São José de Anchieta: o intuitivo das comunicações
15 de Maio de 2014, por João Magalhães 0
Precisou um jesuíta assumir o papado para romper a burocracia que emperrava, há anos, a canonização de seu irmão de Ordem: o agora santo, José de Anchieta. O papa Bergoglio, por decreto, elevou-o à honra dos altares. Nada mais merecido. Há muito os católicos brasileiros esperavam por isso, dada a enorme importância que teve para nossa Terra.
Como minha graduação em Letras se fez com os Jesuítas - faculdade cujo reitor, na época, era o muito estimado Padre Mendes, simplesmente o futuro Dom Luciano Mendes de Almeida, saudoso arcebispo de Mariana - meus estudos de Anchieta, como literato, foram muito abrangentes. O professor: o padre Armando Cardoso, também jesuíta, especialista em Anchieta, aliás, tradutor para o português de seu “Poema à Virgem”: “De Beata Virgine Dei Matre Maria”.
Na primeira década, após a fundação do colégio de Piratininga, marco da fundação da cidade de São Paulo, em 1554, o religioso tinha apenas 20 anos. Anchieta nasceu na ilha de Tenerife- Ilhas Canárias – posse da Espanha - em 1534). No colégio de Piratininga ele permanece como único professor.
Um homem plural de capacidades, de atividade assombrosa. Possuía imenso carisma, como o mostra a impressão que teve dele o general espanhol Diogo Valdez, aportado no Rio de Janeiro, em 1582, segundo relato do padre Simão de Vasconcelos SJ, autor da primeira biografia de Anchieta, publicada em 1672: “Na primeira vez que o vi, nunca coisa mais desprezível se me representou, mas, ouvindo-o e tornando meu olhar para ele, nunca em presença de alguma majestade me senti mais apoucado e reverente”.
No entanto, o que mais me impressionou em Anchieta foi sua intuição para criar um meio eficiente de comunicação com os habitantes da colônia e, é claro, particularmente, com as nações indígenas. Logo intuiu que tinha que interagir profundamente com a cultura indígena. É a partir dessa cultura que cria os instrumentos de evangelização. Para isso, havia mister dominar profundamente sua língua. Em seis meses de convivência com os curumins, já dominava o idioma Tupi!
Logo percebeu, também, que teria que codificar a língua mais falada na costa brasileira, para popularizar o aprendizado e facilitar o contato mental com os nativos. “Só conhecendo, em profundidade, sua língua seria possível redigir textos complexos, como poemas, canções e peças teatrais, que fossem cativantes para eles. Graças a essa habilidade em manejar as palavras, mais tarde ele obteve vitórias no campo da diplomacia e conseguiu pôr em prática o projeto original de Manuel da Nóbrega de catequisar os guaranis que ocupavam o centro do continente sul-americano” (Luciano Ramos: O Espírito de Anchieta, in OESP 6/4/14 E8).
Em menos de dois anos, seu gênio produz a Arte de Gramatica da Lingoa mais falada na costa do Brasil que será impressa em Coimbra, somente em 1595.
Como artista, lógico, sente a força comunicativa da arte. Numa sociedade quase que inteiramente analfabeta, com razão, cria uma poesia simples, muito fácil de decorar, mais facilitada ainda pela composição em forma de hinos. Como exemplo, a primeira quadra de seu hino a Santa Inês: “Cordeirinha linda/como folga o povo/porque vossa vinda/lhe dá lume novo!”.
Mas é para o teatro que sua intuição o encaminha. Percebe nos autos, à moda de Gil Vicente, um meio quente de comunicação e com toda razão, pois em minha opinião, dentre todas as artes, o teatro possibilita a interação mais calorosa, já que seu meio de expressão é o ator corpo e aura comunicando-se com o assistente também corpo e aura.
Pude sentir isso, há anos, quando presenciei uma montagem de época, no Pátio do Colégio, em São Paulo, de seu Auto de São Lourenço, com falas e récitas, a maior parte em Tupi, mas também em espanhol, português e até em latim. Terá sido em 1980, ano de sua beatificação? Ou, com mais probabilidade, em 1977, quarto centenário de morte, quando houve solenidades no Pátio do Colégio e na Catedral da Sé?
Na catedral apresentou-se uma missa, composta por Marlui Miranda sobre versos em tupi do padre Anchieta e executada pela Orquestra Jazz Sinfônica, Coral Sinfônico do Estado de São Paulo e Coral IHU. Presença, inclusive, do Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, como informa Dom Paulo Evaristo Arns, o oficiante, em sua autobiografia.
Além do mais, os ensaios, a cenarização, o estudo das falas etc., eram uma excelente pedagogia para evangelizar os líderes.
Como escreve Luciano Ramos, “seus espetáculos teatrais destinavam-se a agradar e, por meio disso, ensinar marinheiros, militares, índios, escravos africanos, mestiços, portugueses e espanhóis, ricos ou pobres, educados ou analfabetos. Por esse motivo, Anchieta via-se estimulado a praticar a polissemia, ou seja, atribuir diversos significados para um mesmo símbolo”.
E continua Luciano Ramos: “Dotadas de intenção moral e educativa, essas composições destinavam-se ao lazer dos fieis e também serviam para Anchieta comunicar seus pensamentos e pontos de vista. Ele oferecia às plateias o que consistia ao mesmo tempo num ensinamento amplo, condensado e prazeroso. Uma experiência de prazer grupal em que a plateia era repreendida, criticada e orientada, mas com muito maior satisfação do que se estivesse numa sala de aula ou num sermão”.
Frei Orlando, o capelão que não voltou (II)
16 de Abril de 2014, por João Magalhães 0

Frei Orlando em viatura durante a 2ª Guerra Mundial. Foto segundaguerra.org
A vocação
Aos nove anos de idade, nasce em Antônio Álvares da Silva a semente franciscana. “Eu nunca tinha visto um frade (...). Chegaram (...) em nossa terra três franciscanos de hábito marrom, com um capuz que achei muito engraçado, uma corda amarrada na cintura e de sandálias nos pés... Tinham eles uma particularidade ainda mais interessante, (...) em viagem através do sertão, (...), tinham os hábitos remendados com panos escuros e os cabelos muito compridos, exceto o padre Mestre, que era calvo... Fui indicado para saudá-los (...). Li um pequeno discurso feito pela professora, mas fiquei reparando todo o tempo em um enorme remendo azul escuro, que enfeitava a batina do padre Mestre, à altura do estômago. Aqueles três homens, grandes, vermelhos, pois eram holandeses, cativaram logo a simpatia. E convivendo com eles nos dias que se seguiram, tornei-me amigo deles e grande admirador. Embora pequeno demais para compreender seus sermões, gostava de ouvi-los todas as noites (...). E foi justamente nessa época que me apareceram outros heróis, os missionários, cuja vida e obras, de tal forma, me impressionaram, que resolvi, com a incredulidade dos que me conheciam, fazer-me, um dia, um deles”.
Aos 12 anos, em 1925, Antônio ingressa no Colégio Seráfico de Divinópolis/MG, dos franciscanos. Em 1931, vai para a Holanda, onde, em 1932, faz os votos temporários em 1932 e os votos perpétuos em 1935, ingressando-se assim na Ordem Franciscana (OFM) trocando o nome para Frei Orlando. Em 24/10/1937 ordena-se sacerdote, em Divinópolis.
A missão
Cumprindo ordens, frei Orlando transfere-se para São João del-Rei, onde leciona História e Português no Colégio Santo Antônio, assumindo também a direção espiritual deste estabelecimento, cumulativamente com a da Ordem Terceira Franciscana. Logo, devido à sua gargalhada famosa, passos ligeiros, fala estridente, temperamento alegre, brincalhão, franqueza cordial, ativismo incansável, ganha sólida confiança, não só dos alunos, mas também do povo da cidade, com o qual se identificava perfeitamente. Ele era também muito benquisto e conhecido em Resende Costa.
Sua marca maior é a compaixão pelos pobres que o leva a criar a “Sopa dos Pobres”,espécie de “Fome Zero”, em 1942! Luta gigantesca. Dificuldades enormes. Houve época de atender a mais de 500 necessitados! Havia que batalhar para conseguir os mantimentos, além de providenciar locais mais amplos. E o número de assistidos, crescendo cada vez mais. Numa dessas situações prementes, frei Orlando apela para a ajuda do Exército. O coronel comandante gosta da sua franqueza, positividade e confiança ao procurar a caserna para um fim reconhecidamente nobre. No mesmo dia, o boletim da Unidade publicava a relação dos que se dispunham a contribuir com determinada mensalidade, socorrendo assim a “Sopa dos Pobres”.
O fim
O convite feito pelo coronel comandante do 11º. RI (Regimento de Infantaria), Delmiro Pereira de Andrade, para integrar a Expedição Brasileira que partiria para a guerra (2ª Guerra Mundial) foi aceito de imediato e alegremente por Frei Orlando. No dia 20 de julho de 1944, já nomeado 1º. tenente, para alegria de todos, o religioso franciscano incorpora-se ao regimento, já no Rio de Janeiro. Com ele, os capelães: frei Alfredo e padre Elói de Oliveira, futuro monsenhor Elói, vigário de São Tiago (MG), por tantos anos.
Frei Orlando passa a integrar a equipe de saúde no atendimento espiritual dos Expedicionários na Itália e no cuidado corporal e espiritual dos feridos, sofrendo, como todos, as agruras dos combates e a precariedade material de nossas Forças. Durante a conquista de Monte Castelo, o capitão Frei Orlando quis a todo custo chegar à vanguarda. No combate, foram muitos os mortos e feridos e o frei precisou de atendê-los. Diante dos desafios, foi inútil qualquer tentativa de demovê-lo.
No caminho para o “front”, tenta galgar as posições da 6ª. Cia., rumo a Docce. Perto de Bombiana, passa por ele um jipe. Inteirado da direção da viatura, nela tomou lugar, juntamente com os companheiros: capitão Francisco Ruas Santos, futuro coronel, cabo Gilberto Tôrres, motorista, um praça do nosso regimento e um sargento italiano. O coronel Ruas descreve: “(...) Frei Orlando, em caminho, depois de dizer o que fizera pela manhã, e o que ainda pretendia fazer, falava de irradiação feita pelos holandeses livres, para a parte ocupada do seu país. A uma observação qualquer, ainda soltou uma de suas costumeiras gargalhadas. O jipe marchava lentamente, subindo e descendo elevações, quando, de repente, estaca, imobilizado por uma pedra. Prendia esta o eixo dianteiro. Os passageiros conseguem retirar a viatura que foi posta a alguns metros além da pedra fatídica. Tomo a manícula do jipe e me esforço para removê-la. O sargento italiano, no intuito de ajudar-me, recurva-se junto à pedra e também tenta retirá-la a violentas coronhadas de sua carabina. Esta dispara e Frei Orlando, que se achava parado a uns três metros, é atingido pelo projétil. Solta um grito, leva a mão ao peito, dá alguns passos à frente, tirando ao mesmo tempo do bolso do casaco o seu terço e balbuciando ao mesmo tempo, às pressas, uma Ave-Maria. Corro para ele e o faço deitar-se à margem do caminho. A oração apenas começada é abafada pelo ofegar da agonia. Tudo isso, desde o fatal disparo, dura dez segundos. Retorno rapidamente à Docce, em busca de socorro médico e trago o capitão João Batista Pereira Bicudo, facultativo do Batalhão. Este pode apenas verificar achar-se morto o capelão, desde o momento, talvez, que acabara de ser deitado à margem do caminho. O italiano, abraçado ao corpo do capelão, chorava e se lamentava. Um pastor das redondezas, na sua natural indiferença, contemplava esta cena. O médico descobre-se, persigna-se e reza pela alma de frei Orlando, no que é seguido por mim e pelo cabo. Eram, aproximadamente, 14 horas do dia 20 de fevereiro de 1945”.
Morre junto seu acalentado sonho de ser missionário na China. Repousa, hoje, no mausoléu do Monumento Nacional aos Mortos da 2ª Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.
Frei Orlando, o capelão que não voltou (I)
12 de Marco de 2014, por João Magalhães 1

Frei Orlando. Foto divulgação
Tencionava, há bem tempo, escrever sobre frei Orlando, patrono do SAREx (Serviço de Assistência Religiosa do Exército), por decreto de 28/2/1945. Faço-o agora, embora reconhecendo que o ideal seria ano passado, 2013, centenário de seu nascimento (1913-2013).
Frei Orlando entra na vida deste colunista, pois faz parte de sua mais remota lembrança. Esteve presente na solene recepção que Resende Costa fez a seus filhos que integraram a FEB (Força Expedicionária Brasileira), nos dias 11 e 12 de outubro de 1945. Este colunista fez seis anos, oito dias antes. Com outras crianças, acenava com uma bandeirinha aos nossos pracinhas, em frente à casa do Sô Bico (Olíndio Argamin de Freitas), um dos organizadores da festa, pai do expedicionário Sargento Antônio Argamin de Freitas.
Depois, nas aulas no “Assis Resende”, a veneração ao frei delineia em sua imaginação a figura do herói sacerdote que sacrifica sua vida, atendendo aos feridos da guerra.
Frei Orlando retorna muito mais tarde, quando nos anos mais agressivos da ditadura militar, fazíamos sérias reservas a alguns capelães militares que, por obediência a seus comandantes, se omitiam ou contrariavam orientações da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), ancoradas firmemente por seus dirigentes, entre eles, os grandes franciscanos, dom Paulo Evaristo Arns e dom Aloísio Lorscheider, coirmãos de frei Orlando.
Nosso grupo defendia, na época, que deviam renunciar: capelania não devia ser cargo, nem carreira, mas sim serviço apostólico voluntário. E frei Orlando, para mim, era um exemplo.
Rolaram os anos. Um dia, ganho de presente de um jovem recém-saído do serviço militar a obra: Frei Orlando, o capelão que não voltou (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1982). Era justamente a vida dele, escrita antes e durante a guerra, pelo seu amigo tenente Gentil Palhares, de São João del-Rei.
O trechinho da carta do frei de 2/2/45: “Estávamos eu, Dr. Bicudo, médico chefe, Dr. Pantaleoni e o Dr. Americano Francia (dentista), todos juntos, quase sempre” despertou curiosidade. Seria esse Dr. Bicudo o tio da amiga e colega minha, Cecília Bicudo? Era o próprio, agora general João Batista Pereira Bicudo. O general é irmão de Hélio Bicudo, o corajoso promotor público que lutava ferrenhamente contra o famigerado “Esquadrão da Morte”. Odiado pelo delegado Fleury e sequazes, frei Orlando foi um colaborador diuturno do cardeal Arns na luta pelos direitos humanos.
Este lado emocional de sua vida, digamos assim, motivou a escrita deste texto, mas não constitui o seu objetivo. Como o tempo comumente cobre de cinzas fatos importantes e empoeira grandes figuras, ou seja, pessoas que contribuíram muito para o bem de todos, penso que a nova geração desconhece frei Orlando. É de justiça, portanto, que seja reverenciado.
Frei Orlando cumpriu o ideal “franciscano” que mais tarde viria a propor o jesuíta e atual Papa Francisco, ao pregar claramente que o sacerdote deve sair da igreja, desapegado de nobreza e luxo, misturando-se ao povo e, preferencialmente, coatuando com os mais necessitados.
O histórico de frei Orlando o mostra assim: atuação, interação com o povo de são João del-Rei, opção pelos pobres, otimismo, alegria frente à missão. “Passei pela vida rindo, como escreveu, embora tivesse muitos motivos para chorar”. A começar pela orfandade de mãe, com um ano e quase quatro meses de idade e depois de pai, aos três anos incompletos.
Antônio Álvares da Silva, filho de Itagiba e de dona Jovita Aurélia da Silva, nasceu a 13 de fevereiro de 1913, precisamente na localidade de Junco, na época município de Abaeté, hoje Frei Orlando, distrito da cidade de Morada Nova de Minas, à beira da represa de Três Marias.
Sua mãe morre no parto subsequente ao seu, em 4/6/1914. É então acolhido e criado, como filho caçula, pelo casal Sebastião de Almeida Pinho e dona Emirena Teixeira Pinto, vizinhos, compadres, muito amigos da família. Na realidade foi uma antecipação ou um prenúncio, porque havia um pacto entre os dois amigos: caso morresse Itagiba, então pai de nove filhos, Sebastião criaria o menino Antônio. E foi o que aconteceu, pois Itagiba viria a falecer, tragicamente assassinado, em 29.01.1916.
Morada Nova, naqueles tempos, era afamada pelos crimes bárbaros e traiçoeiros que lá ocorriam. Fausta, irmã de Antônio, narra que, um dia, ao ouvir forte discussão na loja do pai, foi com ele e sua irmã Clara ver o que acontecia e “oh, tristeza! Já nosso pai estava ferido e todo ensanguentado, mas de pé, trêmulo e com uma carabina na mão. Antônio abraçou suas pernas e pôs-se a chorar e gritar. O homem que atirara em nosso pai era um criminoso contumaz, com vários crimes nas costas, mau, perverso mesmo e vivia foragido das autoridades. Fora cobrar de um senhor certa quantia, que lhe era devida, justamente quando o referido senhor se encontrava em nossa loja. Discutiram e, quando iam às vias de fato, meu pai que era Juiz de Paz, lhe dera voz de prisão. O cobrador resistiu e desfechou cinco tiros em meu pai, que usara sua arma como defesa, mas que não a detonara. Um terceiro, muito nosso amigo, diante da truculência do assassino, sabendo-o perigoso, desfechou-lhe vários tiros, matando-o no mesmo local.”
Itagiba tinha 37 anos. Antônio ficou na orfandade total. O mais velho com apenas 16 anos!
E aí? Cantamos os parabéns, ou não?
12 de Fevereiro de 2014, por João Magalhães 0
Janeiro, agora, 2014, o Estatuto do Idoso (lei 10.741/2003) fez aniversário, dez anos de vigência. E aí? Cantamos os parabéns, ou não? Penso que sim, embora a festa pudesse ser bem melhor. Muitas coisas ainda continuam apenas no papel, inertes, quando não ignoradas, lamentavelmente, pelos que a elas fazem jus e empoeiradas nas gavetas dos responsáveis pela sua eficácia.
Enquanto lei, acho-a muito bem feita, pelo conteúdo, clareza e abrangência, como o mostram os sete artigos do Título I – Disposições Preliminares, cuja cópia, aconselharia a todo idoso portar consigo, ou, pelo menos a do fundamental artigo III:
“É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária” (grifos nossos). E seguem os itens I a VIII do parágrafo único, não transcritos por exiguidade de espaço.
No primeiro aniversário, outubro de 2004, o “Jornal da Tarde” de 7 de outubro de 2004 publicou suplemento especial com a manchete: “Um ano depois idosos continuam sofrendo discriminação e muitos sequer conhecem seus direitos”.
Causa principal era o desconhecimento do Estatuto por parte dos interessados, os sexagenários. O senador Paulo Paim (PT/RS), autor da lei, propunha: “A educação é fundamental. Precisamos colocar na cabeça dos jovens que a forma como eles tratam o idoso hoje será a mesma como eles serão tratados quando envelhecerem”, se a lei não vingar, claro.
Agora, O Estado de S. Paulo de 1º. de janeiro de 2014 veio com a manchete: “Após 10 anos, Estatuto do Idoso pouco avança”. Fisguei nesta matéria de Fernanda Bassette e Victor Viera algumas análises que merecem atenção e atuação.
O crescimento anual das denúncias ao disque 100 (Serviço gratuito para denúncias de violações dos Direitos Humanos) de negligência em alimentação e assistência à saúde, abandono, extorsão, retenção de salário, estelionato, maus tratos, lesão corporal, cárcere privado, ameaças, chantagens, humilhações, discriminação etc., significa um avanço, mas relativo. Relativo por quê? Esta estatística responde: dos 1.831 boletins de ocorrência, em São Paulo, resultaram 886 inquéritos até novembro de 2013. Até agora nenhuma prisão!
José Eduardo Ferreira Ielo, delegado titular da 2ª Delegacia de Proteção ao Idoso, seccional Sul, São Paulo, confirma: de cada 20 queixas, apenas 4 viram inquérito e explica: ou a denúncia não se sustenta, ou não há testemunhas, ou o idoso tem medo e vergonha
E Biel Rocha, secretário nacional de promoção e defesa dos direitos humanos e presidente do Conselho Nacional do Idoso (CNI) confere: é mais cômodo fazer uma denúncia anônima e que, em geral, a testemunha não dá muita continuidade na queixa, pois, não a formaliza. Em alguns casos, a ocorrência é registrada, mas não é levada adiante.
Um sério complicador para a ativação. A lei é federal, mas depende de normas estaduais e municipais para ter efeito prático. Resultado: estágios diferente de implementação no país.
No geral, as respostas dadas por Marília Berzins, presidente do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento, as três perguntas a seguir resumem a situação.
Quais foram os principais avanços nesses 10 anos?
Há mais desafios do que comemorações. Os direitos mais reconhecidos estão na vida social, como a prioridade nas filas e meia-entrada. Outro ponto é o benefício de prestação continuada, que dá um salário mínimo às pessoas que não contribuíram com a Previdência. Cerca de 1% da população vive com esse dinheiro, mas ainda fica de fora a faixa entre 60 e 65 anos.
E quais são os maiores desafios?
O principal é a implementação de políticas públicas para atender os idosos em situação de vulnerabilidade social e suas famílias. Também não temos na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) a questão do cuidador de idosos (grifo nosso), o que é urgente. A família é sempre responsabilizada, mas a lei prevê que esse dever também é do Estado e da comunidade. No Brasil ainda se pensam os problemas como um país jovem.
Por que os idosos ainda têm dificuldades em relação aos abusos?
Isso ocorre porque, em geral, o agressor é da família. Muitas vezes, o idoso nem acha que os problemas pelos quais passa são agressões e pensa que é um peso para filhos e netos. A vítima recua para não comprometer laços de afetividade ou dependência mantidos com os parentes. A omissão do Estado também é violência, quando não atende os idosos adequadamente.”
Problema difícil que acontece também com o Estatuto da Criança e do adolescente, com a lei Maria da Penha e outras formas de proteção.
Conhecimento: a gratuidade nos transportes coletivos urbanos é direito constitucional (art.230§2). O Estatuto (Art. 39) só ampliou para “coletivos semiurbanos” e possibilitou aos municípios a extensão para uma faixa etária menor que 65 anos.
A implementação substancial virá se os sexagenários da nação, reunidos e, tomara, endossados por igrejas, grupos de terceira idade, mídia, Ongs etc., com o título de eleitor numa mão e o Estatuto na outra, adentrarem, forçando a entrada, os gabinetes dos dirigentes da nação.
É o que penso. E você?
O ar da Graça
15 de Janeiro de 2014, por João Magalhães 0
O leitor acompanhou a “volta” definitiva, sem retorno, a sua terra natal, o vilarejo de Qunu, África do Sul, de Nélson Mandela, hoje considerado, uma das maiores personalidades políticas do século vinte. O mundo, quase unânime, se curvou, reverenciando a grandeza humana do grande líder.
Como pouco se falou, passo ao leitor um esboço de uma outra grandeza, que se somou à dele, na última etapa de sua vida: sua terceira esposa, Graça Simbine Machel, 68 anos.
“Mama” Graça, como é chamada, não só em Moçambique, onde nasceu. Família pobre e numerosa. Estudou com apoio de entidades religiosas, chegando ao doutorado em Filologia da Língua Alemã pela Universidade de Lisboa. Volta, porém, a sua pátria e se incorpora na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), liderada por Samora Machel, com quem se casa. Vinda a independência, assume por 14 anos o ministério da educação de seu país, com o espantoso índice de analfabetismo de 93%!
Em 1986, Samora Machel, seu marido, morre num suspeito desastre de avião, em espaço aéreo sul-africano (atentado?) e o relacionamento com Mandela começa dez anos após, quando, indignada porque as investigações sobre o acidente estavam emperradas e suspeitando que isto se devia a defensores do apartheid, recorre a ele.
“Madiba (nome do clã a que Mandela pertenceu. Chamá-lo assim é sinal de afeto, carinho) acolheu minha revolta e assim começou tudo”. Teria sido amor à primeira vista? “Creio que estávamos, ambos, muito sozinhos naquele momento” E os dois grandes humanistas se unem: vida e atuação.
Em 2010, numa entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, acompanhando Mandela que recebia aqui o título de Doutor honoris causa conferido pela USP, falou de sua decisão de limitar seus compromissos para se dedicar mais a Madiba.
Em longa etapa de militância, o pan-africanismo foi sua causa primaz: “Depois de longas décadas lidando com a ruptura do colonialismo as nações africanas começam a definir seu destino”.
Agora é a promoção do ser humano, mormente, o mais marginalizado e desrespeitado: a mulher e a criança.
Algumas atitudes, alguns exemplos. A denúncia da violência de gênero em Darfur (região miserável e conflituosa no oeste do Sudão): estupro de mulheres e meninas. O combate a tradições culturais arraigadas, como o casamento imposto a crianças, encarado como natural. “Tira-se a menina da escola, isolam-na grávida em casa, não lhe dão serviços médicos adequados. É devastador”.
O célebre relatório Machel, quando, convocada pela ONU, nos anos 90, época de aproximadamente 30 conflitos armados, coordenou e atuou na equipe de especialistas: no espaço de uma década, 2 milhões de crianças mortas, triplicando esta cifra quanto às portadoras de sequelas. Relatório amplo e abrangente: as crianças como alvo preferencial em combates, recrutadas como soldados, aliciadas para prostituição, amputadas em minas terrestres, órfãs, sem lar nem escola.
Recentemente, em videoconferência, cobrou veementemente ao presidente de seu país (Moçambique) medidas para conter a onda de sequestros de crianças.
Seus assessores acham que agora ela voltar-se-á mais ainda à causa social. Tomara! Se não acontecer (opinião, aliás, de sua filha com Samora: Josina), seu histórico de vida já a colocou merecidamente ao lado de Mandela.
Escreve a cientista política Lourdes Sola: “Conheci Graça por intermédio de Ruth Cardoso. Eram amigas, Graça queria Ruth como irmã. Em comum tinham a capacidade de se reinventar, ao mesmo tempo em que reinventavam o papel de primeira-dama”.
Meu lamento: os meios de comunicação, em geral, abrem espaços para as companheiras dos grandes líderes quando elas pouco ou nada contribuem para atuação deles: inexpressividade, ignorância, mente curta, futilidades, manias, gastanças, faustos, “barracos”, aventuras...
Relegam ao ostracismo as grandes companheiras que não viveram à sombra deles. Pelo contrário, com luz própria iluminaram e muito. Felizmente, algo já se fez, como é o caso da imperatriz Dona Leopoldina, de Anita Garibaldi, de Olga Benário, grande companheira de Luiz Carlos Prestes.
Sarah Kubistchek, Ruth Cardoso e outras estão à espera...
É o que penso e esta foi a intenção destas linhas sobre a Graça. E você?
(Fonte: “A mulher que nem Mandela eclipsou” de Laura Greenhalgh, in OESP 15/12/13.)