"Que se retirem"! Quem? Os incomodados, ou os incomodantes?
07 de Fevereiro de 2009, por João Magalhães 4
Uma das fontes de azedume social e comumente de violência é a invasão do espaço privado. Alguns acontecimentos, todos reais. Sem detalhes de tempo, local, pessoas, circunstâncias. Não precisa. Você, com certeza, como eu, já passou, ou passa, por eles e talvez por muitos mais.
Assisti a um programa sobre condomínios (rede Globo) e conferiu-se que uma das maiores causas de briga entre os condôminos são os cachorros! De repente, num lote ao lado de seu lar, ergue-se uma casa e seus moradores trazem três cães que latem irritantemente a qualquer hora do dia e da noite. Você chega numa lanchonete para tomar um ‘refri’ ou uma ‘gelada’. Pouco depois estaciona um ‘ultradecibélico’, daqueles que transformam o porta-malas do carro em palco de show, e massacra seus ouvidos com seus sons preferidos (dele), sem lhe consultar. Estou num rodízio de pizza, sozinho (Resende Costa). Nem um terço das mesas está ocupado; pois um bando de aborrecentes ocupa justamente a mesa atrás de mim, ligam seus celulares para tocar suas músicas... que os emocionam tanto!...Pobre de mim!É grande o número de pessoas que obrigam você a assistir a seus shows!
Ao lado de sua casa, o vizinho muda-se para outra rua e transforma sua moradia antiga num ‘bifê’(!) de festa dançante, com direito a gritarias, discussões, latinhas e copos plásticos rolando pela calçada e a música animando o bairro, altas horas da madrugada. O pastor exorciza a berros apopléticos os ‘demos’, com os obsessivos ‘aleluia, irmãos’ vibrando intensamente a atmosfera. O padre, ou sacristão com permissão dele, solta pela torre da igreja, suas músicas de afervoramento religioso, numa altura de doer os tímpanos.
Cada vez mais se invade o espaço público visando a interesses particulares e egoístas. As ruas ficam um inferno com os sons à porta das lojas, os sons motorizados, girando automaticamente os anúncios de ‘pamonha! Pamonha!, ‘leve cinco por um real’! O cara arma sua barraca de pastel , até com mesinha, na calçada, e obriga você a entrar na rua para passar...e assim vai. Está ficando comum, quiosques ( e até hotéis) montarem suas mesinhas, armarem guarda-sóis, espalharem cadeiras de praia, que o cidadão não pode ocupar sem consumo obrigatório. E os ‘guardadores de carro’(!) que privatizam as vagas nas ruas? Ai do motorista que não contribuir!
Claro, nada contra os anúncios de interesse público, campanhas educativas etc. (exemplo desta positividade são os anúncios de falecimento feitos pelos alto-falantes da matriz de R. Costa), desde que feitos com critérios de duração, horários e tudo mais...
Mais grave ainda (e este é o assunto desta matéria) é a invasão de seu espaço particular. A pessoa, ‘respirando’ obrigatoriamente esta poluição, porque os olhos podem-se fechar, ouvido e nariz não, vai se estressando e até neurotizando-se. Não resta dúvida que isto causa violência, descontrole. É briga na certa, se você reclamar. Se denunciar, logo se sabe quem foi e a retaliação costuma vir rapidinho. O dito popular: ‘os incomodados que se retirem’ não é admissível; pelo contrário, os incomodantes é que devem ser retirados! O poder público, sobretudo o poder municipal, é que deve agir. A maioria dos prejudicados não age por medo, porque não quer complicação com vizinho etc. Todo município tem sua lei orgânica que certamente contempla estes casos (se, não, é absurdo!), mas, pelo que tenho visto, em sua maioria, os responsáveis, quando agem, só o fazem mediante denúncia. Então, eu pergunto: os responsáveis pelo trânsito só multam por denúncia? A vigilância sanitária também só age assim? Por que os responsáveis pelo silêncio urbano, pelo sossego dos habitantes, não fazem uma ronda de rotina, periódica, constante, saneando preventivamente estes males sociais? É o que penso. E você?
Assisti a um programa sobre condomínios (rede Globo) e conferiu-se que uma das maiores causas de briga entre os condôminos são os cachorros! De repente, num lote ao lado de seu lar, ergue-se uma casa e seus moradores trazem três cães que latem irritantemente a qualquer hora do dia e da noite. Você chega numa lanchonete para tomar um ‘refri’ ou uma ‘gelada’. Pouco depois estaciona um ‘ultradecibélico’, daqueles que transformam o porta-malas do carro em palco de show, e massacra seus ouvidos com seus sons preferidos (dele), sem lhe consultar. Estou num rodízio de pizza, sozinho (Resende Costa). Nem um terço das mesas está ocupado; pois um bando de aborrecentes ocupa justamente a mesa atrás de mim, ligam seus celulares para tocar suas músicas... que os emocionam tanto!...Pobre de mim!É grande o número de pessoas que obrigam você a assistir a seus shows!
Ao lado de sua casa, o vizinho muda-se para outra rua e transforma sua moradia antiga num ‘bifê’(!) de festa dançante, com direito a gritarias, discussões, latinhas e copos plásticos rolando pela calçada e a música animando o bairro, altas horas da madrugada. O pastor exorciza a berros apopléticos os ‘demos’, com os obsessivos ‘aleluia, irmãos’ vibrando intensamente a atmosfera. O padre, ou sacristão com permissão dele, solta pela torre da igreja, suas músicas de afervoramento religioso, numa altura de doer os tímpanos.
Cada vez mais se invade o espaço público visando a interesses particulares e egoístas. As ruas ficam um inferno com os sons à porta das lojas, os sons motorizados, girando automaticamente os anúncios de ‘pamonha! Pamonha!, ‘leve cinco por um real’! O cara arma sua barraca de pastel , até com mesinha, na calçada, e obriga você a entrar na rua para passar...e assim vai. Está ficando comum, quiosques ( e até hotéis) montarem suas mesinhas, armarem guarda-sóis, espalharem cadeiras de praia, que o cidadão não pode ocupar sem consumo obrigatório. E os ‘guardadores de carro’(!) que privatizam as vagas nas ruas? Ai do motorista que não contribuir!
Claro, nada contra os anúncios de interesse público, campanhas educativas etc. (exemplo desta positividade são os anúncios de falecimento feitos pelos alto-falantes da matriz de R. Costa), desde que feitos com critérios de duração, horários e tudo mais...
Mais grave ainda (e este é o assunto desta matéria) é a invasão de seu espaço particular. A pessoa, ‘respirando’ obrigatoriamente esta poluição, porque os olhos podem-se fechar, ouvido e nariz não, vai se estressando e até neurotizando-se. Não resta dúvida que isto causa violência, descontrole. É briga na certa, se você reclamar. Se denunciar, logo se sabe quem foi e a retaliação costuma vir rapidinho. O dito popular: ‘os incomodados que se retirem’ não é admissível; pelo contrário, os incomodantes é que devem ser retirados! O poder público, sobretudo o poder municipal, é que deve agir. A maioria dos prejudicados não age por medo, porque não quer complicação com vizinho etc. Todo município tem sua lei orgânica que certamente contempla estes casos (se, não, é absurdo!), mas, pelo que tenho visto, em sua maioria, os responsáveis, quando agem, só o fazem mediante denúncia. Então, eu pergunto: os responsáveis pelo trânsito só multam por denúncia? A vigilância sanitária também só age assim? Por que os responsáveis pelo silêncio urbano, pelo sossego dos habitantes, não fazem uma ronda de rotina, periódica, constante, saneando preventivamente estes males sociais? É o que penso. E você?
O vale-tudo
11 de Janeiro de 2009, por João Magalhães 1
Não me refiro ao vale tudo, agora presente em nosso país. Mas, sim, ao que você constatará, lendo a descrição abaixo. Peço, também, que, após a leitura, responda à pergunta.
‘‘Numa arena de oito lados, dois homens têm 15 minutos para lutar e convencer o outro a desistir. Não há cantos onde se refugiar. Sem camisa e usando luvas que mal cobrem os dedos, eles dão socos, pontapés, joelhadas, cotoveladas, chaves de braço e o que mais for possível para liquidar o oponente. Podem usar golpes de jiu-jitsu, boxe, judô, boxe tailandês e de qualquer outra arte marcial. A beleza dos movimentos pouco importa. O que conta é a eficácia, e por eficácia, entenda-se a habilidade de massacrar o rival a ponto de mandá-lo para o hospital. É um espetáculo violento, muitas vezes repugnante. O som do punho cerrado atingindo um rosto é audível a distância. A luta é uma sinfonia de ruídos ásperos, gritos de dor e corpos caindo. Por fim, há o gongo. Com seu estalido metálico, ele fatia a luta em três rounds de cinco minutos. O sangue que escorre do rosto dos lutadores não raro mancha o chão do ringue. No começo, você não quer olhar. Quer que acabe logo.
A primeira vez, em uma platéia de vale-tudo, equivale a assistir pacificamente a um crime. Mas algo acontece no fim do primeiro round. Os adversários estão intactos. Respiram em compasso. Olham-se com prazer. É só um jogo. Você, depois de se contorcer na cadeira, é finalmente dominado pela excitação. Sente-se como um selvagem’‘. (Zorzanelli, Marcelo in revista ‘‘Época’‘ nº 5321 28/07/08: ‘‘A Vitória do Vale-tudo’‘).
Isto é esporte? A meu ver, não. Nunca! A luta de gladiadores, tão comum no Império Romano, era esporte? No final, com o adversário dominado, a um gesto do imperador, o vencedor executava ou não o perdedor...
Não há necessidade de profundos conceitos sociológicos e ou psicológicos do fenômeno esportivo, para se afirmar que o jogo esportivo é um dos modos de o ser humano realizar seu imanente desejo de superação e de auto-estima, tanto da parte dos praticantes, quanto dos assistentes, que, identificando-se com seus ídolos, transcendem-se junto com eles. Costumo dizer que o esporte é uma espécie de ‘‘religião’‘ universal. Copa do Mundo, Olimpíadas, mostram bem isso.
O universo dos seres vivos se organiza em gênero e diferença específica (ou famílias, como queira) e nós hominídeos, somos uma diferença específica do gênero animal que recebeu uma dotação biológica que nos distancia infinitamente das outras espécies. É o dom da razão: sabemos o quê, o para quê, o porquê, o com quê, o como, o quando, o onde das coisas. A vocação de uma espécie é aperfeiçoar-se cada vez mais como espécie, não como gênero. Portanto, quanto mais desenvolvermos as dotações que nos diferenciam do gênero animal, mais crescemos rumo a nossos sonhos de realização. É o processo de hominização. Infelizmente, vivemos numa era de franco retrocesso. Isto se vê a todo momento, quando pessoa e seus direitos valem zero, quando sofrimento e sangue viram espetáculo, quando seu corpo e seu intelecto são mero objeto de consumo.... quando atividades esportivas, onde o atleta é matéria-prima, são industrializadas para render dinheiro e poder.
Acho que esportes que açulam nossos instintos primitivos, animais se quiser, não merecem este nome, muito menos estímulo. ‘‘Touradas’‘, onde a platéia delira quando o ‘‘herói’‘ toureiro tortura e mata a rês, ‘‘caça esportiva’‘ onde o ‘‘espingardeiro’‘ orgasticamente comemora o abate do pobre animal, ‘‘briga-de-galo’‘ (finalmente proibida!), ‘‘rodeios’‘ e agora esse ‘‘Vale-tudo’‘, lamentavelmente originário do Brasil: Esporte?!!
Não estou me isentando. Também já fui torcedor fanático (Santos), já fiquei desolado quando nosso maior boxeador (Eder Jofre) perdeu seu título mundial para o japonês Harada... Mas meus olhos foram-se abrindo, ao ver Cassius Clay com seqüelas até hoje, ao ver, muitos anos faz, um desafiante, (ou desafiado, não me lembro), peso- pesado sueco, morrer, vitima de um violento golpe que abalou seu cérebro. Lembro que nesta ocasião, girou pelo mundo a notícia de que o Papa Pio XII, com a enorme e efetiva autoridade moral que tinha no mundo ocidental, condenaria a luta de boxe, classificando como ato pecaminoso e proibindo-a ao mundo católico. Acabou não acontecendo... Agora vejo anúncio da luta –’‘Davi e Golias’‘ - (para dia 20/12) de Holyfield (ex-campeão, 1,88m) com o atual campeão, o gigante soviético Nicolai Valuev ( 2,13 metros de altura), e leio a expressão do Maguila: ‘‘O tamanho dele assusta, mas não tem técnica. O problema é que a pegada dele é muito forte. Se acertar umas três ou quatro em cheio na cabeça, pode matar o Holyfield’‘. Isto não é esporte!! É o que penso. E você?
‘‘Numa arena de oito lados, dois homens têm 15 minutos para lutar e convencer o outro a desistir. Não há cantos onde se refugiar. Sem camisa e usando luvas que mal cobrem os dedos, eles dão socos, pontapés, joelhadas, cotoveladas, chaves de braço e o que mais for possível para liquidar o oponente. Podem usar golpes de jiu-jitsu, boxe, judô, boxe tailandês e de qualquer outra arte marcial. A beleza dos movimentos pouco importa. O que conta é a eficácia, e por eficácia, entenda-se a habilidade de massacrar o rival a ponto de mandá-lo para o hospital. É um espetáculo violento, muitas vezes repugnante. O som do punho cerrado atingindo um rosto é audível a distância. A luta é uma sinfonia de ruídos ásperos, gritos de dor e corpos caindo. Por fim, há o gongo. Com seu estalido metálico, ele fatia a luta em três rounds de cinco minutos. O sangue que escorre do rosto dos lutadores não raro mancha o chão do ringue. No começo, você não quer olhar. Quer que acabe logo.
A primeira vez, em uma platéia de vale-tudo, equivale a assistir pacificamente a um crime. Mas algo acontece no fim do primeiro round. Os adversários estão intactos. Respiram em compasso. Olham-se com prazer. É só um jogo. Você, depois de se contorcer na cadeira, é finalmente dominado pela excitação. Sente-se como um selvagem’‘. (Zorzanelli, Marcelo in revista ‘‘Época’‘ nº 5321 28/07/08: ‘‘A Vitória do Vale-tudo’‘).
Isto é esporte? A meu ver, não. Nunca! A luta de gladiadores, tão comum no Império Romano, era esporte? No final, com o adversário dominado, a um gesto do imperador, o vencedor executava ou não o perdedor...
Não há necessidade de profundos conceitos sociológicos e ou psicológicos do fenômeno esportivo, para se afirmar que o jogo esportivo é um dos modos de o ser humano realizar seu imanente desejo de superação e de auto-estima, tanto da parte dos praticantes, quanto dos assistentes, que, identificando-se com seus ídolos, transcendem-se junto com eles. Costumo dizer que o esporte é uma espécie de ‘‘religião’‘ universal. Copa do Mundo, Olimpíadas, mostram bem isso.
O universo dos seres vivos se organiza em gênero e diferença específica (ou famílias, como queira) e nós hominídeos, somos uma diferença específica do gênero animal que recebeu uma dotação biológica que nos distancia infinitamente das outras espécies. É o dom da razão: sabemos o quê, o para quê, o porquê, o com quê, o como, o quando, o onde das coisas. A vocação de uma espécie é aperfeiçoar-se cada vez mais como espécie, não como gênero. Portanto, quanto mais desenvolvermos as dotações que nos diferenciam do gênero animal, mais crescemos rumo a nossos sonhos de realização. É o processo de hominização. Infelizmente, vivemos numa era de franco retrocesso. Isto se vê a todo momento, quando pessoa e seus direitos valem zero, quando sofrimento e sangue viram espetáculo, quando seu corpo e seu intelecto são mero objeto de consumo.... quando atividades esportivas, onde o atleta é matéria-prima, são industrializadas para render dinheiro e poder.
Acho que esportes que açulam nossos instintos primitivos, animais se quiser, não merecem este nome, muito menos estímulo. ‘‘Touradas’‘, onde a platéia delira quando o ‘‘herói’‘ toureiro tortura e mata a rês, ‘‘caça esportiva’‘ onde o ‘‘espingardeiro’‘ orgasticamente comemora o abate do pobre animal, ‘‘briga-de-galo’‘ (finalmente proibida!), ‘‘rodeios’‘ e agora esse ‘‘Vale-tudo’‘, lamentavelmente originário do Brasil: Esporte?!!
Não estou me isentando. Também já fui torcedor fanático (Santos), já fiquei desolado quando nosso maior boxeador (Eder Jofre) perdeu seu título mundial para o japonês Harada... Mas meus olhos foram-se abrindo, ao ver Cassius Clay com seqüelas até hoje, ao ver, muitos anos faz, um desafiante, (ou desafiado, não me lembro), peso- pesado sueco, morrer, vitima de um violento golpe que abalou seu cérebro. Lembro que nesta ocasião, girou pelo mundo a notícia de que o Papa Pio XII, com a enorme e efetiva autoridade moral que tinha no mundo ocidental, condenaria a luta de boxe, classificando como ato pecaminoso e proibindo-a ao mundo católico. Acabou não acontecendo... Agora vejo anúncio da luta –’‘Davi e Golias’‘ - (para dia 20/12) de Holyfield (ex-campeão, 1,88m) com o atual campeão, o gigante soviético Nicolai Valuev ( 2,13 metros de altura), e leio a expressão do Maguila: ‘‘O tamanho dele assusta, mas não tem técnica. O problema é que a pegada dele é muito forte. Se acertar umas três ou quatro em cheio na cabeça, pode matar o Holyfield’‘. Isto não é esporte!! É o que penso. E você?
Festa do Rosário, "Lavadeiras" e congados
07 de Dezembro de 2008, por João Magalhães 0
Após anos (e põe anos nisso!) participei dos festejos em honra a N.Sra. do Rosário, em Resende Costa, nos dias 7, 8 e 9 de novembro último. O pensamento e as sensações voaram de retorno a minha infância e pré-adolescência. Anos 50 em diante: era Pe. Nelson. Pousaram inicialmente nos ternos de dançantes e congados de outrora; festa, sobretudo da comunidade negra externando, corpo e ânimo, sua alegria em homenagear sua protetora, N.Sra.do Rosário. Desde a aurora, sons e ritmos de tambores, reco-recos, pandeiros, sanfonas, apitos ...vindos da Rua 7 (nossa popular ‘caba fubá’), do Beira Muro e outros locais, ascendiam, exalando um clima festivo folclórico- religioso para toda a atmosfera da cidade, contagiando a todos. E lá vinham em direção ao Rosário, o Izidoro, o João Jacaré, o Euclides da Olívia e muitos outros cobras, animando seus grupos e até provocando-se uns aos outros. No meio deles, alguns brancos, tentando, com pouco sucesso, reproduzir o insuperável gingado da raça negra. Depois, o jogo da argolinha, talvez herança das remotas justas da Idade Média.
Voaram, em seguida, para a Irmandade do Rosário: racialmente democrática predominância masculina, atuante, braço direito do Pe. Nelson nas festas e campanhas paroquiais, guardiã zelosa da igreja do Rosário. Meu pai orgulhava-se muito de pertencer-lhe; lembro da satisfação que sentia ao vestir a opa, caprichosamente passada ao ferro de brasas, nos dias de missa do Rosário. Aterrizaram, também, na reforma da igreja do Rosário, com a Irmandade sob presidência e comando empolgantes de Antônio de Paula Magalhães (nosso conhecido ‘Antõe Pelado’).
Com o amadurecimento, fui percebendo que estas festividades eram como as águas do rio Negro e do Solimões, realizavam juntas, mas em paralelo. Não se misturavam, não se integravam. De um lado, os eventos profanos (assim considerados), vindos, embora, da alma do povo, negro principalmente. Do outro, os ritos sagrados, totalmente romanizados pela rígida imposição da Igreja pré-Concílio Vaticano II, sob a era Pio XII. Ritualizações da cultura popular, ainda mais negra, no espaço sagrado, jamais: seria profanação das mais graves. Imagine integrar a liturgia! Só adentravam o espaço mais sagrado do consagrado, os ungidos por ordens sacras e alguns seletos para acolitá-los: coroinhas e elites opadas (da Ir. do Santíssimo, mormente). Só homens, evidentemente. O povo assistia e obedecia aos comandos: ajoelhar, levantar, sentar, mãos postas, persignações, respostas em coro a orações, ladainhas, cantos.
Aí vem o Concílio com sua proposta inovadora: Igreja = povo de Deus. Sentindo-nos doutrinariamente apoiados, sonhamos (eu e um pequeno grupo) com um projeto: por que não desromanizar significativamente o cerimonial litúrgico? Por que não sacralizar os rituais populares de genuíno conteúdo espiritual das nacionalidades? Seus cantos, ritmos, evoluções etc. Claro, aqueles que expressavam sua religiosidade, sua sacralidade. A Igreja Antiga, emergente no Império Romano, não fizera isto com as festas pagãs?! No meu caso, este anseio era bem mais premente, vigário que era da paróquia de S.Benedito (Vila Sônia, SP) com uma comunidade negra expressiva e participativa, Claro!Chance nenhuma! Ficou no sonho e com o tempo até ele esmaeceu.
Chega. Voltemos a 2008. E o que vi em Resende Costa? Vi as ‘Lavadeiras de Almenara’, grupo de mulheres do povo do vale do Jequitinhonha, transmitindo a secular cultura da região, por cantigas e ritos, no sábado, dia 8, para nosso povo, ali na praça. ‘Batendo roupa, cantando a vida’ (belo lema!). Povo se transmitindo a povo. No domingo, dia 9, ei-las na igreja do Rosário, na missa, testemunhando aos fiéis, na área sagrada, suas propostas de vida. Logo após, sobem em procissão até a gruta de Fátima, lá nas lajes, num ritual, piedosamente sintonizado por nossa população acompanhante, numerosa por sinal. No meio da procissão, uma ‘Lavadeira’ negra, transportava na cabeça, sem segurar, sobre a rodilha, uma cesta de flores.
Impossível brecar meu pensamento que novamente voou para as mulheres do passado, buscando água nas fontes de nossa ‘Vila’, lata d´água na cabeça. Algumas craques, equilibrando uma lata de banha cheinha, sem entornar, tranquilamente gesticulando e conversando com as companheiras.
E lá na gruta, com toda a convicção, qual uma sacerdotisa africana, vejo-a abençoando as águas, enquanto outras distribuíam flores, recebidas pelos circunstantes com a reverência de quem recebe de um padre um objeto bento... No meio do povo, junto com os ternos, Pe. Raimundo, lídimo representante, catalizando e endossando com seu físico, seu gorro afro, sua bata típica, as manifestações de sua gente.
Mais tarde, olha meu sonho realizando-se! Pe. Geraldo, nosso vigário, lidera a Missa Campal, no palanque, concelebrada por dois sacerdotes negros (Pe. Raimundo e Pe. Antônio). Confesso minha emoção ao ver Pe. Antônio, maestrar um canto e a benção final, solando uma melodia num tom genuíno, quase sotaque de idioma africano, num suave gingado autêntico do povo negro, convictamente correspondido pelos assistentes, sob o ritmo, bem ‘piano’, da percussão de ternos entranhados no meio dos fiéis, religiosamente compenetrado de sua função. Não resisti. Fui cumprimentar os três padres, falando-lhes do sonho de nosso grupo do passado.
À tarde, uma peculiaridade. As alas da procissão vinda da matriz criaram uma passarela. Em vez das orações e cantos costumeiros, o silêncio para se integrar com os congados daqui e de várias outras cidades. Evoluíram, dando o melhor de si, ostentando suas coreografias, seus figurados: reis, rainhas, pálios, cantos... originados dos ritos religiosos dos antepassados negros e, no presente, revividos em homenagem a seus padroeiros. À frente, a imagem de São Benedito; após, a de Sta. Efigênia; por fim, N. Sra. do Rosário. Oficiante negro: Pe.Raimundo, investido de sua casula típica com faixas leopardo, cobrindo a cabeça, o gorro (equeté): símbolos da cultura africana, mostrando que a idéia de catolicizar a liturgia (no sentido original grego: ‘Katolikós’ = universal), abrindo espaços na hegemonia romana para expressões rituais de outras culturas, já nasceu e esperamos que cresça. (A benção Dom José Maria Pires, bispo emérito de João Pessoa, pioneiro desta causa e destes símbolos. A benção, nosso popular ‘Dom Pelé’!).
Antes de finalizar, um contraste. A Igreja Universal do Reino de Deus (Igreja?!) está satanizando os cultos afros, na Bahia, mormente, a ponto de partir para confronto, invasão, ataques. Liberdade religiosa é princípio constitucional no Brasil. Está na hora de o governo começar a agir.
Exemplo: em mãos o exemplar n° 855,24/30 de agosto, 2008 da ‘Folha Universal’ jornal semanal do grupo, 24 pgs, mais de 3 milhões de exemplares distribuídos ou ‘empurrados’ para todo o país. Reportagem de capa: ‘Pacto com o mal’ (leia-se satanás, diabo); foto grande da Xuxa, acusada de ter gravado música com mensagem satânica. No miolo do jornal (Pág. 8.9.10.11), fotos enormes de Paulo Coelho, Alice Cooper, Jim Morrison, Roling Stones, Led Zappelin, Beatles e mais outros; todos sob a mesma acusação, ilustrando e exemplificando em poses escolhidas a propósito para horrorizar, a reportagem ‘Pacto com o diabo’.
Inclusive, também por este motivo, estas aberturas promissoras da Igreja Católica no Brasil para rituais da cultura popular, merecem aplauso e estímulo. Sei que o tema é polêmico, há muita discordância ainda. Julgo, porém, que religião como instituição (Igreja) deve atuar em prol da felicidade da pessoa. Penso que falo com outros termos o que Cristo disse aos dirigentes religiosos legalistas judeus: os fariseus: ‘O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado’ (Mc 2, 27).
No íntimo de cada ser humano, embora comumente ele não seja consciente disso, está uma necessidade de elevar-se acima de si. Não se pode negar, uma grande maioria encontra nas práticas religiosas, caminhos para esta ascensão. Digo caminhos, porque existem outros. O que é bom para um pode não ser recomendável para outro.
Acho que um trabalho fundamental de Igreja é abrir espaço para todas as tendências, para todos os movimentos rumo à transcendência. Ouso até interpretar também neste sentido a afirmação de Jesus que ‘na casa de meu pai, há muitas moradas’ (Jo14, 2). Vejo a Paróquia de Resende Costa na pessoa de seu pároco, Pe.Geraldo, esta desejada abertura. Seus espaços de ascensão estão ventilados, sem cadeados, portas e janelas abertas... A festa do Rosário mostrou-me isto e nisto senti sua maior beleza. É o que penso. E você?
Loas e lástimas:
*Loas para o ‘Movimento da Consciência Negra’, que comemorou a data do seu herói, Zumbi dos Palmares (20/11, Feriado em São Paulo, Rio de Janeiro, além de mais cinco capitais e outros municípios).
*Lástimas pelo lixo jogado pela população na Praça do Rosário, durante os festejos. *Lástimas, também, porque não havia um recipiente sequer onde se pudesse depositá-lo! Pelo menos, eu não vi!
Voaram, em seguida, para a Irmandade do Rosário: racialmente democrática predominância masculina, atuante, braço direito do Pe. Nelson nas festas e campanhas paroquiais, guardiã zelosa da igreja do Rosário. Meu pai orgulhava-se muito de pertencer-lhe; lembro da satisfação que sentia ao vestir a opa, caprichosamente passada ao ferro de brasas, nos dias de missa do Rosário. Aterrizaram, também, na reforma da igreja do Rosário, com a Irmandade sob presidência e comando empolgantes de Antônio de Paula Magalhães (nosso conhecido ‘Antõe Pelado’).
Com o amadurecimento, fui percebendo que estas festividades eram como as águas do rio Negro e do Solimões, realizavam juntas, mas em paralelo. Não se misturavam, não se integravam. De um lado, os eventos profanos (assim considerados), vindos, embora, da alma do povo, negro principalmente. Do outro, os ritos sagrados, totalmente romanizados pela rígida imposição da Igreja pré-Concílio Vaticano II, sob a era Pio XII. Ritualizações da cultura popular, ainda mais negra, no espaço sagrado, jamais: seria profanação das mais graves. Imagine integrar a liturgia! Só adentravam o espaço mais sagrado do consagrado, os ungidos por ordens sacras e alguns seletos para acolitá-los: coroinhas e elites opadas (da Ir. do Santíssimo, mormente). Só homens, evidentemente. O povo assistia e obedecia aos comandos: ajoelhar, levantar, sentar, mãos postas, persignações, respostas em coro a orações, ladainhas, cantos.
Aí vem o Concílio com sua proposta inovadora: Igreja = povo de Deus. Sentindo-nos doutrinariamente apoiados, sonhamos (eu e um pequeno grupo) com um projeto: por que não desromanizar significativamente o cerimonial litúrgico? Por que não sacralizar os rituais populares de genuíno conteúdo espiritual das nacionalidades? Seus cantos, ritmos, evoluções etc. Claro, aqueles que expressavam sua religiosidade, sua sacralidade. A Igreja Antiga, emergente no Império Romano, não fizera isto com as festas pagãs?! No meu caso, este anseio era bem mais premente, vigário que era da paróquia de S.Benedito (Vila Sônia, SP) com uma comunidade negra expressiva e participativa, Claro!Chance nenhuma! Ficou no sonho e com o tempo até ele esmaeceu.
Chega. Voltemos a 2008. E o que vi em Resende Costa? Vi as ‘Lavadeiras de Almenara’, grupo de mulheres do povo do vale do Jequitinhonha, transmitindo a secular cultura da região, por cantigas e ritos, no sábado, dia 8, para nosso povo, ali na praça. ‘Batendo roupa, cantando a vida’ (belo lema!). Povo se transmitindo a povo. No domingo, dia 9, ei-las na igreja do Rosário, na missa, testemunhando aos fiéis, na área sagrada, suas propostas de vida. Logo após, sobem em procissão até a gruta de Fátima, lá nas lajes, num ritual, piedosamente sintonizado por nossa população acompanhante, numerosa por sinal. No meio da procissão, uma ‘Lavadeira’ negra, transportava na cabeça, sem segurar, sobre a rodilha, uma cesta de flores.
Impossível brecar meu pensamento que novamente voou para as mulheres do passado, buscando água nas fontes de nossa ‘Vila’, lata d´água na cabeça. Algumas craques, equilibrando uma lata de banha cheinha, sem entornar, tranquilamente gesticulando e conversando com as companheiras.
E lá na gruta, com toda a convicção, qual uma sacerdotisa africana, vejo-a abençoando as águas, enquanto outras distribuíam flores, recebidas pelos circunstantes com a reverência de quem recebe de um padre um objeto bento... No meio do povo, junto com os ternos, Pe. Raimundo, lídimo representante, catalizando e endossando com seu físico, seu gorro afro, sua bata típica, as manifestações de sua gente.
Mais tarde, olha meu sonho realizando-se! Pe. Geraldo, nosso vigário, lidera a Missa Campal, no palanque, concelebrada por dois sacerdotes negros (Pe. Raimundo e Pe. Antônio). Confesso minha emoção ao ver Pe. Antônio, maestrar um canto e a benção final, solando uma melodia num tom genuíno, quase sotaque de idioma africano, num suave gingado autêntico do povo negro, convictamente correspondido pelos assistentes, sob o ritmo, bem ‘piano’, da percussão de ternos entranhados no meio dos fiéis, religiosamente compenetrado de sua função. Não resisti. Fui cumprimentar os três padres, falando-lhes do sonho de nosso grupo do passado.
À tarde, uma peculiaridade. As alas da procissão vinda da matriz criaram uma passarela. Em vez das orações e cantos costumeiros, o silêncio para se integrar com os congados daqui e de várias outras cidades. Evoluíram, dando o melhor de si, ostentando suas coreografias, seus figurados: reis, rainhas, pálios, cantos... originados dos ritos religiosos dos antepassados negros e, no presente, revividos em homenagem a seus padroeiros. À frente, a imagem de São Benedito; após, a de Sta. Efigênia; por fim, N. Sra. do Rosário. Oficiante negro: Pe.Raimundo, investido de sua casula típica com faixas leopardo, cobrindo a cabeça, o gorro (equeté): símbolos da cultura africana, mostrando que a idéia de catolicizar a liturgia (no sentido original grego: ‘Katolikós’ = universal), abrindo espaços na hegemonia romana para expressões rituais de outras culturas, já nasceu e esperamos que cresça. (A benção Dom José Maria Pires, bispo emérito de João Pessoa, pioneiro desta causa e destes símbolos. A benção, nosso popular ‘Dom Pelé’!).
Antes de finalizar, um contraste. A Igreja Universal do Reino de Deus (Igreja?!) está satanizando os cultos afros, na Bahia, mormente, a ponto de partir para confronto, invasão, ataques. Liberdade religiosa é princípio constitucional no Brasil. Está na hora de o governo começar a agir.
Exemplo: em mãos o exemplar n° 855,24/30 de agosto, 2008 da ‘Folha Universal’ jornal semanal do grupo, 24 pgs, mais de 3 milhões de exemplares distribuídos ou ‘empurrados’ para todo o país. Reportagem de capa: ‘Pacto com o mal’ (leia-se satanás, diabo); foto grande da Xuxa, acusada de ter gravado música com mensagem satânica. No miolo do jornal (Pág. 8.9.10.11), fotos enormes de Paulo Coelho, Alice Cooper, Jim Morrison, Roling Stones, Led Zappelin, Beatles e mais outros; todos sob a mesma acusação, ilustrando e exemplificando em poses escolhidas a propósito para horrorizar, a reportagem ‘Pacto com o diabo’.
Inclusive, também por este motivo, estas aberturas promissoras da Igreja Católica no Brasil para rituais da cultura popular, merecem aplauso e estímulo. Sei que o tema é polêmico, há muita discordância ainda. Julgo, porém, que religião como instituição (Igreja) deve atuar em prol da felicidade da pessoa. Penso que falo com outros termos o que Cristo disse aos dirigentes religiosos legalistas judeus: os fariseus: ‘O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado’ (Mc 2, 27).
No íntimo de cada ser humano, embora comumente ele não seja consciente disso, está uma necessidade de elevar-se acima de si. Não se pode negar, uma grande maioria encontra nas práticas religiosas, caminhos para esta ascensão. Digo caminhos, porque existem outros. O que é bom para um pode não ser recomendável para outro.
Acho que um trabalho fundamental de Igreja é abrir espaço para todas as tendências, para todos os movimentos rumo à transcendência. Ouso até interpretar também neste sentido a afirmação de Jesus que ‘na casa de meu pai, há muitas moradas’ (Jo14, 2). Vejo a Paróquia de Resende Costa na pessoa de seu pároco, Pe.Geraldo, esta desejada abertura. Seus espaços de ascensão estão ventilados, sem cadeados, portas e janelas abertas... A festa do Rosário mostrou-me isto e nisto senti sua maior beleza. É o que penso. E você?
Loas e lástimas:
*Loas para o ‘Movimento da Consciência Negra’, que comemorou a data do seu herói, Zumbi dos Palmares (20/11, Feriado em São Paulo, Rio de Janeiro, além de mais cinco capitais e outros municípios).
*Lástimas pelo lixo jogado pela população na Praça do Rosário, durante os festejos. *Lástimas, também, porque não havia um recipiente sequer onde se pudesse depositá-lo! Pelo menos, eu não vi!
R.C Cemitério: O enigma
16 de Novembro de 2008, por João Magalhães 0
Solidão. A solidão dos túmulos. Viajava pelos corredores estreitos do pequeno cemitério, curtindo seus sentimentos. Pai e mãe, ali, no mesmo túmulo azul desbotado. Túmulos pobres, retângulos de cimento. Poucos, chamando a atenção, exceção daquele onde toda uma família jaz – crianças de poucos anos, pai, mãe... Ele estava na cidade quando a tragédia aconteceu... É! Como lá se diz, vida e morte, questão de sorte. Uns ganham na loteria: vida longa, outros na loto da morte: vida breve. Um ou outro túmulo da elite do lugar, época dos coronéis da Guarda Nacional: a gradinha de ferro, art nouveau, singulariza a campa.
Depois, a grande surpresa. No canto esquerdo, orientando-se do portão de entrada, rumo à capela, bem perto do muro: o túmulo. Velho, igual aos outros, mas lá, uma inscrição em latim. Latim difícil, clássico. Nada daquele latim fácil dos manuais em que estudou Filosofia e Teologia. A primeira leitura mostrou que tinha destinatários: os pais. Quem a escreveu? Donde foi tirada? Data? E aí, perdeu o sossego. A mania que sempre teve de traduzir ou decifrar epitáfios, sobretudo latinos, virou obsessão. Toca relembrar o bom latim de tempos atrás, agora já meio esquecido. Em vão. Claro, a tradução semântica, ou seja, o significado, alcançou logo. Mas a tradução literal, conforme a gramática clássica do latim que estudou, não havia jeito. Aquele bendito acusativo plural! O velho pároco, formado à antiga, com conhecimentos para ajudá-lo, também já ali ocupa um sepulcro. Consultou padre da velha guarda do Caraça, consultou ex-seminaristas, consultou um professor de latim do meio universitário. Nenhum o convenceu; para dizer a verdade, houve até quem o ‘‘enrolou’‘. Eis o epitáfio:
‘‘QUAE INHABITATIS NVNC NOSTRAS, NISI AD ASTRA, PARENTES,
INTERITU ADEMPTI, NON LiCET IRE, PRECES’‘
(*Jazigo perpétuo de Antônio de Pádua Pinto e Maria Carlota da Trindade. Homenagem de seus filhos, genros e netos’‘). Lá também o nome de Maria das Dores Silva. Que dia descobriu isso? 25/07/94. Não foi difícil para ele descobrir quem o escreveu. Seus parentes no meio de nós em Resende Costa e suas vivências com ele, pois foi seu paraninfo de ordenação e seu discurso foi lavrado em latim, numa perfeita ode horaciana, com ele até hoje para quem quiser ver:: ZÉ PROCÓPIO ( José Procópio da Silva).
Mas, e o desafio? Aquele maledetto acusativo plural ‘‘NOSTRAS PRECES’‘ encrencava tudo. Erro do Zé Procópio? Muito difícil, pois, junto com o Miled Hannas foi um dos maiores latinistas de R.Costa, da escola do mitológico velho seminário de Mariana.
Já tinha desistido, quando, recentemente, 2007, na Semana Santa em S. João Del Rei, encontrou com Abgar Tirado, professor de latim, comentarista do Ofício de Trevas desta famosa cidade. Dei-lhe a frase; e agora uso a primeira pessoa, pois o ele sou eu, redator destas linhas... No dia seguinte veio a tradução exata, com a devida prova gramatical inquestionável, indicando bibliografia e tudo. O sujeito da frase, em latim, normalmente vai para o caso nominativo. O verbo ‘‘licere’‘, porém, pode fazer exceção. Seu sujeito, em certos momentos, pode figurar no caso acusativo. Pronto! Parabéns, Abgar. Como nosso mundo católico destina o mês de novembro para celebrar a ‘‘Igreja Triunfante’‘ (dia 1º: Todos os Santos) e a ‘‘Igreja Padecente’‘ (dia 2: Finados) e como o epitáfio é muito bonito, uso-o para homenagear nossos saudosos falecidos, plantados no Campo Santo de nossa cidade, embora afastando-me um pouco do espírito desta coluna. Finalizo, portanto, repassando ao paciente leitor, a ordem direta e a respectiva tradução que Abgar me enviou:
‘‘Non licet ire nostras preces, parentes interitu adempti, nisi ad astra quae nunc inhabitatis’‘. (Tradução: ‘‘Não é licito irem nossas preces, ó pais arrebatados pela morte, senão aos astros onde agora habitais’‘).
Depois, a grande surpresa. No canto esquerdo, orientando-se do portão de entrada, rumo à capela, bem perto do muro: o túmulo. Velho, igual aos outros, mas lá, uma inscrição em latim. Latim difícil, clássico. Nada daquele latim fácil dos manuais em que estudou Filosofia e Teologia. A primeira leitura mostrou que tinha destinatários: os pais. Quem a escreveu? Donde foi tirada? Data? E aí, perdeu o sossego. A mania que sempre teve de traduzir ou decifrar epitáfios, sobretudo latinos, virou obsessão. Toca relembrar o bom latim de tempos atrás, agora já meio esquecido. Em vão. Claro, a tradução semântica, ou seja, o significado, alcançou logo. Mas a tradução literal, conforme a gramática clássica do latim que estudou, não havia jeito. Aquele bendito acusativo plural! O velho pároco, formado à antiga, com conhecimentos para ajudá-lo, também já ali ocupa um sepulcro. Consultou padre da velha guarda do Caraça, consultou ex-seminaristas, consultou um professor de latim do meio universitário. Nenhum o convenceu; para dizer a verdade, houve até quem o ‘‘enrolou’‘. Eis o epitáfio:
‘‘QUAE INHABITATIS NVNC NOSTRAS, NISI AD ASTRA, PARENTES,
INTERITU ADEMPTI, NON LiCET IRE, PRECES’‘
(*Jazigo perpétuo de Antônio de Pádua Pinto e Maria Carlota da Trindade. Homenagem de seus filhos, genros e netos’‘). Lá também o nome de Maria das Dores Silva. Que dia descobriu isso? 25/07/94. Não foi difícil para ele descobrir quem o escreveu. Seus parentes no meio de nós em Resende Costa e suas vivências com ele, pois foi seu paraninfo de ordenação e seu discurso foi lavrado em latim, numa perfeita ode horaciana, com ele até hoje para quem quiser ver:: ZÉ PROCÓPIO ( José Procópio da Silva).
Mas, e o desafio? Aquele maledetto acusativo plural ‘‘NOSTRAS PRECES’‘ encrencava tudo. Erro do Zé Procópio? Muito difícil, pois, junto com o Miled Hannas foi um dos maiores latinistas de R.Costa, da escola do mitológico velho seminário de Mariana.
Já tinha desistido, quando, recentemente, 2007, na Semana Santa em S. João Del Rei, encontrou com Abgar Tirado, professor de latim, comentarista do Ofício de Trevas desta famosa cidade. Dei-lhe a frase; e agora uso a primeira pessoa, pois o ele sou eu, redator destas linhas... No dia seguinte veio a tradução exata, com a devida prova gramatical inquestionável, indicando bibliografia e tudo. O sujeito da frase, em latim, normalmente vai para o caso nominativo. O verbo ‘‘licere’‘, porém, pode fazer exceção. Seu sujeito, em certos momentos, pode figurar no caso acusativo. Pronto! Parabéns, Abgar. Como nosso mundo católico destina o mês de novembro para celebrar a ‘‘Igreja Triunfante’‘ (dia 1º: Todos os Santos) e a ‘‘Igreja Padecente’‘ (dia 2: Finados) e como o epitáfio é muito bonito, uso-o para homenagear nossos saudosos falecidos, plantados no Campo Santo de nossa cidade, embora afastando-me um pouco do espírito desta coluna. Finalizo, portanto, repassando ao paciente leitor, a ordem direta e a respectiva tradução que Abgar me enviou:
‘‘Non licet ire nostras preces, parentes interitu adempti, nisi ad astra quae nunc inhabitatis’‘. (Tradução: ‘‘Não é licito irem nossas preces, ó pais arrebatados pela morte, senão aos astros onde agora habitais’‘).
O caso das fichas-sujas
08 de Setembro de 2008, por João Magalhães 0
O Supremo Tribunal Federal acaba de declarar que ninguém pode ter sua candidatura impugnada pelos Tribunais Eleitorais, se não for condenado em definitivo pela Justiça. Cumpriu seu papel como guardião da Constituição Brasileira. Há bem tempo, acompanhei um caso, mais que curioso, horripilante. Um criminoso politicamente influente, para escapar de um processo, indubitavelmente condenatório de longa prisão (relativamente, porque no Brasil não existe, de fato, longo tempo de prisão) tramou e realizou o assassinato de um parlamentar para assumir sua vaga. Os detalhes, infelizmente, não os lembro mais. Assumindo sua vaga, viriam, foro privilegiado, espírito de corpo, proteção dos lobos que não comem lobos etc. A Câmara Federal, por exemplo, convencionou a praxe de não considerar os crimes praticados antes de o deputado se eleger, nos processos de cassação!.... Felizmente, a investigação descobriu tudo e frustrou os planos do criminoso. Por onde andará ele? Preso?...
E estamos nós na desesperança. Por um lado, não há como não aplaudir a decisão do STF. É fácil sujar a ficha limpa de um candidato, inventando, caluniando, falso testemunhando, alijando-o, assim, injustamente, da concorrência eleitoral. O princípio da presunção de inocência até que se prove o contrário é fundamental. Por outro lado, a corrupção e a roubalheiras continuam grassando, porque rendem vantagens, que rendem votos, que propiciam cargos de alto escalão, que fornecem meios pecuniários, que protelarão, ad infinitum, os processos a que deveriam responder. E que não responderão nunca, por prescrição, idade, morte e outros recursos. Há solução? Dificilmente, porque teriam que se mudar as leis.
Mas, você acredita que raposas que cuidam de hortas votarão leis que se contraporão a seus interesses? Acho que o país deveria convocar uma Assembléia Constituinte, cujos membros ficariam incandidatáveis, por um longo tempo, a qualquer cargo público, só para fazer a tão falada e sonhada reforma política na Nação. Utopia? Acho que sim, mas não há outra saída. Por ora, só nos resta esperar e torcer para que a Imprensa continue publicando, responsavelmente, que a Associação dos Magistrados prossiga atuando, que as entidades cívicas e religiosas, Ongs etc., abram suas campanhas, como o fará a Igreja Católica com sua Campanha da Fraternidade, ano que vem. Moral e Ética, se não forem amparadas por leis coercitivas, não se incorporam na sociedade. Continuo teclando o mesmo acorde de três notas: lei sem qualidade, lei sem fiscalização, lei sem processo educativo, só favorece corrupção. É o que penso. E você?
E estamos nós na desesperança. Por um lado, não há como não aplaudir a decisão do STF. É fácil sujar a ficha limpa de um candidato, inventando, caluniando, falso testemunhando, alijando-o, assim, injustamente, da concorrência eleitoral. O princípio da presunção de inocência até que se prove o contrário é fundamental. Por outro lado, a corrupção e a roubalheiras continuam grassando, porque rendem vantagens, que rendem votos, que propiciam cargos de alto escalão, que fornecem meios pecuniários, que protelarão, ad infinitum, os processos a que deveriam responder. E que não responderão nunca, por prescrição, idade, morte e outros recursos. Há solução? Dificilmente, porque teriam que se mudar as leis.
Mas, você acredita que raposas que cuidam de hortas votarão leis que se contraporão a seus interesses? Acho que o país deveria convocar uma Assembléia Constituinte, cujos membros ficariam incandidatáveis, por um longo tempo, a qualquer cargo público, só para fazer a tão falada e sonhada reforma política na Nação. Utopia? Acho que sim, mas não há outra saída. Por ora, só nos resta esperar e torcer para que a Imprensa continue publicando, responsavelmente, que a Associação dos Magistrados prossiga atuando, que as entidades cívicas e religiosas, Ongs etc., abram suas campanhas, como o fará a Igreja Católica com sua Campanha da Fraternidade, ano que vem. Moral e Ética, se não forem amparadas por leis coercitivas, não se incorporam na sociedade. Continuo teclando o mesmo acorde de três notas: lei sem qualidade, lei sem fiscalização, lei sem processo educativo, só favorece corrupção. É o que penso. E você?