasião do cinquentenário de nossa cidade em 1962, no seu mandato de prefeito. Veio ilustrando o programa das festividades. Os versos são perfeitos, num latim clássico muito difícil, no estilo dos poemas de Horácio. Cito, traduzindo para o leitor, a sétima estrofe: “Carmine insignem celebrare festo / Civitatem nunc decet ore pleno, / Rupis aeternae positam perite / Carmine summo” (Agora faz-se necessário celebrar, com um festivo canto, em plena voz, a insigne cidade, assentada caprichosamente no supremo cume de uma laje eterna). Milled encerra assim sua entrevista ao JL: “Gostaria de dizer que estou encantado com a atuação do Jornal das Lajes e todos os seus colaboradores. E que sinto imensas e inexprimíveis saudades de minha querida Resende Costa”.

Politicamente, a família também atuou muito por aqui. Fala Terezinha: “Abrahão era o mais politiqueiro dos irmãos e, como tal, vivia às turras com os inimigos políticos. O mais ferrenho foi um prefeito chamado Costa Pinto, da época da ditadura de Getúlio Vargas. Julgando-se com poderes nas mãos, perseguia os irmãos Hannas e por qualquer motivo, aproveitava-se para tirar partido”. Foi por influência do Abrahão que se criou o primeiro colégio (“ginásio”, na época), em Resende Costa. Prometeu boa votação ao então candidato Bonifácio de Andrada (Andradinha), mediante o compromisso de ele se empenhar para isso.

Milled Hannas elege-se prefeito e no discurso de posse em primeiro de fevereiro de 1969 elege “como precípuo objetivo” de seu mandato, “a equação do trinômio: água, energia e educação”. E realizou. Tanto que sete de outubro de 1962, ao pronunciar o discurso de inauguração da CEMIG em Resende Costa, pôde dizer: “E ao apagar das luzes de meu mandato, sem jactâncias, sem vaidades pueris, sem arrebiques demagógicos, posso solenemente afirmar que acendi duas luzes simultâneas: educação e energia, fundamentos necessários sobre que se processará a arrancada do progresso desta terra que tanto amo”.

Quanto à CEMIG: “Aqui, na esquina da casa do Sr.Antônio Pinto de Góes Lara, distinto funcionário municipal, na entrada do chamado Beco da D. Custódia, a CEMIG, às 15 horas, ergue o primeiro poste em cujo cimo desde já fulgura, batido pelas auras promissoras do desenvolvimento, o pavilhão do progresso de Resende Costa, removendo definitivamente os entraves de tantas carências humilhantes”.

Quanto à água: “O tormentoso, terrível e ominoso problema do abastecimento de água potável, flagelo permanente de toda administração e também dos munícipes, está praticamente resolvido e, dentro de breve lapso de tempo, os lares terão o precioso e vital líquido, captando-o com regularidade e abundância do manancial do Marisco”.

Quanto ao colégio: “O ginásio foi criado e, dentro de poucos meses, a primeira turma estará recebendo seu almejado diploma”.

Jorge Hannas também olhou para nossa cidade. Como deputado, batalhou para instalação do sistema DDD e colaborou com o hospital, com a igreja e com escolas do município.

Este parágrafo final fica para Teófilo da Soledade (em latim: Theophilus a Solitudine), pseudônimo literário de Milled Hannas. Escreveu, há anos, pois, já não vive, numa crônica poética, intitulada “Resende Costa”: “Cidade presépio sobre rochas altaneiras assentada, Resende Costa se destaca por sua pulcritude exuberante e inconfundível. Pena que ultimamente, mãos iconoclastas e criminosas de alguns irresponsáveis desfiguraram, ultrajaram e conspurcaram em parte o conjunto harmonioso de sua formosura e imponência, ferindo as lajes, dádiva régia da natureza”.

Que profecia, hein, Milled!?

Os “turcos” em Resende Costa – I

14 de Marco de 2010, por João Magalhães 0

“Turcos” (entre aspas), porque a população assim chamava alguns fundadores de famílias árabes, muito atuantes em nossa cidade. Exemplo: Abrão Turco, Miguel Turco etc. Provavelmente porque vinham de regiões por muito tempo dominadas pelo império turco (império otomano). Na realidade, são sírios ou libaneses.

Esta coluna, que lida com “O Verso e o Controverso”, nas próximas edições dedicar-se-á mais ao “Verso”, reanimando a seção “Gente que fez e faz a história”, que andava meio desmaiada. Não poderia, portanto, omitir-se quanto a essas famílias, dada a sua importância cultural, política e comercial em Resende Costa.

A família Hannas, abrindo essa matéria, não significa hierarquia de importância, apenas por questão prática, uma vez que os dados necessários nos chegaram com rapidez e abundância. Nas próximas edições escreveremos sobre as famílias Daher, Salomão, El Corab e Roman.

Agradecemos, desde já, possíveis informações e documentos relativos a essas famílias, o que ajudaria, em muito, a nossa pesquisa.


A Família Hannas – Parte I

No início do séc. XX, vindo do Líbano, de Carfalrab, aldeia de Trípoli, chega ao Brasil Hannah Antunes. “Em português tomou o nome de João Antônio, numa versão quase idêntica ao termo original”, escreve sua neta Terezinha Hannas Guimarães em suas “Lembranças Esparsas” (Belo Horizonte, 1993, p.1). E continua: “segundo relato de sua esposa Saada (Saada Giraig Kemmel), João Velho, como era carinhosamente chamado em Resende Costa, administrava os domínios do herói libanês José Becárama (em árabe, Yussef Baitecaram), que pertencia ao grupo de defesa dos libaneses, do qual era o chefe temido. Nas terras deste libanês, João Velho enfrentou várias tribos de invasores drusos, tendo, certa vez, lutado contra vinte invasores, a cacete, que manejava muito bem. Considerando injustos os maus tratos dos turcos aos libaneses, muitas vezes protestava contra tal situação, o que ensejava sua prisão. Um dia, quando deixava a cadeia, o guarda lhe disse: - “Sr. Hannah, não vai levar o colchão?” . Ao que ele respondeu: - “Pode deixar aí, porque amanhã eu voltarei” . João Velho era dotado de esplêndido e robusto físico, altura superior a 1,90m, forte e atlético. Impávido e valente ao extremo, dava impressão de um cordeiro, sendo também generoso e altruísta” (p.4).

Voltando ao Líbano, traz seu filho mais velho Kalil, traduzido para Calixto. Mais um tempo, mandou buscar a família: a esposa Saada, os filhos Brorrim (Abrahão) e Melhres (Alfredo). Ficou lá o Liés (Elias). Chegam por volta de 1910 ao Rio de Janeiro. Duas surpresas desagradáveis: uma revolta (pela data, a “Revolta da Chibata”) e o naufrágio do barco que os levava do navio ao cais (perderam toda a bagagem). Anos depois Liés (Elias) também veio.

A viagem para São João del-Rei terá acontecido de trem. Mais tarde, mudaram para Resende Costa. Como escreve Terezinha, “até hoje não se sabe o motivo que levou Hannah (João Velho) para Resende Costa onde não havia conforto algum, nem sequer luz elétrica”.

Morou numa casa na atual Praça Rosa Penido, onde montou sua loja. Melhorando as finanças, João Velho muda-se para a Avenida dos Expedicionários (atual Expedicionários) e constrói sua loja, com quatro portas na fachada e moradia nos fundos. Durante a construção, reside na casa abaixo, também sua. A casa/loja fica para seu filho Melhres (Alfredo). Adquire a casa em frente, do outro lado da Avenida, (atualmente do Zé do Alípio) onde passa a morar. Esta casa fica para o seu filho Brorrim (Abrahão), quando João Velho volta a residir na casa antiga, abaixo da loja, na qual funcionou, mais tarde, o laticínio da família Hannas.

Os filhos Calixto e Elias não se casaram. Alfredo casou-se com Esméria (Esmena, como a chamavam). Deles nasceram: Maria José (D. Paixão), Ione, Carmem e João. Do 2º casamento com Rosa Amélia, nasceram Alfredo Filho e Alfredo Luiz.

Abrahão casou-se com Lucya. Os filhos: Milled, Inésia, Jorge, Michel, Alba (com 18 meses morreu de Krup) Terezinha, Ibrahim,Vânia, Lúcia e César.

Um pouco sobre Saada Giraig Kemmel, esposa de João Velho. No Brasil, adotou o nome de Maria. Resumo a descrição que Terezinha, sua neta, fez dela. Estatura baixa, magra, roupas longas, rodadas, à moda cigana. Temperamento forte, de difícil convívio, sem nenhuma instrução. Viúva, mantinha o domínio sobre os filhos, que a respeitavam muito. Falava mal o português e com sotaque. Hábitos extremamente caseiros, nunca saía de casa, nem para visitar o Abrahão, seu filho, que morava em frente. Afeita a gatos, vivia cercada deles. Sua casa era como um restaurante de quantos lá entravam e nenhum pobre saía sem se alimentar. Portadora de bronquite asmática. Sofreu muito pela morte do caçula Alfredo. Faleceu na noite de Natal de 1947.

Um pouco sobre Lucya Stephen, esposa do Abrahão. Nascida em Ghosta, arredores de Beirute, Líbano, a três de fevereiro de 1900. Pais: Antônio Stephen e Filomena Munassa. Família de muita projeção no Líbano, com destaque na área cultural, pois eram proprietários do primeiro colégio do Líbano e na área religiosa, sendo donos da igreja São José, em cujo coro, Lucya chegou a cantar. Da família surgiram muitos padres e bispos, inclusive seu irmão, Pe.Yussef. Viveu no Líbano até 1918, quando perde a mãe. Seus irmãos, Bolos (Paulo) e Yussef (José) ficaram no Líbano e ela veio, com um casal amigo, encontrar-se com os irmãos que já estavam aqui: Butrus (Pedro) Wequim (Joaquim) e Marin (Maria), casada com Miguel Salomão, nosso popular “Miguel Turco”. Enamora-se do Abrahão Hannas e, por causa da violenta oposição de seus irmãos, que lhe tiraram tudo, foge para Nazareno com ele e lá se casam.

(O JL e esse redator agradecem especialmente Olga Silva, proprietária do Restaurante Chafariz, em São João del-Rei, por seu estímulo e colaboração documental encaminhando-nos textos importantes. Uma homenagem especial vai também para Terezinha Hannas Guimarães. Seu livro, “Lembranças Esparsas”, contribui muito, também, para a história do cotidiano da Resende Costa antiga. E o fazemos mostrando ao leitor a primeira e a quinta estrofes de seu poema, “Terra Natal”, de excelente poesia:

Resende Costa, cidade
Repleta de encantamento,
Presépio que encosta invade,
Subindo em alinhamento.
Transformam-te em paraíso
O céu, a lua, o sol,
As lajes que são teu piso
E o fascinante arrebol.


Continua na próxima edição.


Loas e Lástimas


Loas para:

- a equipe do carnaval, que orientou os DJs e apresentadores. Constantemente o público
era convocado a depositar o lixo nos recipientes e a usar os banheiros públicos.

- a Prefeitura que expôs detalhadamente, em outdoor, para onde vai o dinheiro do
município.

Lástimas para os baderneiros que quebraram, por mero vandalismo, as tampas de ferro de caixas da CEMIG, nos passeios. Só no meu quadrilátero contei três!

Um resende-costense na história da arte sacra brasileira

11 de Fevereiro de 2010, por João Magalhães 1

Há tempo devo este texto ao leitor do JL. Ao artista, o JL já tributou sinceras homenagens. Foi matéria de capa já no seu 2º mês de existência (JL ed. 2, maio de 2003) e quando do seu falecimento em 2 de agosto de 2008, também capa.

Aí por 1990/91, ao ler o capítulo final da obra de Eduardo Etzel “Arte Sacra – berço da arte brasileira” (Melhoramentos, 1984, São Paulo), deparei-me, com muita surpresa, com texto e ilustração que transmito.

Dada a importância do autor, a meu ver uma referência para o estudo do barroco brasileiro e, por consequência, de nossa arte sacra (tem, no mínimo, 5 obras publicadas sobre o tema), entreguei uma cópia à Prefeitura, administração do Dr. Luiz e outra, pessoalmente, ao Valcides. Lembrou-se ele, na ocasião, sem muito detalhe, da visita que lhe fez um doutor de São Paulo (Etzel foi médico) que conversou com ele, olhou com vagar as esculturas que tinha e pediu permissão para tirar retrato de algumas. Eis o texto que repasso a você, sem atualizar a ortografia:

Por fim, este último caso de um pendor artístico, isolado, surgido em meio a um núcleo familiar (escreveu antes sobre um artista popular goiano) modesto, sem raízes conhecidas se não a possível origem numa longínqua e desconhecida ascendência em Lages (sic) MG, hoje cidade de Resende Costa, próxima de São João Del Rei e Tiradentes, nasceu em 6.9.1926 Valcides Mairinque Arvelos, branco, de pais brasileiros com ascendência européia. Do lado paterno, português e alemão e do lado materno, espanhóis. Na família de oito irmãos nenhuma tendência artística. Dos ascendentes, só um tio paterno músico que tocava bombardim e depois foi maestro da banda em Barbacena, onde era também violinista da orquestra e dava lições de violino.

O caso de Valcides é o exemplo de um interesse pela arte desde criança. De instrução precária, fez apenas o primeiro ano de Grupo Escolar, o que não ocorreu com seus irmãos, que completaram o primário. Mesmo assim, lembra-se que na escola desenhava muito.

Fazia seus próprios brinquedos (cavalos, caminhões, aviões). Vivendo numa comunidade católica, freqüentava a antiga igreja barroca e reparava nos anjos do altar-mor, pensando que algum dia poderia fazer anjos como aqueles. Com habilidade espontânea fabricou violões, fez no barro um busto do Marechal Dutra e desenhava retratos. (Observação: tenho uma certa lembrança de que o busto ficou exposto na vitrine da loja do Osório (atual Sobrado), parece-me com uma miniatura do altar de N. Sra.da Penha. Por favor, alguém confirme, complete ou corrija estes laivos de memória.).

Com 19 anos, por sugestão do vigário (qual deles?) fez um crucifixo. Depois fez um Senhor dos Passos em seguida o sonhado anjo. Passou depois a fazer entalhes em baixo-relevo e, aos poucos, imagens, o que vem fazendo até hoje.

É de notar que nunca teve qualquer aprendizado na arte que nestes últimos 36 anos absorveu toda sua atividade.

Como se viu, pode-se aqui sentir a presença das três condições da realização do artista: o elemento inconsciente, constitucional, que vem do passado, a vivência da beleza barroca que o impressionou em criança e o fator local, a solicitação do meio, que o guiou na senda da escultura de imagens.

Suas peças são de aspecto próximo do erudito, belas e proporcionadas, de feitio barroco. Sempre de tamanho médio ou grande. Atualmente, está terminando um Crucificado de 1,60m para uma igreja de Juiz de Fora e tem em curso mais quatro imagens encomendadas; uma delas, de 1,90m, N. S. da Conceição, tendo na peanha três anjos de corpo inteiro, está ainda esboçada no tronco de cedro (figura 264).

Como tenho forte impressão de que a maioria dos que sabem sobre o Valcides desconhecem essa apreciação, pois nem o próprio Valcides e família o sabiam, achei importante informar aos nossos leitores o “verso”, pois acho incontroverso que Valcides, nosso conterrâneo de Resende Costa, está inserido na história da arte Brasileira.