Camilo de Lellis: quarto centenário da morte (III)
17 de Outubro de 2014, por João Magalhães 0
O revolucionário
O grupo primordial formado por São Camilo expande-se. O exemplo de dedicação aos doentes atrai muitos candidatos. Camilo vê, então, a possibilidade de ampliar o atendimento para outros hospitais. Para tanto, imagina criar uma Companhia [Congregação Religiosa] com um quarto voto específico, ou seja, cuidar dos enfermos em todas as circunstâncias: catástrofes, guerras, epidemias, pestes. Escolhe o nome: “Ministros dos Enfermos”(do latim minister: servente, doméstico, servo, o que serve ou ajuda).
Conjuntamente, ele batalha por seu sonho: tornar-se sacerdote. “A determinação trazia consigo dois empenhos a que podia satisfazer ao mesmo tempo, chegando ao sacerdócio o mais rápido possível. O primeiro, substancial a seu programa de apostolado de caridade, era de cuidar inseparavelmente do corpo e da alma dos doentes; o outro, de conseguir com o sacerdócio um título adequado de apresentação, uma vez que o remarcado ‘complexo de suas inferioridades’ de leigo sem cultura certamente prejudicaria o início de sua obra de religião, a congregação”, escreveu Mário Vanti M.I (S. Camillo de Lellis e i suoi Ministri degli Infermi – tradução minha).
Com ajuda dos padres jesuítas, colaboração de professores que gratuitamente lhe dão aulas particulares, o sacerdócio vem a 2 de fevereiro de 1583. A ordenação só acontece porque um admirador, Fermo Calvi, sensibilizou-se ao saber que não tinha o pecúlio, exigência obrigatória para ser padre, e deu-lhe o dinheiro.
E na formação e no treinamento do grupo que, em 8/12/1591, se transformará na “Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos”[Camilianos], que Camilo se mostra um revolucionário “na arte de cuidar dos doentes” e na formação dos cuidadores. A leitura das normas que escreveu, mais de uma centena, para a formação dos membros da Ordem, para o atendimento e cuidados do doente, para administração de hospitais, confirma, detalhadamente o que padre Augusto Mezzomo M.I escreve em “Humanização hospitalar – fundamentos antropológicos e teológico”: “Tudo o que se escreveu depois sobre o modo de assistir aos doentes e sobre como administrar um hospital, não faz nada além do que repetir suas normas. Até mesmo as relações entre médicos e pacientes, pessoal de enfermagem e pacientes, profissionais de saúde entre si e com os familiares, foram normatizados por Camilo de Lellis, quatrocentos anos atrás. Camilo tinha uma visão holística como se diz modernamente. O doente devia ser tratado como corpo, mente e alma. No que tangia a assistência religiosa, não admitia obrigar ou impor qualquer coisa, contrariando as normas vigentes na época. O doente devia ser orientado e instruído sobre os sacramentos, mas a decisão era deixada para ele. Ao entrar, o primeiro dever era a higiene do doente [para alegria dos médicos], a eventual assistência religiosa vinha em seguida, contrariamente à norma existente no tempo. O Concílio de Latrão proibia médicos e enfermeiros de atender os doentes se antes não se confessassem ou comungassem; o papa Paulo IV inclusive acrescentara a excomunhão aos não observantes desta norma!
O profeta precursor
O importante historiador francês, Jean Delumeau, escreve: “Em 1656, em Nápoles, enquanto o arcebispo se recolhia, 96 religiosos camilianos, em 100, morreram da peste; em 1743, em Messina, 19, em 25”! (“Covardes e heróis”, in “História do medo no Ocidente”).
É o heroísmo de Camilo e seus religiosos posto em prática. Quando a debandada era geral, inclusive médicos, padres, bispos e religiosos, o quarto voto de assistência aos enfermos estava presente.
Camilo antecipou todos os movimentos humanitários posteriores a sua época. Foi, portanto, um profeta precursor. Precursor, entre outros exemplos, da admirável missão de Florence Nightingale, Benfeitora da Humanidade, vocacionada, como escreveu, para cuidar dos doentes, aflitos, abandonados, moribundos, organizando e cuidando dos acometidos de cólera em Londres, 1854. E logo depois na guerra da Criméia, onde o exército inglês perde mil e quinhentos soldados vitimados por cólera. Ela própria foi vítima, felizmente não fatal, para bem da humanidade.
Precursor da humanitária obra de Henri Dunant, outro Benfeitor da Humanidade que, ao presenciar a carnificina da batalha de Solferino (24/6/1859) e mergulhar de corpo e alma no cuidado dos feridos, lidera a criação da Cruz Vermelha, cujo símbolo, aliás, é muito semelhante à Cruz de São Camilo.
Nos quase dez anos de professor na Cruz Vermelha Brasileira nunca vi qualquer menção aos camilianos da parte de Henri Dunant (Souvenir de Sofèrino). No entanto, antes de ele criar sua Cruz Vermelha, a Cruz Vermelha de São Camilo já estava lá, em Solferino, com a atuação de uma centena de religiosos, tão extraordinária que mereceu um agradecimento oficial do Imperador da Áustria, Francisco José.
Precursor dos “Médicos sem fronteiras” e outros mais.
Em sua canonização em 1746, o papa Bento XIV escreveu: ”É coisa maravilhosa, quanta utilidade tenha vindo aos homens de todos os níveis, seja para o corpo que para a alma, a partir desta nova escola de caridade. A limpeza retornou aos hospitais, foram valorizados os trabalhos dos inúteis, com grande fruto e vantagem para os povos, resplandece o espírito de eclesiástica caridade infundido por Camilo e propagado por seus seguidores”.
Em 1886, o papa Leão XIII o proclama , junto com São João de Deus, “Patronos de todos os hospitais”. Em1930, Pio XI o eleva a “Patrono dos enfermeiros e protetor do pessoal hospitalar”. Em 1974, Paulo VI o declara “Patrono da saúde militar italiana” e em 1976, o mesmo papa proclama “aquele que havia se santificado com o coração”, “Patrono dos cardiopatas e dos portadores de estimuladores cardíacos [marca-passo]”.
Camilo de Lellis: quarto centenário da morte (Parte II)
17 de Setembro de 2014, por João Magalhães 0
O reformador
Como vimos na edição anterior, com a conversão (1575), Camilo é outro homem. No Hospital São Tiago dos incuráveis de Roma, agora ele é paciente e também voluntário, cuidando dos mais graves. Depois passa a servente com módica remuneração. Daí em diante, sua disponibilidade é total: enfermeiro, “guarda-roupa” (responsável pelas coisas dos internados e do hospital) etc. “Pau pra toda obra”, como se diz.
Sua pessoa se identifica com a missão. O cuidado integral do enfermo, corpo e espírito, será a razão de sua vida. Todas suas forças, toda a liderança que tinha, toda a vertiginosa operosidade, serão canalizadas para o doente, sobretudo o incurável, o agonizante, o moribundo.
O samaritano da parábola (Lc 10,29-37) será seu modelo e seu lema “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me” (Mt 25,35-37).
Como escreve Giorgio Cosmacini, médico, biógrafo e conhecido historiador da medicina e da enfermagem (Camillo de Lellis, il Santo dei Malati) de “aprendiz hospitalar”, chega logo ao cargo de “Mestre da casa” (1579). Posto preferencialmente para um sacerdote. Para Camilo, no entanto, faz-se exceção. Como rezava o estatuto do hospital, “o mestre da casa agirá para com todos com caridade paterna, tendo olhos para tudo como bom e diligente pai de família”.
“Assumida esta incumbência, Camilo ‘começou a cuidar dos livros-mestres: o livro dos assalariados, com generalidades de cada um dos serviçais; o livro das notas, que contém em memorial as compras e vendas; o livro das despesas, com registros pontuais dos desembolsos para o pessoal e as coisas e endossar com a própria assinatura e sua autorização para escrituras, contas, deveres, compromissos... O mestre da casa, além disso, recebe dos esmoleiros o dinheiro arrecadado na coleta em favor do hospital. Os esmoleiros recebem do mestre da casa uma caixinha fechada, que é aberta por ele mesmo ao retorno deles... Além das caixinhas ambulantes, existem as fixas”. Essas informações são do padre Mário Vanti, camiliano, até agora o maior historiador de Camilo de Lellis, de sua obra e época, a meu ver.
O hospital São Tiago está em lamentável decadência. Padre Vanti continua: A “família baixa do hospital, isto é, os serviçais, [é] a mais difícil de governar... Os serviçais são mercenários insignificantes e instáveis e às vezes também velhacos”. (San Giacomo degli incurabili).
O Hospital Romano do Santo Espírito para onde Camilo se transferiu, em 1585, está na mesma situação. Bernardino Cirilo (1500-1575) que foi comendador e seu mestre geral escreve: “[entre os enfermos] um vomita, um grita, um tosse, um perde o ar, um morre, um sente dor e se lamenta. O serviço é péssimo e abominável. Os serventes são mercenários ociosos, interessados no dinheiro, não na assistência. Daqueles preguiçosos é que irá [um para] alimentar um enfermo e, se encontrar o infeliz aflito e sem vontade, prostrado e fraco, sustentado somente pelos leitos lhe dirá: ‘Bebe, engole, senão eu te estrangulo’”.
O contrapeso vem de voluntários. Assim escreve Padre Vanti: “Suprem saudavelmente [esta precariedade] pessoas espirituais, religiosas e leigas, que vêm para praticar a caridade como exercício de virtude”. Camilo, com energia, muitas vezes rigorosa e severa, vai reformando tudo. O hospital precisa ser uma casa de acolhimento, de cuidados para a cura. Quando não possível, far-se-á de tudo para minorar os sofrimentos. “Sedare dolorem, opus divinum”, amainar a dor é obra divina.
O revolucionário
Escreve padre Sanzio Cicatelli (1570-1627) que conviveu com ele, bastante tempo: “Apesar de toda a sua vigilância sobre os servidores mercenários, dava-se conta que, por não ser seu serviço motivado por autêntico amor, mas apenas por dinheiro, muitas vezes não cumpriam seu dever, com prejuízo para os doentes. Estando uma noite, no hospital, já tarde (talvez tivesse sido a uma da madrugada), preocupado com estas coisas, ocorreu-lhe o seguinte pensamento: que só seria possível sarar a este inconveniente livrando os doentes das mãos daqueles mercenários, instituindo para substitui-los uma companhia de homens piedosos e de bem, que os servissem, não por dinheiro, mas voluntariamente e por amor de Deus, com amor e carinho que as mães têm para com seus próprios filhos doentes. Também lhe ocorreu a ideia de que aqueles homens piedosos – para serem reconhecidos como tais na cidade – poderiam levar algum distintivo na roupa, uma cruz por exemplo, ou coisa parecida. Isso aconteceu com Camilo em 1583, décimo primeiro ano do pontificado de Gregório XIII, no mês de agosto, próximo à festa da Assunção de Nossa Senhora. Nesta primeira ideia – que foi como que o esboço do qual Deus suscitou a Ordem [dos Camilianos] – não pensou em outra coisa que uma companhia de leigos, formada pelos servidores mais caridosos do hospital e para o hospital São Tiago. Não pensou, então, absolutamente, em fundar uma Congregação , ou sair do hospital” (Vida do Padre Camilo de Lellis).
Um pequeno grupo (cinco leigos incluindo Camilo e um padre, capelão do hospital) começa a se reunir. A proposta é mal recebida pela direção do hospital e quando Camilo manifesta a intenção de fundar uma Religião (Congregação Religiosa) vira uma explícita hostilidade. Camilo e seu grupo primordial sofre oposição até de seu confessor e diretor espiritual, São Felipe Neri, que se recusa a ouvi-lo em confissão. “Briga de dois santos!”, diverte-se o padre Mario Vanti
A situação ficou insustentável e levará Camilo e companheiros a deixar o hospital São Tiago, como veremos na próxima edição.
Camilo de Lellis: 4º centenário de morte (Parte I)
13 de Agosto de 2014, por João Magalhães 0
Trajetória da conversão
No dia 14 de julho último, na igreja matriz de Nossa Senhora da Penha de França, em Resende Costa, foi presenciando a concorrida cerimônia religiosa, comemorativa do quarto centenário de morte de São Camilo de Lellis, com participação da Pastoral da Saúde de muitas paróquias da diocese, que senti a necessidade de apresentar ao leitor uma face pouco divulgada da pessoa do santo e, por conseguinte, sua atuação: o pioneirismo na humanização hospitalar. Como escreve o padre Augusto Mezzomo, meu coirmão de capelania hospitalar, nos anos de camiliano: “É realmente surpreendente que um homem ‘iletrado’, como se dizia, tenha conseguido fixar normas, orientações tão objetivas para a assistência aos doentes, a gestão dos hospitais e da saúde pública, que são válidas ainda hoje. As escolas de enfermagem mais modernas repetem o que ele prescreveu e viveu há quatro séculos” (Humanização hospitalar - fundamentos antropológicos e teológicos).
Camilo de Lellis é capítulo obrigatório no estudo da História da enfermagem, da medicina e da saúde pública, justiça, aliás, feita a ele por Giorgio Cosmacini, médico e professor de História da Ciência e História da Medicina na Universidade Vita-Salute San Raffaele de Milão, Itália, em seu livro Camillo de Lellis: Il Santo dei Malati, Editori Laterza, 2003,traduzido, neste ano em comemoração ao quarto centenário da morte do santo, livro cujo nome em português adotamos como título desta matéria.
Conforme seu primeiro biógrafo, o padre Sanzio Cicatelli (1570-1627) que conviveu com ele de 1589 até o falecimento, Camilo, “morreu no dia 14 de julho de 1614, às nove da noite aproximadamente, no dia de São Boaventura. Contava 64 anos, um mês e vinte dias de vida, quarenta anos após a sua conversão a Deus, 28 anos após a aprovação da Congregação por Sisto V e 23 após a constituição da Ordem [Padres Camilianos] pelo Papa Gregório XIV”. (Sanzio Cicatelli: “Vida do Pe. Camilo de Lellis” SP)
Padre Cicatelli começa seu livro relatando o nascimento do nosso santo. “Camilo de Lellis, pai e fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos nasceu na Itália, em Buquianico, lugarejo da província de Abruzzo, no Reino de Nápoles, diocese de Quieti, cujos povos guerreiros antigamente levavam o nome de sanitas. Nasceu no dia 25 de maio de 1550, ano santo e primeiro do pontificado de Júlio III, quando era soberano das duas Sicílias o Imperador Carlos V”.
Os pais, João de Lellis e Camila de Compellis tiveram dois filhos. O primeiro, José, morreu criança; Camilo nasceu bem mais tarde e foi um espanto, pois sua mãe tinha mais de 50 anos.
Aos 13 ou 14 anos, perde a mãe. Em 1558, resolve “seguir seu pai pelo mundo, em uma milícia”. Seu pai foi sempre um oficial militar (capitão), a vida toda a serviço das tropas que o convocavam. Em viagem para Veneza, onde se engajariam nas tropas que iam lutar contra os turcos, pai e filho adoecem. Já idoso (mais de 60 anos), o pai morre. Camilo sara, mas pouco depois, aparece-lhe uma ferida no pé, alastrando-se depois pela perna, que jamais se curou; melhorava, mas voltava sempre. Só largou dele com a morte.
Que doença seria? O biógrafo médico, Giorgio Cosmacini, opina, baseando-se no laudo anatomopatológico do exame feito nos ossos de suas pernas em 1966: “das duas, uma: ou uma osteomielite que de aguda se tornou crônica, ou uma úlcera vascular venosa que tornou porta de infecção e de contaminação supurativa dos ossos da região”. Esta chaga o levará ao Hospital dos Incuráveis, São Tiago, de Roma.
“Depois de uma estada de quase dez meses, inicialmente como paciente e hospitalizado, depois como convalescente e servente é ‘dispensado do hospital’, embora ainda não curado, expulso pela falta de cumprimento do regulamento hospitalar. ‘Camilo era de pouca paciência’ e ‘inclinado aos jogos de carta, a ponto de sair várias vezes do hospital para ir’ à margem do rio Tibre para jogar com os barqueiros de Ripetta”, escreve Cosmacini.
Com a orfandade total, a vida de Camilo é um descalabro. Se antes já era, como o retrata Giovanni Papini, “fantasioso, libertino, bizarro”, entrando na vida militar, pois, com a ferida temporariamente sarada foi admitido, então...
Continua Cosmacini: “Na soldadesca, a indisciplina abre caminho para a embriaguez, o jogo de azar (vício seu, até a conversão) os contatos carnais passíveis de trocas em contaminações venéreas (...). Bargellini, em sua obra Santi come uomini o descreverá ‘grande, vigoroso, violento’: é o perfil de um jovem homem que ‘brinca com a vida, para depois jogar o dinheiro nas tavernas, nas mesas de vinho ou nos acampamentos, sob os tambores revirados’”.
Durante o período da soldadesca, a chaga se agrava e o corta definitivamente da vida militar. E é neste vai e vem no hospital São Tiago, nosocômio dos incuráveis, tratando-se e ao mesmo tempo cuidando dos doentes, trabalhando na rouparia etc., mantendo contato com religiosos e padres, sobretudo os frades franciscanos, que vem a mudança radical de vida e assim se dá a conversão, em 1575.
Daí em diante a vida de Camilo se resume em batalhar, dia e noite, para o cuidado integral dos enfermos. Há que se melhorar, há que se reformar, há que se inovar tudo em prol da vida do doente, como veremos na segunda parte deste artigo. Nisso é um profeta que antecede aos tempos. Um precursor. Pertence ao quadro dos grandes benfeitores da humanidade.
Dom Paulo Evaristo Arns: meu testemunho (II parte)
16 de Julho de 2014, por João Magalhães 0
Estas linhas não visam a escrever sobre dom Paulo Evaristo Arns; são, sim, um breve testemunho do que ele significou para mim, no exercício pastoral, como pároco na Paróquia de São Benedito, Vila Sônia, São Paulo, capital. Não exerci um trabalho direto com ele, pois, na época, a Arquidiocese de São Paulo era dividida em regiões episcopais. No começo, meu vigário episcopal era um padre; mais tarde, um bispo auxiliar. O trabalho mais de perto era com o vigário episcopal. No meu caso, região sul, inicialmente com Monsenhor Ângelo Gianola do PIME (Pontifício Instituto para as Missões no Exterior); depois com Dom Mauro Morelli, atualmente bispo emérito de Duque de Caxias, RJ.
A presença de Dom Paulo nasce em mim, com grande admiração, em 1966, quando começo a acompanhar sua inovadora e incansável atuação, como bispo auxiliar, na zona norte da Capital Paulista. Eu era camiliano, portanto, até então, meu ministério era com os doentes num grande hospital. De vez em quando ia ao Seminário Maior, onde me formara, que ficava na zona norte (Jaçanã).
Em 1969, incardinei-me na arquidiocese e ficou sob minha responsabilidade uma paróquia. Foi aí que engajei-me na Pastoral Geral do Arcebispado
Estive pessoalmente com Dom Paulo só uma vez, quando ele resolveu fazer-me uma visita inesperada, por volta das nove da manhã. Franciscanamente, quis ir para a minha modestíssima cozinha. Conversamos por um bom tempo e tomamos um café de garrafa térmica com umas bolachinhas salgadas, aliás, única coisa que tinha, naquele momento! Claro, em reuniões grupais ou gerais, estive algumas vezes com ele.
Tempos difíceis. “O sol da liberdade em raios fúlgidos”, apagado por nuvens carregadas nos céus do Brasil, anos seguidos. Anos de medo, sobretudo durante a terceira presidência da ditadura (30/10/1969 a 15/3/1974). “Sem nenhum exagero, é possível afirmar que no governo Médici, fazer oposição era correr sério risco de vida” (Luiz Koshiba e Denise Pereira: “História do Brasil” Atual Editora). E trabalhar pelo povo, pela promoção da pessoa, pelos direitos humanos, pela liberdade de expressão, pelo direito de agremiação, enfim, pelo humanismo, era fazer oposição. Quem viveu esses tempos, confirma.
A Igreja Católica no Brasil, não em sua totalidade, tem-se que dizer, assumiu para valer as renovadoras diretrizes do Concílio Vaticano II (1962-1965). É desta época a “Teologia da Libertação”, tão fundamental, quanto mal compreendida, até hoje, que põe como fulcro os carentes de moradia, escola, trabalho digno, profissão, atendimento médico, assistência jurídica, enfim, os desvalidos de tudo, ou quase tudo.
Sobretudo na periferia, nosso trabalho prioritário era a criação e assistência de comunidades de base, bem definidas por Dom Paulo como “um grupo de pessoas que se reúnem para cuidar do bem-estar do povo – saúde, educação, transporte, moradia – com motivação religiosa. As comunidades eclesiais de base se baseiam na leitura regular da Bíblia, das condições de vida de todos à luz dos textos bíblicos e da celebração dessa vida, geralmente aos domingos” (“Da Esperança à Utopia – Testemunho de uma Vida” Ed. Sextante, 2001,2ª ed. P.116).
Tenho em minhas mãos até hoje os cadernos de Círculos Bíblicos, publicados pela Editora Vozes, escritos pelo carmelita frei Carlos Mesters, renomado exegeta, mas com invejável capacidade de transferir para uma linguagem popular os conceitos bíblicos. Frei Carlos Mester é coirmão, aliás, de outro ícone da Igreja, o também carmelita Frei Claudio Van Balen. Ambos de Belo Horizonte.
Dom Paulo fica em mim como um líder intuitivo que arrasta as pessoas à participação, ao engajamento, descobrindo o valor de cada um. Um excelente formador de equipes. Exemplos são as comissões que criou, como “A justiça e Paz” com pessoas, hoje, firmadas no cenário nacional. Exemplifico também com a escolha de seus assessores, entre muitos, com o dominicano frei Gorgulho e vários de seus bispos auxiliares, como Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Angélico e Dom Mauro Morelli.
Dom Paulo é um bispo de grande coragem. Convicto da causa, dificilmente recua, daí o recurso a ele nos momentos mais difíceis, não só dos católicos, mas de todos em geral. Ele nunca abandonou o leme; só delegava funções quando a intervenção não era necessária, ou estava realmente impossibilitado.
Sinto até hoje a segurança que nos deu em momentos de muito medo. Em tempos de ditadura, não adianta negar, o medo está presente em todos. Cito, como exemplo, a movimentação que fizemos para libertação do Padre Giulio Vicini e da assistente social Yara Spadini, que faziam um corajoso trabalho de promoção humana em nossa região, presos e barbaramente torturados.
Dom Paulo pôs em ação todos os recursos de que dispunha: amizade com grandes repórteres, manifesto na primeira página de O São Paulo (jornal da arquidiocese), distribuído com rapidez em quase todas as igrejas, leitura nos púlpitos e uso do status de cardeal, que segundo ele era importante para estas ocasiões, pois, “o fato de ser cardeal dá um status e um poder político especial, tanto em Roma quanto no próprio país” (Op.cit. p175). Hábil negociador, suaviter in forma, fortiter in re – muito suave no modo, na forma, na maneira, mas muito firme na matéria, no assunto, no objetivo, na realidade. Uma pessoa de estrutura essencialmente aberta a propostas renovadoras, quer teológicas, quer pastorais, sempre ancoradas, porém, na grande cultura humanística e teológica, adquiridas nos longos anos de estudo.
O convite de Paulo VI (Bogotá,1968) aos bispos “a concentrarem os maiores esforços em assistir, escutar, guiar, instruir, admoestar e confortar os padres” (Op.cit.p110), não precisava para Dom Paulo, pois ele sempre foi assim. É o meu testemunho
Dom Paulo Evaristo Arns: meu testemunho (I)
13 de Junho de 2014, por João Magalhães 0
Em abril deste ano, fez aniversário o golpe que possibilitou o exército brasileiro se apossar da nação por 20 anos (1964-1985): 50 anos! Em vez de ouro, bodas de chumbo! À minha pesagem, nada a comemorar. Vale, apenas, porque motiva a exumação histórica. Aos poucos, os testemunhos, as pesquisas, os historiadores, como exemplo a atual “Comissão da Verdade”, vão descosturando máscaras e farsas, expondo as mentiras das “verdades” alardeadas, abrindo porões, escavando valas funéreas.
Acho de grande importância os testemunhos, por menor que sejam, desde que verdadeiros. Eles não substituem os fatos e provas objetivas, mas confirmam, corroboram, detalham, ampliam, podem oferecer visões diferentes ou até enfraquecer e negar.
É nessa perspectiva que apresento meu testemunho sobre Dom Paulo Evaristo Arns – há 93 anos entre nós. Os anos de convivência, sob sua orientação e visão de Igreja, breves por calendário (1970 a 1977), mas longos devido à época, desenharam em mim, no âmbito humano/religioso, o vulto de maior envergadura no episcopado brasileiro com quem convivi, junto com Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde) este, no laicato católico.
Nessas duas admirações, quase um culto em meu caso, não estou sozinho. Escreve Tristão de Athayde: “Se quisermos resumir a história da Igreja no Brasil, ou antes, a de suas instituições e convicções religiosas, em uma pequena série de personalidades carismáticas da Igreja Católica, poderíamos destacar, creio eu, as seguintes personalidades: Período colonial: Anchieta e Antônio Vieira; período imperial: Frei Caneca, Dom Vital, Dom Romualdo de Seixas eperíodo republicano: padre Júlio Maria, Dom Sebastião Leme, Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns” (Um herói carismático, in Leia Livros, julho 1980).
Escreve Dom Paulo em sua autobiografia e memórias: “Franco Montoro foi discípulo fiel de Tristão de Athayde, o maior pensador brasileiro do nosso século” (in Da Esperança à Utopia – testemunho de uma vida, p.397, Ed. Sextante, 2001, RJ, 3ª ed.).
Dom Paulo nasceu em Forquilhinha, Santa Catarina, em 14/9/1921. Ingressou na Ordem dos Frades Menores (OFM), franciscanos e a ordenação sacerdotal veio em 30/9/1945. Em 1947 foi para Paris estudar na Sorbonne, onde, em 1952, doutorou-se com a tese “A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo” (La Technique du livre d’après Saint Jérôme), hoje bibliografia necessária para qualquer estudo da história do livro.
Em 1966, vem o convite para ser bispo auxiliar da arquidiocese de São Paulo. Ele mesmo conta: “Na terceira chamada, e depois de duas renúncias consecutivas, ele me disse (o cardeal prefeito da Congregação dos Bispos) com a firmeza de quem está habituado a enfrentar as negativas de candidatos: “O senhor jamais poderá dizer não ao Papa”. Perguntei: O Papa manifestou pessoalmente seu desejo e sua vontade? O Cardeal não titubeou, retorquindo de imediato: É desejo explícito e expresso do Santo Padre, o Papa Paulo VI!”.
Conta, em seguida, que foi rezar frente ao túmulo de São Pedro e chorava tanto frente a grande responsabilidade, que uma pessoa desconhecida se aproximou, perguntando: “O Senhor padre está se sentindo mal?” Respondi: “Sim, mas só Deus pode curar esta fraqueza que no momento me invade o corpo e alma. Estávamos no dia 2 de maio de 1966”.
E continua: “No dia 6 fui chamado pelo ministro-geral da Ordem dos Franciscanos que me entregou o documento da nomeação para bispo de São Paulo e me consolou: “Bispo auxiliar não permanece muito tempo na mesma posição. Costuma ser transferido quando há maior necessidade em outro lugar. Anime-se, pois nós somos da Ordem Franciscana para servir à Igreja exatamente onde ela mais precisa”.
Para satisfação nossa e de São Paulo, a profecia não se efetivou. Pelo contrário, como a atuação de Frei Evaristo Paulo Arns (este foi seu nome religioso/franciscano) nos morros de Petrópolis o puxou para o episcopado, sua atuação na zona norte paulistana o encaminhará em 1970 para o arcebispado, sucedendo ao cardeal Dom Agnelo Rossi.
Dom Agnelo: “Fui convidado pelo Papa Paulo VI a assumir a Congregação das Missões e viajar com ele, nas próximas semanas, até o Oriente”. Formulei meus votos e transmiti meus parabéns... Ele agradeceu e me instruiu: “Vá ao telefone, por favor.”...
“Do outro lado da linha se encontrava o núncio apostólico, Dom Humberto Mozzoni, dizendo que estava em Roma e me perguntando, em nome da Sua Santidade o Papa Paulo VI, se eu aceitava ser arcebispo de São Paulo, já que o cardeal Rossi fora transferido para Roma. Perguntei: É consulta ou é ordem? Se for consulta, queira responder ao Santo Padre, com todo respeito, que não posso aceitar, por muitos motivos... A resposta, naturalmente, demorou um pouco, pois o núncio voltou à presença do Papa e após alguns minutos, me transmitiu a confiante, mas terrível sentença: É ordem de Sua Santidade”.
“Minha reação imediata foi: Queira transmitir ao bondoso Papa Paulo VI que aceito todas as suas ordens e darei meu sangue para cumprir essa missão tão espinhosa. Que me dê a bênção para tão grande missão, em tempos perturbados do Brasil” .
Em 1973, recebe o chapéu cardinalício das mãos do Papa Paulo VI, em Roma.
(Continua na próxima edição)