Resende Costa centenária: versos de homenagem
13 de Junho de 2012, por João Magalhães 0
Numa pesquisa no maravilhoso Livro do Tombo da paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, escrito pelo Padre Nelson, casualmente, chamou-me a atenção um título: “Saudação a Resende Costa”. É a poesia que transcrevo para nossos leitores.
Mira esta cidade serrana assentada sobre uma laje.
Uma “urbe” construída num monte, não ficará escondida.
Como Jerusalém e Diamantina sempre uma imagem
Dum farol, como arco de paz constante acendida.
*
Palco ilustre de preclaros inconfidentes mineiros,
Não de um, mas de dois, pai e filho juntamente,
Hás de falar por todos os séculos dos pioneiros
Da liberdade tardia, que jamais esmaece justamente.
*
Antes de ambos partirem para o longínquo degredo,
Ouro debaixo dos botões a esposa lhes costurava.
Deste modo fidelidade e coragem singular inspirava.
*
Resende Costa, aprumada para o alto te elevas!
Teu povo, joelhos na laje, mãos para o céu sustenta.
Como Moisés na batalha, a vitória no peito acalenta”.
Até agora não conseguimos notícias do autor: Frei Gotardo Boom, OFM. Portanto, padre franciscano. Escreveu o soneto em Ritápolis, no dia 26 de outubro de 1968. O frei merece elogio. Dentro da forma difícil, pois, curta, fixa e travada do soneto clássico, transmitiu aspectos bem significativos de nossa cidade, com chave de ouro e tudo!
Benzedores e curandeiros em Resende Costa: Morethson
14 de Maio de 2012, por João Magalhães 0

Morethson e suas filhas Lia e Dulce
Integrou uma tropa de combate de uma revolução, provavelmente a revolta tenentista de 1924, pois era solteiro e se casou por volta de 1926 com Otávia Resende (nascida em 14 de fevereiro de 1905 e falecida em 15 de abril de 1991), natural de Oliveira. Seus sogros: Antônio Pinto de Resende e Flausina Gabriela de Resende. Do seu matrimônio, nasceram quatro filhos: Dalva, Ivan, Maria Aparecida (Lia) e Dulce.
Por negócios feitos, seu sogro recebeu do Coronel Mendes, como pagamento, um pedaço de terra da fazenda da Floresta. Deu essa gleba para sua filha e genro. Morethson vem, então, para Resende Costa, em 1º de setembro de 1939. Desenvolveu e ampliou a propriedade, construindo a fazenda São Geraldo.
Dotado de uma personalidade empreendedora e de ideias comerciais e culturais avançadas para a época, aos poucos, reserva um lugar na elite influente de nosso município.
Dulce, sua filha, de quem procede a maior parte das informações, conta que ele gostava muito de escrever cartas. E é nessas correspondências que se clareia o retrato de um homem participativo, em nenhum momento alienado de nada. Peneirando os aspectos práticos, utilitários, administrativos etc., sobram na maioria das cartas a que se teve acesso, um pensamento, uma opinião, um comentário, um gesto de carinho, uma preocupação amorosa com os filhos, com a paz familiar. O apego à família salta aos olhos. Mostra também seu caráter alegre, divertido e divertidor
Surge na tela um homem praticamente autodidata, pois, só estudou até o “segundo ano de grupo”. Sua escrita, no entanto, flui em frases concatenadas, numa bonita letra, sempre a serviço de pensamentos, de desabafos e muito dos acontecimentos de Resende Costa. Óbvio que não se pode esperar a ortografia, nem a pontuação de um letrado.
Como ilustração, eis alguns fragmentos citados, ipsis litteris. Acrescentou-se apenas alguma pontuação para facilitar.
“A Semana Santa em Resende Costa esteve boa, somente o povo ficou um pouco agastado com o padre que veio de fora, instruído pelo vigário da paróquia. Padre Nelson disse que os católicos que vão a igreja somente quando há enterros e [é] considerados urubús comedor de carnissa. Ninguém gosto [gostou] do apelido, eu não fui nenhum dia. Otávia foi Sesta feira. As donas mais chegada a igreja ficarão sentidas dizendo: nós além de morar sobre pedras e ainda somos urubús. O resultado e [é] que a Igreja Pentecostal que compro [comprou] a casa do Zé Padeiro na esquina onde tinha a venda está cheia de fiéis agora crente. nesta igreja distribui leite para às crianças, vestuários etc e é isso que o pobre quer” (carta de seis de abril de 1978).
“hoje ouvi no adro (?) que o prefeito de S. João Sr Otavio Neves está fazendo uma torre de TV. que cata ondas a 100k com nitidez ... o nosso prefeito de R Costa não está interessado neste assunto, creio que falta-lhe visão para por [pôr] televisão para todos”. (idem)
“Eu e Ivan estivemos fazendo um curso prático de Difusão universitária na faculdade D. Bosco em S João. íamos todos os dias. o assunto foi Parapsicologia pratica gostamos muito e aproveitamos bastante. no último dia sua mãe foi também” (carta de oito de maio de 1976).
“No domingo passado o Walter me trouxe modo [amostras grátis de remédios] de satisfazer os pobres que sofre e como é bom aliviar os sofrimentos alheios” (carta de 20 de novembro de 1972).
“Estou de calça e camisa de Per Boy [play boy?] correntinha no pescoço aparecendo. Graças a Deus como é bom viver feliz” (idem).
Morethson era muito religioso. Respeitava e valorizava a fé e práticas católicas de sua esposa e filhas, professando, no entanto, o credo da Igreja Batista. Achava no salmo 121 a sua constante oração.
Esta qualificação de pessoa, sozinha, não explica a grande popularidade que granjeia em toda a região. Emanava dele “uma força esquisita”, na expressão de sua filha Dulce. Esse fluxo energético, espécie de onda psíquica, saída do âmago do seu inconsciente, tonificava os remédios que receitava.
A primeira manifestação deste fenômeno dá-se quando sua mulher Otávia queixa-se de intensa dor de dente. Ele dá-lhe a beber um copo d´água e a dor passa. Outra vez, sente que havia uma cobra, oculta sob um monte de palhas de feijão. E havia.
Tem consciência disso e procura explicações, fazendo até um curso de parapsicologia, como noticiado na carta acima.
Começou a tratar dos camaradas da fazenda e do pessoal dos arredores com amostras grátis de remédios que conseguia. Só receitava remédios do comércio farmacêutico, mas envoltos pelo “dom da cura”, na fala popular. Mas o efeito deles, como um vento, espalha sua fama por todos os rincões. “Vinha gente de todo lugar. O pátio da fazenda ficava lotado de carros e cavalos arreados”, relata sua filha Dulce. A busca frequente para orientação, aconselhamento e ajuda na resolução de problemas psicossociais o põe, também, no quadro dos terapeutas naturais, tão importantes para a sociedade. Quando era o caso, sossegava os consulentes que se sentiam vítimas de mau olhado, despachos, feitiços, invejas, convencendo-os de que a defesa era não acreditar nisso. E aconselhava-os a ler alguma coisa da Bíblia.
Não se sabe se Morethson praticasse algum ritual visível de atendimento, como muitos curadores praticam: bênçãos, gestos simbólicos, orações sussurradas, imposição de mãos etc. Sabe-se, apenas, que se concentrava profundamente ao escrever suas prescrições. Há testemunho, porém, de um consulente que o viu, totalmente absorto, roçar, devagar e suavemente, o braço da pessoa.
Nota:Leitores desta série que têm conhecimento ou alguma experiência com nossos benzedores e curadores do passado, colaborem com a história de nossa cidade. Comuniquem-se conosco: [email protected], ou pelo e-mail do JL, [email protected].
Benzedores e curandeiros em Resende Costa: Antônio Purcino
09 de Abril de 2012, por João Magalhães 0

Antonio Purcino
Seu verdadeiro nome é Antônio Inácio de Resende. Como sua mãe chamava-se Purcina, houve evolução de Antônio da Purcina para Antônio Purcino. Benzedor e curandeiro de renome aqui em nosso município, nasceu, porém, em Desterro de Entre Rios, em 11 de fevereiro de 1901, vindo a falecer em 1979, aqui na cidade, de enfisema pulmonar, devido a tantos anos de fumo. Seu sepultamento parou a cidade, tal sua popularidade. De seu casamento com Maria José de Andrade, nasceram quatro filhas, entre elas, Ninett Inácia de Resende, a Ju, a quem devemos a maior parte destas informações.
Viveu no sítio Grota da Mandioca, perto da Lavra, comprado do ex-prefeito Antônio Honório. Homem de hábitos modestos, desapegado das coisas materiais, contentava-se com a produção de subsistência que cultivava. A maior parte do tempo era dedicada às práticas de benemerência, ou de caridade, como diz a Ju, tratando dos dentes das pessoas, preparando os remédios que distribuía gratuitamente, atendendo às numerosas consultas, jamais cobradas.
Como dentista prático, montou um gabinete dentário, bem equipado para a época (chegou a participar de uma exposição), onde, inclusive, confeccionava e colocava as dentaduras. Por esses trabalhos odontológicos, que implicava, às vezes, hospedagem em sua casa, pagava-se, modicamente, apenas as dentaduras.
O benzedor e curandeiro
Os depoimentos mostram um Antônio Purcino com uma capacidade grande de intuir, ou seja, de “ler” por dentro as dificuldades da pessoa que o procurava. Não só as físicas (doenças), as emocionais também. Esse dom é nutrido por uma curiosidade científica que o inclina para o estudo dos fitoterápicos, da homeopatia, do esoterismo, da astrologia. Ju lembra-se de acompanhá-lo pelo campo à cata das raízes e ervas e vê-lo estudando e consultando um alentado livro de homeopatia. Até hoje está em sua memória, o cipó-prata, o marmelinho, a carobinha do campo, a espinheira santa, o cipó-azougue, a pomada bela dona (para mãos, ou rosto inchado), o sana-calos (“igualzinho a um doce de marmelada!”).
A frequência era grande. De manhã, ao abrir a janela, via os cavaleiros no curral, à espera do atendimento. “O povo tinha muita fé com ele”. Quando eram muitos, ela ajudava na triagem, selecionando e agrupando os “clientes” pelos sintomas apresentados e organizava a fila para benzer, pegar água benta, pegar remédio etc.
Benzia com Santo Antônio (a imagem está com a Ju até hoje). Distribuía, também, uns patuazinhos que continham uma oração: “A oração da defesa própria”, confeccionados, na época, pela empregada Maria.
Além dos remédios de receita caseira, tratava também com remédios homeopáticos. Vinham pelo Correio, em frascos, da“Homeopatia Cardoso” (Rio de Janeiro). “Pingavam-se 40 gotas em 20 colheres de água”. Acontecia, alguma vez, de praticar algum exorcismo “tirando o espírito”; usava igualmente de sua grande capacidade de sugestão para “tirar da pinga”, alertando, no momento da benção, para o perigo que o viciado corria se não largasse de beber.
A consulta era à semelhança de um médico. Após a anamnese, punha o paciente “numa mesinha de deitar” e apalpava para localizar os males.
O cartomante também aflorava; há relato de conselhos ou alertas quanto ao futuro, sobretudo de casamentos. E o astrólogo, igualmente, exemplificado pelo seguinte pedido feito.
A sorte revelada pelo horóscopo astro kabalístico para uma adolescente, cujo nome omitimos. (Mexemos um pouco somente na pontuação e ortografia).
O sol em pisces
Os que nasceram sob este signo são mansos, afáveis, idealistas, pacientes, inofensivos, ingênuos, inclinados a emoções, receptivos, mediúnicos, impressionáveis. Não são determinados, porém metódicos, industriosos, persistentes e persuasivos, amantes da ordem e da perfeição, confiantes, simpáticos. Quando a coragem os abandona se tornam inquietos e tristes.
Quando, porém, desaparece o pesar, são amáveis e agradáveis. Distinguem-se pela sua hospitalidade e benevolência, que se estendem até aos animais. A sua constituição em geral não é muito forte; têm predisposição para moléstias do peito, dos rins, nervosismo e doenças devidas a vício de sangue. Para conservar a saúde devem evitar as horas difíceis em que perdem a coragem, deixando-se dominar pelo nervosismo. A fortuna não lhes sorri; podem, entretanto, vencer as dificuldades se não sucumbirem sob o peso da timidez e da falta de energia. Adquirem bens por seus próprios esforços. As profissões mais convenientes são: comerciante, escritor, artista, médico, advogado etc. Todos os 12 anos de sua vida marcam uma mudança de fortuna, sendo a época mais crítica entre os 48 e 70 anos. Muitas viagens. Às vezes, viuvez ou dois casamentos. As mulheres deste signo são hospitaleiras, bondosas e amigas das modas. Para laço matrimonial é preferível aos piscianos escolheram pessoas nascidas de 23 de outubro a 32 de novembro.
Influências da lua
A lua neste signo produz uma natureza sonhadora, apaixonada, intuitiva, amante do luxo e do conforto, das mudanças, da beleza e harmonia, porém, inconstante. Derrota obstáculos. Gostos românticos, grande imaginação.
Influência do nome de batismo
(Nome omitido): significa doce, doçura na alma, espírito elevado. Se sabes querer o que é verdadeiro, se queres só o que justo, se ousas obter o que é possível, acharás um dia a chave do poder.
Influência do decanato
Indica inteligência e simpatia, porém, inconstante. Dá tendências pelas ciências. Bons e úteis amigos.
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Benzedores e curandeiros em Resende costa: Emygdio do Bengo (Sô Emygdio) III
13 de Fevereiro de 2012, por João Magalhães 0

Capela de Santo Antônio erguido por iniciativa do sr. Emygdio
Os testemunhos são muitos. Só o caderno comemorativo do centenário da capela do Bengo apresenta 44 depoimentos. Alguns até com reconhecimento de firma em cartório, como o fizeram os resende-costenses Francisco de Mello Sobrinho, Gervásio Pereira de Resende e Lauro Augusto de Resende, em 1926. Outros, com riqueza de detalhes, como o fizeram as também resende-costenses Maria Lúcia Hannas e Terezinha Hannas Guimarães.
Antes de apresentar uma abreviada seleção de males e as respectivas receitas, extraída de mais de 50 depoimentos, convém repetir o que escrevemos no artigo introdutório: nosso objetivo é histórico. Análise, valoração e julgamento ficam a critério do leitor. É de justiça, também, transcrever a introdução que o caderno supracitado redigiu ao apresentar as narrativas: “esses depoimentos não devem ser imitados, sem alguma orientação. A medicina progrediu, a ciência avançou, a racionalidade explica tudo e há especializações várias. Embora haja, também, vários tratamentos alternativos, que não deixam de ser razoáveis”.
A exemplificação, a seguir, dá uma ideia ligeira do ritual de seus atendimentos, das receitas prescritas e da personificação das consultas, ou seja, a interação do seu psiquismo com o estado presente do paciente, pois, frequentemente, para males semelhantes, os “remédios” são bastante diferentes.
problemas de estômago e fígado: descasque uma laranja umbiguda, retire a pele branca e faça chá com elas;
úlcera de estômago:pele torrada passada na cinza;
problemas de intestino:uma xícara de coalhada após as refeições;
cólicas e vômitos: pegar três palhas do colchão, amarrar, juntar com congonha amargosa, escaldar e beber;
apendicite: arrancar vassoura de rabo de burro, cortar a raiz, ferver e tomar o chá;
ferida na perna:cozinhar toucinho no feijão, sem sal, espremer num véu e colocar;
reumatismo: chapéu de couro;
tosse:xarope de “banana São Tomé” feito em casa;
tosse:meia hora antes do almoço, vinho, com folha de figo, água, açúcar e bolacha;
acesso (desmaio):nevroston;
evitou-se uma cirurgia:fatias de ananás, ao sereno da noite, com chá de gravatá;
abcesso de dente: banhar com folha de cidra;
dor de dente: cortar em cruz o limão, ferver e tomar. Outra:banhar com folhas de embaúba;
caroço no pescoço: passar saliva, fazendo o sinal da cruz três vezes;
barriga muito inchada após o parto: pegar uma espiga de milho, tirar a palha, escaldar e dar a beber;
dor nas juntas dos pés: pegar meio litro de leite de uma vaca preta, sem mancha, ferver, embeber um pano, amarrar no pé, durante três dias;
envenenamento por arsênico colocado numa broa, por engano:cozinhar palha de colchão e beber o chá;
manchas no corpo: além de nevroston, ferver leite com cebola e hortelã e tomar;
visões (alucinações?) e problemas mentais: além de nevroston, arrancar uma moita de sapé, fazer chá com a raiz e tomar todo dia;
tratamento curioso de um eczema:“na frente da casa dele tinha um campo e um grande formigueiro. Ele pediu a vovó que pusesse o pé no formigueiro. Sua perna escureceu de formiga. Daí mandou a vovó tirar a perna e sacudir. Fomos embora. Na manhã seguinte não tina mais nada”;
erisipela:em jejum, aplicar casca de alho, molhada com saliva;
o próprio Emygdio, sofrendo de um erisipela, curou-se ofertando as muletas a Santo Antônio, deixando-as sob o altar. Depois saiu cambaleando e voltou a pé para casa;
tratamentos para picadas de cobra: orações e cura à distância. Outros tratamentos:“A perna já estava escurecendo. Fez algumas orações em cima de um barril de fubá, benzeu a água, fez todos os que estavam lá beberem no mesmo copo. Falou para meu pai passar um fio de linha onde a cobra picou, pra ver se o dente ficou lá (cascavel)”.“Benzeu a água, mandou tomar e jogar a cobra no córrego do Bengo (urutu)”.
Ritual
Muitos testemunhos descrevem seu ritual: Concentrava-se, braços abertos, levantava os olhos para o alto, como se estivesse rezando ou meditando. Às vezes dava uma baforada no seu costumeiro cachimbo e ficava contemplando a nuvem de fumaça que ascendia... depois, receitava.
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Benzedores e curandeiros em Resende Costa: Emygdio do Bengo (Sô Emygdio) – II
10 de Janeiro de 2012, por João Magalhães 0

Emydio - Foto defronte à sua residência, no Bengo
O sucesso de Emygdio dificilmente se explica só pela fé intensa que o povo tinha nele. Soma-se a essa fé, o dom de suas percepções extrassensoriais; ou seja, como diz a parapsicologia, era um sensitivo de grau elevado. Frequentemente “lia” a realidade do consulente, mesmo quando distante. Esse dom expressava-se numa linguagem religiosa, com fórmulas oracionais balbuciadas e inaudíveis, bênçãos e ritos de significância simbólica e sugestiva. Há ritos muito semelhantes aos que os evangelhos relatam de Jesus, como impor as mãos, tocar nos olhos (Mt 9,29; 20,34), por o dedo nos ouvidos e até passar saliva na língua do doente (Mc 7,33).
Essas práticas, conectadas com medicações, na maioria das vezes, de teor fitoterápico, costumam produzir efeito, máxime em doenças de fundo psicossomático ou oriundas de queda de resistência imunológica por problemas emocionais etc.
Com este dom intuitivo, combinado ou decorrente de sua estrutura pessoal de teor místico e aliado a um progressivo conhecimento de plantas medicinais e de homeopatia, Emygdio torna-se um curador de muitos sucessos e obviamente sua popularidade espalha-se para todos os rincões da região.
Seu amigo, padre Gustavo Coelho (depois monsenhor) tem mérito também, pois, transmitiu-lhe muitos de seus conhecimentos de botânica e de ervas medicinais e homeopatia, além de vários livros sobre o assunto.
Emygdio “possuía um laboratório à rua Paulo Freitas, onde manipulava os remédios. Dentre eles, os mais conhecidos e receitados, conforme as necessidades do momento, eram “parietareno”, “nevroston” e “linimento de Moraes” (manipulado como “Bálsamo de Santo Antônio”) O Sr. Cândido Dutra, farmacêutico formado, era o responsável pela manipulação dos medicamentos indicados. Emygdio era duramente criticado e combatido pela medicina alopata e pela imprensa existente, naquela época”.
Para curiosidade do leitor, eis a bula de um remédio, retirada da publicação “Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo” (edição particular dos familiares, 2005):
“Relatório sobre o produto farmacêutico denominado “podophylleno”. Propriedade de Emygdio de Moraes. Lugar de fabrico: S. João d’El Rey. Estado de Minas Gerais. Pharmaceutico: Aurora de Souza. Fórmula: jurubeba: 200g; capeba (ou periparoba): 200g; gervão: 200g; fedegoso: 200g; vellame do matto: 100g; podophyllo: 100g; alcool a 30 graus: 100g. Modo operatório: pezam-se as plantas e põe-se a macerar no álcool por 10 dias. Coa-se, decanta-se e filtra-se. Indicações therapeuticas: indicado nas hepatites chronicas, splenites, ectericias, engurgitamentos do fígado e do baço, como desobstruente, diurético e estomacal, nas febres palustres e intermitentes; nas hydropsias e palpitações desordenadas do coração. Dosagem: adultos – uma colherinha em água fria, às refeições. Crianças – meia colherinha (sic)”
É interessante, também, observar como Emygdio especifica minuciosamente as propriedades terapêuticas de cada componente da fórmula, acompanhado do nome científico:
“jurubeba - solanum peniculatum: desobstruente do fígado. Empregado nas febres intermitentes, hepatites chronicas, splenites, icterícia, etc.
capeba ou periparoba - peper umbellatum: propriedades therapeuticas estimulantes, estomachicas, anti-syphiliticas, desobstruentes e sudorificas. Emprega-se nas obstruções do fígado e do baço e na... (ilegível).
gervão - verbena jamaicensis: desobstruente, estimulante, tonico, febrifugo e sudorifico. Empregado nas hepatites chronicas.
fedegoso - cassia medica: Propriedades therapeuticas tonicas, febrífugas e diuréticas; empregado nas moléstias do fígado, hydropesias.
podophyllo - pophyllium peredatum: empregado como purgativo nos engurgitamentos do fígado e icterícia.
vellame do matto - Solanum paleatum: diuretico, desobstruente e hemostático. Empregado nas moléstias do fígado e nas palpitações desordenadas do coração”.
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• Agradecemos às senhoras Adolfina Calsavara Lima, 74 e Matilde Moraes Misson, 85 (neta do Emygdio) pelas informações referentes à bula de remédio e às especificações dos componentes de sua fórmula.
• Leitores que têm conhecimento ou alguma experiência com nossos benzedores e curadores do passado colaborem com a História de nossa cidade, comuniquem-se conosco pelo e-mail [email protected] ou pelo e-mail do JL.
• Acréscimo e correção referentes ao texto publicado na edição anterior: Maria Luiza Calsavara nasceu em 1884 na região de Treviso, na Itália, não na região de Trento, como escrevemos).