O Verso e o Controverso

Tô feliz!

09 de Julho de 2013, por João Magalhães 0

Vi, em 1968, a marcha dos 100 mil. Resultado: depressão. Os apossadores do país (ainda bem que não de toda a nação!) riram de nós e apertaram as tenazes da repressão.

Vi e participei das “Diretas Já”, 1984, (saudades do vale do Anhangabaú, apinhado!). Resultado: desilusão. Nossos representantes, em maioria, votaram contra.

 Vi e participei do “Fora Collor!”, 1992. Resultado: esperança, precocemente falecida.  Enganadores do país estão aí até hoje, coloridos ou não.

 Tô Feliz! O inesperado nos fez uma surpresa.

 Assisto a quase toda a nação protestando contra os gastos faraônicos com a Copa do Mundo, renegando um Brasil como “país do futebol” e muitos do povo consciente até dando marretadas no pedestal de ídolos-ícones, Pelé, Ronaldo...

 Enxergo grupos, bradando contra a PEC 37- Proposta de Emenda Constitucional que limita os poderes de investigação do Ministério Público - que por dever de ofício defende a sociedade. Aliás, investigar é um direito de todo cidadão.

Leio cartazes e ouço apupos contra os defensores “felicianos” da “Cura Gay”.

Passo alegre pelo “Passe Livre”, propugnando uma reforma radical da política de transportes públicos, e rememoro o lema hipócrita gravado em ônibus: “Transporte: direito do cidadão, dever do Estado”!

Os pronunciamentos de que para manter o preço das passagens precisa cortar investimentos, não colam. Basta cortar a dinheirama para privilégios do poder legislativo, mais ainda do poder judiciário, fechar a torneira para eventos eleitoreiros, para altos salários etc., que os investimentos se manterão. Um exemplo: nos municípios, por que o cargo de vereança não pode ser gratuito, um mandato de honra apenas, como é em alguns países e como já foi no Brasil até 1977?

E a procissão serpeia: cadê a saúde?  Cadê a educação? Cadê a segurança? Os ratos comeram!

 

Resultado

 

Um pouco já veio. Houve uma vitória, pequena, mas houve: cancelou-se ou reduziu-se o aumento do preço das passagens urbanas, em grande parte das cidades. Passe livre sendo adotado por cidades. Perspectiva de gratuidade para estudantes. Negativa de aumento para passagens de ônibus estaduais, semiurbanos e internacionais e de pedágios. Valeu!

A Câmara derrubou a vergonhosa PEC 37.

Não importam os motivos, mas o governo se movimentou. Abriu diálogo, promete modificações substanciais.

Pactos, agora anunciados pela presidente: responsabilidade fiscal e estabilidade, ou seja, manter gastos e inflação sob controle; consulta popular (plebiscito) sobre uma constituinte específica para a reforma política; corrupção como crime hediondo; saúde; transporte público; educação pública. São pacotes importantes, temos que forçar a abertura deles.

 

Anseios

 

Quem presenciou a Copa do Mundo na ditadura militar, transformada em brilhante cortina para ocultar festivamente à nação os horrores, torturas e mortes nos porões, só pode ansiar para que as manifestações continuem durante o torneio, pacificamente e sem prejudicá-lo, é claro. Há que se apoiar a seleção nacional, vibrar com os torcedores, mas o fogo não pode se apagar.

Que as forças de segurança consigam dominar a marginália dos anarquistas, dos arruaceiros, dos vândalos, dos oportunistas, dos saqueadores, dos violentos doentios. Enfim, das hordas patológicas que se infiltram em todos os aglomerados.

Essas forças têm preparo para isso, ou deve ter. Não investindo contra pacíficos que até agora foi a maioria, receberá o apoio de todos. Foi bonito ver um grupo de manifestantes se organizando e conseguindo orientar e liberar um grupo de policiais acuados e ameaçados de linchamento por um grupo de ferozes “pitbulls”!

 

Medo

 

O aparecimento de algum salvador da pátria que arrebate multidões, extirpando marajás, algum messias popular prometendo uma Canaã brasileira, onde jorram o leite e o mel.

Comungo com o posicionamento de vários comandantes de manifestações: nosso movimento é apartidário, mas não antipartidário, não pode se fechar a eles. Não existe democracia sem partidos

 

  Esperança

 

A reforma eleitoral. É o momento.  Como já escrevi bastante neste espaço, o ideal seria a convocação de uma Assembleia Constituinte específica só para a reforma. Foi a proposta da presidente, infelizmente logo retirada por inexequibilidade.

Os dorminhocos e engavetadores de reforma eleitoral no Congresso, ou seja, a maioria, acordaram sobressaltados! O perigo é que eles corram para o “vamos mudar, para não mudar”. Urge uma marcação cerrada.

 Permanece a proposta do plebiscito, ou de um referendo. Um dos dois tem que haver. Pessoalmente, torço pelo referendo, desde que se intensifique a pressão sobre o Congresso para acelerar ao máximo a reforma para valer nas próximas eleições. Senão!...

O plebiscito, além de ser muito complicado quanto às perguntas, aporta um gasto econômico inoportuno no momento atual, além de um grande risco de manipulação de votos para manutenção do status quo. Acho mais fácil e mais eficaz a nação se posicionar sobre o já votado por seus representantes, através do referendo.

Sugiro que nos enturmemos com a rede de instituições que se mobilizou pela aprovação da Lei da Ficha Limpa e que começará uma campanha pela “Reforma Política Já”: MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral). Já tem o apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

É o que penso. E você?

A distorção das torcidas

15 de Maio de 2013, por João Magalhães 0

Esporte é um potente hormônio social. E futebol, modernamente, é o mais forte. Como hormônio, gera prazer, vibração, entusiasmo; mas açula também agressividade, violência e até massacre.

A mídia explorou à saciedade o caso Kevin Espada, garoto boliviano de 14 anos, morto por um sinalizador naval disparado por um torcedor corinthiano, na partida San José x Corinthians, Oruro, Bolívia, taça Libertadores.

Certo, vive disso, lucra com isso. Reconheça-se, porém, que os órgãos sérios contribuem muito, trazendo a debate múltiplos aspectos do fenômeno esporte.  Preponderou, claro, a discussão sobre o subfenômeno esportivo: torcidas organizadas. E mesas redondas, pronunciamentos, estrebuchos, exibições, lágrimas de crocodilo, análises de cientistas sociais, entrevistas com estudiosos, inundaram as redações.

Passada a chuva, o assunto sai de linha e tudo fica como antes. Pena. Por isso é necessário reacender.

 

Um perfil

O estudo “Características das torcidas organizadas de São Paulo” mostra que 26,9% dos associados são menores de idade. Os torcedores inscritos da Federação Paulista de Futebol (FPF) são: Corinthians, 22.634; Palmeiras, 10.793; São Paulo, 7.987; Santos, 6.123. Alguns nomes: Corinthians: Gaviões da Fiel, Estopim da Fiel, Pavilhão nove, Coringão Chopp, Fiel Macabra, Guerra Corintiana; Palmeiras: Mancha Verde, Pork’s Alviverde, Acima de Tudo; São Paulo: Independente, Dragões da Real, Os implacáveis; Santos: Torcida Jovem, Sangue Jovem, Meninos da Vila. Como se vê, alguns nomes já apavoram.

 

O “Batismo”

Almir L. Gonçalo Júnior relata: “No banheiro mal lavado do ônibus, quatro meninos se espremem assustados. Com nojo, medo, ansiedade, fazem de tudo para não esbarrar no outro. A porta se abre e apenas um escolhido para sair. Os outros três ficam lá, de ouvido colado na parede fina. Da para ouvir o vozeirão perguntando: “Qual é o ano do primeiro título do Corinthians?” Em seguida outra: “quem marcou o gol do Campeonato Brasileiro de 1990?” E, para tirar um dez: “quais são os nomes dos últimos cinco presidentes da Fiel?” Essa, nem com a ajuda dos universitários.

Esse é o batismo para os calouros da uniformizada Gaviões da Fiel em sua primeira caravana para um jogo do Corinthians. Para se tornar efetivo membro da torcida é preciso acertar estas perguntas. Quem não acerta, volta para o banheiro”.

 Depois de aceitos, eles viram obreiros. Sentem-se importantes ao carregar as bandeiras e contar os instrumentos que vão para o estádio. Ficam felizes ainda quando têm de fazer tudo de novo na volta.  E não temem a violência”.

Sintetizo, pois achei importante uma entrevista com a professora Heloísa Reis, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, estudiosa da violência ligada ao esporte, mantendo no possível o seu fraseado.

Acha positiva a associação a uma torcida organizada, pois, os indivíduos buscam se associar com grupos sociais semelhantes. O problema é que muitas vezes a adoração pela torcida, pelo seu símbolo, pelo seu nome, se torna maior do que pelo clube. Com isso formam grupos, sobretudo de adolescentes, que querem se autoafirmar.

O próprio gosto dos homens pelo futebol e por o futebol ser uma atividade predominantemente masculina já é por si só um atrativo de autoafirmação. Nesses grupos, essa possibilidade de afirmação de masculinidade mais violenta, viril, hostil é aumentada.

A distorção vem porque o grupo cria uma identidade própria e passa a ter uma relação competitiva com grupos rivais

A competição se torna tão hostil que começam a guerrear entre si no grupo. Quem é mais macho? Quem consegue impor mais medo ao outro, ferir o outro.

O atrativo inicialmente é: eu torço para o clube X e vou para determinada organizada. E existem pessoas na sociedade que são extremamente violentas e têm o prazer pela violência. Essas costumam se associar àquelas torcidas que mais claramente são violentas. Há trabalhos acadêmicos que mostraram que no dia seguinte à morte de um torcedor, há filas de torcedores que vão se filiar àquela torcida que matou.

O jovem tem noção de sua violência. Quem não consegue agir individualmente procura o grupo, porque ali se encoraja. Costuma ser aquele indivíduo que adora filmes de luta, de terror, que adora ver um atropelamento, que, se vê briga, fica ali agitando para que batam mais. É um indivíduo que se formou com pouca repugnância à violência.

À pergunta se esses adolescentes acabam sendo usados pelos mais experientes, vem a resposta: temos de ver que esses jovens, de 12 a 18 anos, não são tão ingênuos, inocentes assim. Então, mais do que os maiores de idade utilizá-los por conta da nossa legislação, eles mesmos vão criando um hábito violento dentro da torcida e tomam para si a tarefa de ser os protetores da torcida, porque esta tarefa lhes dá reconhecimento e status muito grande. Não agem assim porque receberam ordens. Este “batalhão de frente” normalmente é de menores, mas são menores que querem estar ali.

Numa caravana, por exemplo, tem um grupo que fala que vai no ônibus da bagunça. Naquele ônibus tem de tudo, é onde as pessoas mais violentas estão. Não vai nele porque alguém determinou. Fazem questão de ir porque a única maneira que eles encontram de ser reconhecidos é pela força, pela capacidade de briga, de agressão, de violência.

As torcidas, em geral, não são violentas. Na maior torcida organizada de São Paulo, cerca de 80 mil, aproximadamente, não passam de 200 os indivíduos muito violentos. Mas essa minoria faz muito estrago.

 

O que deve ser feito?

Uma política de repressão e de inteligência para poder tirar essas pessoas das torcidas e puni-las conforme a lei.

A extinção é a pior medida a ser tomada.  É obrigação do Estado propiciar políticas de lazer e de educação nessas associações para, numa tentativa de fazer com que esses jovens tenham prazer e compreendam que o caminho da ilegalidade, da violência, da agressão é o pior a ser escolhido.

Acho que a professora está certa. E você?

 

Fonte: O Estado de S. Paulo, 3/3/13, E4.

Isenção de impostos para os milionários clubes de futebol?!

16 de Abril de 2013, por João Magalhães 0

Depois de abordar as absurdas imposições da Fifa para a Copa do Mundo (JL, ed. 117) bem como a política suja e a violência que estrangulam nossos gramados (JL, ed. 118), volto novamente ao futebol, antes que seja tarde.

Por quê? Porque o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo (do PC do B, quem diria!) está se empenhando para que o Corinthians e outros clubes sejam liberados dos débitos que têm com fisco: Imposto de Renda, Contribuições Sociais sobre Lucros Líquidos (CSLL) PIS e COFINS.

A Lei 9.615/1988 aboliu a isenção fiscal de que as entidades de desporto profissional gozavam desde 1947. O ministro questiona o posicionamento da Receita Federal sobre o assunto.

 O pedido foi feito à Advocacia Geral da União (AGU), por meio de um parecer do Ministério dos Esportes. Argumenta que a Receita Federal fere o desporto brasileiro; que os clubes têm, por lei, autonomia para se conjugar com sociedades civis sem fins lucrativos; que o futebol integra o patrimônio cultural brasileiro; que é considerado de elevado interesse social; que é um reconhecido elemento de brasilidade e que é paixão do brasileiro.

Que beleza, hein, Sr. Ministro? Clubes profissionais de futebol: associações de benemerência, entidades sem fins lucrativos?!

Isso é nos fazer de otários! Até o mais fanático adorador dos esportes profissionais sabe do jogo dos milhões.

Preço dos ingressos (baratinhos, não?!), transações milionárias de atletas, contratos de exploração comercial em estádios e arredores, camisas legítimas do clube (também baratinhas!...), direitos de TV, patrocínios nos uniformes, merchandising... O leitor pode completar esta lista.

Sem fins lucrativos?! Entidades de benemerência?! Pode gargalhar, cidadão brasileiro!

Benemerência? Se for a que o atual diretor do Palmeiras ameaçou cortar à sua torcida organizada em represália a atos de violência de seus membros, praticados recentemente! Entende-se que passa “um dinheirinho” para “ajudá-la” em suas belíssimas manifestações!

 Comove muito o ministro invocar o discurso do Lula homenageando “os heróis da Copa de 1958”, para calçar seu empenho em liberar os clubes de suas obrigações tributárias: “Quando a gente veste a camisa da seleção, está vestindo a camisa de nossa nação, está representando os milhões de brasileiros e brasileiras”. Bonito patriotismo!

Convite a todos os brasileiros escorchados por uma das maiores cargas tributárias do mundo: vamos nos enrolar na Bandeira Nacional, entoar, num uníssono vibrante e a plenos pulmões, o Hino Nacional, sair em claques para exibir o Brasil, fixar as Armas Nacionais em nossas vestes...

Depois disto, pediremos isenção de nossos impostos.

A duras penas o país caminha - muito devagar, é verdade -, para anular privilégios, para ratear mais justamente o custeio da sociedade, para tirar um tanto o peso da cacunda dos trabalhadores. O mundo europeu, por clamor popular, está dando um exemplo, exigindo tributos das igrejas e entidades religiosas.

E vem essa do ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil?!

Que comunismo é esse, Sr. Ministro? Se os clubes não pagarem, nós é que temos que pagar.

Alguma dúvida quanto à afirmação da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional: “Há uma realidade econômica inegável nas atividades de desporto profissional que não permite que o confundamos com atividade associativa”? Ainda bem!

 É o que penso. E você?

 

Fonte: O Estado de S. Paulo, 28/2/13 e 1/3/13

A surpresa do papa Bento XVI

12 de Marco de 2013, por João Magalhães 0

Uma renúncia papal era para mim uma utopia, mesmo com as misteriosas voltas que o mundo dá. Nunca cogitei que em minha vida presenciaria uma renúncia de papa, nem por fantasia das fantasias, nem curtindo os romances de Morris West (“Sandálias do Pescador”, “Fantoches de Deus” etc.), ou algum filme como o de Nani Moretti, “Habemus papam”.

 E aconteceu. Não foi novidade a eleição do cardeal Ratzinger para o papado, Pessoalmente, nunca dei muito crédito à propalada frase: “Quem entra papa para o conclave, sai cardeal”. Nas eleições que acompanhei, só vi exceção na eleição de João XXIII.  A renúncia, sim, foi um estrondo. Atordoou.

O fato me estimulou a partilhar com o leitor uma utopia das utopias que me acompanha. Afinal, se o ser humano não sonhasse em voar, quem sabe as aeronaves não existissem até hoje. Muitas realidades são precedidas de longos sonhos.

Recentemente, encontrei mais um “colega” de caminhada: James Carroll. Meu conhecimento não é pessoal, pois veio pela leitura de seu livro A Espada de Constantino – A Igreja Católica e os Judeus. O melhor estudo que já li sobre o antissemitismo. Grande erudição, fundamentada em pesquisas abrangentes. Nossa trajetória é análoga. Padres de congregação religiosa: eu, 1964; ele, 1967. Saída da estrutura religiosa: ele, antes de mim. Família: casal de professores, casal de filhos. Divergem as posturas. Ele continua católico fervoroso, praticante, lutando por uma Igreja a renovar-se, voltando à sua “infância” de comunidades que aderiram ao que ele chama de “Movimento - Jesus”.  Sua utopia, bem descrita no capítulo final de seu importante livro, é praticamente igual a da minha.

A minha postura não é religiosa no sentido estrito, é humanista. O humanismo me movimenta e não me deixa sentado à margem do rio. Não trabalho mais com fé religiosa, embora a respeite muito e reconheça sua importância para quem a possui. “Sou um ser humano e nada do que é humano me pode ser estranho” (“Homo sum et humani nihil a me alienum puto”). Este verso do dramaturgo latino Terêncio (+161 aC) resume meu teor de atuação.

Nesse sentido é que o religioso se faz presente, pois é um dos mais vigorosos fenômenos humanos. Nesse sentido é que as religiões, enquanto instituições que se criam a serviço do religioso, devem ser objeto de profundo interesse de todo humanista.  O sábado, entendido como organização religiosa, existe e deve existir para o homem e não o contrário. Jesus deixou isto muito claro a seus seguidores, as religiões cristãs (Mc 2,27). E o Cristianismo primitivo o entendeu muito bem.  A religião não está serviço de Deus, está a serviço da pessoa, realçando seus valores e direitos, colaborando em suas necessidades.

 Vamos à utopia. James Carroll propõe a convocação de um novo concílio ecumênico,  o Vaticano III. Seu livro é de 2001. Vê aí a única maneira de transformação estrutural da Igreja. Sugere temas a serem debatidos, entre eles, a democracia.

É também minha utopia, desde o momento em que percebi que as propostas mais essenciais do Concílio Vaticano II ficaram no platônico mundo das ideias.

 Que o novo papa convoque o Concílio Vaticano III. A função básica desse concílio seria tirar do papel e jogar na prática as propostas fundamentais do Concílio Vaticano II, reduzidas a utopias por estes dois últimos pontificados.

 Haverá um dia em que a essencial constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, no seu nuclear capítulo II: O “Povo de Deus” comece a descer das comoventes teorias dos púlpitos para germinar na terra das comunidades?

O Vaticano II afirma: “O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico ordenam-se um ao outro (...). Pois ambos praticam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo”.  (na língua oficial do Estado do Vaticano: Sacerdotium autem commune fidelium et sacerdotium ministeriale sive hierarchicum....ad invicem  tamen ordinantur; unum enim et alterum suo peculiari modo de uno Christi sacerdotio participant”).

O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como Povo de Deus. E aqui, a meu ver, entra o tema democracia.

O “movimento Jesus”, usando a expressão de James Carroll, opondo-se à teocracia dos hebreus, cresceu pela prática da assembleia (Eclesía), pela participação, pela liderança, pelo carisma. Por isso Pedro se torna o primeiro líder e tem o poder. Não era o poder monárquico absoluto que se consolida no século do Imperador Constantino, com apoio total dele e dura até hoje, no qual o papa, inclusive, nomeia os votantes para sua sucessão.

Quem sabe algum dia o católico, o praticante, claro, não o nominal, possa eleger o bispo que governará a diocese onde ele vive e o seu pontífice, através de representação  ou todo cidadão “com titulo de eleitor católico” possa ter voz na escolha do seu pastor? Por que não?

É uma utopia das utopias. Mas, quem sabe... Uma ou outra vez, gosto de “viajar”.

É a minha utopia. E Você? Qual a sua?

O mau cheiro das “arquibancadas” e “vestiários”

15 de Fevereiro de 2013, por João Magalhães 0

Explico. Com os vocábulos “arquibancada” e “vestiário”, resumo tudo que rola fora dos gramados dos estádios, ou seja, comportamento de torcedores, de torcidas organizadas, algumas delas fortemente aquadrilhadas, política de bastidores, jogo sujo de dirigentes e demais quejandos!

E o leitor há de concordar, fede mais, bem mais, do que oloriza. É a catinga de decomposição, de corrupção, de ferida purulenta, de flatulência de dirigentes e empresários; é o ar viciado, desoxigenado, dos preconceitos, das empáfias, das prepotências.

A globalização dos esportes (ênfase para o futebol) pela formação de equipes cada vez mais multiculturais e multiétnicas, em vez de paz e fraternização, infortunadamente, abriu espaço para a eclosão de maus instintos, de reações violentas, de agressões gratuitas, vindas, principalmente, de plateias ultranacionalistas que costumam lotar estádios.

Os ”evangelizadores” dos Direitos Humanos estão recebendo bofetadas e escárnios, como tipifica o recente manifesto da torcida do Zenit (time de São Petersburgo), exigindo que o clube não contrate mais negros e homossexuais. E olha a declaração: “Não somos racistas, mas para nós a ausência de futebolistas negros no grupo do Zenit é uma importante tradição que reforça a identidade do clube”!

O próprio Michel Platini, presidente da Uefa, chegou a dizer que o jogador que decidisse abandonar o campo depois de sofrer ofensa racista seria punido com medidas disciplinares. Questionado sobre que tipo de punição caberia aos torcedores racistas, foi taxativo: ”Não é um problema do futebol. É um problema da sociedade”. Pena, hein Platini, você foi um craque, ídolo dos franceses e muito admirado por nós! Isso estranha. O futebol não integra fortemente nossa sociedade? Como não é problema dele?!

Torcedores, um tanto antigos, que ainda acreditavam no esporte como fator de desenvolvimento humano, saudaram com entusiasmo, por exemplo, o movimento para sindicalização dos atletas, a “lei Pelé” e, com mais ardor, a “Democracia Corinthiana” (Alô, Sócrates, aquele abraço!).

Agora isto é raridade. Agora é competição de vida ou morte.

Porém, sempre fica um restinho de querosene na lamparina. A tocha ainda fumega. A esperança ainda não morreu.

Foi uma luz, a atitude do jogador ganês Kevin Prince Boateng, ao abandonar o campo no jogo amistoso do Milan (isso é amistoso?!) com o time, também italiano Pro Patria (sugestivo este nome, hein?!), depois de continuadamente ser ofendido por torcedores que em coro imitavam macacos, sempre que ele e os outros jogadores negros pegavam a bola. A equipe toda solidarizou-se com ele e saiu de campo. Este honroso abandono redime o esporte do outro abandono de campo, recente, de time argentino, em São Paulo. Esse sim, vergonhoso.

É significativa a posição do Milan em nota oficial: “Basta. Aqueles que têm o coração da mesma cor do coração de Boateng e Sulley Muntari não podiam aguentar mais e decidiram que estava na hora de dar uma lição nesses idiotas”; bem como o comentário do ex-jogador francês Lilian Turam, também negro, depois de falar que foi a primeira vez que um clube grande apoiou ostensivamente atitudes contra a discriminação: “a indiferença prevalece na maioria dos casos... (foi) enorme ajuda na luta contra o racismo”.

Li que a Federação Italiana pensava em posicionar-se, ignoro se o fez.

As providências tomadas pelas federações inglesas contra os hooligans já produzem efeito. Exemplo é a campanha “Kick it Out” (chute pra fora) contra qualquer tipo de discriminação. Manifestações deste jaez estão sumindo dos estádios ingleses.

Não desvalorizo faixas, slogans em camisetas, atletas abraçados e concentrados em preces, ou enviando mensagens levantando a camisa, exortações feitas pela midia etc.

Ajudam, mas ponho fé muito mais em gestos corajosos que estapeiam os preconceituosos, que ferem os interesses de clubes, que cortam os espaços de manifestação, como este gesto dos jogadores do Milan. Discriminações e preconceitos não desaparecem. Estão encardidas no ser humano, mas atitudes e comportamentos, impulsionados por eles, podem ser cerceados, punidos e, com isso, diminuídos.

Li também que Ronaldo Fenômeno, Luiz Felipe Scolari, Galvão Bueno e mais 15 presidentes de clube lançariam o Movimento por um Futebol Melhor. Será que neste “Futebol Melhor” consta alguma coisa concreta nesta área?

Copiando Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo: “De esperança em esperança, vamos avançando e deixando marcas no caminho”

É o que penso. E você?

(fonte; “O Estado de São Paulo” 8/1/13 e 12/1/13)