Juscelino Kubistchek, o Nonô de Diamantina
11 de Dezembro de 2013, por João Magalhães 0
Em setembro deste ano estive novamente em Diamantina, onde a aura de seu filho mais ilustre expande-se por toda a cidade: museu, herma na praça que recebe seu nome e pela região, como os locais: Presidente Juscelino e Presidente Kubistchek.
Hospedei-me no hotel Tijuco, uma planta moderna, nascida da prancheta de Niemeyer, em meio a pedras e prédios seculares, que não destoa, porém causa certo estranhamento à paisagem. Proposta e construção de Juscelino para local de reuniões, encontros, eventos e hospedagem de sua comitiva governamental.
No saguão da recepção, uma série de fotos dele, para mim com uma significância bem maior, pois, até sua morte, no fatídico e misterioso acidente de carro que o vitimou em 22 de agosto de 1976, fui fã dele “de carteirinha”, como se diz.
Nosso jornal, nunca escreveu sobre ele, aproveito, por isso, este espaço para algumas memórias que dele tenho.
No campo político foi a pessoa mais carismática que já conheci. O carisma, este visgo social que nasce do imo do indivíduo, atraindo e segurando as pessoas, manifestava-se nele pelo semblante, sorriso, teor corporal, otimismo contagiante, quase sonhador e imbatível fluência verbal.
Lembro-me de suas aparições na televisão, então adolescente no Brasil, por assim dizer, sobretudo na TV Tupi. Falava, às vezes, até quarenta minutos, sem ler, apenas mostrando gráficos e mapas, e os telespectadores grudados no vídeo.
Acho que o melhor teste para carisma, que eu chamo de “teste Jesus Cristo”, é o contato com crianças. O carismático, logo, logo, cativa os pequenos. E me ponho como exemplo.
Em 1950, candidatos ao governo de Minas, vieram para comício aqui, Juscelino e Gabriel Passos.
Criança, ainda, (ia para 11 anos), ambos os candidatos totalmente desconhecidos de mim, aluno da roça no Assis Resende, participei, comportadamente, como de praxe, dos dois eventos.
Juscelino discursou da janela da casa do doutor Teixeira, hoje da família do Ademar Aarão; Gabriel Passos do jardim da casa do prefeito Antônio de Souza Maia Júnior (Nico de Souza), casa hoje da família do Boqueirão.
Gabriel Passos passou batido, ficou-me apenas uma nebulosa lembrança. Juscelino, porém, me fascinou. Consegui, ignoro como, mas imediatamente após o comício, uma grande foto-cartaz dele, que colei com todo cuidado na parede da sala de nossa casa, lá no Tijuco!
Claro, sem jornal, sem rádio, o Tijuco quase uma roça; depois a ida para longe, seminário lá no oeste de Santa Catarina, vale do rio do Peixe, gravados ficaram: ele na janela, o cartaz, o lema “Energia e Transporte”.
Na campanha para Presidente da República, 1955, a fascinação virou um fanatismo tal, que obnubilava qualquer raciocínio crítico, apesar da oposição radical da maioria dos padres, meus formadores, alguns, Lacerdistas, a maioria Janistas de vassourinha.
Vivi minha juventude num campo de carismáticos, como Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Adhemar de Barros, Jânio Quadros. Em mim Juscelino anulava todos eles. Meu primeiro voto foi para o Marechal Henrique Dufles Teixeira Lott, seu candidato à sucessão, quando da vitória esmagadora de Jânio para presidente.
Perdi um evento histórico, que foi o comício de Jânio na Praça Sete, em Belo Horizonte. Seminarista, hospedado naquela noite no colégio Arnaldo, por ódio ao Jânio, não fui ao comício, inconformado com a festiva recepção mineira ao histriônico mato-grossense.
Depois vieram as cassações. Explodi num sonoro benfeito para Lacerda e Jânio, mas grande tristeza pro Juscelino.
Evidente, com o amadurecimento político, vez ou outra, discordava, nem tudo apoiava, mas o Juscelino pessoa, o carisma Kubistchek, o Presidente visionário- entusiasta, jamais desapareceram. Razão destas linhas.
Em leitura do Livro do Tombo para testar minha memória, confesso, causou-me uma pontinha de decepção, a constatação de restrições e até críticas sobre seus governos, feitas pelo Monsenhor Nelson, embora sem discordar de suas observações e comentários.
E termino com a pena do cronista-mor de Resende Costa, Monsenhor Nelson, relatando os comícios de Gabriel Passos e Juscelino, em 1950. Mantenho pontuação e ortografia.
“Em campanha política de sua candidatura à governadoria do Estado, chegou a Resende Costa em companhia do Dr. Amaro Lanase, candidato a senador, e do Dr. Matheus Salomé, candidato a Deputado Federal, a 25 deste mês de setembro, oDr. Gabriel de Resende Passos.
S. Excia. Foi recebido festivamente pelo povo, apesar de dia de semana, quando dificilmente se consegue reunir o povo para qualquer recepção. Os discursos foram feitos na Praça Dr. Costa Pinto, em frente da casa do Snr. Prefeito Antônio de Souza Maia Junior (Nico de Souza) em cuja residência lhe foi oferecido e aos membros da comitiva um lauto almoço.
S. Excia partiu, no mesmo dia, de automóvel para Barbacena, onde deveria chegar, às 8 horas da noite para um grande comício, passando principalmente por Lagôa Dourada, Prados, Dôres de Campos e Barrôso” (Livro do Tombo, 1950, fl 56).
“Em campanha política de sua candidatura à governadoria do Estado, chegou a Resende Costa, em companhia do Dr Tancredo Neves, Belisário Leite de Andrade e grande comitiva, a 27 deste mês de setembro, o Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira.
S. Excia. foi recebido festivamente pelo povo, apesar de dia de semana. Os discursos foram feitos da janela da casa do Snr José Alencar Teixeira, onde S. Excia. tomou ligeiro “lunch”.
Para impressionar bem ao povo, veio à matriz, rezou um pouco, visitou a Santa Casa e regressou em seguida para São João d’El Rey para o comício da noite, passando por Prados e Dôres de Campos” (Livro do Tombo, 1950, fls 56/57).
Posso escrever sua biografia, sem autorização?
13 de Novembro de 2013, por João Magalhães 0
Antes, o assunto estava restrito às posições de alguns biografados, ou herdeiros e biógrafos. O caso mais divulgado foi o recolhimento da biografia de Roberto Carlos, Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo César Araújo, recolhida por recurso ganho na Justiça. Mas há outros casos, por exemplo, com o biógrafo Rui Castro e, recentemente, com Domingos Pellegrini, com seu livro “Passeando por Paulo Leminski”, proibido pelos herdeiros.
Agora, o problema ganhou dimensão nacional por três motivos: o projeto de lei do deputado Newton Lima (PT/SP), para modificar a lei vigente sobre biografias, infelizmente emperrado no parlamento por recurso de 72 congressistas que querem votação em plenário; a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), impetrada, em 2011, pela Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel), junto ao Supremo, contra o artigo 20 do Código Civil; e agora, um grupo de celebridades, entre eles Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton nascimento, Roberto e Erasmo Carlos, Djavan e outros, formaram o bloco Procure Saber para impedir a modificação da lei que contempla autorização para se publicar biografias ou outros escritos.
O caldeirão da mídia está em plena ebulição. Ainda bem, pois, trata-se de um debate de grande importância, ou seja, a tomada de posição, entre dois direitos essenciais da pessoa, consolidados por lei. Tanta importância, que a ministra Carmen Lúcia, em cujas mãos está o processo da Adin, marcou audiência pública para discutir o assunto.
Direito à livre expressão, artigo 5º, § IX da Constituição Federal:
“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Direito à privacidade de vida particular, familiar, artigos 20 - 21 do Código Civil:
“Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingem a honra, a boa fama ou respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais” (20).
“Vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma” (21).
Num conflito entre esses dois direitos qual vale mais, qual tem precedência?
Aqui está o embate: caso não seja autorizada a biografia, como fica? Vale a Constituição ou vale o Código Civil?
Acho evidente que vale a Lei Maior – a Constituição.
A pesagem tem que envolver o bem comum e o bem individual ou particular.
O direito de livre expressão, como falar, escrever, publicar, opinar, posicionar-se livremente frente a fatos e fenômenos, tem precedência sobre o direito à privacidade. A liberdade de expressão favorece o indivíduo e a sociedade, logo, num conflito, vence a sociedade, ganha o bem comum.
O bem comum prevalece ao bem individual, ou seja, a lei existe para o bem da comunidade. Adoto o conceito da Filosofia Escolástica (Tomás de Aquino) quando define a lei como uma ordenação de meios para um fim, promulgada para o bem da comunidade, Ordinatio mediorum ad finem, ad bonum communitatis promulgata.
Se prevalecesse, por exemplo, o bem individual, o poder público não poderia desapropriar uma área particular.
A lei não pode proibir você de falar, escrever, opinar sobre os outros. Isto é censura prévia. Pode, sim, cobrar responsabilidade, incriminá-lo por sua ação. E aí estão crimes, como calúnia, difamação, injúria, artigos 138, 139,140 do Código Penal, respectivamente.
Ponto fundamental de toda democracia de Direito é a liberdade de manifestação.
A privacidade também o é, mas não absoluta. A censura lesa gravemente indivíduo e sociedade. No prato da liberdade de comunicação estão bem particular e bem comum; no da privacidade, só o particular.
A História, a cultura e o saber devem muito às biografias não autorizadas e também os biografados. Freud proibiu que se escrevesse sua biografia. Ainda bem que desobedeceram, pois, sem elas, saberíamos bem menos sobre psicanálise, ciência do psiquismo, sobre a sociedade vienense, sobre a cultura que impulsionou suas teorias!
É preocupante ouvir importantes biógrafos brasileiros como Lira Neto (Getúlio Vargas, Castelo Branco, Maysa, Padre Cícero), Rui Castro (Garrincha e outras), Mário Magalhães (Marighela), Fernando Morais (Assis Chateaubriand e outras), declarar que deixarão do ofício, se não houver mudanças.
Países democráticos não aceitam censura a biografias não autorizadas. “Na pesquisa que fizemos sobre legislação de outros países ocidentais, só encontramos a necessidade de autorização prévia de biografados na lei brasileira”, afirmou Gustavo Binenbojm, advogado que representa a Anel (“Folha Ilustrada”, 29/9/2012). Só o Brasil...
Parodiando Marcelo Rubens Paiva (OESP, 19/10/2013 C10), até o Novo Testamento seria questionado pelas famílias de Judas Iscariotes, Herodes Antipas, Pôncio Pilatos, se a Galileia seguisse a lei brasileira!
Quem te viu, quem te vê! Pena ver quem sofreu, anos passados, nas garras da censura, propugnar pela manutenção de autorização para censura, ou quem cantou “É proibido proibir” engajar-se em prol de proibição!
Faço minha a pergunta do conhecido antropólogo Roberto DaMatta (OESP,18/10/2013 C10): “Todas as vidas contém paradoxos. Como aprendemos com Caetano Veloso e talvez com Schopenhauer, “de perto ninguém é normal”. Seria isso um bom argumento para tornar a intimidade pessoal mais sagrada do que a liberdade de escrever livremente sobre o outro, quem quer que seja? Quem vale mais? A vida pessoal de quem deve tudo ao público ou a liberdade de escrever?”
Acho que é a liberdade. É o que penso. E você?
O Alcoolismo como instrumento de dominação
15 de Outubro de 2013, por João Magalhães 1
A leitura das duas matérias de Carlos Alexandre de Resende: “O uso do álcool e o alcoolismo” (JL, ed.125/jul/2013) e “Prevenir é melhor que remediar” (JL ed. 124/ ago/2013) conduziu-me a esta breve reflexão: o problema das drogas sob o aspecto da dominação exógena, ou seja, o poder social, sobretudo o poder político, usando da força escravizadora das drogas, sobretudo do álcool, para subjugar, alienar, cooptar, anular a capacidade de reação autodeterminante das pessoas.
Nos já bem transitados anos de atuação religiosa, pároco da igreja de São Benedito, Vila Sônia, arquidiocese de São Paulo (capital), no trabalho de promoção humana - alicerçado por uma Teologia de Libertação, foco principal da pastoral católica, na América Latina, nos tempos do Concílio Vaticano II -, o contato com uma iniciante Associação Antialcoólica intensificou, e muito, minha percepção do quanto a dependência química despersonaliza o ser humano e o transforma em objeto de exploração e dominação. Abri, por conseguinte, todos os espaços da paróquia para o núcleo da Vila Sônia e atuei com seus militantes, enquanto lá fiquei.
Desde as eras mais remotas até o contemporâneo, os impérios ditatoriais sempre esmeraram em estratégias e técnicas alienantes para “cordeirizar” a população.
Os Romanos primaram nisso. À estratégia do dividir, desunir, dissociar, intrigar para imperar - o celebrado e eficiente “divide et impera” ou “divide ut regnes”- somaram as práticas alienantes, tais como o fanatismo partidário, político, esportivo, religioso, o “pão-e-circo”, a divinização do poder, o patriotismo, estilo “Ame ou deixe-o” de nossa ditadura militar etc. Com isso construíram o maior esquema de dominação que a Antiguidade conheceu e continua sendo modelo para os totalitarismos de hoje. Maquiavel que o diga!
Desconheço se o Império Romano usou conscientemente o álcool como meio de dominação, mas que as festas populares, os bacanais, as orgias etílicas, colaboravam para este intuito é afirmativo.
É mais que óbvio que o dependente vende sua alma para consumir e progressivamente perde toda a capacidade de autodeterminação. Ululante, também, que os fornecedores fazem de tudo para que a “água” dos alambiques e destilarias afogue e a “farinha” dos “moinhos” entale cada vez mais um número maior de pessoas. O mundo da publicidade e o mundo da diversão e do lazer são prova disso. Vem daí um lucro mastodôntico e cercear este comércio é uma tarefa hercúlea, pois ela conta com um apoio quase nulo.
É trágico, porém, e muito polêmico, quando se veem governos aumentando absurdamente os impostos sobre tabaco e bebidas alcoólicas, achando que com isso diminuirá o consumo. Vá lá se o resultado da arrecadação fosse aplicado em programas de desintoxicação, de sobriedade, de moderação e de apoio à recuperação de dependentes. No entanto, vejo muito pouco isso. Na realidade, o esquema estatal vê aí uma mina que fornece muito ouro para o monopólio do poder, para gastos faraônicos, mordomias de apaniguados, fausto de palácios e de elites.
É estarrecedora uma leitura recente de um artigo de Mark Lawrence Schrad, autor de um livro: “Vodka Politics: Alcohol, Autocracy and the Secret History of the Russian State” sobre a consciente propagação do uso do álcool pelo Império Russo para dominar, servilizar e até escravizar a população.
É dele alguns dados. De 1763, com Catarina, a Grande, até 1914, as receitas com impostos sobre bebidas chegaram a 40% do total da arrecadação do Estado russo, o bastante para sustentar um dos maiores exércitos do mundo e os nababescos palácios dos Czares e da nobreza!
Durante séculos, o Estado russo usou a vodca para oprimir e explorar seu povo. Empurrou vodca para seu povo, para mantê-lo cambaleante e subserviente.
De Ivan, o Terrível, a Stalin, os líderes, praticamente, encaminhavam seus colegas mais próximos para a embriaguez, como tática de mantê-los divididos e dependentes. Mudaram o lema romano “divida e impere” para “embebeda e impere”!
Há muito que os dominadores perceberam a capacidade opressora do álcool. Em 1845, o americano Frederick Douglas, orador negro, defensor da abolição da escravatura, disse que alcoolizar os escravos era a maneira mais eficaz que os senhores tinham para aplacar os espíritos rebeldes.
Em 1858-9, os servos do Báltico ao Volga boicotaram a vodca impingida pela monarquia russa. Com tabernas e destilarias fechando, o governo reagiu com brutalidade. “Os abstêmios eram chicoteados para beber. Alguns que teimosamente se recusavam tinham a bebida despejada em suas bocas por funis e depois eram atirados à prisão como rebeldes”, escreveu um jornalista inglês.
Dói pensar que a Igreja Ortodoxa russa, usufruindo das vantagens, quando não apoiava, se omitia, A marca disso é a excomunhão de Tolstoi, quando criou uma sociedade de temperança para o progresso espiritual e material dos russos.
Não creio que a sociedade e o governo russos ainda caminham por esta estrada. Penso que não. Mas, cada vez que algum governo aumenta impostos sobre bebidas alcoólicas e fumo, é difícil me afastar desses pensamentos.
É o que penso. E você?
Fonte: O Estado de S. Paulo, 22/8/2013 A16.
Os ovos do sábado
13 de Setembro de 2013, por João Magalhães 0
Quando acordado, de madrugada, aí pelas duas ou três horas da manhã, amiúde fico ouvindo o contraponto sonoro dos galos, rompendo agradavelmente o silêncio tranquilizante de nossa urbe. Ainda há muitos galos, com suas companheiras, em nossas hortas.
Por estes dias, um “barítono”, ligeiramente desafinado, começa aqui pelos meus lados, no Rosário, outro responde lá pelas bandas da Nova Resende, voz bonita, tenor de excelência, a conversa musical estende-se, ao longe, até para a estrada do Ribeirão e um melodioso diálogo de vozes forma-se, pausadamente, nos céus da pré-aurora de Resende Costa.
E aí me vem à memória sensitiva o “Tecendo a manhã” do grande poeta pernambucano, João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de um sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma tela tênue, / se vá tecendo, em todos os galos...”
Os pensamentos já voaram para as petecas que fazíamos de cascas de espiga de milho e que ficavam muito mais bonitas e coloridas quando as penas eram deles; para o matutino palpar das galinhas; também para os galos que encimavam nossos cruzeiros, já infelizmente desaparecidos em sua maioria, alertando para a traição e arrependimento: “Pedro então lembrou-se da palavra que o Senhor lhe dissera: “Antes que o galo cante hoje, tu me terás negado três vezes. E saindo, chorou copiosamente” (Lc 22,61-62).
Igualmente para o desiludido lamento de Jesus em Mateus 23,37: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas...”.
Dia destes, um sexteto emplumado levou-me à infância lá no Tijuco, naquela época praticamente um povoado-roça. Era uma alegria a chegada do comprador de ovos. Normalmente montado em burro bom de sela, na garupa dois balaios cilíndricos alongados, um de cada lado. Dentro, os ovos cuidadosamente embalados com palha de milho e acolchoados com capim. Ficávamos à espreita, porque algum ovo quebrado ou trincado podia aparecer. Era nosso presente... às vezes davam uma fritada boa. Melhor ainda quando saía do “embornal” (como pronunciávamos), algum “bico-de-doce”, alguma bala....
Aos sábados, porém, nenhum comprador aparecia. Sabia que neste dia as galinhas botavam para Deus. Os ovos eram separados e depois entregues à paróquia.
Era uma prática sagrada, seguida religiosamente por todos os povoados, conforme testemunhos, por exemplo, do povoado dos Pintos (José Silvério) e do Curralinho (Geraldo Evaristo). Lurdinha do Geraldo porteiro contou-me que, meninota ainda, saía pelos arredores, recolhendo, para ajudar o Padre Nelson.
E é o próprio padre Nelson que registra esse religioso costume, há muito desaparecido, de que os mais idosos ainda se lembram.
1944, ano em que assume a paróquia. Mantendo sua ortografia: “entre as muitas coisas louváveis aqui em Resende Costa “encontrámos” o costume de se dar esmolas à Igreja Matriz, o “produto” da venda dos ovos recolhidos aos sábados, o proporciona à “Fábrica” [conselho que administra os bens de uma paróquia] uma “óptima” fonte de renda, tirando o “párocho” de sérios “apuros”, muitas vezes. Este costume foi aqui implantado pelo Revmo. P António Cândido Rocha, hoje “párocho” em Desterro do Mello, quando coadjutor do Revmo. P. Heitôr de Assis”. (Livro do Tombo, vol. 1-1944-fl. 3). Lurdinha disse-me que alguém falou-lhe que há uma senhora, bem velhinha, que segue este costume até hoje.
E as missas do galo? Tão mágicas! Verdadeiros réveillons religiosos dos velhos tempos. Alvoroço de nossa infância!
Salve, galos! Um brinde a vocês com uma pinguinha com vermute, o saudoso rabo-de galo... que o vento levou!
Parabéns JL! “Ad multos annos!”
14 de Agosto de 2013, por João Magalhães 0
Há uma afirmação, antigamente muito usada quando alguém prorrompia em muitos autoelogios: “Louvor em boca própria é vitupério”. Poupo algum leitor de consultar o dicionário: “Vitupério: insulto, injúria, ato vergonhoso....”
Não posso, porém, omitir-me de elogiar nosso JL, pelo seu decênio de existência, em cuja festa lamentavelmente estive ausente por viagem, há tempo comprada, mesmo sabendo que aplaudindo a equipe que o manteve e mantém e o fez e o faz crescer com tanta saúde, me elogio também, pois estamos juntos desde seu segundo número – maio de 2003 – cujo editorial escrevi, a pedido de seu fundador, Denilson Daher (por critério de antiguidade no jornal, nosso editor-chefe, André, é 1º decano, eu sou o 2º).
Incluo na equipe todos que participaram, escrevendo, pesquisando, desenhando (saudade dos desenhos e charges do Cássio Jônatas!), distribuindo, administrando, cumprimentando, sugerindo, levando em seus carros e, evidentemente, todos os anunciantes que “doaram sangue” e muitos doam até hoje para tirar o jornal da “anemia econômica”.
Na ocasião – maio de 2003 – escrevi no editorial: “Chegamos ao 2º mês de vida com a mesma proposta, com idêntico entusiasmo: noticiar, comentar, elogiar, incentivar, sugerir, promover os bons eventos e as coisas positivas de nosso município, mas igualmente alertar, apontar, denunciar, cobrar dos responsáveis as falhas que sempre acontecem na sociedade dos homens”.
Até hoje o JL está cumprindo sua vocação de nascimento. Sempre afirmo e as 124 edições (tenho todas encadernadas) até agora o provam, se você quiser saber tudo de importante que aconteceu em nosso município de abril de 2003, para cá, encontrará em nosso jornal. E recentemente também em nossa região mais vizinha.
Atualmente ou no futuro, quem se dispuser a escrever a “História de Resende Costa”, necessariamente terá que consultar o JL. Acho isso o maior elogio, o maior orgulho. Quem participou e quem participa o fez ou faz porque se realizou ou se realiza pela integração com a vida de nossa terra. Essa interação se dá pelo gosto e amor por nossas coisas. Esta é a nossa gratificação.
Atuando desde a adolescência na causa-religião e mais tarde também na causa-pedagogia, participei, ou liderei, inúmeros projetos voluntários. A efemeridade deles é constante pelo rolar da vida e suas circunstâncias. Nunca vi um projeto voluntário, que durasse tanto como o JL. Dez anos! Sua permanência vem da participação espontânea, vem da ligação com nossas origens, vem da alegria de ver nosso veículo de comunicação ampliando seu número de páginas, primando pelo conteúdo das matérias, expandindo seu diâmetro geográfico de abrangência, sendo cada vez mais referência no jornalismo regional.
Prezado JL, “ad multos annos!” Você está conseguindo uma proeza rara. Oferece espaço para o particular, para o comezinho, para uma “História da vida privada”, para um leitor matar a saudade de algum familiar, de alguma raiz há muito desaparecida, de algum benzedor que o curou, de uma personagem folclórica com quem conviveu.
Mas abre área também para o universal e para o universal regional, para a exposição de opiniões, para o debate, para a grafia de tendências literárias, para entornar emoções.
Tudo isso, sem censura, sem cobrar um centavo do leitor.
Nosso jornal não padece de tibieza. A ameaça do anjo do Apocalipse “assim, porque és morno, nem frio, nem quente, estou a vomitar-te de minha boca” (Ap. 3,6 – Carta à Igreja de Alexandria) até agora nunca se efetivou no jornal. E o ideal é que nunca se cumpra!
Por fim, reverto o agradecimento especial que o Denilson me fez, quando da edição número 2 de 2003: Eu é que o agradeço pelo convite. Como toda equipe, integrar o JL é realização. É sentir-me bem por participar, por atuar.
Pertence ao leitor julgar se isto é cabotinismo ou não, mas é o que sinto. E você?