A Fifa nos encaFifou
16 de Janeiro de 2013, por João Magalhães 0
Encafifar, segundo o dicionário do Aurélio, significa envergonhar, encabular, vexar, desgostar, desagradar, mortificar. Acho melhor envergonhar e ofender.
O assunto entra no campo de futebol, mas o comentário não é especificamente sobre o esporte e sim, sobre a política motivada por ele. Fechando mais a objetiva: sobre as exigências da czarina dona Fifa, que impôs aos governos federal, estadual e municipal condições humilhantes, para que fossem sede das disputas de 2013 e 2014.
Começou com o Jérôme Valche, seu secretário, declarando, no ano passado: “O Brasil precisa de um chute no traseiro para se mexer”. O ministro dos esportes cantou de galo - nada a ver com vocês, torcedores do “Galo” -, mas um simples e protocolar pedido de desculpas logo o enrouqueceu... E não foi ele, o Jérôme, que “oficiou” o sorteio para os jogos deste ano?
Pelo que se afirma, o país ganhará economicamente com as copas. Cabe dúvida. Recuperará o que investiu nas custosas instalações e fabulosos estádios, alguns deles, futuros elefantes brancos?
Concordo. Futebol é a religião do mundo. Nada contra seus fiéis. Também já fui um deles e fanático. Nada, porém, justifica a perda de soberania, a modificação de leis em benefício de entidade particular. A Fifa impôs muito, ou tudo, e negociou muito pouco, ou quase nada. Um exemplo disso: a presidente Dilma derrubou o artigo do Estatuto do Torcedor que proíbe bebida alcoólica nos estádios.
Por brevidade e espaço, atenho-me aos municípios que serão sedes de jogos da copa. Tomo, como ilustração e informação, o município de São Paulo, capital.
Olha o acordo assinado pelo prefeito Kassab em setembro de 2011, tornado público só agora, por recomendação do Ministério Público Federal. A cláusula 33 contempla que as partes tudo fizessem para manter o conteúdo do acordo sob sigilo! Beleza isto, não?!
Veja o tamanho das concessões que São Paulo foi coagido a fazer.
(1) Durante a competição a prefeitura deverá, se a Fifa julgar necessário, “fechar o acesso público a qualquer via dentro da cidade-sede”. Uai! E o direito de ir e vir? E um socorro de emergência?; (2) A lei da cidade limpa, que foi glória eletiva do Kassab para o segundo mandato, também morre durante a copa. Diz a cláusula 15: “As principais localidades por toda a cidade-sede deverão apresentar decorações que incorporem as marcas da competição”. E esmiúça: postes de luz, faixas, outdoors, fachadas de edifícios, pontes e meios de transporte público”. São ordens da imperatriz dona Fifa!; (3) Pela cláusula 30, São Paulo, em dias de jogos, não poderá receber nenhum outro evento cultural que atraia “grande número de pessoas” salvo os patrocinados pela Fifa. E o direito do cidadão que não se inclina para o futebol?; (4) Exige que a prefeitura dê permissão para que bares funcionem “até tarde da noite” em dias de jogos. A lei paulistana 12.879 proíbe bares de portas abertas, sem isolamento acústico, sem estacionamento, sem funcionários para segurança e também que perturbem o sossego público, de funcionar além da 1 hora da manhã! e (5) Cláusula 32, esta é de matar! Exige-se que a prefeitura “não conceda autorização para nenhum trabalho de construção privado ou público”, no período da Copa, e “qualquer construção que esteja em progresso no início da competição deverá ser temporariamente suspensa”! Se o prédio estiver caindo, que caia!
E mais: na cláusula 18, pede que a refeitura providencie ao comitê organizador um escritório com todos os equipamentos e produtos necessários para seu funcionamento e o poder público deve “usar de esforços razoáveis” para comprar de empresas patrocinadoras da Fifa. Portanto, a lei de licitações que vá para o espaço!
Importante: esse contrato é o mesmo que foi assinado pelas demais cidades-sede. Quer dizer, a ingerência da Fifa é nacional. E ainda se acrescenta: visto irrestrito de entrada no país a clientes da Fifa; fim da obrigatoriedade de mandato judicial para apreender produtos suspeitos de pirataria. Como fica o poder judiciário, hein?; permissão para que o organizador de grandes competições esportivas privadas conceda benefícios fiscais, o que é atribuição exclusiva da Receita Federal.
Acho que se a “Imperatriz” exigisse a proibição de o torcedor entrar no estádio usando produtos de empresas não patrocinadoras (camisetas, bonés, por exemplo), até a isso nossos governantes se curvariam
É muito capachismo, muito “salameleque”, é muita subserviência, muita perda de soberania, muita relativização de leis que se votaram para o bem público, é humilhação para o nosso país. Depois disso, o que significa o Hino Nacional cantado nos estádios? Patriotismo, nacionalismo? É o que penso. E você?
Observação: este comentário já estava redigido e enviado à redação, quando tomei conhecimento do parecer, por unanimidade, do Conselho Nacional de Educação (CNE) que recomenda às instituições públicas e privadas de ensino de todo país a manutenção do calendário escolar durante a Copa do Mundo de 2014. Segundo o relator, Mozart Ramos, a Lei da Copa não pode se sobrepor à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Desafiou, portanto, a Fifa e a Lei da Copa, imposta por ela, que marca férias escolares de um mês, entre 12 de junho a 13 de julho. Diz ela, dona Fifa, que a suspensão das aulas é necessária para amenizar problemas de trânsito e, com isso, garantir o sucesso da competição. O relator da Lei Geral da Copa, Vicente Cândido (PT/SP) não vê prejuízo para os alunos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), diretores de escola, entidades educacionais, sindicatos de professores etc. discordam e, além do mais, questionam a obrigatoriedade das férias neste período. Tanto que estão pressionando o Congresso para alterar a lei, inserindo um dispositivo que dê a cada escola a permissão para adaptar seu calendário conforme for mais conveniente (Fonte: O Estado de São Paulo, 22.12.12).
O assunto entra no campo de futebol, mas o comentário não é especificamente sobre o esporte e sim, sobre a política motivada por ele. Fechando mais a objetiva: sobre as exigências da czarina dona Fifa, que impôs aos governos federal, estadual e municipal condições humilhantes, para que fossem sede das disputas de 2013 e 2014.
Começou com o Jérôme Valche, seu secretário, declarando, no ano passado: “O Brasil precisa de um chute no traseiro para se mexer”. O ministro dos esportes cantou de galo - nada a ver com vocês, torcedores do “Galo” -, mas um simples e protocolar pedido de desculpas logo o enrouqueceu... E não foi ele, o Jérôme, que “oficiou” o sorteio para os jogos deste ano?
Pelo que se afirma, o país ganhará economicamente com as copas. Cabe dúvida. Recuperará o que investiu nas custosas instalações e fabulosos estádios, alguns deles, futuros elefantes brancos?
Concordo. Futebol é a religião do mundo. Nada contra seus fiéis. Também já fui um deles e fanático. Nada, porém, justifica a perda de soberania, a modificação de leis em benefício de entidade particular. A Fifa impôs muito, ou tudo, e negociou muito pouco, ou quase nada. Um exemplo disso: a presidente Dilma derrubou o artigo do Estatuto do Torcedor que proíbe bebida alcoólica nos estádios.
Por brevidade e espaço, atenho-me aos municípios que serão sedes de jogos da copa. Tomo, como ilustração e informação, o município de São Paulo, capital.
Olha o acordo assinado pelo prefeito Kassab em setembro de 2011, tornado público só agora, por recomendação do Ministério Público Federal. A cláusula 33 contempla que as partes tudo fizessem para manter o conteúdo do acordo sob sigilo! Beleza isto, não?!
Veja o tamanho das concessões que São Paulo foi coagido a fazer.
(1) Durante a competição a prefeitura deverá, se a Fifa julgar necessário, “fechar o acesso público a qualquer via dentro da cidade-sede”. Uai! E o direito de ir e vir? E um socorro de emergência?; (2) A lei da cidade limpa, que foi glória eletiva do Kassab para o segundo mandato, também morre durante a copa. Diz a cláusula 15: “As principais localidades por toda a cidade-sede deverão apresentar decorações que incorporem as marcas da competição”. E esmiúça: postes de luz, faixas, outdoors, fachadas de edifícios, pontes e meios de transporte público”. São ordens da imperatriz dona Fifa!; (3) Pela cláusula 30, São Paulo, em dias de jogos, não poderá receber nenhum outro evento cultural que atraia “grande número de pessoas” salvo os patrocinados pela Fifa. E o direito do cidadão que não se inclina para o futebol?; (4) Exige que a prefeitura dê permissão para que bares funcionem “até tarde da noite” em dias de jogos. A lei paulistana 12.879 proíbe bares de portas abertas, sem isolamento acústico, sem estacionamento, sem funcionários para segurança e também que perturbem o sossego público, de funcionar além da 1 hora da manhã! e (5) Cláusula 32, esta é de matar! Exige-se que a prefeitura “não conceda autorização para nenhum trabalho de construção privado ou público”, no período da Copa, e “qualquer construção que esteja em progresso no início da competição deverá ser temporariamente suspensa”! Se o prédio estiver caindo, que caia!
E mais: na cláusula 18, pede que a refeitura providencie ao comitê organizador um escritório com todos os equipamentos e produtos necessários para seu funcionamento e o poder público deve “usar de esforços razoáveis” para comprar de empresas patrocinadoras da Fifa. Portanto, a lei de licitações que vá para o espaço!
Importante: esse contrato é o mesmo que foi assinado pelas demais cidades-sede. Quer dizer, a ingerência da Fifa é nacional. E ainda se acrescenta: visto irrestrito de entrada no país a clientes da Fifa; fim da obrigatoriedade de mandato judicial para apreender produtos suspeitos de pirataria. Como fica o poder judiciário, hein?; permissão para que o organizador de grandes competições esportivas privadas conceda benefícios fiscais, o que é atribuição exclusiva da Receita Federal.
Acho que se a “Imperatriz” exigisse a proibição de o torcedor entrar no estádio usando produtos de empresas não patrocinadoras (camisetas, bonés, por exemplo), até a isso nossos governantes se curvariam
É muito capachismo, muito “salameleque”, é muita subserviência, muita perda de soberania, muita relativização de leis que se votaram para o bem público, é humilhação para o nosso país. Depois disso, o que significa o Hino Nacional cantado nos estádios? Patriotismo, nacionalismo? É o que penso. E você?
Observação: este comentário já estava redigido e enviado à redação, quando tomei conhecimento do parecer, por unanimidade, do Conselho Nacional de Educação (CNE) que recomenda às instituições públicas e privadas de ensino de todo país a manutenção do calendário escolar durante a Copa do Mundo de 2014. Segundo o relator, Mozart Ramos, a Lei da Copa não pode se sobrepor à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Desafiou, portanto, a Fifa e a Lei da Copa, imposta por ela, que marca férias escolares de um mês, entre 12 de junho a 13 de julho. Diz ela, dona Fifa, que a suspensão das aulas é necessária para amenizar problemas de trânsito e, com isso, garantir o sucesso da competição. O relator da Lei Geral da Copa, Vicente Cândido (PT/SP) não vê prejuízo para os alunos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), diretores de escola, entidades educacionais, sindicatos de professores etc. discordam e, além do mais, questionam a obrigatoriedade das férias neste período. Tanto que estão pressionando o Congresso para alterar a lei, inserindo um dispositivo que dê a cada escola a permissão para adaptar seu calendário conforme for mais conveniente (Fonte: O Estado de São Paulo, 22.12.12).
Bandeira de Minas Gerais: “Quae sera”? Ou “Quae sera tamen”?
13 de Novembro de 2012, por João Magalhães 6

Bandeira de Minas Gerais
Rosalvo Pinto, nosso diretor de redação, que prepara uma reedição de seu livro sobre os inconfidentes, José de Rezende Costa (Pai e Filho) e o Arraial da Lage”, pediu-me uma opinião sobre um questionamento feito por eruditos em torno do lema “Libertas quae sera tamen”, que seria colocado na futura bandeira da república, caso tivesse sucesso a Conjuração Mineira. Bandeira essa que se tornou o bonito pavilhão do Estado de Minas Gerais.
Eis o debate. Alguns especialistas em latim, sobretudo os estudiosos do grande poeta latino, Virgílio, acham que os inconfidentes cortaram, erradamente, o verso do poeta: “Libertas quae sera tamen respexit inertem”, para escolher a frase-emblema da bandeira. A secção correta seria apenas: “Libertas quae sera”.
Trata-se do primeiro verso da estância seis da primeira écloga* (ou égloga) da obra poética As bucólicas de Virgílio. Écloga é uma poesia pastoril, em geral dialogada, versando sobre assuntos do campo, da flora, da fauna etc.
Acusam os inconfidentes de violentar a sintaxe do poeta. Para explicar, cito todo o período, com a respectiva tradução literal:
“Libertas quae sera tamen respexit inertem
Candidior postquam tondenti barba cadebat;
Respexit tamen et longo post tempore venit
Postquam nos Amaryllis habet, Galatea reliquit”.
“A liberdade que (é) tardia, contudo olhou (para mim) inerte
Depois que a barba caía mais branca de mim, que a cortava;
Olhou para mim, todavia, e veio depois de longo tempo
Depois que Amaryllis me tem e Galateia me deixou”
Concordo com os entendidos. A inclusão do“tamen”na oração adjetiva “quae (est) sera” pelos inconfidentes feriu a sintaxe de Virgílio, que integrou esta conjunção na oração principal, sem dúvida, pois ele repete este “tamen” no terceiro verso e no mesmo sentido.
Parece, inclusive, que o poeta tinha uma predileção por esta conjunção coordenativa adversativa “tamen”que geralmente indica uma concessão, pois, repete-a por cinco vezes no poema e a sintaxe é a mesma (versos 19, 28, 30, 57 e 79).
Entretanto, se os conjurados violaram a sintaxe, não machucaram ou feriram a semântica da bucólica, cujo tema é a mágoa, o desespero, a escravidão dos pastores que tiveram suas terras, animais e casas expropriadas pelos generais romanos para distribuí-las a seus soldados. Prática muito frequente por parte dos vencedores. Esta écloga revela aspectos autobiográficos, pois, consta, sem certeza absoluta, que o próprio Virgílio foi vítima.
Os inconfidentes eruditos, acho, sentiram esta situação, expressa na poesia, comparável à situação em que vivia a capitania de Minas Gerais, escorchada em tudo pela Coroa Portuguesa!
Sobretudo, merece elogio a escolha que fizeram do primeiro verso da sexta estância, mesmo truncado, pois viram a luta do pastor Tityro para conseguir a liberdade, que acabou conquistando, embora tardiamente, um exemplo a seguir e um estímulo para a revolta.
Julgo, também, que uma alteração sintática como fizeram: “Libertas, quae sera tamen” (que todavia veio tarde), é admissível. Não altera a semântica do texto, que é o fundamental.
É injusto criticar os inconfidentes por mexer na sintaxe adotada pelo poeta Virgílio. Consciente ou inconscientemente, fizeram esta modificação, mas não danificaram em nada o importante conteúdo do poema.
E, a meu gosto, entre “Libertas quae sera” e “Libertas quae sera tamen”, ficou muito mais sonoro, mais ritmado, mais significativo o “quae sera tamen” da gloriosa bandeira de Minas Gerais!
Quem sabe, até o próprio Virgílio, o grande poeta latino do verso onomatopaico, do verso musical, do verso heroico, também bateria palmas!
É o que penso. E você?
Eis o debate. Alguns especialistas em latim, sobretudo os estudiosos do grande poeta latino, Virgílio, acham que os inconfidentes cortaram, erradamente, o verso do poeta: “Libertas quae sera tamen respexit inertem”, para escolher a frase-emblema da bandeira. A secção correta seria apenas: “Libertas quae sera”.
Trata-se do primeiro verso da estância seis da primeira écloga* (ou égloga) da obra poética As bucólicas de Virgílio. Écloga é uma poesia pastoril, em geral dialogada, versando sobre assuntos do campo, da flora, da fauna etc.
Acusam os inconfidentes de violentar a sintaxe do poeta. Para explicar, cito todo o período, com a respectiva tradução literal:
“Libertas quae sera tamen respexit inertem
Candidior postquam tondenti barba cadebat;
Respexit tamen et longo post tempore venit
Postquam nos Amaryllis habet, Galatea reliquit”.
“A liberdade que (é) tardia, contudo olhou (para mim) inerte
Depois que a barba caía mais branca de mim, que a cortava;
Olhou para mim, todavia, e veio depois de longo tempo
Depois que Amaryllis me tem e Galateia me deixou”
Concordo com os entendidos. A inclusão do“tamen”na oração adjetiva “quae (est) sera” pelos inconfidentes feriu a sintaxe de Virgílio, que integrou esta conjunção na oração principal, sem dúvida, pois ele repete este “tamen” no terceiro verso e no mesmo sentido.
Parece, inclusive, que o poeta tinha uma predileção por esta conjunção coordenativa adversativa “tamen”que geralmente indica uma concessão, pois, repete-a por cinco vezes no poema e a sintaxe é a mesma (versos 19, 28, 30, 57 e 79).
Entretanto, se os conjurados violaram a sintaxe, não machucaram ou feriram a semântica da bucólica, cujo tema é a mágoa, o desespero, a escravidão dos pastores que tiveram suas terras, animais e casas expropriadas pelos generais romanos para distribuí-las a seus soldados. Prática muito frequente por parte dos vencedores. Esta écloga revela aspectos autobiográficos, pois, consta, sem certeza absoluta, que o próprio Virgílio foi vítima.
Os inconfidentes eruditos, acho, sentiram esta situação, expressa na poesia, comparável à situação em que vivia a capitania de Minas Gerais, escorchada em tudo pela Coroa Portuguesa!
Sobretudo, merece elogio a escolha que fizeram do primeiro verso da sexta estância, mesmo truncado, pois viram a luta do pastor Tityro para conseguir a liberdade, que acabou conquistando, embora tardiamente, um exemplo a seguir e um estímulo para a revolta.
Julgo, também, que uma alteração sintática como fizeram: “Libertas, quae sera tamen” (que todavia veio tarde), é admissível. Não altera a semântica do texto, que é o fundamental.
É injusto criticar os inconfidentes por mexer na sintaxe adotada pelo poeta Virgílio. Consciente ou inconscientemente, fizeram esta modificação, mas não danificaram em nada o importante conteúdo do poema.
E, a meu gosto, entre “Libertas quae sera” e “Libertas quae sera tamen”, ficou muito mais sonoro, mais ritmado, mais significativo o “quae sera tamen” da gloriosa bandeira de Minas Gerais!
Quem sabe, até o próprio Virgílio, o grande poeta latino do verso onomatopaico, do verso musical, do verso heroico, também bateria palmas!
É o que penso. E você?
Carta aos eleitos de Resende Costa
16 de Outubro de 2012, por João Magalhães 0
Respeitáveis eleitos,
Aurélio Suenes, prefeito,
Toninho Ribeiro, vice e vereadores, Zinho Gouveia doutor Luiz, Joãozinho do Antônio Dias, Abel do Nenego, Betinho, Lucas do Barriga, Ângelo do MAC, Paulinho Daher e Chiquinho do Cajuru:
É filosofia desta coluna, dialogar com os leitores sobre assuntos de relevância, sobretudo quando se revestem de aspectos polêmicos. Hoje, porém, a importância do cargo que assumirão, motiva a ocupação deste espaço para uma saudação a vocês, acompanhada de um anseio, que sinto não ser só meu, pois, no debate, via rádio, do dia 22 de setembro de 2012, houve pergunta de cidadãos sobre o assunto.
Não importam agora os motivos pelos quais seus nomes e os de suas coligações ou legendas foram clicados nas urnas: votos de fé em propostas, votos de gratidão por algum benefício, votos de amizade, votos de família, votos por carisma, votos-protesto, votos-mudança etc. Não importa. O que vale agora é que vocês venceram e vão aqui os devidos parabéns.
Para nós eleitores, agora, acende-se a vela da esperança. Os planos que nos foram apresentados como estratégia de campanha, motivação de fé, perspectivas de melhora, fomento de utopias, agora necessitam de fecundação, concepção, geração e nascimento.
Por óbvio, não falo das prioridades “do sempre”: saúde, segurança, educação, transporte... São alicerces sociais que jamais podem se abalar, ceder, afundar. Falo de umas sementes que recentemente em campanhas eleitorais foram escolhidas para plantio, mas que não se plantaram. Serão agora?
A Mãe Natureza deixou quatro filhas em Resende Costa: as três lajes e a capoeira (ou o bosque). Uma dessas filhas, infelizmente, deixamos morrer: a laje da cadeia, ou laje do meio, como se fala. Suas duas irmãs, a de cima e a de baixo, há muito, estão doentes... Pedem socorro. A esperança quanto ao “tratamento” da laje de cima permanece, pois, ainda há gente preocupada com ela. E a de baixo, tão bela como sua irmã de cima?
Este é nosso anseio, este é o nosso pedido. Alguém de vocês, ou todos vocês, zelem por ela. Grafei “nosso” porque a memória me leva para lá, junto com o bando de meninos do Assis Resende, para soltar estrela, numa competição para ver quem fazia a mais bonita (éramos nós quem fazia), ou quem soltava mais alto, sem o maldito cerol, finalmente proibido.
A arquitetura moderna tem conseguido maravilhas de criatividade, sem machucar o meio ambiente. Será que um projeto bem elaborado não transformaria nossa laje de baixo num excelente espaço público, por sua amplidão e beleza paisagística?
Uma segunda aspiração. Há um livrinho infantil (do nosso escritor mineiro Wander Piroli, “coleção do Pinto”- BH) de belo título: “Os rios morrem de sede”.A fonte que nasce em nossa capoeira (ou bosque) já morreu de poluição. Sua mãe, a capoeira Nossa Senhora da Penha, morre por mutilação, descuido e abandono. Que cidade de nossa vasta região tem o privilégio de ter em seu centro expandido, um bosque nativo, original, tão ameno e acolhedor?
Poderia ser o nosso orgulho! Poderia ser o nosso parque municipal!
Há um justo desejo de cada administração de deixar seu nome gravado na História por alguma(s) obra(s) marcantes de sua gestão. A criação e construção do Parque Municipal e a urbanização de nossas lajes não podem ser essas marcas de seus mandatos?
Este apelo vai, claro, primeiro para o senhor prefeito, chefe do executivo. Sem seu empenho, gora tudo. Mas foi pensando na importância de uma câmara de vereadores – casa-fonte de leis, com poder, portanto, para mexer profundamente na vida do município; casa-tribunal, com poder de julgar a atuação dos executivos; casa-ouvidoria, que deve incorporar reclamos e anseios dos munícipes – que o apelo vai também a vocês, e com igual intensidade.
Uma câmara de qualidade garante um governo de qualidade!
Senhores vereadores, a forte esperança e a grande confiança é que o mandato que a votação lhe concedeu seja uma missão. Frequentemente na Bíblia, nome é sinônimo de missão.
Vocês são edis. Do latim “edilis” significa “comestível”, cargo, na Roma antiga, dos responsáveis pelo atendimento da população, sobretudo, alimentação e pelo zelo dos bens públicos.
Vocês são vereadores. Do português arcaico, “verea” significa “vereda”, por conseguinte responsáveis por abrir novos caminhos, novas perspectivas para a população.
E termino “estas mal traçadas linhas” renovando os parabéns. Resende Costa tem um orgulho. Há anos, não há notícia de administradores e legisladores enodoando sua bandeira com comportamentos que escalavram a ética e moral públicas, como peculato, roubo, desvios, malversação, dilapidação de dinheiro público, falcatruas, “maracutaias”. É honra para nós. Até agora não existiu aqui o que se vê tanto por aí.
Que todos vocês saiam “candidatos” no fim do período no sentido etimológico do termo “candidatus”: vestido de branco (de “candidus”, alvo, brilhante). Críticas virão e devem, mas que sejam tão somente quanto a prioridades, características de pessoa, modo de governar, ideologias, trato com o cidadão, projetos etc..
Com vocês a bandeira da ética continuará tremulando nas infindáveis colinas e montes da nossa Resende Costa!
Parabéns!
Loas e Lástimas
*Loas para Lar São Camilo, pelos cuidados de excelência aos idosos, lá acolhidos. E também para o nosso Movimento da Terceira idade.
*Lástimas para nosso Estado de Minas Gerais. A violência contra o idoso cresceu 204% em relação a 2011. Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Minas ocupa o quarto lugar no ranking, atrás apenas do Rio de janeiro, São Paulo e Bahia.
Aurélio Suenes, prefeito,
Toninho Ribeiro, vice e vereadores, Zinho Gouveia doutor Luiz, Joãozinho do Antônio Dias, Abel do Nenego, Betinho, Lucas do Barriga, Ângelo do MAC, Paulinho Daher e Chiquinho do Cajuru:
É filosofia desta coluna, dialogar com os leitores sobre assuntos de relevância, sobretudo quando se revestem de aspectos polêmicos. Hoje, porém, a importância do cargo que assumirão, motiva a ocupação deste espaço para uma saudação a vocês, acompanhada de um anseio, que sinto não ser só meu, pois, no debate, via rádio, do dia 22 de setembro de 2012, houve pergunta de cidadãos sobre o assunto.
Não importam agora os motivos pelos quais seus nomes e os de suas coligações ou legendas foram clicados nas urnas: votos de fé em propostas, votos de gratidão por algum benefício, votos de amizade, votos de família, votos por carisma, votos-protesto, votos-mudança etc. Não importa. O que vale agora é que vocês venceram e vão aqui os devidos parabéns.
Para nós eleitores, agora, acende-se a vela da esperança. Os planos que nos foram apresentados como estratégia de campanha, motivação de fé, perspectivas de melhora, fomento de utopias, agora necessitam de fecundação, concepção, geração e nascimento.
Por óbvio, não falo das prioridades “do sempre”: saúde, segurança, educação, transporte... São alicerces sociais que jamais podem se abalar, ceder, afundar. Falo de umas sementes que recentemente em campanhas eleitorais foram escolhidas para plantio, mas que não se plantaram. Serão agora?
A Mãe Natureza deixou quatro filhas em Resende Costa: as três lajes e a capoeira (ou o bosque). Uma dessas filhas, infelizmente, deixamos morrer: a laje da cadeia, ou laje do meio, como se fala. Suas duas irmãs, a de cima e a de baixo, há muito, estão doentes... Pedem socorro. A esperança quanto ao “tratamento” da laje de cima permanece, pois, ainda há gente preocupada com ela. E a de baixo, tão bela como sua irmã de cima?
Este é nosso anseio, este é o nosso pedido. Alguém de vocês, ou todos vocês, zelem por ela. Grafei “nosso” porque a memória me leva para lá, junto com o bando de meninos do Assis Resende, para soltar estrela, numa competição para ver quem fazia a mais bonita (éramos nós quem fazia), ou quem soltava mais alto, sem o maldito cerol, finalmente proibido.
A arquitetura moderna tem conseguido maravilhas de criatividade, sem machucar o meio ambiente. Será que um projeto bem elaborado não transformaria nossa laje de baixo num excelente espaço público, por sua amplidão e beleza paisagística?
Uma segunda aspiração. Há um livrinho infantil (do nosso escritor mineiro Wander Piroli, “coleção do Pinto”- BH) de belo título: “Os rios morrem de sede”.A fonte que nasce em nossa capoeira (ou bosque) já morreu de poluição. Sua mãe, a capoeira Nossa Senhora da Penha, morre por mutilação, descuido e abandono. Que cidade de nossa vasta região tem o privilégio de ter em seu centro expandido, um bosque nativo, original, tão ameno e acolhedor?
Poderia ser o nosso orgulho! Poderia ser o nosso parque municipal!
Há um justo desejo de cada administração de deixar seu nome gravado na História por alguma(s) obra(s) marcantes de sua gestão. A criação e construção do Parque Municipal e a urbanização de nossas lajes não podem ser essas marcas de seus mandatos?
Este apelo vai, claro, primeiro para o senhor prefeito, chefe do executivo. Sem seu empenho, gora tudo. Mas foi pensando na importância de uma câmara de vereadores – casa-fonte de leis, com poder, portanto, para mexer profundamente na vida do município; casa-tribunal, com poder de julgar a atuação dos executivos; casa-ouvidoria, que deve incorporar reclamos e anseios dos munícipes – que o apelo vai também a vocês, e com igual intensidade.
Uma câmara de qualidade garante um governo de qualidade!
Senhores vereadores, a forte esperança e a grande confiança é que o mandato que a votação lhe concedeu seja uma missão. Frequentemente na Bíblia, nome é sinônimo de missão.
Vocês são edis. Do latim “edilis” significa “comestível”, cargo, na Roma antiga, dos responsáveis pelo atendimento da população, sobretudo, alimentação e pelo zelo dos bens públicos.
Vocês são vereadores. Do português arcaico, “verea” significa “vereda”, por conseguinte responsáveis por abrir novos caminhos, novas perspectivas para a população.
E termino “estas mal traçadas linhas” renovando os parabéns. Resende Costa tem um orgulho. Há anos, não há notícia de administradores e legisladores enodoando sua bandeira com comportamentos que escalavram a ética e moral públicas, como peculato, roubo, desvios, malversação, dilapidação de dinheiro público, falcatruas, “maracutaias”. É honra para nós. Até agora não existiu aqui o que se vê tanto por aí.
Que todos vocês saiam “candidatos” no fim do período no sentido etimológico do termo “candidatus”: vestido de branco (de “candidus”, alvo, brilhante). Críticas virão e devem, mas que sejam tão somente quanto a prioridades, características de pessoa, modo de governar, ideologias, trato com o cidadão, projetos etc..
Com vocês a bandeira da ética continuará tremulando nas infindáveis colinas e montes da nossa Resende Costa!
Parabéns!
Loas e Lástimas
*Loas para Lar São Camilo, pelos cuidados de excelência aos idosos, lá acolhidos. E também para o nosso Movimento da Terceira idade.
*Lástimas para nosso Estado de Minas Gerais. A violência contra o idoso cresceu 204% em relação a 2011. Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Minas ocupa o quarto lugar no ranking, atrás apenas do Rio de janeiro, São Paulo e Bahia.
Confabulando: fábulas para um diálogo
13 de Agosto de 2012, por João Magalhães 0

Ilustração - Danilo Magalhães
Os lambaris e as minhocas
Desde a infância, as fábulas sempre me atraíram. Cheguei a decorar algumas delas, até em latim. Do famoso Lupus et Agnus de Fedro, lembro-me até hoje. Li e colecionei todas que encontrei.
Depois, como professor, vi nelas um excelente instrumento para criação de hábito de leitura, pois são pequenas histórias, muitas vezes até escritas em verso, caso de Fedro e La Fontaine. Em sua maioria, são joias literárias que costumam agradar crianças e adultos.
Encontrei nelas, também, uma forma excelente para debate de situações e comportamentos, pois este é o intento delas, ou seja, sempre finalizam com uma moral, implícita ou explícita. Vem daí a expressão muito usada“Moral da fábula”.
Igualmente excelente, para análise de pessoas e personalidades, pois, embora quase sempre as personagens sejam animais e/ou objetos, comportam-se sempre a modo dos humanos.
Como o espírito desta coluna é dialogar sobre assuntos que julgo importantes, sobretudo os controversos, mas não exclusivamente - e sempre suscitando uma posição também opinativa do leitor - quando o assunto o permitir, usarei como instrumento para a conversa, alguma das fábulas que com o tempo fui criando e escrevendo. Espero que agrade.
A corrida aos votos já começou e, como sempre, vem o comércio, a compra e venda, às vezes baratíssima, de sua mercadoria mais valiosa: o voto. O individualismo, o interesse imediato, um consumo de agora, frequentemente levam pessoas a negociar seu clique na urna eletrônica, por saco de cimento, bola de futebol, trechinho de estrada, alguma sinecura... e assim vai. Compete a nós não deixar que o “como sempre” vire “para sempre”.
Vamos à fábula
Lançadas num lago e presas respectivamente no anzol de dois pescadores, duas minhocas debatiam-se, desesperadamente.
Enxergando dois lambaris que nadavam velozmente em sua direção, gritaram aflitas:
- Salvem-nos! Não nos engulam! Vocês não se arrependerão!
Que nada! O primeiro lambari abocanhou uma delas num segundo, e no minuto seguinte já estava morrendo com as guelras dilaceradas, no balde do pescador.
O outro lambari teve um momento de compreensão, ouviu a minhoca e com cuidado, delicadamente, tirou-a do anzol, salvando-a da morte.
Até hoje vive feliz, nadando tranquilo nas águas do lago!
Moral da fábula
“O egoísmo, o individualismo exacerbado, a gana precipitada de realizar seus interesses imediatos, sem ouvir o que o outro tem a dizer, podem levar à infelicidade e até à morte”.
É o que penso. E você?
Desde a infância, as fábulas sempre me atraíram. Cheguei a decorar algumas delas, até em latim. Do famoso Lupus et Agnus de Fedro, lembro-me até hoje. Li e colecionei todas que encontrei.
Depois, como professor, vi nelas um excelente instrumento para criação de hábito de leitura, pois são pequenas histórias, muitas vezes até escritas em verso, caso de Fedro e La Fontaine. Em sua maioria, são joias literárias que costumam agradar crianças e adultos.
Encontrei nelas, também, uma forma excelente para debate de situações e comportamentos, pois este é o intento delas, ou seja, sempre finalizam com uma moral, implícita ou explícita. Vem daí a expressão muito usada“Moral da fábula”.
Igualmente excelente, para análise de pessoas e personalidades, pois, embora quase sempre as personagens sejam animais e/ou objetos, comportam-se sempre a modo dos humanos.
Como o espírito desta coluna é dialogar sobre assuntos que julgo importantes, sobretudo os controversos, mas não exclusivamente - e sempre suscitando uma posição também opinativa do leitor - quando o assunto o permitir, usarei como instrumento para a conversa, alguma das fábulas que com o tempo fui criando e escrevendo. Espero que agrade.
A corrida aos votos já começou e, como sempre, vem o comércio, a compra e venda, às vezes baratíssima, de sua mercadoria mais valiosa: o voto. O individualismo, o interesse imediato, um consumo de agora, frequentemente levam pessoas a negociar seu clique na urna eletrônica, por saco de cimento, bola de futebol, trechinho de estrada, alguma sinecura... e assim vai. Compete a nós não deixar que o “como sempre” vire “para sempre”.
Vamos à fábula
Lançadas num lago e presas respectivamente no anzol de dois pescadores, duas minhocas debatiam-se, desesperadamente.
Enxergando dois lambaris que nadavam velozmente em sua direção, gritaram aflitas:
- Salvem-nos! Não nos engulam! Vocês não se arrependerão!
Que nada! O primeiro lambari abocanhou uma delas num segundo, e no minuto seguinte já estava morrendo com as guelras dilaceradas, no balde do pescador.
O outro lambari teve um momento de compreensão, ouviu a minhoca e com cuidado, delicadamente, tirou-a do anzol, salvando-a da morte.
Até hoje vive feliz, nadando tranquilo nas águas do lago!
Moral da fábula
“O egoísmo, o individualismo exacerbado, a gana precipitada de realizar seus interesses imediatos, sem ouvir o que o outro tem a dizer, podem levar à infelicidade e até à morte”.
É o que penso. E você?
Jesus Barbeiro (Jesus da Leopoldina)
12 de Julho de 2012, por João Magalhães 0

Jesus Barbeiro desfilando no carnaval de 1978
Jesus Maria José, casado com Maria José de Jesus, pai de um único filho, o nosso saudoso José Constantino (Zé Barbeiro), também benzedor bastante procurado e já homenageado pelo JL, quando do seu falecimento, através de seu editor-chefe, Rosalvo Pinto (“José Constantino” ano VI, nº 84, abril, 2010).
Os testemunhos (inclusive deste redator) o retratam como uma pessoa extremamente popular e integrada em praticamente todas as vivências de sua época.
Não perdia a missa dominical da manhã e sempre presente nas procissões. Folias de Reis... a visita à casa dele jamais podia faltar. Gostava muito de cavaquinho, Músico, foi clarinetista da banda, junto com Mindinho, seu irmão, também clarinetista de escol. O advogado Alair Coêlho, 81, recorda que Jesus ensinou-lhe os rudimentos da música.
Embora não tenha exercido nenhum mandato “gostava muito de política”, fala Solange, sua neta e diz também que seu pai, José Constantino, deve muito a ele sua eleição para vereador. “Era o dia inteiro pedindo voto”, repete ela.
Festeiro, adorava carnaval. Vera Melo e Solange lembram-se dele organizando e liderando um bloco de crianças, que desfilava pelos “quatro cantos”, após a concentração no Teatro Municipal – atual Casa de Cultura. Na festa do Rosário, então, lá estava o Jesus Barbeiro, no meio de um congado, que se reunia e esquentava os tambores em sua barbearia. Por muito tempo, fez parte da diretoria do famoso “Expedicionário Futebol Clube”. E continua Alair Coêlho: “foi seu diretor, quando o Totonho do Sô Bico mudou-se para Belo Horizonte”.
Era pedreiro. Trabalhou, informa Solange, na torre da igreja matriz na instalação de sinos. Sua personalidade, porém, casou-se muito bem foi com a profissão de barbeiro, pois é reconhecido o espaço social que uma barbearia representava nas pequenas cidades. “....aquela esquina transformou-se, ao longo dos anos, em um dos mais conhecidos pontos de referência da cidade. Pode-se dizer que todo resende-costense por ali passava e passa pelo menos uma vez por dia” (Rosalvo Pinto, art. citado).
Sem dúvida, Jesus foi o mais carismático barbeiro que a cidade teve até hoje. Consta que teria morado na rua em frente ao cemitério velho, onde montou sua barbearia. Depois morou numa casa no fim da atual rua José Coelho, numa casa um pouco além do antigo armazém do Antônio do Marisco. Gradativamente, foi aproximando sua barbearia ao centro da cidade. Mudou-a para um cômodo sob o sobrado do Joaquim Batista (atualmente de seu filho Nélson); mais tarde, para a atual avenida Monsenhor Nelson (“quatro cantos”), entre as casas do Jesus de Melo e do Totonho Gomes, até fixar-se definitivamente na rua Gonçalves Pinto, atualmente de seu neto, Cláudio.
Mas é como benzedor que Jesus solidificou ainda mais seu prestígio na cidade. Cresceu experimentando estas práticas, pois, sua mãe, dona Leopoldina, era benzedeira. Dentre os filhos de Leopoldina, Mindinho, Verônica, Cincinato e Jesus, dois seguiram seu caminho: Cincinato, que ao que parece, fazia garrafas e Jesus que só benzia.
Na barbearia e na casa onde morou com seu núcleo familiar (fica na rua Joaquim Leonel; é uma das casas mais antigas da cidade) atendia muitos pedidos de benzedura. “O povo tinha muita fé nele”, prossegue Solange. Benzia de tudo. Doenças, dores, chama-chuva, mordida de cobra, quebranto, mau-olhado, alergias e animais. Como todo benzedor tinha seus rituais. Não receitava, só um gole, ou mais, de água
Há um testemunho de jogador de futebol, com um problema preocupante na panturrilha, resolvido com sua benção. Outro, de uma íngua, cuja bênção foi feita roçando, suavemente, nela uma faca e balbuciando uma oração. Também, da cura de uma doença que pegou nuns porcos que um morador criava no final da rua sete de setembro.
Finalizo com o curioso relato testemunhal de Alair Coêlho: “Certa feita, eu era noivo da filha do Sô Bico, dentista e apareceram nos animais que ele criava num pasto que tinha na várzea, rigorosamente onde hoje está hoje a casa do Chicão. Tinha poucas cabeças de vaca lá e deu bicheira. Numa das vacas, a bicheira era da brava. Alguém disse que o Jesus benzia; aí o Totonho, que era cético como eu também em torno destas coisas, induzido pelo pai, procurou-o. Fomos à barbearia, conversamos com ele. Dispôs-se a ir. Só que não podia naquele dia e prometeu para o próximo fim de semana. Muito curioso com aquela situação, resolvi acompanhar o processo. Na caminhada, o Jesus foi colhendo pedrinhas e pondo no bolso. Não sabíamos para quê. Chegando ao retiro, as vacas foram reunidas. Jesus se aproximou de uma que tinha uma bicheira grande na anca. Tirou o chapéu, segurou-o com a mão esquerda no peito. Deu sinal para que silenciássemos, afastou-se das rezes, persignou-se, parece que estava orando e começou, falando em voz alta, eu me lembro muito bem das frases iniciais. Ele dizia: Israel tem doze tribos, doze tribos tem Israel e falou o nome de um patriarca e jogou uma pedra pra trás e ficou com os lábios em movimento como se estivesse orando, balbuciando, a gente não entendia. Andou uns passos e disse outra vez, diminuindo: Israel tem onze tribos, onze tribos tem Israel e jogou outra pedra e assim sucessivamente, aproximando-se do animal. Quando atirou a última pedrinha, sussurrou mais uma prece, persignou-se e deu por acabado. Coincidência ou não, três dias depois a rezes estavam curadas...”
*Agradecemos Solange, Alair Coêlho, Vera Melo, Agenor Gomes e demais testemunhantes, pelas informações.
Os testemunhos (inclusive deste redator) o retratam como uma pessoa extremamente popular e integrada em praticamente todas as vivências de sua época.
Não perdia a missa dominical da manhã e sempre presente nas procissões. Folias de Reis... a visita à casa dele jamais podia faltar. Gostava muito de cavaquinho, Músico, foi clarinetista da banda, junto com Mindinho, seu irmão, também clarinetista de escol. O advogado Alair Coêlho, 81, recorda que Jesus ensinou-lhe os rudimentos da música.
Embora não tenha exercido nenhum mandato “gostava muito de política”, fala Solange, sua neta e diz também que seu pai, José Constantino, deve muito a ele sua eleição para vereador. “Era o dia inteiro pedindo voto”, repete ela.
Festeiro, adorava carnaval. Vera Melo e Solange lembram-se dele organizando e liderando um bloco de crianças, que desfilava pelos “quatro cantos”, após a concentração no Teatro Municipal – atual Casa de Cultura. Na festa do Rosário, então, lá estava o Jesus Barbeiro, no meio de um congado, que se reunia e esquentava os tambores em sua barbearia. Por muito tempo, fez parte da diretoria do famoso “Expedicionário Futebol Clube”. E continua Alair Coêlho: “foi seu diretor, quando o Totonho do Sô Bico mudou-se para Belo Horizonte”.
Era pedreiro. Trabalhou, informa Solange, na torre da igreja matriz na instalação de sinos. Sua personalidade, porém, casou-se muito bem foi com a profissão de barbeiro, pois é reconhecido o espaço social que uma barbearia representava nas pequenas cidades. “....aquela esquina transformou-se, ao longo dos anos, em um dos mais conhecidos pontos de referência da cidade. Pode-se dizer que todo resende-costense por ali passava e passa pelo menos uma vez por dia” (Rosalvo Pinto, art. citado).
Sem dúvida, Jesus foi o mais carismático barbeiro que a cidade teve até hoje. Consta que teria morado na rua em frente ao cemitério velho, onde montou sua barbearia. Depois morou numa casa no fim da atual rua José Coelho, numa casa um pouco além do antigo armazém do Antônio do Marisco. Gradativamente, foi aproximando sua barbearia ao centro da cidade. Mudou-a para um cômodo sob o sobrado do Joaquim Batista (atualmente de seu filho Nélson); mais tarde, para a atual avenida Monsenhor Nelson (“quatro cantos”), entre as casas do Jesus de Melo e do Totonho Gomes, até fixar-se definitivamente na rua Gonçalves Pinto, atualmente de seu neto, Cláudio.
Mas é como benzedor que Jesus solidificou ainda mais seu prestígio na cidade. Cresceu experimentando estas práticas, pois, sua mãe, dona Leopoldina, era benzedeira. Dentre os filhos de Leopoldina, Mindinho, Verônica, Cincinato e Jesus, dois seguiram seu caminho: Cincinato, que ao que parece, fazia garrafas e Jesus que só benzia.
Na barbearia e na casa onde morou com seu núcleo familiar (fica na rua Joaquim Leonel; é uma das casas mais antigas da cidade) atendia muitos pedidos de benzedura. “O povo tinha muita fé nele”, prossegue Solange. Benzia de tudo. Doenças, dores, chama-chuva, mordida de cobra, quebranto, mau-olhado, alergias e animais. Como todo benzedor tinha seus rituais. Não receitava, só um gole, ou mais, de água
Há um testemunho de jogador de futebol, com um problema preocupante na panturrilha, resolvido com sua benção. Outro, de uma íngua, cuja bênção foi feita roçando, suavemente, nela uma faca e balbuciando uma oração. Também, da cura de uma doença que pegou nuns porcos que um morador criava no final da rua sete de setembro.
Finalizo com o curioso relato testemunhal de Alair Coêlho: “Certa feita, eu era noivo da filha do Sô Bico, dentista e apareceram nos animais que ele criava num pasto que tinha na várzea, rigorosamente onde hoje está hoje a casa do Chicão. Tinha poucas cabeças de vaca lá e deu bicheira. Numa das vacas, a bicheira era da brava. Alguém disse que o Jesus benzia; aí o Totonho, que era cético como eu também em torno destas coisas, induzido pelo pai, procurou-o. Fomos à barbearia, conversamos com ele. Dispôs-se a ir. Só que não podia naquele dia e prometeu para o próximo fim de semana. Muito curioso com aquela situação, resolvi acompanhar o processo. Na caminhada, o Jesus foi colhendo pedrinhas e pondo no bolso. Não sabíamos para quê. Chegando ao retiro, as vacas foram reunidas. Jesus se aproximou de uma que tinha uma bicheira grande na anca. Tirou o chapéu, segurou-o com a mão esquerda no peito. Deu sinal para que silenciássemos, afastou-se das rezes, persignou-se, parece que estava orando e começou, falando em voz alta, eu me lembro muito bem das frases iniciais. Ele dizia: Israel tem doze tribos, doze tribos tem Israel e falou o nome de um patriarca e jogou uma pedra pra trás e ficou com os lábios em movimento como se estivesse orando, balbuciando, a gente não entendia. Andou uns passos e disse outra vez, diminuindo: Israel tem onze tribos, onze tribos tem Israel e jogou outra pedra e assim sucessivamente, aproximando-se do animal. Quando atirou a última pedrinha, sussurrou mais uma prece, persignou-se e deu por acabado. Coincidência ou não, três dias depois a rezes estavam curadas...”
*Agradecemos Solange, Alair Coêlho, Vera Melo, Agenor Gomes e demais testemunhantes, pelas informações.